Universo da obra
Universo da obra
O médico orgulhava-se da numerosa descendência a que ia legar seu nome. De momento já não poderia dizer quantos filhos tinha; por isso, em suas ocasiões de curiosidade estatística, se queria conhecer a cifra exata que atingia a prole, valia-se da cabeça de sua esposa, a Alípia, que lha dizia de pronto. Alípia tinha uma cabeça invejável para números e contas. Ao tempo em que o Lopes ainda escrevia os algarismos de uma multiplicação, ela já dizia o produto, e tão exato que dispensava prova. Na verificação das complicadas contas da fazenda, onde moravam os três filhos mais velhos, a matrona aplicava inteligentemente esse dom natural. O Dr. Lopes Coutinho fora excelente estudante, cursara com brilho a medicina, granjeando fama de aplicado e inteligente. Formado, casara logo. E como sucedera ter uma mulher inteligente e ativa, que tomava a si a solução de todos os negócios de família e de dinheiro, desde os complicados aos comezinhos, solvendo tudo com acerto sempre, o doutor habituara-se a deixar-lhe os encargos que dependessem de emprego, mesmo pequeno, da substância cinzenta do cérebro. Sentia-se feliz por se ver exonerado da responsabilidade de elaborar ideias, e chegou sua inércia a tal extremo, que não praticava, sem lhe ouvir o conselho, um ato mínimo que fosse, como comprar uma caixa de fósforos, cortar as unhas ou espremer um cravo do nariz. De tão doce hábito resultou que suas brilhantes faculdades, por falta de exercício, se foram gradualmente embotando. Se foi atilado algum dia, já não o era mais. Em contas, então,
uma catástrofe; errava somas ou multiplicações muito simples. Isto o levou a deixar de clinicar, pois atribuíram o malogro de vários tratamentos a fórmulas erradas; e sua clientela, que já não era grande, baldeou-se toda, espavorida, para o curandeiro Leôncio de Sá, o qual, se não sacrificava menos doentes que o Dr. Lopes Coutinho, propinando-lhes beberagens exóticas de sua invenção, tinha pelo menos, por si, a confiança do povo. As únicas funções desempenhadas, depois disso, pelo Dr. Lopes Coutinho, eram as de secretário da mulher. Lançava, sob a inspeção desta, as parcelas dos rendimentos e dos gastos da fazenda nos livros de escrituração, tomando um meticuloso cuidado para não borrar as páginas, e ornando-as com riscos de tinta vermelha e verde, muito bem traçados, retos e iguais. Nunca sentia preguiça para tomar da heureca ou da raspadeira para tirar manchinhas minúsculas, apenas perceptíveis para ele, desrespeitos de mosquitos inconvenientes. Seu regalo predileto era folhear tais livros e mostrar-lhes o capricho às visitas, se as tinha; se não, folheá-los a sós consigo, namorando os riscos coloridos, pasmando da bela letra que ia adquirindo, e que agora enfeitava com uns floreios artísticos nas pernas das maiúsculas. Possuía outra paixão, que lhe voltava em acessos periódicos — era a da requinta, que começara a aprender em mocinho. Trazia o instrumento querido conservado com carinho numa caixa forrada de veludo. Seu amor à requinta tinha a violência dos sentimentos proibidos. Era quase uma paixão pecaminosa, exacerbada pela oposição sistemática de D. Alípia à livre expansão de seus pruridos musicais. Ela achava-os impróprios de sua idade e condição. Lá uma vez por outra, quando os negócios não corriam mal, ou havia grande motivo de regozijo, o Dr. Lopes lhe obtinha a aquiescência para tocar seu instrumento querido. Ele aguardava semanas a fio esses momentos favoráveis, pressentia-os de longe com o faro com que o elefante adivinha o inimigo remoto, e aqui é que revelava uma perspicácia notável, digna de seus altos espíritos de antanho, quando ainda não abdicara da maçadora obrigação de pensar. Pilhado esse momento raro, ele tocava à tripa forra, se é que uma locução
tão digestiva pode adequar-se à expressão de um ato de natureza tão artística e espiritual. Espiritual, não; retrato-me; não eram nada espirituais os guinchos estrídulos com que ele enchia a casa desde que obtinha o placet conjugal. Devia ser como aquilo a trombeta com que um juiz, ou o que seja, da Bíblia, lançou por terra as muralhas de Jericó. Tirante essa pequena divergência, os dois viviam como anjos e eram apontados como espelhos de harmonia conjugal. Já ficou dito que possuíam uma fazenda não longe do povoado. Era ela o celeiro da família, e, simultaneamente, uma espécie de desterro, ou campo de concentração dos filhos mais velhos, à proporção que os pais iam descrendo das esperanças neles depositadas. Dos quatro filhos homens, já crescidos, três moravam lá. O primogênito, o sestroso Afonso dos bigodes caídos, exímio na flauta, a sisuda águia da família, tinha apenas vinte e nove anos que pareciam quarenta, de tal modo se lhe enrugara precocemente a cara, fosse do muito pensar, ou de tanto fazer caretas. Era embezerrado, meio tristonho, um ar de pensamentos graves, no que se via que herdara a máscara austera de seu progenitor. Os irmãos, quando queriam escarnecê-lo chamavam-lhe “juiz de direito”, em memória das antigas esperanças paternas malogradas. O Dr. Lopes e D. Alípia tiveram sempre a balda de arquitetar grandes planos de futuro para os filhos, dilatadas visões de triunfos, e todas as desilusões não tinham a força de desiludi-los de vez. Primeiro o Afonso. Desde a meninice D. Alípia fizera ver ao marido que o filho era dotado de certa gravidade e concentração meditativa que lhe davam um ar togado. Contentava-se de ver brincar os outros petizes da sua idade, não se imiscuindo em seus folguedos, como desejoso de habituar-se a estar fora de todas as parcialidades e paixões, para poder mais tarde manter-se na linha de íntegro julgador. E respeitavam-no, os pequenos, em seu isolamento digno, por bem saberem como seriam recebidas quaisquer tentativas de intimidade desrespeitosa. Mas os pais foram uns grandes descuidados. Deixaram essa preciosidade sem ir à escola até os doze anos. Era tarde para começar,
e como Cosme, o segundo filho, já estivesse taludo, convergiram para ele as suas vistas. Infelizmente o Cosme era de uma obtusidade que passou a ser proverbial em Três Barras. Quando se dizia “Fulano é burro como o Cosme”, entendia-se que atingira o inultrapassável. Paralela a esta qualidade, possuía a da gula, uma voracidade fenomenal, de fazer a gente descrer da lógica, e jurar que o conteúdo pode ser maior que o continente. Por mais que o quisessem fazer padre, uma vez que não lhe descobriam aptidão para coisa alguma, os desejos dos pais esbarraram naquela dificuldade como vagas num penedo. Mal conseguiram ensinar-lhe a ler. Desiludidos do Cosme, suas vistas passaram para o terceiro filho, o Pedrinho, desta vez com mais evidentes probabilidades de êxito. O fedelho era o antípoda dos dois irmãos; não tinha a sisudez do Afonso nem a necedade do Cosme; e desde criança revelara um gênio tão azougado e um espírito tão sagaz, que desta feita as esperanças paternas ancoraram solidamente nele. Seu futuro decidiu-se um dia em que o encontraram riscando o assoalho com uma ponta de prego. O pai, que ia ralhar com ele, sustou a admoestação, surpreso das vagas parecenças dos riscos com uma figura geométrica. Chamou triunfante a mulher, e, apontando-lhe o pirralho e a figura, lançou o prognóstico: — Será engenheiro! D. Alípia concordou depois que o marido trouxe da estante o Timóteo Pereira e lhe mostrou a semelhança dos riscos do filho com as figuras do livro. Coincidiu essa descoberta com desengano definitivo dos dois primeiros, que de qualquer modo precisavam encarreirar. Comprada por esse tempo a fazenda-desterro, para lá exportaram a ambos a fim de aprenderem a lavoura e acabarem de crescer e educar-se entre os bovinos. A decidida vocação de Pedrinho cada vez se confirmava mais. Um dia era um quinau de tabuada no pai; outro, uma complicada ponte de sabugos, em cuja construção passara horas; seu gosto de traçar figuras geométricas a ponta de prego já ia resvalando a calamidade; riscava o chão, as paredes, os móveis, transformando a casa toda
numa geometria; com os outros meninos, seu fraco era brincar de trem de ferro — ele à frente, feito locomotiva, apitando, bufando, fazendo com os braços movimentos de alavanca; e enfileirado atrás de si o resto da caterva, o de trás agarrando no paletó do da frente, figurando de carros engatados. Observando-o nesses momentos os pais babavam-se de sensação gozosa, não vendo nada mais certo que o grande futuro daquele seu rebento. Mas… Pedrinho também passou, como os irmãos mais velhos. Não que tivessem sido imprevidentes com ele, como sucedera com o Afonso; desde cedo o puseram na escola; o caso, porém, é que o menino tinha tão louca paixão por brinquedos e troças, que não havia meio de encostar-lhe o nariz nos livros. Era o desespero dos mestres, insubordinava as classes, infernava os regentes. Vivia de castigo nos cantos, com o livro na mão e orelhas de burro na cabeça. E pensam que se envergonhava com elas? Saísse o mestre um pouco, ele fazia focinho comprido e punha-se de quatro, a zurrar e a galopar doidamente pela sala. Tristemente desiludidos, os pais, no fim de alguns anos, tiraram-no da escola; e como em casa ele quisesse continuar com a mania dantes tolerada de riscar tudo a ponta de prego, D. Alípia curou-lhe a geometria à vara de marmelo; e, apenas crescido um pouco mais, desterraram-no igualmente para a fazenda, para se livrarem das suas travessuras. Lá viviam os três desde esse tempo, somente tendo licença de ir a casa aos domingos, a fim de prestarem contas da lavoura. Agora andavam enciumados por haver sido o Juca poupado até então, tendo a regalia de morar na povoação, embora já raiasse pelos vinte anos. Este filho fora cedo para o colégio. Aos nove anos já sabia ler, escrever e fazer as quatros contas. Até aí os pais nada resolveram sobre seu futuro, cansados de esperdiçar projetos. Lá um dia decidiram discutir a questão, e D. Alípia expôs uma ideia que tivera: — Olhe, Lopes, nosso erro com os outros, foi querermos que eles seguissem uma carreira diferente; você é médico — ele deverá seguir a medicina.
— Mas a medicina é uma profissão ingrata — objetou o marido —; além disso, requer tanta aptidão, tanta pertinácia… — Ora! — limitou-se a dizer a esposa. Este “ora!” significava: “Pois você não se formou?”. Além desses, invocou outros motivos. Fez-lhe ver que não só o rapaz não precisava comprar livros e instrumentos, servindo-se dos do pai, como também estava este aparelhado para orientá-lo nos estudos. O marido deu-lhe razão, ficando assim tudo combinado. Mas não queria separar-se do rapaz, seu filho predileto. Na sua família havia o hábito dessas predileções. Cada filho tinha seu tempo de tornar-se queridinho, mimado, com todos os privilégios, sendo certo também que viria depois a época do declínio e ostracismo. Agora a predileção do Dr. Lopes Coutinho pelo Juca era tão violenta, que mais parecia sintoma de caducidade precoce. Como D. Alípia falasse em metê-lo num internato, o médico contraveio, aflito: — Não! não é preciso! Os internatos só servem para dar maus costumes aos rapazes. Ele estudará os preparatórios comigo. — Mas você está esquecido das matérias, Lopes… — Não me custa recordar! — Você não tem força de vontade, Lopes… — Como não! Você verá! Em quatro anos dou pronto o rapaz. Ficou. E sucedeu o que a mulher previra; não valeram os horários inflexíveis, quadriculados a tinta vermelha e verde, que o doutor pregava na parede com tachinhas douradas; eram mil complicações, preguiça do pai, rebeldia do Juca, interrupções de visitas, de sorte que apenas de longe em longe pai e filho se sentavam à mesa redonda do consultório, que era o lugar dos estudos, isso mesmo sob fortes instigações de D. Alípia. Encetaram a gramática e o francês; mas aos dezoito anos Juca ainda não conhecia as conjunções nem concluíra o método de Ahn. No escrever, então, uma lástima! Cada palavra era um barbarismo. O Dr. Lopes Coutinho não desanimava, cheio de confiança
em si e na vocação do filho, não tanto por convicção, mas para sofismar com a própria consciência. Observando tudo isso com tristeza, D. Alípia perdeu a confiança no futuro dos filhos. Não falava nisso para não mortificar o marido, que ficou muito comovido uma vez em que ela alvitrara remeterem o Juca para a lavoura. O Juca! O embeleco do pai! E, desiludida dos filhos, a matrona voltara o melhor de sua afeição maternal para Angélica, que se fazia moça. Meditou no problema do casamento, que é a carreira das moças. Como no arraial escasseassem os bons partidos, D. Alípia horrorizava-se à ideia de suas filhas ficarem condenadas à solteirice, como a Florinda e Siá Cota. Foi a esse tempo que apareceu ali o Bernardes. Seu namoro com Angélica encheu de feliz alvoroço o coração da matrona, que multiplicou meios de cativar o filho do ricaço. Parecia-lhe tão certo o casamento breve da filha, que uma noite D. Alípia chegou a abraçá-la chorando, num arranco de despedida triste, em dolorosa antecipação das saudades que ia padecer. Prolongou-se esta ilusão até a festa da Ercília. Já nas vésperas lhe vieram certas atoardas que a puseram de sobreaviso. Palpitando-lhe alguma mudança, o coração sugeriu-lhe mandar o Juca convidar Licínio. Estudante, de família boa, embora decaída, podia ser um recurso futuro… Seu amor maternal enxergava a longíssimas distâncias. Naquele baile a desilusão foi total. Bernardes definiu-se, desprezando-lhe a filha, e namorando descaradamente sua sobrinha. E tal cólera sentiu do malogro de mais essa esperança, que poucos dias após exportou para o Rio, sob um pretexto qualquer, a desfaçada Ercília, embora esta se mostrasse disposta a prolongar sine die, naquelas paragens, sua agradável vilegiatura.
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