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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 81 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

A Canção do Sonâmbulo

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A Canção do Sonâmbulo

1.

Entrementes, porém, um após outro havia saído para fora, para o ar livre e para

a noite fresca e pensativa; o próprio Zaratustra conduzia o homem mais feio

pela mão, para lhe mostrar seu mundo noturno e a grande lua redonda e as quedas

d'água prateadas junto de sua caverna. Ali, por fim, ficaram parados uns junto

dos outros, todos gente velha, mas com o coração consolado e valente, e

admirados consigo mesmos de que se sentissem tão bem sobre a terra; o segredo

da noite, porém, aproximava-se cada vez mais de seus corações. E de novo

Zaratustra pensou consigo: "oh, como agora me agradam, estes homens superiores!"

- mas não o disse, pois honrava sua felicidade e seu silêncio. -

Então, porém, aconteceu aquilo que naquele espantoso longo dia foi o mais

espantoso: o homem mais feio começou ainda uma vez, e pela última vez, a

gorgolejar e bufar, e quando conseguiu chegar a palavras, eis que de sua boca

saltou uma pergunta redonda e limpa, uma pergunta boa, profunda e clara, que

moveu o coração no corpo de todos os que o ouviam.

"Meus amigos todos", falou o homem mais feio, "que vos parece? Por causa deste

dia - pela primeira vez estou satisfeito por ter vivido a vida inteira.

E que eu testemunhe tanto ainda não me basta. Vale a pena viver sobre a terra:

Um dia, Uma festa com Zaratustra ensinou-me a amar a terra.

'Foi isto - a vida?' quero dizer à morte.

'Muito bem! Mais uma vez!'

Meus amigos, que vos parece? Não quereis, como eu, dizer à morte: Foi isto -

a vida? Por amor a Zaratustra, muito bem! Mais uma vez!" -

Assim falou o homem mais feio; mas não faltava muito para a meia-noite. E que

acreditais que então aconteceu? Assim que os homens superiores ouviram sua

pergunta, tornaram-se de repente conscientes de sua transformação e

convalescença, e de quem lhes havia dado isso: então saltaram em direção a

Zaratustra, agradecendo, venerando, acariciando, beijando-lhe as mãos, cada qual

segundo sua própria espécie: de modo que alguns riam, outros choravam. O velho

Adivinho, porém, dançava de prazer; e embora, como pensam alguns narradores,

estivesse então cheio de doce vinho, com certeza estava ainda mais cheio da doce

vida e havia renunciado a todo cansaço. Há até quem conte que então o burro

dançou: pois não fora em vão que o homem mais feio lhe dera antes vinho para

beber. Isto pode ter sido assim ou de outro modo; e, se em verdade naquela noite

o burro não dançou, aconteceram então milagres maiores e mais estranhos do que

seria a dança de um burro. Em suma, como diz o provérbio de Zaratustra: "que

importa isso!"

2.

Zaratustra, porém, quando isso aconteceu com o homem mais feio, ali ficou como

um bêbado: seu olhar se apagou, sua língua balbuciava, seus pés vacilavam. E

quem poderia adivinhar que pensamentos corriam então sobre a alma de

Zaratustra? Visivelmente, porém, seu espírito recuava e fugia adiante, e estava

em longes distantes e, por assim dizer, "sobre alto jugo, como está escrito,

entre dois mares,

- caminhando como nuvem pesada entre passado e futuro."

Pouco a pouco, porém, enquanto os homens superiores o seguravam nos braços,

voltou um pouco a si mesmo e afastou com as mãos a multidão dos veneradores e

preocupados; contudo, não falou. De repente, porém, virou rapidamente a cabeça,

pois parecia ouvir algo: então pôs o dedo sobre a boca e falou: "Vinde!"

E logo tudo ao redor ficou silencioso e secreto; da profundeza, porém, subia

lentamente o som de um sino. Zaratustra escutou-o, como também os homens

superiores; depois, porém, pôs pela segunda vez o dedo sobre a boca e falou de

novo: "Vinde! Vinde! Vai para a meia-noite!" - e sua voz se havia transformado.

Mas ainda não se movia do lugar: então tudo ficou ainda mais silencioso e

secreto, e tudo escutava, também o burro, e os animais de honra de Zaratustra,

a águia e a serpente, igualmente a caverna de Zaratustra e a grande lua fria e

a própria noite. Zaratustra, porém, pôs pela terceira vez a mão sobre a boca e

falou:

Vinde! Vinde! Vinde! Caminhemos agora! É a hora: caminhemos para dentro da noite!

3.

Vós, homens superiores, vai para a meia-noite: quero então dizer-vos algo ao

ouvido, como aquele velho sino o diz ao meu ouvido -

- tão secreto, tão terrível, tão cordial, como fala comigo aquele sino da

meia-noite, que viveu mais que um homem:

- que já contou as batidas de dor do coração de vossos pais - ai! ai! como

ele suspira! como ri em sonho! a velha, profunda, profunda meia-noite!

Silêncio! Silêncio! Agora se ouve muita coisa que de dia não deve ficar alta;

agora, porém, no ar fresco, quando também todo ruído de vossos corações se

calou -

- agora ela fala, agora ela se ouve, agora ela se insinua em almas noturnas

superdespertas: ai! ai! como suspira! como ri em sonho!

- não ouves como ela fala secretamente, terrivelmente, cordialmente contigo, a

velha, profunda, profunda meia-noite? Ó homem, presta atenção!

4.

Ai de mim! Para onde foi o tempo? Não afundei em poços profundos? O mundo

dorme -

Ai! Ai! O cão uiva, a lua brilha. Antes quero morrer, morrer, que vos dizer o

que meu coração de meia-noite pensa agora.

Agora já morri. Foi-se. Aranha, que teces em torno de mim? Queres sangue? Ai!

Ai! cai o orvalho, vem a hora -

- a hora em que tremo e gelo, que pergunta e pergunta e pergunta:

"quem tem coração bastante para isso?

- quem deve ser senhor da terra? Quem quer dizer: assim deveis correr, grandes

e pequenos rios!"

- a hora se aproxima: ó homem, tu, homem superior, presta atenção! esta fala é

para ouvidos finos, para teus ouvidos: que diz a profunda meia-noite?

5.

Ela me leva para longe, minha alma dança. Obra do dia! Obra do dia! Quem deve

ser senhor da terra?

A lua está fria, o vento cala. Ai! Ai! Já voastes alto o bastante? Dançastes:

mas uma perna ainda não é asa.

Vós, bons dançarinos, agora todo prazer passou, vinho tornou-se borra, todo

cálice tornou-se quebradiço, os túmulos balbuciam.

Não voastes alto o bastante: agora balbuciam os túmulos: "redimi, pois, os

mortos! Por que é tão longa a noite? A lua não nos embriaga?"

Vós, homens superiores, redimi, pois, os túmulos, despertai os cadáveres! Ah,

que escava ainda o verme? Aproxima-se, aproxima-se a hora -

- o sino zune, o coração ainda range, ainda escava o caruncho, o verme do

coração. Ai! Ai! O mundo é profundo!

6.

Doce lira! Doce lira! Amo teu som, teu som bêbado de sapo! - de quanto tempo,

de quão longe me chega teu som, de longe, dos lagos do amor!

Tu, velho sino, tu, doce lira! Toda dor rasgou-te o coração, dor de pai, dor de

pais, dor de antepassados; tua fala amadureceu -

- madura como outono dourado e tarde, como meu coração de eremita - agora falas:

o próprio mundo tornou-se maduro, a uva escurece,

- agora quer morrer, morrer de felicidade. Vós, homens superiores, não o

sentis pelo cheiro? Sobe secretamente um aroma,

- um perfume e cheiro de eternidade, um rosado, bem-aventurado, marrom cheiro de

vinho dourado de velha felicidade,

de bêbada felicidade de morrer à meia-noite, que canta: o mundo é profundo e

mais profundo do que o dia pensou!

7.

Deixa-me! Deixa-me! Sou puro demais para ti. Não me toques! Meu mundo não se

tornou perfeito agora mesmo?

Minha pele é pura demais para tuas mãos. Deixa-me, tu, dia tolo, grosseiro e

abafado! A meia-noite não é mais clara?

Os mais puros devem ser senhores da terra, os mais desconhecidos, os mais

fortes, as almas da meia-noite, que são mais claras e mais profundas que todo

dia.

Ó dia, apalpas em busca de mim? Tateias em busca de minha felicidade? Sou rico

para ti, solitário, uma mina de tesouro, uma câmara de ouro?

Ó mundo, tu me queres? Sou mundano para ti? Sou espiritual para ti?

Sou divino para ti? Mas, dia e mundo, sois grosseiros demais -

- tende mãos mais sagazes, buscai felicidade mais profunda, infelicidade mais

profunda, buscai algum Deus, não busqueis a mim:

- minha infelicidade, minha felicidade é profunda, tu, dia estranho, mas ainda

assim não sou Deus, nem inferno de Deus: profunda é sua dor.

8.

A dor de Deus é mais profunda, tu, mundo estranho! Busca a dor de Deus, não a

mim! Que sou eu! Uma bêbada doce lira -

uma lira da meia-noite, um sapo-sino, que ninguém entende, mas que precisa

falar, diante de surdos, vós, homens superiores! Pois não me entendeis!

Para lá! Para lá! Ó juventude! Ó meio-dia! Ó tarde! Agora veio noite e

meia-noite - o cão uiva, o vento:

- não é o vento um cão? Ele ganhe, ele ladra, ele uiva. Ai! Ai! como suspira!

como ri, como arqueja e ofega, a meia-noite!

Como ela fala sobriamente agora, esta poetisa bêbada! acaso ultrapassou sua

embriaguez? tornou-se superdesperta? rumina de volta?

- sua dor rumina de volta, em sonho, a velha, profunda meia-noite, e ainda mais

seu prazer. Pois prazer, ainda que a dor seja profunda: prazer é mais profundo

ainda que sofrimento do coração.

8.

Tu, videira! Por que me louvas? Eu te cortei, afinal! Sou cruel, tu sangras -:

que quer teu louvor de minha crueldade bêbada?

"Aquilo que se tornou perfeito, todo maduro - quer morrer!" assim falas.

Bendita, bendita seja a faca do vinheiro! Mas tudo que é imaturo quer viver:

ai!

A dor fala: "Passa! Vai embora, dor!" Mas tudo o que sofre quer viver, para que

se torne maduro, alegre e saudoso,

- saudoso de algo mais distante, mais alto, mais claro. "Quero herdeiros", assim

fala tudo o que sofre, "quero filhos, não quero a mim" -

O prazer, porém, não quer herdeiros, nem filhos - prazer quer a si mesmo, quer

eternidade, quer retorno, quer tudo eternamente igual a si.

A dor fala: "Parte, sangra, coração! Anda, perna! Asa, voa! Para cima! Para o

alto! Dor!" Muito bem! Para cima! Ó meu velho coração: a dor fala: "passa!"

10.

Vós, homens superiores, que vos parece? Sou eu um adivinho? Um sonhador?

Bêbado? Um intérprete de sonhos? Um sino da meia-noite?

Uma gota de orvalho? Um vapor e perfume da eternidade? Não o ouvis?

Não o sentis pelo cheiro? Justamente agora meu mundo se tornou perfeito, meia-noite

é também meio-dia -

Dor é também um prazer, maldição é também uma bênção, noite é também um sol -

ide embora, ou aprendereis: um sábio é também um louco.

Dissestes alguma vez sim a Um prazer? Ó meus amigos, então dissestes Sim também

a toda dor. Todas as coisas estão encadeadas, enredadas, enamoradas -

- se alguma vez quisestes Uma vez Duas vezes, se alguma vez falastes "tu me

agradas, felicidade! Zás! instante!", então quisestes tudo de volta!

- tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, enredado, enamorado, oh, então

amastes o mundo -

- vós, eternos, amai-o eternamente e por todo o tempo: e também à dor dizei:

passa, mas volta! Pois todo prazer quer - eternidade!

11.

Todo prazer quer a eternidade de todas as coisas, quer mel, quer borra, quer

bêbada meia-noite, quer túmulos, quer consolo de lágrimas de túmulos, quer

crepúsculo dourado -

- que não quer o prazer! ele é mais sedento, mais cordial, mais faminto,

mais terrível, mais secreto que toda dor, quer a si mesmo, morde em si mesmo,

a vontade do anel luta nele -

- quer amor, quer ódio, é super-rico, dá, lança fora, mendiga que alguém o tome,

agradece ao que recebe, gostaria de ser odiado -

- tão rico é o prazer que tem sede de dor, de inferno, de ódio, de vergonha,

do aleijado, de mundo - pois este mundo, oh, vós o conheceis!

Vós, homens superiores, por vós anseia ele, o prazer, o indomável,

bem-aventurado - por vossa dor, vós, malogrados! Por tudo que malogrou anseia

todo prazer eterno.

Pois todo prazer quer a si mesmo, por isso quer também sofrimento do coração!

Ó felicidade, ó dor! Ó parte, coração! Vós, homens superiores, aprendei isto:

prazer quer eternidade,

- prazer quer a eternidade de todas as coisas, quer profunda, profunda

eternidade!

12.

Aprendestes agora minha canção? Adivinhastes o que ela quer? Muito bem! Para

cima! Vós, homens superiores, cantai-me agora meu canto circular!

Cantai-me agora vós mesmos a canção cujo nome é "Ainda uma vez", cujo sentido é

"por toda a eternidade!", cantai, vós, homens superiores, o canto circular de

Zaratustra!

Ó homem! Presta atenção!

Que diz a profunda meia-noite?

"Eu dormi, eu dormi -,

De profundo sonho despertei: -

O mundo é profundo,

E mais profundo do que o dia pensou.

Profunda é sua dor -,

Prazer - mais profundo ainda que sofrimento do coração:

A dor fala: Passa!

Mas todo prazer quer eternidade,

quer profunda, profunda eternidade!"

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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