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Os Bem-Casados

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Capítulo 25 · Os Bem-Casados

Segunda parte - Capítulo VIII

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Afonso insistia com a mãe para mandar-lhe mais um auxiliar, pois o serviço aumentava com a prosperidade crescente da fazenda. Procurando em torno de si, D. Alípia não via ninguém que pudesse ir, com exceção de Licínio. Entendeu-se com este, lembrando-lhe que lhe prometera emprego, nem que fosse em sua fazenda. Chegara a ocasião de dar-lhe esta prova de afeto. Se quisesse ir para lá com os filhos dela, mais tarde teria um interesse nos lucros. Mais tarde, dali a uns três ou quatro anos, conforme corressem os tempos. Licínio aceitou, desvanecido, porque a sogra acrescentara que o achava um rapaz correto, metódico, e que depositava nele mais confiança que nos próprios filhos, menos o Afonso. Durante uma semana deu-lhe instruções minuciosas, educando-o para a nova profissão como fizera com o Cosme para a política. Da parte prática, o Afonso se encarregaria. Desde o princípio fez-lhe ver que ele seguiria só, porque Angélica tinha saúde fraca, necessitando de seus constantes cuidados. Combinaram primeiro que ele viria aos domingos com os cunhados, mas para as contas somente, pois ninguém mais da família pisava na igreja, desde as insolências oratórias do vigário político. Depois D. Alípia refletiu um pouco, hesitou, e com uma coisa parecida a rubor assomando-lhe ao rosto, disse que os filhos dela, como dantes, voltariam no mesmo dia, mas que

Licínio podia pousar, seguindo segunda-feira de madrugada, porém muito de madrugada. Licínio ouviu jubiloso e corou também. E certa manhã, depois de despedidas chorosas, ele partiu para a fazenda, deixando no regaço de Angélica um novo rebento, desta vez uma menina, que viera suave, como por obra de milagre. Chegado à fazenda, o Afonso não foi ao encontro do cunhado. Licínio teve de procurá-lo para receber-lhe as ordens. Cumpriu-as diligente, com o desejo de agradar, de conquistar, afinal, a afeição do cunhado mal-encarado, que não simpatizava com ele. Jurava para si que, à força de dedicação e trabalho, lhe captaria a amizade. Levantava-se antes de todos e ia recolher o gado; durante o dia ocupava-se em mil coisas; e via com prazer que a desconfiança contra ele diminuía, substituindo-a uma doce cordialidade de relações. Acamaradou-se também com o Juca e o Pedrinho, rindo-se das farsas de ambos, e não as tomando a mal se era a vítima; mas não brincava e corria como eles, preferindo conservar-se quieto e reservado a exemplo do Afonso, que procurava imitar. Aos domingos a sogra o tratava com carinho, satisfeita dos elogios que Afonso lhe fazia. Algumas semanas depois, ao chegarem os quatro moços, D. Alípia disse ao genro: — Ah, Sr. Licínio! quase o mandei chamar ontem, com urgência! — Que houve? — interrogou ele, inquieto. — Doença? Sabia que Angélica se achava novamente grávida, o que o fazia passar, longe dela, dias turbados de receios; era tão melindrosa, tão fraquinha! — Não, graças a Deus, não é nada de doença! Depois direi. O moço compreendeu que se tratava de acontecimento importante. Quando se reuniram todos no consultório e Afonso puxou do bolso a papelada das contas, D. Alípia deteve-o com um gesto. — Não, meu filho — disse —; os negócios depois. Estou preocupada com outra coisa. E dirigindo-se a Licínio, com uma voz de circunstância, séria e solene, começou:

— Desgosta-me muito ter que falar num assunto destes, que irá magoar seu coração de filho. Mas que fazer! É preciso! Licínio teve um sobressalto. Sua mãe! Era verdade que ele ainda tinha mãe. Seus lábios se repuxaram, numa contração de desgosto inexplicável. Na sua vida nova tudo lhe corria com tanta placidez, que o passado lhe dormia no íntimo, como um tranquilo açude de água lodosa. Aquelas palavras agitaram-lhe a estagnação, e o moço sentiu-se displicente, com um desconhecido desagradável a borbulhar-lhe do íntimo. — Sim, é filho — continuou D. Alípia —, mas é justiceiro. — Admiro muito seu caráter correto, Sr. Licínio; e o Afonso também. Este confirmou com a cabeça. — Há muitas coisas que encubro para não o contrariar, Sr. Licínio; mas, quando chegam a certo ponto, não é mais possível, é preciso a gente tomar uma resolução. O senhor bem viu que, quando mandamos a roupa para sua mãe lavar, foi porque ela bem quis; nada lhe pedimos. Pois há de acreditar que há meses, desde sua ida para a fazenda, ela nos tem judiado com a roupa? O que para nós era economia tornou-se agora prejuízo. Parece que lava de má vontade. Se não, veja! Indo a um canto do gabinete, mostrou-lhe uma pilha de roupas. — Veja se isto é camisa lavada! Toda encardida. Não há nada que tire estas nódoas. Como esta, uma porção. Todo sábado mando para trás um montão de roupas, para ensaboar de novo. Não pense que é por falta de energia minha; gosto de ver tudo andar direito e tenho-lhe falado severamente a respeito. Angélica também. E quem a visse quando nos escuta! A cabeça baixa, um ar de santinha arrependida… Mas vai, no outro sábado, vem tudo na mesma. E ontem, sabe a que ponto chegou o pouco caso? Olhe! D. Alípia, no frenesi de uma de suas belas cóleras que a faziam dançar os pés inquietos no chão, estirou no assoalho um lençol estraçalhado. — Novo, este lençol! Não havia ainda sido ocupado. Foi lá para tirar a goma e voltou em que estado! De cretone, e novo, novinho!

Veio dizer que foram uns bois que o mascaram. “Mas como foi isso?”, perguntei. De atarantada nem pôde responder. No entanto, é culpa dela! Devia ter mais cuidado! Todos sabem que muitas horas do dia, em vez de cuidar da obrigação como as outras, Siá Ismênia deu para ficar de lado, sentada, banzando, a mão na cara, feito uma mosca-morta. Ah, não posso com uma coisa dessas! Desculpe a franqueza, mas quando qualquer coisa me oprime preciso desabafar. E nisto quero seu auxílio. Licínio fitou a sogra, à espera de que lhe dissesse como podia ajudá-la. — Por mais que eu me zangue — prosseguiu D. Alípia —, Siá Ismênia não endireita. Parece até que já perdeu a… o escrúpulo. Eu queria que o senhor lhe falasse, o senhor mesmo, com energia, para ver se toma rumo, do contrário não tenho mais confiança de entregar-lhe nossa roupa! Os sentimentos desconhecidos continuavam a borbulhar no íntimo de Licínio e subiam-lhe à garganta, quase embargando-lhe a voz! Quedou-se um momento indeciso, mas logo se lembrou do conceito em que agora o tinham, e da consideração que lhe mostrava D. Alípia, e da qual não devia desmerecer. E respondeu, resoluto: — Tem razão, D. Alípia. Minha mãe procedeu mal, muito mal. Estou pronto a falar-lhe. — Pois vou mandar chamá-la já — disse D. Alípia. — Bem sabia que o senhor, sensato como é, também gosta de ver as coisas direitas. Xanxã foi encarregado de ir procurar Siá Ismênia. Voltou pouco depois com ela; e introduziram a viúva no consultório, onde o conselho de família estava ainda reunido defronte do corpo de delito de sua incúria criminosa. Ao penetrar aquele cômodo sombrio, ela sentiu-se intimamente regelada. Viu sentados, solenes como juízes, D. Alípia, Afonso e Licínio. Estavam sérios e calados. Ao fundo observavam-na com ar de escárnio o Juca e o Pedrinho. A viúva compreendeu que ali comparecia como ré; sem falar ao filho, ato que sentia seria descabido, esperou de pé que lhe dirigissem a palavra. Aproveitou a

pausa para relancear Licínio. O olhar que lhe deu nesse momento exprimia sofrimento e angústia, e uma como interrogativa dolorosa que o filho não pôde traduzir. Varava-o tão fundo, buscando ler-lhe no âmago da alma, que Licínio não o pôde suportar. Desviou o seu, desconcertado, sentindo embaralharem-se-lhe as ideias e os sentimentos. Com esforço senhoreou-se outra vez de si. E em toada lenta, estudada, embora um tanto incerta, repetiu os agravos da sogra. Mostrava-lhe a roupa perdida, orçando o prejuízo. Em poucas frases terminou o recado. Então, sem saber mais o que dizer, repisou, tartamudeando, as mesmas recriminações. D. Ismênia ouvia-o, absorta; não entendia suas palavras, apenas sentia-as contra si; mirava-o todo, acompanhava-lhe o gesto seco do dedo, apontando as roupas; pasmava-se vendo-lhe a expressão dura do rosto. Numa parada de Licínio ela exclamou: — Você, meu filho! O moço reagiu contra a emoção, que o fazia gaguejar; e prosseguiu nas censuras. — Você, meu filho! — tornou a dizer D. Ismênia, boquiaberta. Como Licínio esmorecesse, sem nem saber mais repetir-se, D. Alípia tomou a palavra para renovar a acusação. D. Ismênia, apatetada, encarava alternativamente nela e no filho. Não os ouvia. Sentia-se envolta num ambiente de pesadelo. Fora dela e dentro dela, tudo era vácuo morto e sem som; as próprias pessoas que tinha em frente pareciam-lhe criaturas sem vida real. Vendo-a branca e silenciosa, D. Alípia julgou o efeito suficiente e promissor de melhor procedimento. Com uma última frase severa despediu-a. Mas a viúva não se movia do lugar, com o olhar baço e as mãos rugosas a tremerem. — Pode sair — repetiu a matrona. D. Ismênia estremeceu, despertando; e tropegamente retirou-se. Ao descer os últimos degraus da escada, caiu, levantando-se em seguida suja de poeira. Pedrinho, no alto, mãos na barriga, prorrompeu numa gargalhada interminável; e, correndo à janela, ainda sem poder falar, mostrou ao Juca o vulto da velha, com as

costas sujas de terra, que acabrunhada, se afastava lentamente. Dentro, Licínio ficara tão branco e trêmulo como sua mãe; mas uma forte voz interior, a voz da consciência, que pelo timbre se parecia à de D. Alípia, dizia-lhe que havia cumprido o seu dever. Mal a viúva saiu, disse a matrona, espichando o beiço, com desdém: — Vamos ver se isso agora toma jeito. Não tomou. No sábado seguinte, como a viúva tardasse a trazer a roupa, D. Alípia mandou-lhe Flauzina com um recado exigente; a criadinha voltou com a trouxa intacta, com a mesma roupa suja que fora na segunda-feira, e cujas melhores peças se achavam inutilizadas pelo bolor. A matrona, ao vê-las, primeiro recuou, cheia de horror, e em seguida, furiosa por se sentir desprestigiada, despicou-se em Flauzina, aplicando-lhe uma coça mestra. Por que motivo, não se sabe ao certo: uma xícara quebrada, ou água que derramou no chão — qualquer coisa semelhante.

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Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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