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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 64 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

O Grito de Socorro

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O Grito de Socorro

No dia seguinte, Zaratustra estava novamente sentado em sua pedra diante da caverna,

enquanto os animais vagavam lá fora pelo mundo, para trazer nova comida

para casa - também novo mel: pois Zaratustra havia dissipado e desperdiçado o velho mel

até o último grão. Mas enquanto estava assim

sentado, com um bastão na mão, desenhando na terra a sombra de sua figura,

pensativo e, em verdade!, não sobre si e sua

sombra - então se assustou de repente e estremeceu: pois viu

ao lado de sua sombra ainda outra sombra. E quando rapidamente olhou em volta

e se levantou, vede, ali estava o Adivinho ao seu lado, o mesmo que

outrora ele havia alimentado e feito beber à sua mesa, o anunciador da

grande fadiga, que ensinava: "Tudo é igual, nada vale a pena,

o mundo não tem sentido, saber estrangula." Mas seu rosto, nesse meio-tempo,

havia se transformado; e quando Zaratustra lhe olhou nos olhos, seu coração

se assustou mais uma vez: tantas más anunciações e relâmpagos cinza de cinza

corriam por esse rosto.

O Adivinho, que percebera o que se passava na alma de Zaratustra,

passou a mão sobre o rosto, como se quisesse

apagá-lo; do mesmo modo fez também Zaratustra. E quando ambos, assim,

se haviam em silêncio recomposto e fortalecido, deram-se as mãos, como

sinal de que queriam reconhecer-se de novo.

"Sê bem-vindo", disse Zaratustra, "tu, Adivinho da grande fadiga; não

deves ter sido em vão outrora meu companheiro de mesa e hóspede. Come e

bebe também hoje comigo, e perdoa que um velho alegre se sente contigo

à mesa!" - "Um velho alegre?", respondeu o Adivinho,

balançando a cabeça: "seja quem fores ou quiseres ser, ó Zaratustra, tu

o foste aqui em cima pelo maior tempo - tua barca em breve

já não ficará em terra seca!" - "Estou então em terra seca?", perguntou

Zaratustra rindo. - "As ondas ao redor de tua montanha", respondeu o

Adivinho, "sobem e sobem, as ondas de grande necessidade e tribulação: elas

logo também levantarão tua barca e te levarão embora." - Zaratustra calou-se

diante disso e se admirou. - "Ainda não ouves nada?", prosseguiu o Adivinho:

"não murmura e brame lá em cima vindo da profundeza?" - Zaratustra

calou-se novamente e escutou: então ouviu um longo, longo grito, que

os abismos lançavam uns aos outros e passavam adiante, pois nenhum queria retê-lo: tão

maligno ele soava.

"Tu, mau anunciador", falou enfim Zaratustra, "isso é um grito de socorro

e o grito de um homem, que bem pode vir de um mar negro.

Mas que me importa a necessidade humana! Meu último pecado, que me ficou reservado -

sabes tu bem como ele se chama?"

- "Compaixão!", respondeu o Adivinho de coração transbordante e

ergueu ambas as mãos - "ó Zaratustra, venho para te seduzir a teu

último pecado!" -

E mal essas palavras foram ditas, soou o grito outra vez, e

mais longo e mais angustiado que antes, e já muito mais perto. "Ouves? Ouves,

ó Zaratustra?", gritou o Adivinho, "a ti se dirige o grito, ele te chama: vem,

vem, vem, é tempo, é o mais alto tempo!" -

Zaratustra calou-se diante disso, confuso e abalado; por fim perguntou, como

alguém que hesita consigo mesmo: "E quem é esse que ali me chama?"

"Mas tu bem o sabes", respondeu o Adivinho com veemência, "por que te escondes?

É o homem superior que grita por ti!"

"O homem superior?", gritou Zaratustra, tomado de horror: "que quer

ele? Que quer ele? O homem superior! Que quer ele

aqui?" - e sua pele se cobriu de suor.

O Adivinho, porém, não respondeu à angústia de Zaratustra, mas

escutou e escutou em direção à profundeza. Quando, porém, por longo tempo ali ficou

silencioso, voltou o olhar e viu Zaratustra em pé, tremendo.

"Ó Zaratustra", começou ele com voz triste, "não estás aí como alguém

a quem sua felicidade faz girar: terás de dançar, para que não

caias diante de mim!

Mas ainda que quisesses dançar diante de mim e saltar todos os teus saltos laterais:

ninguém deverá, contudo, poder dizer-me: 'Vede, aqui dança o

último homem alegre!'

Em vão viria alguém a esta altura procurando por ele: encontraria, decerto,

cavernas e cavernas-por-trás, esconderijos para escondidos, mas não minas de felicidade e

câmaras de tesouro e novos veios de ouro da felicidade.

Felicidade - como se encontraria acaso felicidade entre tais enterrados e

eremitas! Devo procurar a última felicidade ainda em ilhas bem-aventuradas e

longe, entre mares esquecidos?

Mas tudo é igual, nada vale a pena, nenhuma busca ajuda, também já não há

ilhas bem-aventuradas!" -

Assim suspirou o Adivinho; mas com seu último suspiro Zaratustra

tornou-se novamente claro e seguro, como alguém que vem de uma garganta profunda para

a luz. "Não! Não! Três vezes não!", gritou ele com voz forte e alisou

a barba - "isso eu sei melhor! Ainda há ilhas

bem-aventuradas! Cala-te sobre isso, tu, saco de tristeza suspirante!

Para de chapinhar sobre isso, nuvem de chuva da manhã! Não estou eu

já aqui encharcado de tua tribulação e molhado como um cão?

Agora me sacudo e fujo de ti, para tornar-me novamente seco: não

deves admirar-te disso! Pareço-te descortês? Mas aqui é

minha corte.

Quanto, porém, a teu homem superior: pois bem! vou procurá-lo às pressas naquelas

florestas: dali veio seu grito. Talvez ali o oprima uma besta

má.

Ele está em meu domínio: nele ele não deve sofrer dano por minha causa!

E, em verdade, há muitas bestas más comigo." -

Com estas palavras Zaratustra virou-se para ir. Então falou o Adivinho:

"Ó Zaratustra, és um patife!

Já sei: queres livrar-te de mim! Antes preferes correr para as

florestas e perseguir bestas más!

Mas de que te serve isso? À noite me terás de volta, em tua

própria caverna estarei sentado, paciente e pesado como um cepo - e

esperando por ti!"

"Assim seja!", gritou Zaratustra de volta enquanto se afastava; "e o que é meu em

minha caverna pertence também a ti, meu hóspede e amigo!

Se lá dentro ainda encontrares mel, pois bem! lambe-o todo, tu,

urso roncador, e adoça tua alma! À noite, a saber, queremos nós dois estar de bom

ânimo,

- de bom ânimo e alegres por este dia ter chegado ao fim! E tu mesmo

deverás dançar ao som de minhas canções como meu urso dançante.

Não acreditas nisso? Balanças a cabeça? Pois bem! Ânimo! Velho urso!

Mas também eu - sou um adivinho."

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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