Universo da obra
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Não! ele não a esqueceria nunca! Licínio quis protestar-lho, mas acanhou-se dessa expansão afetuosa. “Que importa!”, pensou. “Não o digo hoje, mas meu futuro procedimento há de dar-lhe a segurança de meu grande amor. Os atos falarão por si.” Havia de amá-la sempre muito, muito… Esta resolução removeu-lhe do espírito a penosa impressão que aquele ambiente de pobreza e humildade lhe incutira. Ainda mais, daí a pouco sucedeu um fato que o fez ímpar de júbilo: foi procurado pelo Juca, mocinho filho do médico, que o convidou para um jantar de aniversário. Fazia anos uma prima do Rio, que estava a passeio em Três Barras, onde fora passar uns tempos. — A gente do médico convidar você! — pasmou D. Ismênia. — Eles, tão importantes, e que agora fingem não me conhecer por eu ser pobre! — Nesse caso não irei ao jantar! Não me agrada ter relações com quem a maltrata. — Não! vá, vá, meu filho, para que não nos chamem de soberbos. D. Ismênia calou-se um instante e em seguida observou sorrindo: — Olhe, já compreendo o milagre! É que Angélica, a irmã do Juca, está chegando à idade de casar, e aqui não há rapazes entre os quais possa escolher noivo. Aquele povo é fino e enxerga longe. Querem casar a filha com o Bernardes, filho do Barão; mas pensando que esse casamento pode gorar, e que você daqui a poucos anos está doutor… — Ora! — disse Licínio. — Que ideia!
— Deus me perdoe se estou sendo injusta com eles. A viúva contou-lhe que a família do médico, tão econômica, dirigida pela cabeça calculista de D. Alípia, de pouco tempo àquela parte dava bailes e jantares ao menor pretexto, apenas fariscavam a longe possibilidade de um partido para a filha. — Então, se acha que devo ir… À hora designada Licínio preparou-se para sair. Ia displicente, mais por comprazer à mãe, pois já tinha seu melhor fato bem coçado, e não desejava que o contraste com o Bernardes o desfavorecesse muito. Mas já que devia ir… — Deve, sim — confirmou ainda a mãe, a quem ele expôs o seu vexame. Com estas palavras sua resolução se fixou e Licínio saiu para o jantar. D. Ismênia acompanhou-o com o olhar melancólico até ele dobrar a esquina. É que se lembrava das últimas palavras envergonhadas do filho. “Tanto sacrifício”, suspirou para si, “e não poder fazer por ele quanto desejava!”.
Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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