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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 71 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

A Sombra

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A Sombra

Mal, porém, o mendigo voluntário havia fugido e Zaratustra estava de novo

sozinho consigo, ouviu atrás de si uma nova voz: ela gritava: "Alto!

Zaratustra! Espera, pois! Sou eu, ó Zaratustra, eu, tua

sombra!" Mas Zaratustra não esperou, pois uma súbita contrariedade

o acometeu por causa de tanto afluxo e aperto em suas montanhas. "Para onde foi minha

solidão?", falou.

"Em verdade, isto já é demais para mim; estas montanhas fervilham, meu reino já não é mais

deste mundo, preciso de novas montanhas.

Minha sombra me chama? Que importa minha sombra! Que corra atrás de mim!

eu - corro para longe dela." -

Assim falou Zaratustra a seu coração e fugiu. Mas aquele que

estava atrás dele o seguia: de modo que logo havia três corredores correndo um atrás do outro,

a saber: à frente o mendigo voluntário, depois Zaratustra, e em terceiro

e último sua sombra. Não correram assim por muito tempo, quando Zaratustra tomou

consciência de sua tolice e sacudiu de si, com um só arranco, toda contrariedade e

todo fastio.

"Como!", falou ele, "não aconteceram desde sempre as coisas mais ridículas entre nós, velhos

eremitas e santos?

Em verdade, minha tolice cresceu alto nas montanhas! Agora ouço seis velhas

pernas de tolo batendo umas atrás das outras!

Mas pode Zaratustra acaso temer uma sombra? Além disso, parece-me no fim das contas

que ela tem pernas mais compridas que eu."

Assim falou Zaratustra, rindo com olhos e entranhas, parou e

virou-se rapidamente - e vede, quase derrubou com isso seu seguidor

e sombra: tão perto este já o seguia nos calcanhares, e

tão fraco também estava. Pois, quando o examinou com os olhos, assustou-se como

diante de um fantasma repentino: tão magro, escuro, oco e gasto parecia

esse seguidor.

"Quem és tu?", perguntou Zaratustra com veemência, "que fazes aqui? E por que

chamas a ti mesmo minha sombra? Não me agradas."

"Perdoa-me", respondeu a sombra, "por eu ser eu; e se não te

agrado, pois bem, ó Zaratustra! nisso louvo a ti e a teu bom

gosto.

Sou um andarilho que já andou muito atrás de teus calcanhares: sempre

a caminho, mas sem alvo, também sem lar: de modo que, em verdade, pouco me

falta para ser o judeu eterno, salvo que não sou eterno, nem judeu.

Como? Devo estar sempre a caminho? Rodopiado por todo vento, instável,

impelido para longe? Ó terra, tornaste-te redonda demais para mim!

Já me sentei sobre toda superfície; como pó cansado adormeci sobre

espelhos e vidraças: tudo tira de mim, nada dá, torno-me

magro - quase me igualo a uma sombra.

A ti, porém, ó Zaratustra, voei e fui atrás por mais tempo; e, embora me

escondesse de ti, fui contudo tua melhor sombra: onde quer que

te sentaste, sentei-me também.

Contigo vagueei pelos mundos mais distantes e mais frios, como um fantasma

que voluntariamente corre sobre telhados de inverno e neve.

Contigo aspirei a tudo o que é proibido, pior, mais distante: e se há alguma

virtude em mim, é que não tive medo de nenhuma proibição.

Contigo quebrei tudo o que um dia meu coração venerou, derrubei todos os

marcos de fronteira e imagens, corri atrás dos desejos mais perigosos - em verdade,

uma vez corri para além de todo crime.

Contigo desaprendi a fé em palavras e valores e grandes nomes. Quando

o diabo troca de pele, não lhe cai também o nome? pois este também é

pele. O próprio diabo talvez seja - pele.

'Nada é verdadeiro, tudo é permitido': assim falei a mim mesmo. Nas

águas mais frias me precipitei, com cabeça e coração. Ah, quantas vezes fiquei

por isso nu como um caranguejo vermelho!

Ah, para onde foi todo o meu bem e toda a vergonha e toda fé nos bons!

Ah, para onde foi aquela inocência mentirosa que outrora possuí, a inocência dos

bons e de suas nobres mentiras!

Vezes demais, em verdade, segui a verdade de perto, nos calcanhares: então ela me

pisou na cabeça. Às vezes pensei mentir, e vede! somente então encontrei

- a verdade.

Coisa demais se esclareceu para mim: agora nada mais me importa. Nada vive mais

que eu ame - como haveria eu ainda de amar a mim mesmo?

'Viver como tenho vontade, ou não viver': assim quero,

assim também o quer o mais santo. Mas, ai! como tenho eu ainda

- vontade?

Tenho eu - ainda um alvo? Um porto para o qual minha vela

corre?

Um bom vento? Ah, só quem sabe para onde navega sabe também

qual vento é bom e seu vento favorável.

Que me restou ainda? Um coração cansado e atrevido; uma vontade instável;

asas tremulantes; uma espinha quebrada.

Esta busca por meu lar: ó Zaratustra, bem sabes, esta

busca foi minha visitação, ela me devora.

'Onde está - meu lar?' Por isso pergunto e procuro e procurei,

isso não encontrei. Ó eterno Em-toda-parte, ó eterno Em-nenhum-lugar, ó

eterno - Em-vão!"

Assim falou a sombra, e o rosto de Zaratustra se alongou com

suas palavras. "Tu és minha sombra!", disse ele enfim, com tristeza.

"Teu perigo não é pequeno, tu, livre espírito e andarilho! Tiveste um

dia ruim: vê que não te venha ainda uma noite pior!

Aos instáveis como tu, por fim, até uma prisão parece bem-aventurada. Viste alguma vez

como dormem criminosos presos? Dormem tranquilos, gozam sua nova

segurança.

Guarda-te para que no fim não te capture ainda uma fé estreita, uma dura,

severa ilusão! Pois agora te seduz e tenta tudo o que é estreito

e firme.

Perdeste o alvo: ai, como hás de zombar dessa perda e

sofrê-la? Com isso - perdeste também o caminho!

Tu, pobre errante, exaltado, borboleta cansada! queres esta

noite ter um repouso e pousada? Então sobe à minha caverna!

Para lá leva o caminho até minha caverna. E agora quero fugir depressa de novo

para longe de ti. Já pesa sobre mim como uma sombra.

Quero correr sozinho, para que volte a clarear ao meu redor. Para isso preciso ainda

ficar alegre sobre as pernas por muito tempo. À noite, porém, em minha casa -

dançar-se-á!" -

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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