Universo da obra
Universo da obra
No dia seguinte, vendo que Licínio não chegava para o enterro, Pedro Carpinteiro, sem nada dizer a ninguém, montou a cavalo e foi ele próprio à fazenda. Ao receber a notícia da morte da mãe, Licínio quedou-se apatetado. — Monte no meu cavalo — disse-lhe Pedro —, e toque bastante, que ainda poderá chegar a tempo de ver sua mãe morta. Como o moço ficasse zonzo, sem iniciativa, Pedro levou-o até o animal e fê-lo montar. Subitamente estimulado por um turbilhão de sentimentos, Licínio chicoteou o cavalo, partindo em desapoderado galope. Galopava, galopava com fúria, talvez não tanto para chegar depressa, mas para fugir às ideias que o salteavam; fugia de si próprio, da realidade, da vida. Oh, quem lhe dera aturdir-se indefinidamente num galopar assim, por uma estrada infinita, sem nunca chegar! A meio caminho o cavalo ajoelhou exausto, incapaz de andar mais. Vendo-o inerte, imprestável, Licínio abandonou-o, continuando a pé o caminho. Corria conforme lhe permitiam as forças. Em certo lanço, ladeando uma capoeira, teve uma alucinação e chamou: — Mamãe! Admirava-se de não ouvir resposta. Parecia-lhe que a procurava, como ela o procurara um dia com o Afonso; e o moço parava a espaços, espreitando na sombra da espessura. Depois a verdade
fuzilava-lhe no espírito como lançada cruel: sua mãe morrera; ele ia abraçar-lhe o cadáver! E desesperava-se de haver perdido tempo com uma ilusão de demência. Corria ofegando, na esperança de chegar a tempo. Em certo trecho ouviu dobres a finados. Era o enterro! Oh, se fosse chegar atrasado e não a visse nunca, nunca mais! Neste receio continuou a correr, anelante, redobrando de esforços. Atingiu o arraial. Passou sob as janelas da sogra, sem atender aos apelos que dali lhe fizeram. Andando as ruas, estranhava o olhar de espanto com que todos o fitavam, de vê-lo correr assim. E Licínio, notando-os, perguntava para si se todos não estariam loucos. Acelerou o passo na colina do cemitério, onde encontrou turmas de pessoas de rosto compungido, a voltarem para o povoado. Dentro do quadrilátero de velhos muros, entre as cruzes toscas, procurou ansioso com os olhos. Num recanto viu uma mulher que não reconheceu. Era a Maroca. Foi em direção a ela. — Onde é? — perguntou com voz rouca. Ela apontou silenciosamente uma sepultura, cuja terra estava fofa e abaulada regularmente. Num extremo via-se um pé de malmequer plantado de fresco. — É aqui? — inquiriu ele de novo, em voz ríspida, apontando o cômoro. Maroca, soluçando, cabeceou afirmativamente e cobriu o rosto com o avental, donde caíram mudas de flores ao chão. Licínio fitou com desespero aquele monte de terra que o privava de beijar a mãe morta; sentia ímpetos de cravar as unhas no espesso obstáculo e removê-lo com fúria. Nunca mais veria a pobre velhinha, que ele deixara morrer tão só! Vendo-o imóvel, os olhos fixamente cravados na sepultura, Maroca teve pena; e, amparando-o com o braço, porque as pernas lhe fraqueavam, o foi levando brandamente para fora. Seguiram assim colina abaixo. Ela dizia-lhe palavras de consolo sem compreender que cada frase sua o alanceava dolorosamente,
como uma exprobração. Para que lastimar-se assim? A morte fora até um benefício para quem sofria tanto. Quantas vezes não fizera promessa a Nossa Senhora para não a deixar penar! Pois era vida, passar o dia e a noite a chorar, a chorar sem termo? Chegando ao largo, Maroca quis levá-lo para a casa do sogro. — Não! não! — protestou Licínio. — Quero ir lá! — Não vale a pena! — Quero ir, quero ir… Maroca satisfez o seu desejo. Pelo caminho ela relanceava-o a furto, espantada da expressão dura, fixa, de seus olhos secos, o que a fazia menear a cabeça, com o ar de quem se apieda, respondendo assim ao olhar curioso de algumas pessoas que a interrogavam mudamente. — Coitado! que sentimento! — sussurravam uns. — Sentimento não! Remorso — resmoneavam outros. E uma língua perversa: — Amanhã já não se lembrará da mãe. Ao frentear a casa ele desvencilhou-se de Maroca, que o procurava reter: — Deixe-me, deixe-me… — murmurava. Empurrou a porta e entrou. Impelia-o o desejo agudo de ver ainda a figura da mãe evocada pelos objetos familiares, essa como reconstituição espiritual da pessoa pelo ambiente em que vivia. O interior estava sombrio. Caía das paredes um grande frio, mesclado a um cheiro de bolor. À proporção que os olhos se acostumavam à penumbra, dilatava-se o vácuo daquele interior deserto. Então Licínio pôde ver que nem o pequeno consolo buscado lhe restava, pois ali nada mais havia que lembrasse a morta; com o abandono de anos, a casa já não tinha aquele aspecto de pessoa conhecida, aquele ar acolhedor de mãe a receber o filho em seu regaço. Era como se pela segunda vez a enterrassem sem que o deixassem vê-la. Chegara novamente demasiado tarde! Dirigiu-se à porta do quintal e abriu-a; aí acolheu-o a mesma estranheza. Onde eram canteiros, tufavam moitas de carrapicho e
capim. Mandacarus hirtos, erguendo braços trágicos, pareciam imobilizados em posturas de maldição sobre sua cabeça. O velho muro era apenas um longo murundu de adobes desmoronados. Também não estava ali a pobre morta. Onde quer que esperasse encontrá-la, somente se lhe deparavam acusações e anátemas, desde a horta e a casa em ruínas até o humílimo pé de margarida que Maroca plantara sobre a sepultura da viúva, e que era, na sua humildade, a carícia de um estranho que piedosamente desejaria encobrir a falta do filho. E, amarrado em desespero surdo, os olhos secos e como a encarar fixamente uma visão imaterial, ele se quedou em rígida imobilidade naquela porta em cuja soleira a mãe derramara tantas lágrimas.
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