Universo da obra
Universo da obra
Em frente à janela do quarto de Licínio a rua vivia cheia de papeizinhos picados. Se acaso alguém se baixasse com curiosidade e tomasse alguns, leria neles “flor agr”, “constanc”, “jo do meu cora”, “Angélic” e outras coisas idênticas. O indiscreto poderia supor que eram bocados de cartas amorosas; mas não! tratava-se de fragmentos de versos. O amor pela mocinha bulira com a veia poetizante de Licínio, que lhe havia já dedicado dezessete sonetos e uma legião de quadrinhas, além de uma poesia comprida em que descrevia a noite do baile, toda estribilhada, na toada do “Marília, escuta”, com estes versinhos saltitantes: “Quando te vi Toda de branco.” Por sinal que a rima em “anco” lhe fizera suar o topete. Em quase todas as estrofes acentuava o seu feitio de flor singela e a contrapunha a Ercília, que vergastava com sarcasmos. Era a bonina perfumosa dos campos, inocente e pura, nívea e casta, etérea e aérea, modesta, sim, mas cheia de um grato encanto natural, que não tinham as outras flores mais pretensiosas (com vistas à outra). Espalhara a esmo alusões vagas ao Bernardes, cheias de “quiçás” melancólicos de um longe ciúme, considerando-o mais digno e… quiçá mais feliz do que ele… Por mais que encarecesse as qualidades de Angélica, Licínio nunca se julgava culpado de exagero. Ela era realmente única, uma
exceção em todo o universo. E por que motivo uma exceção admirável dessas, sendo o mundo tão grande, foi aparecer exatamente num lugarejo ínfimo como Três Barras? Oh, o mais surpreendente dos acasos! Maravilha inexcedível! Ele não podia compreender que houvesse pessoas que se apaixonassem por outras moças. Quando lia nos jornais que fulano casara com beltrana, pasmava-se cheio de dó de um erro desse quilate. Licínio esmoía mais uma vez estas reflexões ao refazer, um dia, a trajetória habitual pela rua do médico. Verdade é que tais reflexões ele as esmoía em qualquer parte e a qualquer hora, “De noite, em doces sonhos que mentiam, De dia em pensamentos que voavam”, chegando a ponto de ocuparem poeticamente seu espírito até nos instantes em que ele se dava aos atos mais prosaicos. Na rua da moça, já chamava a atenção com suas deambulações para lá e para cá, que o faziam parecido a um pêndulo. A comparação é ainda mais verdadeira pela sua tendência em estacionar no justo meio, que era a casa de Angélica. Isto quando acontecia estar à porta o Juca, a quem Licínio dava dois dedos de prosa delicada, recusando por acanhamento o convite para entrar, convite que Juca não deixava de fazer. Naquele dia, ao vê-lo passar na rua, as mesmas caras curiosas acompanharam-no com a vista. O Tristão do alfaiate, que alisava umas calças, deixou o ferro queimando a fazenda, distraído, todo virado para a direção em que vinha o moço. Este, que o viu e cumprimentou, teve pena de o saber apaixonado pela filha do Leôncio, a Augusta Mole-Mole. “Por certo não a ama!”, pensou consigo. Nem podia amá-la! Com exceção de Angélica, no mundo não havia moça capaz de inspirar paixão. “Talvez seja esperança dos seis mil contos do Moto-Contínuo.” Nesse momento seu olhar pousou na fachada deserta do casarão do médico. Apesar de feia, como essa vivenda se diferençava das mais! Tinha um aspecto solene, vetusto e como que dava à rua o seu prestígio.
Pareceu-lhe então ver sumir-se alguém que espiava para fora e cuja presença do primeiro relance ele não notara. Era decerto uma atalaia, porque não tardou as janelas do casarão se atafulharem de muitas caras humanas. O moço encanzinou-se, perdeu a consciência das coisas. Antolhava-se-lhe que não eram seus pés que pisavam as pedras da calçada, e começou a sentir na cabeça suada um alvoroço de caspas comichentas. Acanhado de ver tantos pares de olhos assestados nele, não sabia se devia procurar Angélica com os seus. Foi quando Xanxã, pendurado da primeira janela do sobrado, lhe gritou: — Bom dia, Sr. Licínio! Ele correspondeu, risonho, e teve presença de espírito para cumprimentar os demais. Fê-lo atrapalhadamente, num cumprimento largo que abrangia todas as janelas. (Depois pensou se não teria feito melhor cortejando janela por janela.) Viu Angélica mover delicadamente a cabeça, viu o largo sorriso prazenteiro, de agradar visitas, com que D. Alípia lhe correspondeu à saudação. A matrona estava contente, soubera pelo Juca que Licínio desistira dos estudos, e isto aliviara-lhe o coração do receio de que ele lhe escapulisse como o bandoleiro Bernardes. Licínio não sentiu perfeitamente saciada a sua sede de ver Angélica. A figura da matrona perto dela, sobre ela, como envolvendo-a num gesto de defesa, era um borrão no quadro a que a janela servia de moldura. Ele apressou o passo, infernado pela coceira da caspa, que estava a gritar pelas suas unhas. Um pouco mais adiante ouviu Xanxã berrar outra vez: — Bom dia, Sr. Licínio! — Bom dia — respondeu o moço, desconcertado, voltando-se. E mais além outro: — Bom dia! Era ainda o endiabrado menino. Licínio ficou perplexo, mas resolveu tornar a voltar-se, correspondendo ao fedelho com um riso amarelo. Sentia-se ridículo.
— Bom dia! — soou outra vez, seguida de muitas outras. O moço não virou mais a cabeça, embora ficasse incomodado receando que o achassem indelicado. Nesse momento surgiu-lhe no espírito uma pergunta desagradável. “Que dirá D. Alípia”, pensou, “por eu passar tantas vezes nesta rua?”. E a essa pergunta subiu-lhe ao rosto uma onda de sangue. Sentia-se culpado. Naturalmente ela suspeitaria de namoro. E lembrou-se de sua casa humilde, de sua mãe humílima, do pote desbeiçado, do enxergão de palha, de tudo o que lhe constituía humilhação em seu lugarejo natal, principalmente sua mãe, sua mãe a rachar lenha, de cabelos emaranhados e movimentos desengonçados de macaca… A estas reflexões desanimadoras Angélica assumia maior prestígio, fazendo-se tanto mais preciosa e adorável, quanto mais inacessível. Se ela também o amasse, seriam dois a sofrer as angústias do afastamento, e, sofrendo com ela, sofreria menos; mas… amá-lo-ia Angélica, porventura? Apesar de todos os olhares que a moça lhe dera, Licínio ainda duvidava. “Angélica é um enigma!”, concluiu para si. E, pela primeira vez, cuidou compreender os poetas amantéticos que proclamam “Mulher! abismo insondável, mistério, assombro, confusão, logogrifo!”, o que tudo parecia endereçar-se com especialidade à mocinha. — Sr. Licínio! — disse uma voz juvenil, coando-se através de seu pélago de dúvidas. Ele sobressaltou-se e viu Florinda, a costureira, que o chamava de uma janela. — Então, não se diz mais “bom dia” à gente? Vai-se passando assim sem mais nem mais? E tão embevecido, santo Deus! Em que alturas não pairava essa alma! Estou quase a apostar que o senhor anda apaixonado! Licínio deteve-se, satisfeito por ter uma desculpa para voltar-se e avistar mais uma vez a casa de Angélica. Julgou de longe reconhecer a moça e a pretinha Flauzina. Os outros haviam entrado. “Enigma! amar-me-ás tu?”, perguntou-se ele, com a esperança surgindo-lhe n’alma, como um sol interior.
Florinda desfechou uma risada. — Eu não digo? Gente! Até parece que está sonhando acordado! E confidencialmente, dobrando o busto no peitoril, para avizinhar-se do moço: — Eu também sei de uma moça que anda muito apaixonada! — Por quem? — Por um tal Sr. Licínio! — Quem é? — perguntou o rapaz, alvoroçado. Ouviu-se um barulho de papel nervosamente fuxicado. Era Siá Cota, numa janela perto, com um romance na mão, que parara de ler, angustiada. — É uma tal senhora dona Angélica… — disse Florinda, observando curiosa o efeito de suas palavras em Licínio. O livro escapou da mão de Siá Cota, caindo à rua. O moço pegou-o, restituindo-o à dona. — Obrigada — disse Siá Cota em tom seco. No auge da satisfação que lhe causava a confidência recebida, Licínio voltou-se para Florinda, perguntando: — Como sabe? A costureirinha disparou nova casquinada. — Ah, meu Deus, isso não vai assim em dois tempos! Tenho muitos segredos a lhe contar, mas só o farei aos poucos, para obrigar o senhor a não se esquecer da gente. Apareça um dia, venha dar uma prosa, que lhe diremos tudo, não é, Cota? A solteirona limitou-se a responder com um suspiro. O suspiro era a linguagem habitual com que ela exprimia seus sentimentos. Naquele momento o seu suspiro exprimia birra. Vivia de quizília com Florinda, pelo seu gênio de passarinho inconsequente, que a fazia intrometer-se em todo o namorico. Siá Cota não podia tolerar isso, achava uma inconveniência imperdoável. No íntimo julgava o amor de um rapaz a qualquer moça uma espécie de afronta à sua pessoa, um verdadeiro roubo. Se ela era a mais digna de todas! Dissesse-o a vasta ternura que tinha acumulada na alma, sem derivativo.
Sentia que faria feliz aquele que a amasse. Ter-lhe-ia um amor desesperado, e decerto também ciúme, muito ciúme! Seu natural era excessivamente ciumento. Dava-lhe zelos todo o amor inclusive o dos romances. Se num deles topava namorações, lançava-o para o lado, exclamando: “Que enjoamento! Não posso com essas antipatias! Por isso é que prefiro o Júlio Verne, que é sério e instrutivo”. E como Florinda apreciasse exatamente os livros que Siá Cota desdenhava, a última censurava-lhe o mau gosto, dizendo-lhe que eram leituras impróprias para uma moça honesta. Mas a birra ainda não ficou explicada. Licínio era para Siá Cota um romance desmantelado. Na noite do baile foram-lhe ao fundo da alma as palavras que o moço lhe dirigira. Parecia interessar-se tanto pela não ida da solteirona para um convento, que, apesar da firmeza de sua resolução, Siá Cota sentiu-se meio abalada; e, insistisse o moço um pouco mais, ela teria desistido. Essa noite e as seguintes Siá Cota passara insone, a idear romances de amor em que Licínio e ela figuravam de protagonistas. Robusteceram-se as suas esperanças vendo-o passar com tanta assiduidade naquele trecho de rua. Seu coração, batendo-lhe desordenado, dizia-lhe que era por causa dela. Com isso deu de ataviar-se muito, retocando a fachada avariada pelo tempo, e não saía da janela, a esperá-lo. Atribuía à timidez a reserva cerimoniosa com que o moço a cumprimentava, e, como a reserva persistisse, Siá Cota tencionava encorajá-lo. Bem merecia o pobrezinho essa condescendência, pelo trabalho de passar ali tantas vezes, sem recear chuva ou sol! Mas chegou-lhe aos ouvidos a história do namorico com Angélica, o que fez Siá Cota cair na realidade. Caiu com um “paf!” que a envelheceu dez anos. Não há exagero em dizer-se isto. Quando a solteirona tinha algum desgosto que lhe afetava fundamente as fontes da sentimentalidade, esquecia o creme, ficava desgrenhada com o cabelo da véspera, tinha um filete de remela branca no canto dos olhos, vestia umas blusas amarrotadas e velhas, e isso lhe dava mais dez anos. Mas remoçava os mesmos dez, logo que se resolvia a cuidar de si.
Com a nova desilusão de que fora vítima, aderira mais firme à ideia de ir para um convento. Mas na vida tudo era tão difícil, até o sacrifício! Começava que ela nem sabia se existiam ainda conventos. A irmã notara-lhe a mudança, e para vê-la enfurecida falava de contínuo sobre Licínio, com quem Siá Cota já começava a implicar. Naquela tarde, ao despedir-se, o moço prometeu ir lá um dia; e acrescentou, sorrindo: — Não vá crer, D. Florinda, que seja por interesse! — Sim! sim! — exclamou a moça alegremente, como quem não acredita mas também não se zanga por isso. Foi um dos dias mais felizes de Licínio. Chegou a ponto de não dar por si ao entrar na velha casa de sua mãe, em cuja soleira não o esperavam naquela ocasião as impressões desagradáveis do costume. As paredes esfuracadas do pardieiro ancestral resplandeciam como as de um castelo de fadas. Era efeito da irradiação de sua ventura. Foi quase meigo com a mãe, que viu sentada num banquinho baixo, remendando umas roupas velhas do filho. Esteve para fazer-lhe uma carícia, mas sentiu paralisar-se seu impulso vendo-a encarquilhada, angulosa, ridícula, inclinada como estava sobre a costura, com um pince-nez velho do marido acavalado no nariz, um caco de pince-nez de grau exagerado, que ela usava na falta de outro. Licínio pôs-se de novo a contemplá-la mudamente, a analisá-la, com uma fixidez que seria perversa se não fosse angustiosa. D. Ismênia em certo ponto interrompeu o serviço e levantou os olhos para ele. Vendo-se observada, teve um sorriso acanhado e tirou os nasóculos. — Licínio, escute uma coisa, meu filho… — começou ela. O moço dispôs-se a ouvi-la com a atenção que o modo com que fora dita essa frase reclamava. A mãe pôs as mãos sobre a costura e continuou: — Há dias soube de uma coisa que me tem posto preocupada. Contaram-me que você gosta de Angélica… É verdade? — É… — confirmou Licínio, baixando os olhos.
— Não se enleve com essa gente, meu filho! São graúdos… e nós somos humildes. Este “nós” magoou o moço, como se se julgasse de uma esfera superior à da mãe. — Você é criança, não tem emprego nem jeito para ganhar a vida, não vá por isso tomar a sério uma distração de rapaz. Ainda é tempo: volte para São Paulo, fuja dessa gente, que tomará a sério sua rapaziada, e mais tarde, quando você se quiser arrepender, não é mais possível. Dito isto, a viúva tornou a pôr o pince-nez e reverteu pensativamente aos seus consertos. O moço nada disse, mas em pensamento entabulou uma argumentação cerrada com a mãe. Seu argumento decisivo era o clássico “Amo!” irrespondível, porque faz da sem-razão uma razão suprema. Equivale ao “Quero!” dos voluntariosos. E, quando se força assim a lógica, é mister que se desista de julgar as coisas à luz do senso comum. Essa admoestação entristeceu o moço e deu mais força a seus sentimentos. Ao cair a tarde ele foi recostar-se ao peitoril duma janela, a contemplar o crepúsculo. Nesse momento memorava as palavras maternas, explicando consigo: “É porque mamãe não conhece Angélica, em sua simpleza de florzinha celestial. Será possível que ela não veja que Angélica seria para mim um tesouro de felicidade? Por que só meus olhos veem o que ninguém vê? Que dom excepcional é este que possuo com exclusão de outra qualquer pessoa? Será que, ao criar-me, a natureza não usou seus moldes habituais?”. Ele aceitou a hipótese, que era reanimadora; deixou-o orgulhoso de si e contente com o seu amor, tão contente que se lançou em pleno devaneio, na contemplação do poente. Cerrava-se a tarde. Na única zona iluminada do horizonte, esbatida de um verde tenro de avenca, sobrepunham-se longas faixas de nuvens castanho-escuras, que para cima se faziam menores e menos carregadas de cor. Semicerrando os olhos, figurou-lhe estar vendo um mar infinito, semeado de recifes. Uma das nuvens tinha a vaga conformação de
uma barca. E Licínio imaginou-se, mais Angélica, navegando aquele oceano intérmino e sem ondas por um tempo sem fim. Eram os únicos tripulantes do batel, e este a única embarcação daquele mar. Ambos, sentados em frente um do outro, mergulhavam-se os olhos no fundo dos olhos, sentindo n’alma uma embriaguez eterna; e derivavam de manso, sem rumo e sem fim, a beberem-se reciprocamente as almas, naquela muda contemplação infinita…
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