Leia agora
Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Universo da obra

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 60 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Da Grande Saudade

60 de 82 ≈ 6 min de leitura

Da Grande Saudade

Ó minha alma, eu te ensinei a dizer "Hoje" como "Outrora" e "Antigamente",

e a dançar tua roda para além de todo Aqui e Aí e Lá.

Ó minha alma, eu te redimi de todos os cantos, afastei de ti pó, aranhas

e crepúsculo.

Ó minha alma, lavei de ti a pequena vergonha e a virtude-de-canto, e

persuadi-te a estar nua diante dos olhos do sol.

Com a tempestade que se chama "espírito", soprei sobre teu mar ondulante; todas as

nuvens soprei para longe, estrangulei até a estranguladora que se chama "pecado".

Ó minha alma, dei-te o direito de dizer Não como a tempestade e de dizer

Sim como o céu aberto diz Sim: quieta como luz estás e caminhas agora

através de tempestades negadoras.

Ó minha alma, devolvi-te a liberdade sobre o criado e o

incriado: e quem conhece, como tu conheces, a volúpia do futuro?

Ó minha alma, ensinei-te o desprezar, que não vem como roedura de verme,

o grande, amoroso desprezar, que mais ama onde mais

despreza.

Ó minha alma, ensinei-te a persuadir de tal modo que persuades a ti mesma

os fundamentos: igual ao sol, que ainda persuade o mar a sua altura.

Ó minha alma, tirei de ti todo obedecer, dobrar os joelhos e dizer-senhor; eu

mesmo te dei o nome "virada da necessidade" e "destino".

Ó minha alma, dei-te novos nomes e brinquedos coloridos, chamei-te

"destino" e "âmbito dos âmbitos" e "cordão umbilical do tempo" e "azul

sino".

Ó minha alma, a teu solo dei de beber toda sabedoria, todos os novos

vinhos e também todos os antiquíssimos, fortes vinhos da sabedoria.

Ó minha alma, derramei sobre ti todo sol e toda noite e todo silêncio

e toda saudade: - então cresceste para mim como uma videira.

Ó minha alma, rica demais e pesada estás agora aí, uma videira com

úberes túrgidos e cachos de uvas de vinho dourado e castanho: -

- comprimida e pressionada por tua felicidade, esperando por superabundância e

ainda envergonhada por teu esperar.

Ó minha alma, não há agora em lugar nenhum uma alma que seja mais amorosa e

mais abrangente e mais ampla! Onde estariam futuro e passado mais próximos

um do outro do que em ti?

Ó minha alma, dei-te Tudo, e todas as minhas mãos se esvaziaram em ti: -

e agora! Agora me dizes sorrindo e cheia de melancolia: "Qual

de nós tem de agradecer? -

- não deve o doador agradecer porque o recebedor recebeu? Dar

não é uma necessidade? Receber não é - misericórdia?" -

Ó minha alma, compreendo o sorriso de tua melancolia: tua riqueza-demais

mesma estende agora mãos saudosas!

Tua plenitude olha para além de mares bramantes e procura e espera; a saudade

da superplenitude olha de teu céu de olhos sorridente!

E em verdade, ó minha alma! Quem veria teu sorriso e não se derreteria em

lágrimas? Os próprios anjos se derretem em lágrimas diante da bondade-demais de teu

sorriso.

Tua bondade e bondade-demais é que não quer queixar-se nem chorar: e contudo

anseia, ó minha alma, teu sorriso por lágrimas, e tua boca trêmula

por soluços.

"Não é todo chorar uma queixa? E toda queixa não é uma acusação?" Assim

falas contigo mesma, e por isso queres, ó minha alma, antes sorrir

do que derramar tua dor.

- derramar em lágrimas que despencam toda a tua dor por tua plenitude e por

toda a premência da videira pelo vinheiro e pela faca do vinheiro!

Mas se não queres chorar, não queres chorar até o fim tua melancolia púrpura, então

terás de cantar, ó minha alma! - Vê, eu mesmo sorrio,

eu que te predigo tal coisa:

- cantar, com canto bramante, até que todos os mares se aquietem para

escutar tua saudade -

- até que sobre mares quietos e saudosos paire a barca, o dourado

milagre, em torno de cujo ouro saltam todas as coisas boas, más e maravilhosas: -

- também muitos animais grandes e pequenos e tudo o que tem pés leves e maravilhosos,

para que possa correr por veredas azul-violeta -

- rumo ao dourado milagre, à barca voluntária e a seu senhor:

este, porém, é o vinheiro que espera com faca de vinheiro diamantina -

- teu grande libertador, ó minha alma, o sem-nome - para quem os cantos futuros

primeiro encontrarão nomes! E em verdade, já teu hálito perfuma a

cantos futuros -

- já ardes e sonhas, já bebes sedenta de todos os profundos

poços de consolo ressoantes, já repousa tua melancolia na bem-aventurança

de cantos futuros! -

Ó minha alma, agora te dei Tudo e também meu Último, e todas as minhas

mãos se esvaziaram em ti: - que eu te mandasse cantar,

vê, isso foi meu Último!

Que eu te mandasse cantar, fala agora, fala: qual de nós tem

agora - de agradecer? - Melhor ainda, porém: canta para mim, canta, ó minha

alma! E deixa-me agradecer! -

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 60 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capa de Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém
Continue a leitura Da Grande Saudade Capítulo 60 · 60 de 82 · ≈ 6 min
Todos os capítulos 82 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir