Leia agora
Os Bem-Casados

Universo da obra

Os Bem-Casados

Capítulo 12 · Os Bem-Casados

Primeira parte - Capítulo XII

12 de 31 ≈ 9 min de leitura

Passaram-se algumas semanas. Frequentemente Licínio voltava à casa do médico, onde tinha amiudados ensejos de ficar só com Angélica e de lhe tomar ocultamente a mão — agora com maior cautela, com a atenção repartida entre a moça e as surpresas possíveis. Aos poucos uma feliz modificação foi-se produzindo na alma do rapaz. Nos primeiros tempos de seus amores com a filha do médico, uma grande angústia enchia-lhe o coração nos momentos em que não a podia ver. Eram saudades dilacerantes, um desejo desvairado de abraçá-la e não desgarrar-se mais dela dia nenhum, momento nenhum. Os momentos em que não a via eram de agudo suplício, malgrado a certeza de tornar a vê-la dali a pouco ou no dia imediato. Ao repassar incansável pela frente da casa do médico, sem receio de reparos, procedia como um autômato, pois a seus olhos as coisas da vida deixaram de ter qualquer significação; era como se não existissem; e, os homens, via-os agitarem-se-lhe em torno, como sombras fictícias de um mundo de sonho. No meio dessa inexistência geral apenas Angélica fulgia como única realidade tangível. Buscando-lhe a casa, era ele o inseto que parte do recesso da selva, ofuscado e atraído pela palpitação de uma luzita remota. Passa inconsciente entre os troncos sombrios onde não sente que se lhe ferem as asas; e nada ouve, nada sente, nada vê, tirante a luz hipnotizadora que o chama. Isto, nos começos. Agora — e foi esta a mudança feliz — agora que podia ir à casa de Angélica as vezes que queria e lá estar o tempo

que lhe agradava, em doce intimidade de filho, a imagem da moça já não lhe ocupava dominadoramente o espírito, com exclusão de outra preocupação qualquer; já tinha cabeça para cogitar de outras coisas; recomeçara a ir à agência procurar os jornais diários, interessando-se pelas discussões no Congresso, pelas crises governamentais, leitura essa de sua predileção nos tempos de São Paulo; lia os romances que de boa vontade Siá Cota lhe emprestava dando suspiros de infeliz judiada pela sorte, que nasceu para sofrer, e deitando-lhe ternamente seus olhões de novilha amorosa, onde bruxuleava uma esperança vaga de melhores dias. Licínio divertia-se a procurar nesses livros as flores murchas de que a solteirona os recheava intencionalmente para que ele as achasse, e bem assim as frases sublinhadas a unha, que exprimiam, todas elas, uma ardente declaração de amor. O Tristão do alfaiate ia procurá-lo, nas horas desocupadas, para jogarem damas. Por vezes Licínio se comprazia em memorar sua vida em São Paulo. Sentia saudades dela. Escreveu a diversos colegas, e suas respostas lhe deram intenso prazer. Queria isto dizer que Angélica já não o absorvia tanto. Mais de uma feita deixou-se ficar o dia todo tranquilamente em casa, sem procurar vê-la, pela simples preguiça de se barbear ou mudar de roupa. A terrível víspora, ele a suprimira de todo, pretextando resfriados, com grande sentimento do Juca e demais parceiros. As coisas que se afundiam em névoa, as pessoas que se agitavam em sonho, foram-se esbatendo de uma luz mais viva, readquirindo contornos, criando formas, renascendo rápidas, até que a seus olhos se tornaram vulgarmente nítidas, à luz normal da realidade. O mais surpreso de tal transformação era ele próprio. — Acaso a estarei amando menos? — perguntou um dia para si. Então aquele grande amor era igual a tantos velhos namoricos com que se distraíra? Repassou-os mentalmente, estabelecendo comparação entre eles. Achou-os monotonamente repetidos e escandidos em fases fatais, como os períodos previstos de uma

moléstia aguda. Começavam com a fascinação súbita, dias de tortura e felicidade intensa, de intensa fabricação de versos inflamados; depois um bruxuleio de lâmpada a que vai escasseando óleo, e afinal a completa indiferença. “Não amarei mais Angélica?”, reperguntava-se Licínio quase convencido dessa verdade. E acusava-se de sua volubilidade como de uma culpa. Era ser ingrato com a moça, que se mostrava tão boazinha e tão constante! Agradecia-lhe mentalmente havê-lo feito conhecer instantes de felicidade incomparável. “Se isso for verdade”, dizia-se ele, “Angélica, apesar de tudo, ficará sendo a mais deliciosa recordação de minha vida!”. Nos seguintes dias sua triste suposição se confirmava. Tudo lhe anunciava o fim de seu amor. Até perto de Angélica, se a visita se prolongava, sentia um começo de tédio, chegando a preferir, nesses instantes, estar jogando damas com o Tristão. Então Licínio viu-se a braços com um caso de consciência. “Não a amando mais, devo continuar a iludi-la?” Devia mostrar-se leal em paga de Angélica ter-lhe sido tão boazinha e fiel, e a lealdade mandava que a evitasse, não lhe frequentando mais a casa, e retirando-se, caso fosse possível, do arraial mineiro onde morava. Era o procedimento mais nobre. E, assim raciocinando, Licínio ficou envaidecido de ter um caráter tão íntegro, tão obediente à nobreza dos motivos. Essa “nobreza”, porém, não seria um eufemismo, para acobertar motivos mais vexatórios? Nesse desejo de partir e não ver mais Angélica, havia, talvez, o receio da atitude da família do médico, principalmente do Afonso, que não perdia ensejo de lhe deitar olhares iracundos que valiam por um rosário de ameaças. Temia-se também do orgulho ferido da matrona, que principiava a mostrar-se seca, vendo-o espaçar as visitas e faltar à víspora. No dia antecedente, notando-lhe o brilho frio dos olhos, entre severos e descontentes, encimados pelo capacete frígio que se levantava com soberbo entono dando-lhe os ares de uma rainha ofendida, Licínio teve uma

sensação esquisita, que se parecia perfeitamente com o medo, se não era, de fato, puro medo. Influía também naquele alvitre a exacerbação crescente de seus credores, e a impossibilidade, dado seu descrédito, de contrair dívidas novas, o que significava, para ele, a insatisfação de seus frequentes caprichos. Além de tudo, Licínio sentia remorsos ao ver os sacrifícios a que obrigava sua mãe, já tão velhinha e necessitada de descanso. Indo para longe, as importâncias das mesadas recebidas pelo correio teriam um aspecto agradável e impessoal de dinheiro, um ar singelo de notas de banco, pois não veria as lágrimas, as humilhações e o cansado labor que esse dinheiro custava à pobre viúva. Mas sabia que, se tornasse para São Paulo, ficaria sua mãe, nos primeiros meses, impossibilitada de sustentá-lo, tantas as dificuldades pecuniárias em que a estada dele no arraial a enleara. Escreveu, por essa razão, a colegas de famílias influentes, pedindo-lhes que lhe arranjassem um emprego. D. Ismênia via com júbilo a transformação por que passava o filho. Ele nada lhe confidenciava do que lhe passava no ânimo, mas como que mudamente, pela atenção com que lhe ouvia a voz aconselhadora e mansa, lhe confessava tudo o que se passava em seu espírito. — Você deve voltar para São Paulo — dizia ela. — Quero ver você livre das garras dessa gente perigosa. Nem sabe como são despóticos e vingativos… Já me fizeram sofrer muito… Contava-lhe velhos casos, do tempo do marido. Injúrias sem causa, explorações revoltantes, perseguições sistemáticas… Ouvindo-a, Licínio se irritava intimamente contra a família do médico, sentindo pesar em si o desprezo com que durante tantos anos humilharam sua mãe, pela culpa única de ser pobre e só. — Receei que eles obrigassem você a casar com Angélica! Mas o namoro não foi longe, não é? Ora, simples rapaziada! Amor é como o vento, vai um, vem um cento. Decerto não a comprometeu em nada? Mas se voltar para São Paulo, receio que você passe privações nos primeiros meses. Estou uma coroca,

não presto mais para nada e tive que fazer umas dívidas. Pagas elas, recomeçarei a mandar a pensão. Sombreava-lhe, porém, as feições, aquele receio de ver seu filho entre estranhos e sem recursos… Exprimiu-lho ainda uma vez. — Ora! — contraveio Licínio. — Não se preocupe com isso. Tenho promessas certas de emprego. Veja estas cartas. Mostrou-as. Eram recentes e confirmavam suas palavras. D. Ismênia então pôs as mãos e levantou-as para o céu, não tanto por espírito de religiosidade, mas como expressão de alívio, exclamando: — Que felicidade, santo Deus! Vá mesmo, meu filho, mas logo, logo, para não surgirem embaraços. Se tivéssemos dinheiro, eu fazia você embarcar amanhã mesmo. Feliz porque a mãe lhe aprovava os projetos, Licínio começou a preparar-se para a partida. O mais difícil era conseguir o dinheiro da passagem. Sentia-se impaciente de ver-se no vagão rodando a toda a velocidade para São Paulo, que já se lhe antolhava como a mansão de todas as delícias depois daqueles meses de emoções diversas, passados em sua terra natal. Já ele via Três Barras de alto para baixo, julgando o arraial com o descaso superior do excursionista que chegou, estanciou um dia e seguiu para mais adiante. Desde então cessaram de vez suas visitas à casa do médico.

Os Bem-Casados

Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Os Bem-Casados

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Os Bem-Casados

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Os Bem-Casados

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Os Bem-Casados Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 12 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Os Bem-Casados

Capa de Os Bem-Casados
Continue a leitura Primeira parte - Capítulo XII Capítulo 12 · 12 de 31 · ≈ 9 min
Todos os capítulos 31 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir