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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 62 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Os Sete Selos

62 de 82 ≈ 7 min de leitura

Os Sete Selos

(Ou: a Canção do Sim e Amém)

#### 1.

Se sou um adivinho e cheio daquele espírito adivinhador que caminha

em alto jugo entre dois mares -

entre passado e futuro caminha como nuvem pesada - inimigo de baixadas

abafadas e de tudo o que está cansado e não pode morrer nem viver -

pronto para o raio no seio escuro e para o raio de luz redentor, grávido

de raios que dizem Sim!, que riem Sim!, de proféticos

raios luminosos: -

- bem-aventurado, porém, é aquele assim grávido! E em verdade, por longo tempo deve

pendurar-se como temporal pesado na montanha quem um dia deve acender

a luz do futuro! -

Ó como não haveria eu de arder pela eternidade e pelo

nupcial anel dos anéis - o anel do retorno!

Nunca encontrei ainda a mulher de quem quisesse filhos, senão esta mulher

que amo: pois eu te amo, ó eternidade!

Pois eu te amo, ó eternidade!

#### 2.

Se minha ira alguma vez quebrou túmulos, moveu marcos de fronteira e rolou

velhas tábuas quebradas para profundezas íngremes:

Se meu escárnio alguma vez soprou para longe palavras apodrecidas, e eu vim como uma vassoura

para as aranhas-da-cruz e como vento varredor para antigas e abafadas câmaras sepulcrais:

Se alguma vez me sentei jubiloso onde jazem enterrados velhos deuses, abençoando o mundo,

amando o mundo junto aos monumentos de antigos difamadores do mundo: -

- pois amo até igrejas e túmulos de Deus, quando o céu enfim

olha com olhos puros através de seus tetos quebrados; de bom grado sento-me como grama

e papoula vermelha sobre igrejas quebradas -

Ó como não haveria eu de arder pela eternidade e pelo

nupcial anel dos anéis - o anel do retorno!

Nunca encontrei ainda a mulher de quem quisesse filhos, senão esta mulher

que amo: pois eu te amo, ó eternidade!

Pois eu te amo, ó eternidade!

#### 3.

Se alguma vez veio a mim um sopro do sopro criador e daquela

necessidade celeste que ainda força acasos a dançar rodas de astros:

Se alguma vez ri com o riso do raio criador, ao qual o longo

trovão do ato segue rosnando, mas obediente:

Se alguma vez, à mesa divina da terra, joguei dados com deuses, de modo que a terra

tremia e se rompia e bufava rios de fogo para cima: -

- pois uma mesa divina é a terra, e trêmula de novas palavras

criadoras e lances de dados divinos: -

Ó como não haveria eu de arder pela eternidade e pelo

nupcial anel dos anéis - o anel do retorno!

Nunca encontrei ainda a mulher de quem quisesse filhos, senão esta mulher

que amo: pois eu te amo, ó eternidade!

Pois eu te amo, ó eternidade!

#### 4.

Se alguma vez bebi a largos goles daquele espumante jarro de especiarias e mistura,

em que todas as coisas estão bem misturadas:

Se minha mão alguma vez verteu o mais distante no mais próximo, e fogo em espírito, e prazer em

dor, e o pior no mais bondoso:

Se eu mesmo sou um grão daquele sal redentor, que faz com que

todas as coisas no jarro de mistura se misturem bem: -

- pois há um sal que liga o bom ao mau; e também o pior

é digno de tempero e da última espuma transbordante: -

Ó como não haveria eu de arder pela eternidade e pelo

nupcial anel dos anéis - o anel do retorno!

Nunca encontrei ainda a mulher de quem quisesse filhos, senão esta mulher

que amo: pois eu te amo, ó eternidade!

Pois eu te amo, ó eternidade!

#### 5.

Se sou afeiçoado ao mar e a tudo o que é da espécie do mar, e mais afeiçoado

ainda quando ele me contradiz irado:

Se há em mim aquela alegria buscadora que impele as velas rumo ao não descoberto,

se há em minha alegria uma alegria de navegante:

Se alguma vez meu júbilo gritou: "a costa desapareceu - agora me caiu a última

corrente -

- o ilimitado brame ao meu redor, longe me resplandecem espaço e tempo,

pois bem! ânimo! velho coração!" -

Ó como não haveria eu de arder pela eternidade e pelo

nupcial anel dos anéis - o anel do retorno!

Nunca encontrei ainda a mulher de quem quisesse filhos, senão esta mulher

que amo: pois eu te amo, ó eternidade!

Pois eu te amo, ó eternidade!

#### 6.

Se minha virtude é virtude de dançarino, e muitas vezes com ambos os pés saltei

em êxtase de ouro e esmeralda:

Se minha maldade é uma maldade ridente, familiar entre encostas de rosas e

sebes de lírios:

- pois no riso está reunido todo mal, mas santificado e

absolvido por sua própria bem-aventurança: -

E se este é meu A e O: que tudo o que é pesado se torne leve, todo corpo dançarino,

todo espírito pássaro: e em verdade, este é meu A e O! -

Ó como não haveria eu de arder pela eternidade e pelo

nupcial anel dos anéis - o anel do retorno!

Nunca encontrei ainda a mulher de quem quisesse filhos, senão esta mulher

que amo: pois eu te amo, ó eternidade!

Pois eu te amo, ó eternidade!

#### 7.

Se alguma vez estendi céus quietos sobre mim e com asas próprias voei para meus

próprios céus:

Se, brincando, nadei em distâncias profundas de luz, e veio a mim

a sabedoria-pássaro de minha liberdade: -

- assim, porém, fala a sabedoria-pássaro: "Vê, não há Acima, não há Abaixo!

Lança-te em volta, para fora, para trás, tu, leve! Canta! não fales mais!

- não são todas as palavras feitas para os pesados? Não mentem ao leve

todas as palavras? Canta! não fales mais!" -

Ó como não haveria eu de arder pela eternidade e pelo

nupcial anel dos anéis - o anel do retorno!

Nunca encontrei ainda a mulher de quem quisesse filhos, senão esta mulher

que amo: pois eu te amo, ó eternidade!

Pois eu te amo, ó eternidade!

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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