Universo da obra
Universo da obra
Licínio e Angélica, na opinião dos três-barrenses, formavam o casal mais combinado do mundo. Citavam-nos como modelo dos bem-casados. A dedicação que Licínio demonstrava à esposa e filho, de perto dos quais não se arredava, provocava comentários admirativos dos conterrâneos. Por seu turno, ele encontrara uma mulher de juízo, que herdara as belas qualidades da mãe. — Esses é que irão partir o queijo no céu — diziam. Comparar Angélica à mãe, constituía o maior dos elogios. A matrona era mais do que estimada em Três Barras, era venerada. Chegava a ponto de a incumbirem de decidir suas pendências e casos de consciência — e, o que ela resolvia, era como sentença de juiz. Seu prestígio crescia de contínuo aos olhos de Licínio; dava um pulo de crescimento cada vez que ele lhe sentia a força. O moço admirava-lhe as qualidades de energia e resolução, e a pertinácia com que ela martelava seu esforço num só ponto, até vencer, mesmo que se tratasse de coisas mínimas. Sem embargo disso, Licínio preferiria que Angélica não se lhe assemelhasse tanto. Apesar do susto que lhe causara a “grata nova”, que aliás poderia ser rebate falso, ele já se resignara a tolerar a segunda gravidez de Angélica. Com o aprendizado da primeira a tarefa tornava-se mais fácil. Consolava-se e animava-se agora com a esperança do emprego que a mãe lhe prometera arranjar. Já não era recente seu pedido e a promessa dela, mas o filho conhecia a dedicação
da viúva, que seria incansável em procurar, pedir, esforçar-se até conseguir o pretendido. Atribuía ele a opressão em que vivia a seu parasitismo naquela casa. Tendo sempre em mira a norma de não contrariar Angélica, punha todos os extremos no desempenho de suas funções de esposo e pai; era incansável em pajear o José Antônio, que crescia birrento e rebelde a seus carinhos. Birrento com o pai, com quem o pirralho parecia implicar, e que agatanhava furiosamente. Tomassem-no porém os braços gordos da mãe ou da sogra, que todo ele se rebolava de gosto naquelas almofadas de toucinho macio. Foi uma festa o dia em que Angélica lhe descobriu o primeiro dentinho. Fazia cócegas no bebê para que abrisse a boquinha em riso, e então palpava-lhe a gengiva e observava-a em todos os sentidos. — Olhe, olhe, mamãe! — exclamou, dando rebate. — O primeiro dentinho! D. Alípia acudiu pressurosa e verificou por si mesma o grande acontecimento. — Tão crescido já e sem que ninguém visse! Você que o viu primeiro, precisa dar-lhe um bonito presente. É o uso! Como Licínio não estivesse no quarto, chamaram-no em alvoroço para ver. — Olhe, Licínio! O primeiro dente do Zezico! Parece uma serrinha! Não sei como ainda não o senti dando-lhe de mamar. Licínio olhou, reparou, mas nada viu. — Como! — tornou D. Alípia. — Não vê o dente? O pai esperou o José Antônio abrir outra vez a boca, e então observou de novo, com o mesmo resultado. — Se era coisa que entrava pelos olhos! — disseram as duas mães admiradas de ele não ver. Fizeram José Antônio rir muitas vezes, para o pai repetir o exame; e depois, como, cansado de rir, o fedelho começasse a berrar, esta circunstância favoreceu o novo exame. Convencido, porém, de que era trabalho baldado, Licínio declarou que não via absolutamente coisa alguma.
D. Alípia começou a perder a paciência: — Acaso o senhor achará que eu e minha filha estamos mentindo, Sr. Licínio? Está tão visível! Faça o favor de pôr o dedo na gengiva! — Sinto qualquer aspereza — disse o moço. — Mas não se sabe ainda se é dente. Angélica com arrebatamento escancarou a boca de José Antônio, que se espolinhava aos urros, exclamando: — Veja, veja agora, Licínio! Olhe, Tomé, que duvida de tudo! Está vendo agora? Reparou bem? Mais que depressa Licínio mentiu: — Oh! agora vi perfeitamente! Que gracinha! Dê-me esse amorzinho, quero acomodá-lo. E mais de uma vez fingiu que lhe via o dente na boca, dizendo: — Que serrinha! Não sei como não o enxerguei desde o primeiro momento. Nem assim pôde mais conciliar nesse dia a benevolência das duas. Com essa vida sequestrada a que não se podia afazer, sentia-se cheio de um amargor contínuo. Às vezes pesava-lhe tanto o jugo em que o mantinha a gravidez de Angélica, que ficava a pique de sacudi-lo num arranco de independência. Queria um momento de descanso e soledade, onde não o chamassem a cada instante para passear com José Antônio ou preparar-lhe a mamadeira. Um dia ele avistou a entrar na casa um vulto de mulher arcado sob uma trouxa. Nunca vira sua mãe depois daquela visita, nem buscara vê-la, para não se penalizar e envergonhar com o espetáculo de sua degradação. Era um domingo, e na casa do médico mãe e filha desde a véspera zunzunavam comentários descontentes sobre o atraso da roupa. Avisadas por Flauzina da chegada da viúva, D. Alípia e Angélica foram ter com ela. Licínio ouviu que a recriminavam por não ter vindo na véspera. Em tom submisso a viúva desculpou-se com as últimas chuvas. As recriminações continuaram largo tempo. O coração de Licínio batia forte a cada impertinência que ouvia. Uma hora depois a viúva saía com a roupa da semana. De um
relance perscrutou o interior da casa, como se procurasse alguém. Viu Licínio, e depois de alguns passos voltou-se para o ver ainda. Seu olhar foi rápido, mas disse tudo. Foi como um silencioso grito de angústia, angústia por ele, comiseração pelo que devia ser ali sua vida. Nesse olhar pusera ainda a saudade dos longos meses de apartamento; mas o que predominava era aquela expressão inenarrável de angústia, que parecia dizer: “Coitado de você!”. Licínio nesse momento sentiu-se forte. Agitou-lhe o coração uma revolta desconhecida. Depôs o filho no berço e disse a Angélica: — Olhe um pouco o menino, que está chorando. Angélica replicou-lhe com desabrimento: — Ora, essa é boa! Olhe você, que é sua obrigação. — Preciso sair — disse Licínio tranquilamente. — Sair para quê? — Vou visitar mamãe. E com os olhos ele procurava o chapéu. No berço José Antônio entesava o corpinho aos berros, reclamando pajem. — Você não pode sair — disse Angélica rispidamente —; tire o menino do berço. Licínio não retrucou. Desprendeu o chapéu dum cabide e dispôs-se a sair. Angélica, no supino da irritação, gritou: — Mamãe! D. Alípia acudiu, alvoroçada. — Olhe o Licínio! Esse imprestável largou o José Antônio e quer sair! — delatou a filha. Torcendo o chapéu na mão, Licínio, indeciso, esperava. Os moços cunhados saíram do consultório, para ver o que sucedia. — Deveras, Sr. Licínio! — exclamou a sogra, assestando-lhe a bateria de seus olhares furibundos. — Vou visitar mamãe — respondeu o moço em voz sumida. Angélica prorrompeu aos guinchos: — Ouviram? Quer sair! Visitar a mãe! Aquela carcaça mulambenta! Este insulto foi a chicotada que lhe avivou o desfalecimento da resolução. Fez-se muito branco e rompeu entre os cunhados, buscando a porta.
Afonso quis detê-lo, segurando-lhe o paletó: — Não vá! Ouviu? Senão… Mas nesse momento um babaréu infernal pôs em tumulto a casa. Dando gritos estrídulos, Angélica esmurrava o ventre. Todos se precipitaram de roldão a conter-lhe a fúria infanticida. — Angélica! Pelo amor de Deus! Que é isso? — exclamava a mãe. Livre das mãos de Afonso, Licínio sentiu horrível perplexidade. Mas durou apenas um momento. Disse entre dentes, com rancor: — Vou! E, dando as costas ao bolo que formavam os membros da família, desgalgou a escada da rua com uma pressa prudente. — Haja o que houver! Sou homem! Quero sair, saio! Sou homem! — ia ele mastigando consigo, para sua resolução não esmorecer. — Se matar a criança, a culpa é dela! Matar a criança… Evocou num relance a cena trágica: Angélica esvaindo-se em sangue, semimorta, e um corpinho inteiriçado sobre a mesa… Quis voltar; mas cerrou o cenho e os punhos, para continuar a excitar-se artificialmente. E prosseguiu para diante. — Gente! O Sr. Licínio parece louco! — diziam os que o viam passar. Mais por instinto que por obediência a uma ordem consciente, as pernas conduziram-no para o lado da habitação da mãe. Ao defrontá-la viu-a fechada. Estava indeciso sobre o que faria, quando, olhando para trás, avistou Afonso que aceleradamente lhe vinha ao encalço. Já o repente que impelira o moço a rebelar-se havia arrefecido; e, ao ver ao longe o temível cunhado, Licínio, tomado de medo, meteu-se pela estrada de rodagem que começava ali. A lembrança da noite tétrica em que já fizera aquele percurso com o Afonso, que lhe impedira a fuga planejada, fez o pavor de Licínio recrudescer. Pôs-se a correr, agachado, para que as grandes touças de gravatás que orlavam a estrada o ocultassem. A estrada coleava em curvas. Vez em vez, voltando-se e erguendo a meio o busto, divisava entre as folhas enristadas das bromélias a figura terrível
do Afonso, que também corria. Vendo-o ganhar terreno, Licínio galgou o barranco superior e, saindo da estrada, meteu-se numa capoeira. Corria arquejante, sem se voltar. Por fim, exausto, com o coração a pular forte, deixou-se cair sobre as folhas úmidas do solo. Nesse momento percebeu distintamente Afonso passar correndo pela estrada, mais abaixo. Fora iludido pelo expediente do fugitivo. Um suspiro de alívio saiu do peito do moço. Estava salvo! Salvo e livre! Seus cabelos arrepiavam-se à só ideia de que naquele momento já podia estar caído, de borco, na estrada, com uma faca enterrada nas costas. Para maior segurança, internou-se mais uma centena de braças na mata, que se adensava em capoeirão sombrio e silencioso. Parou de novo num sítio aprazível. Perto, entre pedras tapeçadas de musgo velho e begônias florescidas, minava uma água clara. Encalmado pela hora e pela corrida, Licínio bebeu à farta; depois estirou-se no chão, contemplando retalhos rendados do céu entre as copas das árvores. Já estava tranquilo e sentia uma sonolência de cansaço agradável. Seus temores e contrariedades zumbiam em surdina, num enxame remoto, longe do momento atual e como fora de seu espírito. Tinha a sensação de uma grande liberdade, naquele grande silêncio. De instante em instante vinham-lhe sobressaltos e sentava-se num rápido movimento reflexo: era a ilusão de estar em casa e o receio de D. Alípia encontrá-lo naquela posição vadia. Ria-se do engano e tornava a deitar-se, sonolento. Prestava ouvidos ao menor estalido de ramos secos ou rugitar de folhas, e, verificando que nada era, recaía em sua modorra inefável. Aos poucos, com o cansaço, foi-se-lhe a tranquilidade ilusória. A vespeira remota de preocupações aproximava-se de sua cabeça e por fim invadiu-a toda, zinindo e estonteando-o. Era Angélica a esmurraçar o ventre, Afonso a persegui-lo, a insubordinação recente indispondo-o com a família da mulher, a incerteza do que sucederia… Como deslindar uma situação tão complicada? Como ele emaranhara, com a irritação de um instante, o fio singelo e corredio de sua vida! Fora um grande desastrado. Agora o melhor partido era fugir a tudo, sequestrar-se em qualquer recanto ignorado, embrenhar-se mais e mais na selva libertadora.
Mas, ao pensar nisso, sentia-se tolhido, petrificado. Se Angélica estivesse morta? perguntava-se. Matando a criança talvez ela matasse a si mesma, no estado melindroso em que se achava. E o culpado seria ele. Então sentiu a tortura de remorsos. Sua imaginação mostrava-a inanimada, cor de cera, cercada pelo aparato das cerimônias fúnebres. Naquele momento talvez tivesse dois círios à cabeceira e um crucifixo na mão. Via o caixão agaloado. Não era um enterro e sim dois; a seu lado, seguiria para a cova o filhinho recém-nascido… Esta evocação lembrou-lhe José Antônio. Licínio teve saudades dele e o remorso de o haver jogado no berço com um gesto impaciente que tinha a significação brutal de um repúdio. Fizera o pobrezinho chorar! Pai desnaturado! Desprezar um filho e matar outro! Estas reflexões o puxavam para trás, para remediar o que ainda fosse remediável; a catadura ferocíssima do Afonso, no seu encalço, impelia-o para mais longe; e esse duplo efeito paralisava-lhe a resolução, imobilizava-o ali imensamente perturbado. Exausto de sentir essa dolorosa perplexidade, tomou uma resolução inesperada — a de ficar morando ali no mato, como um selvagem. A ideia era poética e atraente. Habitasse embora uma toca, sentir-se-ia feliz, porque o que desejava era paz de espírito. Que partido mais prudente? Voltar, seria morrer. Antes a vida, por mais penosa e solitária que fosse! Como nesse momento sentiu fome, Licínio pensou na solução do problema da alimentação. Ouvira contar casos de anacoretas que se sustentavam de folhas e raízes silvestres: não poderia fazer o mesmo? Deu um lance d’olhos em volta, sem divisar folha de aparência comestível. Também não via raiz que tentasse o paladar; só uns grossos raizames de árvores, unhando profundamente o chão. Notou, porém, que a certos intervalos caíam duma copa umas pelotas esbranquiçadas. Eram frutas. Heureca! Tomou avidamente uma delas e a partiu nos dentes. No mesmo instante cuspiu, enojado. Tinha um sabor acre e nauseabundo.
Só então começou a compreender a privação que os pobres ermitões deveriam sofrer! Como conseguiam subsistir no seio de uma natureza sovina e indiferente? Talvez pela intervenção direta da Providência, que, para os nutrir, renovava um milagre a cada dia. Licínio pensou em erguer o pensamento ao Céu, numa oração fervente, para implorar também um milagre. Assim fez, concentradamente; e, como se o Céu respondesse a seu pedido, ouviu no mesmo instante qualquer coisa cair do alto. Precipitou-se em regozijo para pegá-la; mas viu logo, decepcionado, que era mais uma das pelotas esbranquiçadas. Desenganado da intervenção celestial e vendo-se ameaçado pelo dilema — morrer à fome ou morrer à faca —, ele sentou-se acabrunhado, com o queixo enterrado entre os joelhos. Um bando de ideias tétricas, revoada sinistra de urubus, povoou-lhe o espírito desalentado. Perguntou então a si mesmo se não haveria uma terceira espécie de morte mais suave, que o livrasse da sua existência miserável. Oh, uma bala nos miolos! Instintivamente apalpou os bolsos, procurando. Gesto inútil, nunca andava armado. Todavia, o Acaso escarninho trocadilhou, fazendo-o encontrar uma bala de açúcar, que guardara naquela manhã para dar a José Antônio. Licínio contemplou-a, enternecido, lembrando-se do filho. Havia de guardá-la como relíquia valiosa, para um dia dá-la ao pequeno, contando-lhe as agruras daquele dia memorável. Essa tenção durou pouco, porque, com a fome, preferiu chupá-la, e o fez gostosamente, sem pensar mais em matar-se. Era provável que, acabada ela, recaísse Licínio nas garras da hipocondria, porque persistiam as causas de sua amargura; mas atraiu-lhe a atenção um grito longínquo, soando com intermitência. Parecia-lhe uma voz conhecida. Licínio concentrou-se para escutar. A voz avizinhava-se, e ele julgou ouvir as últimas sílabas de seu nome. Por fim escutou nitidamente: “Licínio!”. Era sua mãe. A voz dela soava demorada e dolente como um queixume. Já estava rouca, coitada!
O moço precipitou-se morro abaixo, sem ter tempo para hesitar, e do alto de um barranco viu na estrada sua mãe e Afonso, que seguiam emparelhados. Avistando o filho, a fisionomia angustiada da viúva iluminou-se, ao passo que Afonso fechava uma catadura emburrada. Compreendendo que nada tinha que temer, Licínio saltou na estrada e lançou-se comovido nos braços da mãe. Dali voltaram os três, lentamente, trocando frases raras sobre assuntos indiferentes, para evitarem explicações difíceis. D. Ismênia perguntou ao filho se sentia fome. Licínio cabeceou afirmativamente. — Então vamos passar por casa, meu filho; hei de arranjar qualquer coisa para você comer. Chegados aí, Afonso esquivou-se a entrar, ao que a viúva ponderou: — É melhor mesmo, Sr. Afonso, que vá adiante tranquilizar a família. Em casa, acendeu a lamparina porque já anoitecia. Rebuscando as vasilhas de mantimento, ficou consternada vendo-as tão vazias. Que lauto banquete ela não daria ao filho infeliz, se pudesse, ainda que o devesse pagar com seu sangue, com sua carne, com sua vida! Suspirou melancólica, servindo ao moço um prato humílimo, de sobras de comida, que ele devorou sofregamente. Enquanto comia, D. Ismênia procurava dissipar-lhe os receios que ainda tivesse. Soubera pelo Afonso que nada sucedera a Angélica. Em casa do médico, depois daquela escapula, não o receberiam mal. Se usassem alguma impertinência com ele, fosse tolerante, que “de hora em hora Deus melhora”. Ao sair da casa da mãe, Licínio levava a alma confortada e a fome apaziguada. Reentrar em casa do sogro, era agora para ele apenas questão de uma atitude a assumir. Optava pela mais humilde. Já meditava uma frase implorativa, a proferir ante a hostil assembleia familiar: “Justamente vos zangastes; perdoai-me!”. Mas achou o “vós” excessivamente oratório. Diria sua frase no tom do estilo caseiro usado por D. Alípia nas coisas domésticas.
Ao avizinhar-se da mansão do médico sentiu receio, mas com um arranco de intrepidez fictícia subiu a escada. Ao remergulhar naquele ambiente temido, as ideias sensatas enxamearam-lhe no espírito. Maldizia mil vezes sua cabeça birrenta que o impelira àquele disparate. Fora loucura; fora burrice. O grande momento avizinhava-se, porque chegara ao patamar; e, às apalpadelas, no meio da escuridão desusada que enchia a casa, procurava a porta de comunicação com o interior. Encontrou-a trancada! Era fato anormalíssimo! Bateu timidamente. Um rastilho de luz espraiou-se pelo chão e filtrou-se pelas frinchas da porta. Seu coração deu pulos formidáveis quando rangeu a chave na fechadura. Pensou em atirar-se de joelhos e pedir perdão; fá-lo-ia se fosse outra pessoa e não a Flauzina que surgisse no limiar. A pretinha segurava um castiçal e foi dizendo logo o recado: — Nhá Angélica falou assim, que, se o senhor quiser ficar, sua cama está arranjada na sala. Licínio tomou a vela e foi-se, suspirando, para o lugar indicado, onde encontrou a marquesa convertida em cama. Ao ver-se ali solitário, ficou melancólico, com saudades do largo tálamo conjugal. Aquela sala recrudescia-lhe as saudades, evocando recordações do noivado. Pensou no filho. Desejaria beijar o José Antônio, para quem aquele dia também não fora bom, como se nessa efusão sentimental aliviasse a consciência do peso do remorso. Dar-lhe-ia a bala que lhe guardara… Procurou-a nos bolsos; depois lembrou-se de que já a havia chupado. — Pobre filhinho! — suspirou, comovido. Olhando a parede, estranhou-lhe a nudez desacostumada. Faltava ali o que quer que fosse. Ah, o Napoleão! O Dr. Lopes estimava imenso esse quadro, e, como a sala ia ficar interdita, ele, para não se ver privado de contemplá-lo, removeu-o para o consultório. Adorava esse Napoleão, e com grande regalo contava a sua história a quem a desejasse conhecer. Não vinham à baila as batalhas célebres, Austerlitz, Waterloo: nada! o que o Dr. Lopes contava era a história da estampa, o dia em que a comprara, por quanto, o tempo que a
possuía, quem lhe pusera a moldura; por sinal que fora ele que lhe dera aquele dourado tão bonito, a ouro japonês. Muito lhe apreciava, também o chapéu de bico. Havia tempos o doutor se implicara com o colorido apagado do chapéu da estampa; um dia tomou da tinta vermelha e pintou-o. D. Alípia achou que o quadro ficava assim mais alegre, o que envaideceu muito o doutor, que quis pintar de azul a roupa de Bonaparte. “Não”, disse a esposa, “fica acaipirado”. E admiraram juntos, mais uma vez, o gamenho chapéu vermelho do general. Nesse dia Licínio ouviu o doutor repetir várias vezes, em solilóquio: — Oh, se eu tivesse tido um mestre de pintura! Com o coração apertado, o moço encaminhou-se tristemente para a cama. Muitos dias passou nesse desterro. A sala parecia um lugar maldito. À exceção da criada, que à hora das refeições lhe entregava o prato da comida pelo vão da porta, ele não via mais ninguém. À exceção também de Noêmia, que furtivamente o ia visitar, quando a casa estava deserta, levando escondido debaixo do avental algum doce, repartido do quinhão dela do jantar, ou alguma fruta. Um dia levou-lhe uma rosa de seu jardim. Se não tinha pressa, sentava-se um nadinha e contava a Licínio, em sussurros, uma porção de novidades importantes: a palmada que o Xanxã levara, o segundo dentinho de José Antônio, a gata que tivera uma porção de gatinhos, uns mimos que “só vendo!”. Quando o assunto terminava, afofava o travesseiro, sacudia o cobertor, e sobre isto dizia-lhe adeusinho com um gesto da mão pequenina e saía pé ante pé. O isolamento de Licínio era quase completo. A vida naquela casa transcorria distante da sala, onde todos os rumores chegavam remotos, como os ecos que se coam no ambiente pesado de uma casa onde sucedeu alguma desgraça. Às vezes, quando a criançada miúda galopava pela casa em correrias tresloucadas, acontecia que um ou outro dos cunhadinhos embarafustava pela sala, perseguido pelos demais. Era uma invasão barulhosa e instantânea. Pulavam na mesinha, atiravam-se de gatas sob a marquesa, aos gritos desatinados;
mas D. Alípia não tardava a descobrir a infração e surgia na porta, trombuda, rebolando-se como um chimpanzé obeso, e com um gesto imperioso fazia os diabretes brincões desfilarem murchos para fora. Ao vê-la, o moço tomava o seu ar mais submisso e murmurava palavras implorativas; a sogra fazia que não dava pela sua presença, a ponto de Licínio ter a sensação de não ser um ente tangível, mas um puro espírito a viver uma ilusão de vida imaterial. Esse “não ser” pesava-lhe tanto como a atitude de exprobração que as pessoas grandes da casa assumiam para com ele. Cada dia D. Alípia e Angélica tornavam-se mais anjos na sua imaginação. Não se lembrava da sogra carrancuda, impondo incondicional respeito; quem ele via com os olhos da alma era a matrona amável que em solteiro o recebia com os mais acolhedores e maternais sorrisos. Como pudera dar-lhe tal desgosto? Angélica passara a ser a pobrezinha que a maternidade desvaira; e pensava que, ao invés dos cuidados infinitos que seu estado reclamava, ele apenas lhe dava contrariedades! Via-a noiva, procurando-o com o olhar, dando-lhe a almazinha virgem, oferecendo-lhe todo o seu futuro. Como ele fora ingrato! Assim, a cada momento se acerbava mais seu remorso. Mais de uma vez, quando Flauzina aparecia, ele mandava pedir à sogra que lá fosse. A matrona não aparecia. Insistiu, chegou a rogar com lágrimas nos olhos. De uma feita o enganaram uns passos na saleta. Foi logo depois que mandou um novo recado idêntico. Aquietou-se e esperou a visita desejada. Mas era o doutor que passeava, nos seus costumados vaivéns pela casa. Licínio ouviu-o monologar, distraído: — Que quererá o Tomé com tantas embaixadas? Que quererá o Tomé? O recluso sabia que, desde o dia do dentinho, tomara esse apelido. Não tardou surgiu a pretinha trazendo-lhe a solução esperada: — Sinhá Alípia mandou chamar o senhor. No auge da ventura ele precipitou-se para fora. Na varanda encontrou mãe e filha. Estavam de pé e trombudas. Sem dizer mais,
Licínio caiu de joelhos e murmurou: — Perdão! Mãe e filha perdoaram-no com magnanimidade. Como Noêmia passasse perto, ninando José Antônio, Licínio arrancou-lho dos braços e comeu-o de beijos, enquanto o fedelho, com as mãozinhas gorduchas, lhe repuxava os bigodes, sorrindo com dois dentinhos perfeitamente visíveis.
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