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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 74 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

A Ceia

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A Ceia

Nesse ponto, com efeito, o Adivinho interrompeu a saudação de Zaratustra

e de seus hóspedes: ele se empurrou para a frente, como alguém que não tem

tempo a perder, tomou a mão de Zaratustra e gritou: "Mas

Zaratustra!

Uma coisa é mais necessária que outra, assim falas tu mesmo: muito bem, uma

coisa agora me é mais necessária que todas as outras.

Uma palavra no tempo certo: não me convidaste à refeição? E aqui

há muitos que fizeram longos caminhos. Não pretendes nos alimentar apenas com

discursos?

Também todos vós já pensastes demais em congelamento, afogamento,

sufocamento e outras necessidades corporais: mas ninguém pensou em minha

necessidade, a saber, morrer de fome -"

(Assim falou o Adivinho; quando, porém, os animais de Zaratustra ouviram essas

palavras, fugiram apavorados. Pois viram que tudo quanto haviam trazido

para casa durante o dia não bastaria para entupir sequer o Adivinho.)

"Incluindo morrer de sede", prosseguiu o Adivinho. "E embora eu já ouça

água marulhar aqui, como discursos da sabedoria, isto é, abundante e

incansavelmente: eu - quero vinho!

Nem todo mundo é, como Zaratustra, um bebedor de água nato. Água tampouco

serve para cansados e murchos: a nós cabe vinho - só ele dá

convalescença súbita e saúde de improviso!"

Nessa ocasião, quando o Adivinho desejou vinho, aconteceu que também o rei

da esquerda, o Silencioso, tomou uma vez a palavra. "De vinho",

disse ele, "cuidamos nós, eu e meu irmão, o rei da

direita: temos vinho bastante - um burro inteiro carregado dele. Assim, nada

falta senão pão."

"Pão?", respondeu Zaratustra, e riu ao dizê-lo. "Justamente pão é o que

eremitas não têm. Mas o homem não vive só de pão, e sim também da carne

de bons cordeiros, dos quais tenho dois:

- Que sejam depressa abatidos e preparados com tempero, com sálvia:

assim é que eu gosto. E tampouco faltam raízes e frutos,

bons o bastante até para gulodices e paladares delicados; nem nozes e

outros enigmas de quebrar.

Assim, em breve faremos uma boa refeição. Mas quem quiser comer junto

também deve pôr a mão à obra, inclusive os reis. Pois junto de Zaratustra

também um rei pode ser cozinheiro."

Com essa proposta, todos tiveram o coração atendido: só o mendigo voluntário

se insurgiu contra carne, vinho e temperos.

"Ora, ouvi-me este glutão Zaratustra!", disse ele brincando. "É para isso

que se vai a cavernas e altas montanhas, para fazer tais refeições?

Agora, sem dúvida, entendo o que um dia ele nos ensinou: 'Louvada seja a

pequena pobreza!' E por que quer abolir os mendigos."

"Tem bom ânimo", respondeu-lhe Zaratustra, "como eu o tenho. Permanece em teu

costume, tu, excelente, mói teus grãos, bebe tua água, louva tua cozinha:

desde que ela te faça alegre!

Sou uma lei apenas para os meus, não sou lei para todos. Mas quem

pertence a mim deve ser de ossos fortes, também de pés leves -

- alegre para guerras e festas, nenhum sombrio, nenhum João-dos-sonhos, pronto

para o mais pesado como para sua festa, são e íntegro.

O melhor pertence aos meus e a mim; e, se não no-lo dão, então o tomamos:

- o melhor alimento, o céu mais puro, os pensamentos mais fortes,

as mais belas mulheres!"

Assim falou Zaratustra; o rei da direita, porém, respondeu: "Estranho!

Ouviu-se alguma vez coisas tão sábias da boca de um sábio?

E, em verdade, isto é o mais estranho em um sábio: quando, apesar de tudo isso,

ele ainda é sagaz e não é um burro."

Assim falou o rei da direita e maravilhou-se; o burro, porém, disse a seu

discurso, de má vontade, I-A. Mas este foi o começo daquela longa refeição

que, nos livros de história, é chamada "a Ceia". Nela, porém, não se

falou de outra coisa senão do homem superior.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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