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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 69 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

O Homem Mais Feio

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O Homem Mais Feio

- E de novo os pés de Zaratustra correram por montanhas e florestas, e

seus olhos procuravam e procuravam, mas em parte alguma se via aquele que eles

queriam ver, o grande sofredor de necessidade e gritador de socorro. Por todo o caminho,

porém, ele jubilava em seu coração e era grato. "Que boas coisas",

falou, "me deu este dia, em recompensa por ter começado mal!

Que estranhos interlocutores encontrei!

Em suas palavras quero agora mastigar longamente, como em bons grãos; pequeno

meu dente deve moê-las e triturá-las, até que me corram como leite para a alma!" -

Quando, porém, o caminho dobrou novamente em torno de um rochedo, a paisagem transformou-se de repente,

e Zaratustra entrou num reino da morte. Ali se erguiam rígidas falésias negras

e vermelhas: nenhuma grama, nenhuma árvore, nenhuma voz de pássaro. Era,

a saber, um vale que todos os animais evitavam, também os predadores - salvo que

uma espécie de serpentes feias, gordas e verdes, quando envelheciam, vinha até aqui

para morrer. Por isso os pastores chamavam esse vale: Morte das Serpentes.

Zaratustra, porém, afundou numa lembrança negra, pois lhe parecia que já

uma vez estivera nesse vale. E muita coisa pesada lhe pousou sobre

o espírito: de modo que caminhava devagar, e cada vez mais devagar, e por fim

parou. Então, porém, quando abriu os olhos, viu Algo sentado à beira do caminho,

formado como um homem e mal como um homem, algo inexprimível. E

de um só golpe assaltou Zaratustra a grande vergonha por ter visto com os olhos

tal coisa: ruborizando até o alto de seus cabelos brancos, desviou

o olhar e ergueu o pé para deixar aquele lugar ruim. Então,

porém, o ermo morto tornou-se sonoro: do chão, a saber, brotou algo borbulhante e

resfolegante, como água que à noite borbulha e resfolega por canos entupidos;

e por fim disso nasceu uma voz humana e fala humana: - ela

soava assim.

"Zaratustra! Zaratustra! Adivinha meu enigma! Fala, fala! Que é a

vingança contra a testemunha?

Atraio-te de volta, aqui há gelo liso! Vê, vê, se teu orgulho

não quebra aqui as pernas!

Julgas-te sábio, orgulhoso Zaratustra! Então adivinha o enigma, tu,

duro quebra-nozes - o enigma que eu sou! Então fala - quem

sou eu!"

- Quando, porém, Zaratustra ouviu estas palavras - que acreditais

que aconteceu então com sua alma? A compaixão o assaltou; e ele

caiu de repente, como um carvalho que por muito tempo resistiu a muitos lenhadores -

pesado, súbito, tornando-se ele mesmo susto para aqueles que

queriam derrubá-lo. Mas já se erguia novamente do chão, e seu rosto

tornou-se duro.

"Reconheço-te bem", falou com voz de bronze: "tu és o assassino

de Deus! Deixa-me ir.

Não suportaste Aquele que te via - que te via sempre e

por inteiro, tu, homem mais feio! Tomaste vingança dessa testemunha!"

Assim falou Zaratustra e quis ir embora; mas o Inexprimível agarrou

uma ponta de sua veste e começou de novo a borbulhar e a procurar palavras.

"Fica!", disse enfim -

- "fica! Não passes ao largo! Adivinhei que machado te lançou ao chão:

salve, ó Zaratustra, por estares novamente de pé!

Adivinhaste, eu bem sei, como se sente aquele que o

matou - o assassino de Deus. Fica! Senta-te aqui junto de mim, não foi

em vão.

A quem eu iria, senão a ti? Fica, senta-te! Mas não me

olhes! Honra assim - minha feiura!

Eles me perseguem: agora és meu último refúgio. Não com

seu ódio, não com seus caçadores: - oh, de tal perseguição

eu zombaria, e seria orgulhoso e alegre!

Não esteve todo sucesso até agora com os bem-perseguidos? E quem persegue bem

aprende facilmente a seguir: - afinal já está uma vez - atrás! Mas sua

compaixão é que -

- sua compaixão é que me faz fugir e refugiar-me em ti. Ó

Zaratustra, protege-me, tu, meu último refúgio, tu, único que me

adivinhaste:

- adivinhaste como se sente aquele que o matou. Fica!

E se queres ir, tu, impaciente: não vás pelo caminho de onde vim. O

caminho é ruim.

Iras-te comigo por eu já há tempo demais falar-tropeçar? Por eu já te

aconselhar? Mas sabe, sou eu, o homem mais feio,

- que tem também os maiores e mais pesados pés. Por onde andei,

o caminho é ruim. Piso todos os caminhos até a morte e a desgraça.

Mas que passasses ao largo de mim, silencioso; que ruborizasses, eu bem vi:

por isso te reconheci como Zaratustra.

Qualquer outro me teria lançado sua esmola, sua compaixão, com olhar

e fala. Mas para isso - não sou mendigo o bastante, isso adivinhaste -

- para isso sou rico demais, rico em grandeza, em coisa terrível, no

mais feio, no mais inexprimível! Tua vergonha, ó Zaratustra, honrou-me!

Com dificuldade saí do aperto dos compassivos - para que encontrasse

o único que hoje ensina: 'compaixão é

intrometida' - a ti, ó Zaratustra!

- seja compaixão de um Deus, seja dos homens: compaixão vai contra

a vergonha. E não-querer-ajudar pode ser mais nobre que aquela virtude que

salta para ajudar.

Mas isto hoje se chama a própria virtude entre todas as pessoas pequenas,

a compaixão: - elas não têm reverência diante de grande infortúnio, diante de grande

feiura, diante de grande malogro.

Por cima de todos esses olho para longe, como um cão olha por sobre as costas de

rebanhos fervilhantes de ovelhas. São pessoas pequenas, bem-intencionadas, bem-querentes, cinzentas.

Como uma garça olha com desprezo por sobre lagoas rasas, com a cabeça recolhida:

assim olho para longe, por cima do fervilhar de pequenas ondas, vontades e

almas cinzentas.

Por tempo demais se deu razão a elas, a essas pessoas pequenas: assim se deu

a elas por fim também o poder - agora ensinam: 'bom é apenas o que

as pessoas pequenas chamam bom.'

E 'verdade' chama-se hoje aquilo que falou o pregador que veio ele mesmo

do meio delas, aquele santo singular e defensor das pessoas pequenas,

que testemunhou de si: 'eu - sou a verdade.'

Esse imodesto há muito já faz inchar a crista das pessoas pequenas -

ele, que não ensinou pequeno erro algum quando ensinou:

'eu - sou a verdade.'

Já se respondeu alguma vez a um imodesto com mais cortesia? - Tu, porém, ó

Zaratustra, passaste ao largo dele e disseste: 'Não! Não! Três vezes

Não!'

Advertiste contra seu erro, advertiste como o primeiro contra a

compaixão - não todos, não ninguém, mas a ti e à tua espécie.

Tu te envergonhas da vergonha do grande sofredor; e, em verdade, quando

dizes: 'da compaixão vem uma grande nuvem, cuidado,

ó homens!'

- quando ensinas: 'todos os criadores são duros, todo grande amor está

acima de sua compaixão': ó Zaratustra, como me pareces bem instruído

em sinais do tempo!

Mas tu mesmo - adverte-te também contra tua compaixão! Pois

muitos estão a caminho para ti, muitos sofredores, duvidosos, desesperados,

afogados, enregelados -

Também te advirto contra mim. Adivinhaste meu melhor, pior enigma,

a mim mesmo e aquilo que fiz. Conheço o machado que te derruba.

Mas ele - teve de morrer: via com olhos que tudo

viam - via as profundezas e fundos do homem, toda sua vergonha

e feiura ocultas.

Sua compaixão não conhecia vergonha: rastejava para dentro de meus cantos mais sujos.

Esse curiosíssimo, superintrometido, supercompassivo teve de morrer.

Via-me sempre: de tal testemunha quis eu vingar-me -

ou então não viver.

O Deus que tudo via, também o homem: esse Deus teve de morrer!

O homem não suporta que tal testemunha viva."

Assim falou o homem mais feio. Zaratustra, porém, levantou-se e preparou-se

para ir embora: pois sentia frio até as entranhas.

"Tu, Inexprimível", disse ele, "advertiste-me contra teu caminho. Em agradecimento

por isso, recomendo-te o meu. Vê, lá em cima fica a caverna

de Zaratustra.

Minha caverna é grande e profunda e tem muitos cantos; ali encontra o

mais escondido seu esconderijo. E bem perto dela há cem passagens e

sendas para bichos rastejantes, adejantes e saltitantes.

Tu, expulso, que a ti mesmo expulsaste, não queres morar entre

homens e compaixão humana? Pois bem, faze como eu! Assim

também aprendes de mim; só quem faz aprende.

E fala primeiro e depois com meus animais! O animal mais orgulhoso e o

animal mais prudente - eles bem poderiam ser para nós dois os conselheiros

certos!" -

Assim falou Zaratustra e seguiu seus caminhos, ainda mais pensativo e mais lento

que antes: pois perguntava-se muitas coisas e não sabia facilmente responder a si mesmo.

"Quão pobre é o homem!", pensou em seu coração, "quão feio, quão

resfolegante, quão cheio de vergonha oculta!

Dizem-me que o homem ama a si mesmo: ah, quão grande deve ser esse

amor-de-si! Quanto desprezo tem ele contra si!

Também este aí amava a si mesmo, assim como se desprezava - ele é para mim

um grande amante e um grande desprezador.

Ainda não encontrei ninguém que se desprezasse mais fundo: também isso é

altura. Ai, talvez fosse este o homem superior cujo grito

ouvi?

Amo os grandes desprezadores. O homem, porém, é algo que deve ser superado." -

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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