Universo da obra
Universo da obra
Licínio não sabia em que tom participar a sua mãe a nova resolução. Receava-lhe a oposição, embora ela nunca lhe contrariasse os desejos; não oposição áspera, de vontade prepotente que quer impor-se, mas um fastidioso rosário de conselhos, lamentações e súplicas. Para prevenir esta possibilidade, deu-lhe a notícia friamente, com um “Resolvi casar no dia tal”, como decisão irremovível. Foi debalde: teve que ouvir os conselhos, as lamentações e as súplicas, e, como os achasse desagradáveis, replicou, por fim, à mãe, com certo desabrimento que a fez calar, ressentida. Cessadas as palavras, tudo nela ainda assumia atitude reprovadora, conseguindo pelo silêncio uma eloquência que aquelas não tiveram. Desenganada de conseguir convencer o filho, a viúva acabou por dizer: — Precisamos então tratar dos preparativos. Você quase não tem roupa, e a pouca que tem está muito velha. E quedou-se abatida. Pressentia, acaso, que ia perder o último filho. Tantos já eram os ingratos! Criados com muito amor, ela não compreendia como se podiam tornar tão deslembrados, que para eles a mãe era como se já não existisse. Consolava-se da perda do afeto de um com os que restavam, e da perda do afeto dos outros consolou-se com Licínio. Tinha a vaga esperança de que não lhe roubariam aquele filho; era o móvel de suas ações, a sua razão de existir, era tudo o que restava de seu lar antigo; queria fazê-lo sensato, bem-orientado na vida, apto para lutar contra a sorte: e tão cedo já o via estranho a ela, esquecido de que ela era sua mãe; sensível
e bom, porém fraco e voluntarioso, guiando-se apenas pelos seus caprichos de inexperiente, levado pelos acontecimentos como uma coisa inerte. Via a inutilidade de lutar ainda, e por isso se conformou com o casamento próximo. Licínio discutiu com ela a questão do enxoval. Orçaram-no com toda a modéstia, mas uma modéstia decente, que implicava despesas avultadas para a sua míngua de recursos. Ele teve um movimento de piedade pela mãe, que ia obrigar a esse novo sacrifício. — Pobre da senhora! Como se arranjará? — Ora! Hei de arranjar-me. Mesmo que tenha de vender alguma coisa. Nesse momento um rumor de gritos e baques de muletas no soalho indicaram que o Bolão chegava da rua. Era o substituto da Joaninha Cega, que dias atrás “desocupara” o cômodo do terreiro. Os outros candidatos ficaram temporariamente derrotados. Bolão era o mais merecedor, por ser antipatizado pelo povo. Não sabia pedir com humildade nem agradecia o que lhe davam. Meio louco, vivia a descompor a todo o mundo, ameaçando com as terríveis muletas os garotos que o perseguiam gritando-lhe a alcunha e atirando-lhe pedras, para o verem furioso. Quando saía ao seu giro de esmolas, as mães, ao pressentirem-no, recolhiam aflitas a criançada, estrondando as portas da rua, como a fugirem de um cataclismo em forma humana. Aquele horrendo aleijado era invocado como tutu para acalmar as birras dos fedelhos manhosos. Quando trabalhador, quebrara a espinha numa queda, ficando inutilizado. O que dava ao Bolão seu mau gênio, eram as contínuas provocações dos moleques e sua voracidade insatisfeita. Comia a qualquer momento o que lhe dessem, com uma sofreguidão que para muitos era um espetáculo divertido. A chegada do Bolão interrompeu a conversa entre mãe e filho. D. Ismênia, para acalmar-lhe os gritos, acenou-lhe com uma panelada cheia. Ao vê-la, a fisionomia descomposta do monstro se desmanchou num sorriso de satisfação. Emitiu grunhidos de gozo, escancarando a bocarra, donde escorreu um fio de baba pegajosa.
E, com um bater tempestuoso de muletas, se foi atrás da viúva, que, fazendo da panela chamariz, o conduziu para seu cubículo. Procurava aquietá-lo no seu quartinho a fim de não incomodar a Licínio, que a custo lhe tolerava os gritos e a presença. Embora fossem os móveis poucos e antigos, sua venda, lembrada pela viúva, era o único recurso para conseguirem o dinheiro necessário. Quando saiu num carro de bois o guarda-louça e o velho relógio de armário, correu todo o arraial a notícia da venda, chegando aos ouvidos dos credores. Foi o fogo do estopim chegado à pólvora. Perdido o acatamento que mostravam a D. Ismênia, porque julgavam que os queria prejudicar, irromperam os credores pela casa dela, exigentes e irritados. Com uma catadupa de alegações, o Fragoso mostrava a papelada da conta, que excedia a seiscentos mil réis; e a Quitéria vendeira, sacudindo os braços de múmia, vociferava insolências. Como correu o boato de que a viúva chamara credores, todos os que se julgavam com direito a algum pagamento concorreram para ali; e, temendo que os competidores levassem vantagem, buscavam intimidar a devedora, e faziam-se o mais importunos possível. Um escândalo nunca visto, no pacífico arraial! Ao estourar da tempestade, Licínio, para manter ilesa a sua dignidade, julgou prudente trancar-se no seu quartinho. Ali se conservou, profundamente desgostoso, com a alma embebida em fel. Envergonhava-se da repercussão que ia ter aquele fato, cuja notícia já havia, certamente, chegado à casa do médico. Com que cara se apresentaria lá no dia imediato? Sentia a vergonha escaldar-lhe o rosto. Desafogava-se acusando mentalmente sua imprevidente mãe, por ter deixado as coisas chegarem àquele ponto; era ela, com a sua excessiva bondade, a culpada de tudo. Se eram pobres, se precisavam viver com parcimônia, para que sustentar aquele parasita do Bolão, depois de Joaninha, e tantos outros miseráveis? Em casa ele via sempre uma súcia de vagabundos que iam chorar miséria e abastecer a sacola vazia explorando a piedade fácil e dadivosa da viúva. Era inevitável que semelhante desregramento conduzisse àquelas consequências! Como não via aquilo na casa do médico, incomparavelmente mais abastada? É que D. Alípia era mulher de tino prático.
Segundo seu costume, Licínio recomeçou um paralelo entre as duas, paralelo esmagador para sua mãe. Não prosseguiu, porém, porque um remorso agudo lhe alanceou a alma, por ouvir nesse momento a voz chorosa e suplicante da viúva. Ele atentou nessa voz triste como um lamento e de humildade implorativa. Licínio reagiu contra a comoção, invocando a análise fria. Entristecia-se como um tolo — refletiu — pelo efeito sugestivo de meras entoações de voz. Era aquela toada plangente, modulada em gemido, que o influenciava com sua música dolorosa. Sua mãe não devia falar assim, era esse o momento de altear a fronte com altivez e obrigar aquela caterva ao respeito, pondo-a porta fora. Como frequentes vezes ouvia proferirem seu nome, o vexame de Licínio recresceu. No meio da balbúrdia das reclamações era difícil a viúva e os credores se entenderem. Afinal, Fragoso deu-se por satisfeito com a promessa de hipoteca da casa, e os credores menores foram facilmente acalmados; um ficava com as alfaias de prata, outro com a mesa, outro com o banco e o estrado da “varanda”; a Quitéria vendeira se deu por paga levando várias miudezas e a máquina de costura; e assim, mais ou menos aquinhoados, foram-se todos embora. Na casa saqueada reinava um silêncio de morte. Mãe e filho não se animaram a trocar uma palavra o resto do dia. Enfim, vencidas todas as dificuldades, foram ultimados os preparativos, e, na época designada Licínio casou. Casou, não como o homem refletido que resolve tomar estado, mas como o justo que penetra no céu de todas as bem-aventuranças; em vez de um enlace foi a apoteose da suprema ventura. Licínio julgava sonhar. O grupo de homens que foi buscá-lo para as cerimônias civil e religiosa, a mesa de doces, o baile, Angélica imaterialmente linda, tudo eram aspectos do mesmo sonho dourado em cujo esplendor se via envolvido. Além disso, ausência absoluta de preocupações; o que era o passado, perdia-se para trás em um nevoeiro confuso e impenetrável; e o futuro, Licínio não o interrogava. Para quê? Angélica era sua e bastava; a seu lado a vida não podia apresentar senão odoríferas rosas.
Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.