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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 66 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

A Sanguessuga

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A Sanguessuga

E Zaratustra seguiu pensativo, adiante e mais para baixo, através de florestas e passando

por terras pantanosas; mas, como acontece a todo aquele que pensa em coisas pesadas,

pisou sem perceber em cima de um homem. E vede, de repente

espirraram-lhe no rosto um grito de dor e duas maldições e vinte

palavrões ruins: de modo que, em seu susto, ergueu o

bastão e ainda golpeou o pisado. Logo depois, porém,

voltou-lhe o juízo; e seu coração riu da tolice que acabara de cometer.

"Perdoa", disse ele ao pisado, que se havia erguido e sentado

furioso, "perdoa e antes de tudo ouve primeiro uma parábola.

Como um andarilho que sonha com coisas distantes, sem perceber, numa estrada solitária,

esbarra num cão adormecido, um cão deitado ao sol:

- como ali ambos saltam, investem um contra o outro, como inimigos mortais,

esses dois assustados até a morte: assim nos aconteceu.

E contudo! E contudo - quão pouco faltou para que se acariciassem,

esse cão e esse solitário! Pois ambos são - solitários!"

- "Sejas quem fores", disse ainda furioso o pisado, "também com tua

parábola me pisas perto demais, e não apenas com teu pé!

Vê, sou eu acaso um cão?" - e, dizendo isso, o sentado se levantou e

puxou seu braço nu para fora do pântano. Pois primeiro ele jazia estendido no

chão, oculto e irreconhecível como aqueles que espreitam uma caça do pântano.

"Mas que fazes tu aí!", gritou Zaratustra assustado, pois viu que

muito sangue corria pelo braço nu - "que te aconteceu? Mordeu-te,

infeliz, uma besta má?"

O sangrante riu, ainda encolerizado. "Que te importa!", disse ele

e quis seguir adiante. "Aqui estou em casa e em meu domínio. Que me

pergunte quem quiser: a um bronco, porém, dificilmente responderei."

"Enganas-te", disse Zaratustra compassivo e segurou-o, "enganas-te: aqui não estás

em tua casa, mas em meu reino, e nele ninguém deve sofrer

dano por minha causa.

Chama-me, porém, como quiseres - sou quem devo ser. Eu

mesmo me chamo Zaratustra.

Pois bem! Para lá em cima vai o caminho até a caverna de Zaratustra: ela não está

longe - não queres junto a mim cuidar de tuas feridas?

Foi-te mal, infeliz, nesta vida: primeiro te mordeu a besta,

e depois - pisou-te o homem!" -

Mas quando o pisado ouviu o nome de Zaratustra, transformou-se.

"Que me acontece!", exclamou ele, "quem ainda me importa

nesta vida, senão este único homem, a saber, Zaratustra, e aquele único

animal que vive do sangue, a sanguessuga?

Por causa da sanguessuga eu jazia aqui neste pântano como um pescador, e já

meu braço pendurado fora mordido dez vezes, quando ainda morde meu sangue

uma sanguessuga mais bela, o próprio Zaratustra!

Ó felicidade! Ó maravilha! Louvado seja este dia que me atraiu a este pântano!

Louvada seja a melhor e mais viva ventosa que hoje vive, louvada seja

a grande sanguessuga-da-consciência Zaratustra!" -

Assim falou o pisado; e Zaratustra alegrou-se com suas palavras e

com seu modo fino e reverente. "Quem és tu?", perguntou ele e estendeu-lhe a mão;

"entre nós ainda resta muito a esclarecer e alegrar: mas já, parece-me,

torna-se mais puro e claro o dia."

"Sou o consciencioso do espírito", respondeu o interrogado, "e em

coisas do espírito dificilmente alguém as toma mais severa, estreita e duramente que

eu, exceto aquele de quem aprendi, o próprio Zaratustra.

Antes nada saber do que saber muita coisa pela metade! Antes ser tolo por conta própria

do que sábio segundo o parecer alheio! Eu - vou ao fundo:

- que importa se ele é grande ou pequeno? Se se chama pântano ou céu?

Uma palma de fundo me basta: contanto que seja realmente fundo e

chão!

- uma palma de fundo: sobre ela se pode ficar de pé. Na verdadeira

conscienciosidade do saber não há nada grande e nada pequeno."

"Então talvez sejas o conhecedor da sanguessuga?", perguntou Zaratustra; "e

persegues a sanguessuga até seus últimos fundamentos, tu, consciencioso?"

"Ó Zaratustra", respondeu o pisado, "isso seria monstruoso, como me

atreveria a tal!

Aquilo, porém, de que sou mestre e conhecedor é o cérebro da

sanguessuga: - esse é meu mundo!

E também é um mundo! Perdoa, porém, que aqui meu orgulho tome a palavra,

pois aqui não tenho igual. Por isso falei: 'aqui estou

em casa.'

Há quanto tempo já persigo este Um, o cérebro da sanguessuga, para que

a escorregadia verdade aqui não me escape mais! Aqui é meu

reino!

- por isso lancei fora todo o resto, por isso todo o resto se tornou

igual para mim; e bem junto de meu saber acampa minha negra ignorância.

Minha consciência do espírito quer de mim que eu saiba Uma coisa e, fora disso,

nada saiba: dá-me nojo todos os meios do espírito, todos os enevoados,

flutuantes, exaltados.

Onde minha retidão cessa, sou cego e também quero ser cego. Onde eu,

porém, quero saber, quero também ser reto, isto é, duro, severo, estreito,

cruel, inexorável.

Que outrora disseste, ó Zaratustra: 'Espírito é a vida que

corta na própria vida', isso me conduziu e seduziu para

tua doutrina. E, em verdade, com meu próprio sangue aumentei meu próprio saber!"

- "Como ensina a evidência", interrompeu Zaratustra; pois ainda corria

sangue pelo braço nu do consciencioso. Dez

sanguessugas, a saber, haviam se cravado nele.

"Ó companheiro singular, quanto me ensina esta evidência aí, a saber,

tu mesmo! E talvez eu não pudesse derramar tudo em teus ouvidos rigorosos!

Pois bem! Separemo-nos aqui. Mas eu gostaria de reencontrar-te. Para lá

em cima leva o caminho até minha caverna: esta noite deverás ser ali meu caro

hóspede!

Também gostaria de reparar em teu corpo o fato de

Zaratustra ter-te pisado com os pés: nisso penso. Agora, porém, chama-me

às pressas para longe de ti um grito de socorro."

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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