Universo da obra
Universo da obra
#### 1.
Aqui estou sentado e espero, velhas tábuas quebradas ao meu redor e também novas tábuas meio escritas. Quando chega minha hora?
- a hora de minha descida, de meu ocaso: pois ainda uma vez quero ir aos humanos.
Agora espero por isso: pois primeiro devem vir-me os sinais de que é minha hora - a saber, o leão ridente com o bando de pombas.
Enquanto isso, falo comigo mesmo como alguém que tem tempo. Ninguém me conta novidades: assim conto a mim mesmo - eu mesmo. -
#### 2.
Quando fui aos humanos, encontrei-os sentados sobre uma velha presunção: todos já presumiam saber, havia muito, o que é bom e mau para o humano.
Parecia-lhes coisa velha e cansada todo falar de virtude; e quem queria dormir bem ainda falava, antes de dormir, de "bem" e "mal".
Perturbei esse sono quando ensinei: o que é bom e mau, ninguém ainda sabe - a não ser o criador!
- Este, porém, é aquele que cria o alvo do humano e dá à terra seu sentido e seu futuro: somente este cria que algo seja bom e mau.
E mandei que derrubassem suas velhas cátedras, e onde quer que aquela velha presunção houvesse sentado; mandei que rissem de seus grandes mestres da virtude, santos, poetas e redentores do mundo.
Mandei que rissem de seus sábios sombrios, e de quem quer que tenha estado sentado na árvore da vida como espantalho negro, advertindo.
Sentei-me em sua grande estrada de sepulcros, eu mesmo junto a carniça e abutres - e ri de todo o seu outrora e de sua glória carcomida, decadente.
Em verdade, igual a pregadores de penitência e tolos, gritei ira e alarido sobre tudo o que tinham de grande e pequeno - que o melhor deles é tão pequeno! Que o pior deles é tão pequeno! - assim ri eu.
Minha sábia saudade gritava e ria assim de dentro de mim, nascida nas montanhas, uma sabedoria selvagem, em verdade! - minha grande saudade, ruidosa de asas.
E muitas vezes ela me arrancou para longe, para cima e para fora, em meio ao riso: então eu voava, estremecendo, uma flecha, através de um encanto embriagado de sol:
- para fora, rumo a futuros distantes que nenhum sonho ainda viu, a sóis mais quentes do que jamais sonharam escultores: para lá, onde deuses, dançando, se envergonham de todas as roupas: -
- para que eu fale em parábolas e, como poetas, manque e balbucie: e, em verdade, envergonho-me de ainda precisar ser poeta! -
Onde todo devir me parecia dança de deuses e travessura de deuses, e o mundo solto, desenfreado, fugindo de volta para si mesmo: -
- como um eterno fugir-de-si e tornar-a-buscar-se de muitos deuses, como o bem-aventurado contradizer-se, tornar-a-ouvir-se, tornar-a-pertencer-se de muitos deuses: -
Onde todo tempo me parecia uma bem-aventurada zombaria dos instantes, onde a necessidade era a própria liberdade, que brincava bem-aventurada com o aguilhão da liberdade: -
Onde também reencontrei meu velho diabo e arqui-inimigo, o espírito de gravidade, e tudo o que ele criou: coerção, estatuto, necessidade e consequência e fim e vontade e bem e mal: -
Pois não deve existir aquilo sobre o qual se dance, se dance por cima? Não devem existir, por causa dos leves, dos levíssimos - toupeiras e anões pesados? -
#### 3.
Foi ali também que apanhei do caminho a palavra "além-do-homem", e que o humano é algo que deve ser superado,
- que o humano é uma ponte e não um fim: bem-aventurando-se por seu meio-dia e seu anoitecer, como caminho para novas auroras:
- a palavra de Zaratustra sobre o grande meio-dia, e o que mais pendurei sobre o humano, como segundas auroras púrpuras.
Em verdade, também lhes fiz ver novas estrelas, juntamente com novas noites; e por sobre nuvens, dia e noite, estendi ainda o riso como uma tenda colorida.
Ensinei-lhes todo o meu poetar e aspirar: poetar em um só e reunir aquilo que é fragmento no humano, e enigma, e horrível acaso -
- como poeta, decifrador de enigmas e redentor do acaso, ensinei-os a criar no futuro, e a redimir criadoramente tudo o que foi.
Redimir o passado no humano e transformar todo "Foi" até que a vontade fale: "Mas assim eu o quis! Assim eu o quererei -"
- a isso chamei redenção para eles; só isso lhes ensinei a chamar redenção. -
Agora espero minha redenção - que eu vá até eles pela última vez.
Pois ainda uma vez quero ir aos humanos: entre eles quero declinar, morrendo quero dar-lhes meu mais rico presente!
Aprendi isso com o sol, quando ele desce, o riquíssimo: ele então derrama ouro no mar, de riqueza inesgotável -
- de modo que o pescador mais pobre ainda rema com remo de ouro! Isso, com efeito, vi outrora, e não me cansei de lágrimas ao contemplá-lo. -
Como o sol, também Zaratustra quer declinar: agora está sentado aqui e espera, velhas tábuas quebradas ao seu redor e também novas tábuas - meio escritas.
#### 4.
Vede, aqui está uma nova tábua: mas onde estão meus irmãos, que a levarão comigo ao vale e a corações de carne? -
Assim exige meu grande amor aos mais-distantes: não poupes teu próximo! O humano é algo que deve ser superado.
Há muitas espécies de caminho e modo de superação - vê tu mesmo! Mas só um farsante pensa: "o humano também pode ser saltado por cima."
Supera-te a ti mesmo ainda em teu próximo: e um direito que podes roubar para ti, não deves deixar que te deem!
O que fazes, ninguém pode voltar a fazer por ti. Vê, não há retribuição.
Quem não pode mandar em si mesmo deve obedecer. E muitos podem mandar em si mesmos, mas ainda falta muito para que também obedeçam a si mesmos!
#### 5.
Assim o quer a espécie das almas nobres: elas não querem ter nada de graça, menos que tudo a vida.
Quem é do populacho quer viver de graça; nós outros, porém, a quem a vida se deu - pensamos sempre no que podemos dar melhor em troca!
E, em verdade, este é um discurso nobre, aquele que diz: "o que a vida nos promete, isso queremos - cumprir à vida!"
Não se deve querer fruir onde não se dá a fruir. E - não se deve querer fruir!
Pois fruição e inocência são as coisas mais pudicas: ambas não querem ser procuradas. Deve-se tê-las - mas deve-se antes ainda procurar culpa e dores! -
#### 6.
Ó meus irmãos, quem é primícia sempre será sacrificado. Agora, porém, somos primícias.
Todos sangramos em secretos altares de sacrifício, todos ardemos e assamos em honra de velhas imagens de ídolos.
Nosso melhor ainda é jovem: isso excita velhos paladares. Nossa carne é tenra, nossa pele é apenas pele de cordeiro: - como não excitaríamos velhos sacerdotes de ídolos!
Em nós mesmos ainda mora ele, o velho sacerdote de ídolos, que assa nosso melhor para seu banquete. Ah, meus irmãos, como primícias não seriam sacrifícios!
Mas assim o quer nossa espécie; e amo aqueles que não querem conservar-se. Amo com todo o meu amor os que declinam: pois eles passam para além. -
#### 7.
Ser verdadeiro - poucos o podem! E quem o pode ainda não quer! Menos que todos, porém, podem-no os bons.
Ó esses bons! - Bons humanos nunca dizem a verdade; para o espírito, ser bom desse modo é uma doença.
Eles cedem, esses bons, eles se resignam, seu coração repete, seu fundo obedece; mas quem obedece não escuta a si mesmo!
Tudo o que os bons chamam mau deve juntar-se para que nasça uma verdade: ó meus irmãos, sois vós também maus o bastante para esta verdade?
O ousado arriscar, a longa desconfiança, o cruel Não, o fastio, o cortar no vivo - quão raramente isso se junta! De tal semente, porém, é gerada a verdade!
Ao lado da má consciência cresceu até agora todo saber! Quebrai, quebrai-me, vós que conheceis, as velhas tábuas!
#### 8.
Quando a água tem vigas, quando passarelas e corrimãos saltam sobre o rio: em verdade, ninguém encontra fé se fala: "Tudo está em fluxo."
Ao contrário, até os tolos o contradizem. "Como?", dizem os tolos, "tudo estaria em fluxo? Vigas e corrimãos estão, afinal, sobre o rio!"
"Sobre o rio tudo está firme, todos os valores das coisas, as pontes, os conceitos, todo 'bem' e 'mal': tudo isso está firme!" -
Vem até mesmo o duro inverno, o domador do rio: então até os mais espirituosos aprendem desconfiança; e, em verdade, não só os tolos dizem então: "Não deveria tudo - ficar parado?"
"No fundo tudo está parado" - essa é uma verdadeira doutrina de inverno, uma boa coisa para tempo infecundo, um bom consolo para dormidores de inverno e aquentadores de fogão.
"No fundo tudo está parado" - contra isso, porém, prega o vento do degelo!
O vento do degelo, um touro que não é touro de arado - um touro furioso, um destruidor, que com chifres irados quebra gelo! Gelo, porém - quebra passarelas!
Ó meus irmãos, não está agora tudo em fluxo? Não caíram na água todos os corrimãos e passarelas? Quem ainda se prenderia a "bem" e "mal"?
"Ai de nós! Salve-nos! O vento do degelo sopra!" - Assim pregai-me, ó meus irmãos, por todas as ruas!
#### 8.
Há um velho delírio que se chama bem e mal. Em torno de adivinhos e astrólogos girou até agora a roda desse delírio.
Outrora acreditava-se em adivinhos e astrólogos: e por isso se acreditava: "Tudo é destino: tu deves, pois tens de!"
Depois, outra vez, desconfiou-se de todos os adivinhos e astrólogos: e por isso se acreditava: "Tudo é liberdade: tu podes, pois queres!"
Ó meus irmãos, sobre estrelas e futuro até agora apenas se delirou, não se soube
soube: e por isso, sobre bem e mal até agora apenas se delirou, não se soube!
#### 10.
"Não roubarás! Não matarás!" - tais palavras foram outrora chamadas santas; diante delas dobravam-se joelhos e cabeças e tiravam-se os sapatos.
Mas eu vos pergunto: onde houve jamais melhores ladrões e assassinos no mundo do que foram tais palavras santas?
Não há, em toda vida mesma, roubar e matar? E, ao serem chamadas santas tais palavras, não foi a própria verdade - assassinada?
Ou foi uma pregação da morte chamar santo aquilo que contradizia e desaconselhava toda vida? - Ó meus irmãos, quebrai, quebrai-me as velhas tábuas!
#### 11.
Esta é minha compaixão por todo o passado: ver que ele está entregue -
- entregue à graça, ao espírito, à loucura de cada geração que vem e reinterpreta tudo o que foi como ponte para si!
Poderia vir um grande senhor violento, um monstro astuto, que com sua graça e desgraça constrangesse e violentasse todo o passado: até que este se tornasse para ele ponte, presságio, arauto e canto de galo.
Esta, porém, é a outra ameaça e minha outra compaixão: - quem é do populacho tem memória que recua até o avô - mas com o avô acaba o tempo.
Assim todo o passado está entregue: pois poderia acontecer um dia que o populacho se tornasse senhor e afogasse todo o tempo em águas rasas.
Por isso, ó meus irmãos, é necessária uma nova nobreza, adversária de todo populacho e de todo poder senhorial, e que escreva de novo, em novas tábuas, a palavra "nobre".
Pois são necessários muitos nobres e muitos tipos de nobres para que haja nobreza! Ou, como falei outrora em parábola: "Isto justamente é divindade, que haja deuses, mas nenhum Deus!"
#### 12.
Ó meus irmãos, eu vos consagro e vos indico para uma nova nobreza: deveis tornar-vos para mim geradores e cultivadores e semeadores do futuro -
- em verdade, não para uma nobreza que pudésseis comprar como os mercadores e com ouro de mercador: pois pouco valor tem tudo o que tem seu preço.
Não de onde vindes deve doravante fazer vossa honra, mas para onde ides! Vossa vontade e vosso pé, que quer ir para além de vós mesmos - isso faça vossa nova honra!
Em verdade, não que tenhais servido a um príncipe - que importam ainda os príncipes! - ou vos tenhais tornado baluarte do que está em pé, para que ficasse mais firme!
Não que vossa estirpe se tenha tornado cortesã nas cortes, e tenhais aprendido, coloridos, semelhantes ao flamingo, a ficar longas horas em charcos rasos.
- Pois saber ficar de pé é mérito entre cortesãos; e todos os cortesãos creem que à bem-aventurança depois da morte pertence - poder ficar sentados! -
Também não que um espírito que chamam santo tenha conduzido vossos antepassados a terras prometidas que eu não louvo: pois onde cresceu a pior de todas as árvores, a cruz - nessa terra nada há a louvar! -
- e, em verdade, para onde quer que esse "espírito santo" tenha conduzido seus cavaleiros, em tais expedições sempre corriam na frente - bodes e gansos e cabeças tortas e atravessadas! -
Ó meus irmãos, vossa nobreza não deve olhar para trás, mas para fora! Expulsos deveis ser de todas as terras paternas e ancestrais!
A terra de vossos filhos deveis amar: esse amor seja vossa nova nobreza - o país não descoberto, no mais fino mar! Por ele mando vossas velas procurar e procurar!
Em vossos filhos deveis reparar o fato de serdes filhos de vossos pais: assim deveis redimir todo o passado! Esta nova tábua coloco sobre vós!
#### 13.
"Para que viver? Tudo é vão! Viver - isto é debulhar palha; viver - isto é queimar-se e, contudo, não se aquecer." -
Tal falatório antiquado ainda vale como "sabedoria"; mas, porque é velho e cheira a mofo, é ainda mais honrado. Também o bolor enobrece. -
Crianças podiam falar assim: elas temem o fogo porque ele as queimou! Há muita criancice nos velhos livros da sabedoria.
E quem sempre "debulha palha", como poderia ter o direito de blasfemar contra o debulhar! A tal tolo se deveria antes atar a boca!
Tais pessoas sentam-se à mesa e nada trazem consigo, nem mesmo a boa fome: - e então blasfemam: "Tudo é vão!"
Mas comer e beber bem, ó meus irmãos, em verdade, não é arte vã! Quebrai, quebrai-me as tábuas dos nunca-alegres!
#### 14.
"Para o puro, tudo é puro" - assim fala o povo. Eu, porém, vos digo: para os porcos, tudo se torna porco!
Por isso pregam os exaltados e cabeças-pendidas, aos quais também o coração pende para baixo: "o próprio mundo é um monstro de lama."
Pois todos esses são de espírito impuro; especialmente, porém, aqueles que não têm repouso nem descanso, a não ser vendo o mundo por trás - os transmundanos!
A eles digo na cara, embora não soe amável: o mundo se assemelha nisso ao humano, que tem um traseiro - isso é verdade!
Há muita lama no mundo: isso é verdade! Mas por isso o próprio mundo ainda não é um monstro de lama!
Há sabedoria em que muita coisa no mundo cheire mal: o próprio nojo cria asas e forças pressentidoras de fontes!
No melhor ainda há algo de que se enojar; e o melhor ainda é algo que deve ser superado! -
Ó meus irmãos, há muita sabedoria em haver muita lama no mundo! -
#### 15.
Ouvi tais sentenças os piedosos transmundanos dizerem à sua consciência; e, em verdade, sem malícia e falsidade - embora nada haja no mundo de mais falso nem mais malicioso.
"Deixa o mundo ser mundo! Não levantes contra ele sequer um dedo!"
"Deixa quem quiser estrangular, furar, cortar e raspar as pessoas: não levantes contra isso sequer um dedo! Com isso elas ainda aprenderão a renunciar ao mundo."
"E tua própria razão - essa deves tu mesmo engasgar e estrangular; pois é uma razão deste mundo - com isso aprenderás tu mesmo a renunciar ao mundo." -
- Quebrai, quebrai-me, ó meus irmãos, essas velhas tábuas dos piedosos! Despedaçai-me com palavras as sentenças dos difamadores do mundo!
#### 16.
"Quem aprende muito desaprende todo desejo veemente" - isto se cochicha hoje em todas as vielas escuras.
"Sabedoria cansa, nada vale a pena - não deves desejar!" - esta nova tábua encontrei pendurada até em mercados abertos.
Quebrai-me, ó meus irmãos, quebrai-me também esta nova tábua! Os cansados do mundo a penduraram ali, e os pregadores da morte, e também os capatazes: pois vede, é também uma pregação para a servidão! -
Porque aprenderam mal e não o melhor, e tudo cedo demais e tudo depressa demais; porque comeram mal, daí lhes veio aquele estômago estragado -
- pois seu espírito é um estômago estragado: ele aconselha à morte! Pois, em verdade, meus irmãos, o espírito é um estômago!
A vida é um manancial de prazer: mas para aquele de quem fala o estômago estragado, o pai da tristeza, todas as fontes estão envenenadas.
Conhecer: isto é prazer para quem tem vontade leonina! Mas quem se cansou torna-se ele mesmo apenas "querido"; com ele brincam todas as ondas.
E assim é sempre a espécie dos humanos fracos: perdem-se em seus caminhos. E por fim sua fadiga ainda pergunta: "para que tomamos algum dia caminhos! Tudo é igual!"
A esses soa docemente aos ouvidos quando se prega: "Nada vale a pena! Não deveis querer!" Isto, porém, é uma pregação para a servidão.
Ó meus irmãos, um fresco vento turbilhonante vem Zaratustra para todos os cansados do caminho; ele ainda fará muitos narizes espirrar!
Também através de muros sopra meu livre hálito, e para dentro de prisões e espíritos aprisionados!
Querer liberta: pois querer é criar: assim ensino eu. E somente para criar deveis aprender!
E também o aprender deveis primeiro aprender de mim, o bom-aprender! - Quem tem ouvidos, ouça!
#### 17.
Ali está o barco - talvez para lá se vá ao grande nada. Mas quem quer embarcar nesse "talvez"?
Nenhum de vós quer embarcar no barco da morte! Como quereis, então, ser cansados do mundo!
Cansados do mundo! E nem sequer vos tornastes arrebatados da terra! Sempre vos encontrei ainda lascivos pela terra, ainda apaixonados por vossa própria fadiga da terra!
Não é em vão que vos pende o lábio: - um pequeno desejo terreno ainda está sentado nele! E no olho - não flutua ali uma nuvenzinha de prazer terreno inesquecido?
Há sobre a terra muitas boas invenções, umas úteis, outras agradáveis: por causa delas a terra deve ser amada.
E há muitas coisas tão bem inventadas que são como o seio da mulher: úteis e agradáveis ao mesmo tempo.
Vós, porém, cansados do mundo! Vós, preguiçosos da terra! Deveis ser açoitados com varas! Com golpes de vara devem tornar-vos novamente ágeis as pernas.
Pois: se não sois doentes e pobres diabos gastos, de quem a terra está cansada, então sois preguiçosos astutos ou gatos de prazer gulosos e escondidos. E, se não quereis voltar a correr com alegria, então deveis - partir!
Não se deve querer ser médico dos incuráveis: assim o ensina Zaratustra - portanto, deveis partir!
Mas é preciso mais coragem para pôr fim do que para fazer um verso novo: isso todos os médicos e poetas sabem. -
#### 18.
Ó meus irmãos, há tábuas que a fadiga criou, e tábuas que a preguiça criou, a podre: embora falem igual, querem ser ouvidas de modo desigual. -
Vede aqui este que desfalece! Falta-lhe apenas um palmo para seu alvo, mas de fadiga ele se deitou aqui, teimoso, no pó: esse valente!
De fadiga, boceja para o caminho, a terra, o alvo e para si mesmo: não quer dar mais nenhum passo - esse valente!
Agora o sol arde sobre ele, e os cães lambem seu suor: mas
ele jaz ali em sua teimosia e prefere definhar: -
- definhar a um palmo de seu alvo! Em verdade, ainda tereis de
puxá-lo pelos cabelos para dentro de seu céu - esse herói!
Melhor ainda: deixai-o deitado onde se deitou, para que lhe venha o sono,
o consolador, com refrescante chuva rumorejante:
Deixai-o deitado, até que desperte por si mesmo, até que por si mesmo revogue toda fadiga
e aquilo que a fadiga lhe ensinou!
Apenas, meus irmãos, espantai dele os cães, os furtivos preguiçosos,
e todo o enxame de vermes: -
- todo o enxame de vermes dos "cultos", que se regala
com o suor de todo herói! -
#### 19.
Traço círculos ao meu redor e fronteiras sagradas; cada vez menos sobem comigo
a montanhas cada vez mais altas - construo uma cordilheira de montanhas cada vez mais sagradas.
Mas para onde quer que subais comigo, ó meus irmãos: vede que nenhum
parasita suba convosco!
Parasita: isto é uma vermina, rastejante, insinuante, que quer engordar
em vossos cantos enfermos e feridos.
E esta é sua arte: adivinhar onde as almas ascendentes
estão cansadas: em vossa dor e mau humor, em vossa delicada vergonha, ele constrói seu ninho repugnante.
Onde o forte é fraco, onde o nobre é brando demais - ali ele constrói seu
ninho repugnante: o parasita mora onde o grande tem pequenos cantos feridos.
Qual é a espécie mais alta de todo ente, e qual a mais baixa? O parasita
é a espécie mais baixa; mas quem é da espécie mais alta alimenta o maior número de
parasitas.
A alma, a saber, que tem a escada mais longa e pode descer mais fundo:
como não haveriam de sentar-se nela a maioria dos parasitas? -
- a alma mais ampla, que mais longe pode correr, errar
e vaguear dentro de si; a mais necessária, que por prazer se lança no acaso: -
- a alma que é, e mergulha no devir; a que possui, e quer entrar
no querer e no desejar: -
- a que foge de si mesma e alcança a si mesma no círculo mais amplo;
a alma mais sábia, à qual a loucura fala mais docemente: -
- a que mais ama a si mesma, na qual todas as coisas têm seu fluir e
refluir, sua vazante e enchente: - ó, como não haveria a alma mais alta
de ter os piores parasitas?
#### 20.
Ó meus irmãos, sou então cruel? Mas eu digo: aquilo que cai, deve-se
ainda empurrar!
Tudo isso de hoje - cai, decai: quem haveria de querer segurá-lo! Mas
eu - eu quero ainda empurrá-lo!
Conheceis a volúpia que rola pedras para profundezas íngremes? - Esses homens
de hoje: vede-os bem, como rolam para minhas profundezas!
Sou um prelúdio de jogadores melhores, ó meus irmãos! Um exemplo!
Fazei segundo meu exemplo!
E aquele a quem não ensinais a voar, ensinai-me - a cair mais depressa! -
#### 21.
Amo os valentes: mas não basta ser um golpeador de espadas - é preciso
também saber quem golpear!
E muitas vezes há mais valentia em conter-se e passar ao largo:
para poupar-se para o inimigo mais digno!
Deveis ter apenas inimigos que sejam para odiar, mas não inimigos para
desprezar: deveis orgulhar-vos de vosso inimigo: assim ensinei já uma vez.
Para o inimigo mais digno, ó meus amigos, deveis poupar-vos: por isso deveis
passar ao largo de muita coisa -
- especialmente de muita ralé, que vos grita aos ouvidos sobre povo e
povos.
Mantende vosso olhar limpo de seus prós e contras! Ali há muito direito, muito
injusto: quem assiste a isso fica encolerizado.
Olhar para dentro, golpear para dentro - ali isto é uma só coisa: por isso ide embora para os bosques e
deitai vossa espada para dormir!
Ide vossos caminhos! E deixai povo e povos seguirem os seus! - caminhos
escuros, em verdade, nos quais nem uma só esperança relampeja mais!
Que reine ali o mercador, onde tudo o que ainda brilha é - ouro de mercador!
Já não é o tempo dos reis: o que hoje se chama povo não merece
reis.
Vede, pois, como esses povos agora fazem tal como os mercadores: eles recolhem
as menores vantagens até de todo lixo!
Eles se espreitam uns aos outros, arrancam algo uns dos outros - a isso chamam
"boa vizinhança". Ó bem-aventurado tempo distante, quando um povo dizia a si mesmo: "quero
ser senhor sobre povos!"
Pois, meus irmãos: o melhor deve dominar, o melhor também quer dominar!
E onde a doutrina soa de outro modo, ali - falta o melhor.
#### 22.
Se aqueles tivessem pão de graça, ai deles! Por que gritariam!
Seu sustento - esse é seu verdadeiro entretenimento; e devem tê-lo
difícil!
São animais de rapina. - em seu "trabalhar" ainda há rapina, em
seu "ganhar" ainda há ardil! Por isso devem tê-lo difícil!
Devem, assim, tornar-se melhores animais de rapina, mais finos, mais inteligentes,
mais semelhantes ao homem: pois o homem é o melhor animal de rapina.
De todos os animais o homem já roubou suas virtudes: por isso, entre
todos os animais, foi o homem quem teve a vida mais difícil.
Só os pássaros ainda estão acima dele. E se o homem ainda aprendesse a voar,
ai! para que altura - voaria sua avidez de rapina!
#### 23.
Assim quero homem e mulher: apto para a guerra o primeiro, apta para gerar a outra,
mas ambos aptos para dançar com cabeça e pernas.
E perdido seja para nós o dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa se chame
para nós toda verdade em que não houve uma risada!
#### 24.
Vosso contrair matrimônio: vede que não seja um mau contrair!
Fechastes depressa demais: daí se segue - quebrar o matrimônio!
E melhor ainda quebrar o matrimônio do que dobrar o matrimônio, mentir no matrimônio! - Assim me falou uma
mulher: "é verdade que quebrei o matrimônio, mas primeiro o matrimônio - quebrou-me!"
Os mal pareados sempre encontrei como os piores vingativos: fazem
o mundo inteiro pagar por já não andarem isolados.
Por isso quero que os honestos falem entre si: "nós nos amamos: vejamos
se conservamos nosso amor! Ou deve nossa promessa ser um
engano?"
- "Dai-nos um prazo e um pequeno matrimônio, para vermos se servimos para o grande
matrimônio! É uma grande coisa estar sempre a dois!"
Assim aconselho todos os honestos; e que seria então meu amor ao além-do-homem
e a tudo o que deve vir, se eu aconselhasse e falasse de outro modo!
Não apenas para vos propagar, mas para cima - para isso, ó meus
irmãos, que vos ajude o jardim do matrimônio!
#### 25.
Quem se tornou sábio sobre velhas origens, vede, acabará buscando fontes do
futuro e novas origens. -
Ó meus irmãos, não tardará muito, e novos povos
brotarão, e novas fontes rumorejarão para baixo em novas profundezas.
O terremoto, a saber - ele soterra muitos poços, cria muita
sede: ele também ergue à luz forças interiores e segredos.
O terremoto torna manifestas novas fontes. No terremoto de velhos povos, rompem novas
fontes.
E em torno daquele que clama: "Vede aqui uma fonte para muitos sedentos, um coração para muitos
anseios, uma vontade para muitos instrumentos": - em torno dele se reúne um
povo, isto é: muitos que tentam.
Quem pode mandar, quem deve obedecer - isso é ali tentado! Ah, com
que longa procura e adivinhação e desacerto e aprendizado e nova tentativa!
A sociedade humana: ela é uma tentativa, assim eu ensino - uma
longa procura: mas ela procura aquele que manda! -
- uma tentativa, ó meus irmãos! E não um "contrato"! Quebrai,
quebrai-me tal palavra dos corações moles e dos meios-e-meios!
#### 26.
Ó meus irmãos! Em quem repousa, pois, o maior perigo de todo
futuro humano? Não é nos bons e justos? -
- naqueles que falam e sentem no coração: "nós já sabemos o que
é bom e justo, nós também o temos; ai daqueles que aqui ainda
procuram!" -
E que dano quer que os maus possam fazer: o dano dos bons é o
dano mais danoso!
E que dano quer que os difamadores do mundo possam fazer: o dano dos bons
é o dano mais danoso.
Ó meus irmãos, alguém olhou uma vez no coração dos bons e justos,
aquele que falou: "são os fariseus." Mas não o compreenderam.
Os próprios bons e justos não podiam compreendê-lo: seu espírito está
preso em sua boa consciência. A estupidez dos bons é insondavelmente
esperta.
Esta, porém, é a verdade: os bons devem ser fariseus - eles
não têm escolha!
Os bons devem crucificar aquele que inventa sua própria virtude!
Esta é a verdade!
Mas o segundo que descobriu sua terra, terra, coração e solo dos bons e
justos: esse foi aquele que perguntou: "a quem eles mais odeiam?"
Ao criador odeiam mais: aquele que quebra tábuas e velhos
valores, o quebrador - a esse chamam criminoso.
Os bons, a saber - eles não podem criar: são sempre o
começo do fim: -
- crucificam aquele que escreve novos valores sobre novas tábuas, sacrificam
a si o futuro - crucificam todo futuro humano!
Os bons - sempre foram o começo do fim. -
#### 27.
Ó meus irmãos, compreendestes também esta palavra? E o que outrora disse do
"último homem"? -
Em quem repousa o maior perigo de todo futuro humano? Não é nos
bons e justos?
Quebrai, quebrai-me os bons e justos! - Ó meus irmãos,
compreendestes também esta palavra?
#### 28.
Fugis de mim? Estais assustados? Tremeis diante desta palavra?
Ó meus irmãos, quando vos mandei quebrar os bons e as tábuas dos
bons: somente então embarquei o homem em seu alto mar.
E somente agora lhe vem o grande pavor, o grande olhar-ao-redor, a
grande doença, o grande nojo, o grande enjoo do mar.
Falsas costas e falsas seguranças vos ensinaram os bons; nas mentiras dos
bons fostes nascidos e abrigados. Tudo foi mentido e
entortado até o fundo pelos bons.
Mas quem descobriu a terra "homem" descobriu também a terra
"futuro humano". Agora deveis ser meus navegantes, bravos, pacientes!
Andai eretos a tempo, ó meus irmãos, aprendei a andar eretos! O mar
tempesteia: muitos querem reerguer-se em vós.
O mar tempesteia: tudo está no mar. Pois bem! Ânimo! Vós, velhos
corações de marinheiro!
Que pátria! Para lá quer ir nosso leme, onde está a terra de nossos filhos!
Para lá, mais tempestuosa que o mar, tempesteia nossa grande
saudade! -
#### 29.
"Por que tão duro! - falou outrora ao diamante o carvão de cozinha; não somos
parentes próximos?" -
Por que tão moles? Ó meus irmãos, assim vos pergunto: não sois
meus irmãos?
Por que tão moles, tão esquivos e cedentes? Por que há tanta negação,
renegação em vosso coração? Tão pouco destino em vosso olhar?
E se não quereis ser destinos e inexoráveis: como poderíeis comigo
- vencer?
E se vossa dureza não quer relampejar e separar e cortar: como
poderíeis um dia comigo - criar?
Os criadores, a saber, são duros. E bem-aventurança deve vos parecer pressionar vossa mão
sobre milênios como sobre cera -
- bem-aventurança, escrever sobre a vontade de milênios como sobre
bronze - mais duro que bronze, mais nobre que bronze. Inteiramente duro é apenas o mais nobre.
Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vós: tornai-vos duros! -
#### 30.
Ó tu, minha vontade! Tu, virada de toda necessidade, tu, minha necessidade! Preserva-me
de todas as pequenas vitórias!
Tu, destino de minha alma, que chamo fado! Tu-em-mim! Sobre-mim!
Preserva-me e poupa-me para um único grande destino!
E tua última grandeza, minha vontade, poupa-a para teu último - para que
sejas inexorável em tua vitória! Ah, quem não sucumbiu à sua
vitória!
Ah, que olho não escureceu nesse crepúsculo ébrio! Ah, que pé
não cambaleou e desaprendeu, na vitória - a ficar de pé! -
- Para que um dia eu esteja pronto e maduro no grande meio-dia: pronto e maduro
como bronze incandescente, nuvem grávida de relâmpagos e túrgido
úbere de leite: -
- pronto para mim mesmo e para minha vontade mais oculta: um arco
ardente por sua flecha, uma flecha ardente por sua estrela: -
- uma estrela pronta e madura em seu meio-dia, incandescente, atravessada, bem-aventurada
diante de flechas solares aniquiladoras: -
- um sol ele mesmo e uma inexorável vontade solar, pronta para aniquilar
ao vencer!
Ó vontade, virada de toda necessidade, tu, minha necessidade! Poupa-me para
uma única grande vitória! -
Assim falou Zaratustra.
Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.
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