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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 14 · Os Bem-Casados

Primeira parte - Capítulo XIV

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D. Ismênia, à noite, costurava na varanda. O serviço pouco rendia porque, preocupada com a viagem de Licínio, interrompia-se a cada momento para dar-lhe conselhos com sua voz mansa e melancólica de quem muito sofreu. Licínio, ao pé da máquina, pouco escutava, malgrado sua atitude simulasse atenção. Fugindo à tristeza de seu isolamento no quartinho do terreiro, Joaninha Cega costumava passar os serões naquela “varanda”, a ouvir mãe e filho conversarem, ou o rodar afanado da máquina em ocasiões de muito aperto de costuras. Quedava-se encolhida numa banqueta a um canto. Naquela noite faltava ali, porque agora mal podia levantar-se da cama. Já era uma proeza grande sair ao terreiro uns minutos por dia, arrimada a seu bastão, para tomar um pouco de sol. Definhava a olhos vistos, tornando-se uma isca de gente, sumida de magreza, o que trazia em alvoroço os indigentes da vila, que se disputavam a sucessão no cubículo que ela ocupava. O pensamento de Licínio oscilava entre São Paulo e Angélica. Ora todo ele se achava mentalmente naquela cidade, antegozando o prazer de reentrar na vida de estudante e na convivência dos amigos queridos; ora lembrava-se com simpatia e piedade da filha do médico, cujos arrufos reativaram, naquele dia, a sístole vital de seu marasmado amor. Licínio, porém, não se iludia mais. Sabia que era excitação passageira, não devendo, por isso, influir em suas resoluções. — Não devo ter remorsos de deixá-la — dizia consigo, pedindo auxílio, naquela contingência, às tinturas de filosofia que tinha para

seu uso —, porque não somos responsáveis pelas nossas ações, e o remorso implicaria essa responsabilidade, o que a ciência desmente. Somos escravos dos motivos, e os motivos a que obedeço forçam-me a partir, tirando-me o arbítrio de resolver. De um lado, Angélica, minha obrigação à família do médico; do outro, minhas dívidas aqui, as que forço minha mãe a fazer, minha carreira a concluir e o dever de atalhar este amor com que iludo a pobre menina. Assim cotejava ele os prós e os contras. Descia às vezes ao empirismo: imaginando uma balança, punha num prato os motivos favoráveis à partida e no outro os contrários. Esses motivos, conforme seu maior ou menor peso, ele representava como batatas maiores ou menores. Isto era o resíduo de uma reminiscência remota, de um dia em que vira, com pasmo, um negociante vender batatas aos quilos. Lembrava-se bem da balança, que tinha as conchas azinhavradas. A que figurava mentalmente era azinhavrada também, e as próprias batatas se pareciam com as que vira pesar. Certo momento em que cessou o estridor da máquina, disse a viúva, apurando o ouvido: — Não sei o que tem a Joaninha! Lá está a gemer. Vou animá-la um bocado. Também a coitada está por pouco! Espevitou uma lamparina de querosene e lá se foi com ela, arrastando as chinelas, para o lado do terreiro. Poucos momentos depois bateram à porta. Licínio teve preguiça de ir ver. Bateram de novo, com energia. Então levantou-se e foi abrir. Fora, na escuridão da noite sem estrelas, divisou um vulto irreconhecível; mas, ouvindo-lhe a voz, estremeceu apavorado, porque, esta, reconhecia-a bem! Soara surda, com um timbre duro, de rancor. — Sr. Licínio, preciso falar-lhe em particular. Venha comigo! — Pois não! Boa noite, Sr. Afonso! O “Sr. Afonso” não se dignou de corresponder ao cumprimento. Afastou-se acompanhado de perto por Licínio, cujo ânimo timorato se confrangia com mil apreensões. Não precisava a presença do Afonso para ele sentir receios: bastava o aspecto da noite. Tudo era indistinto e de um negrume carregado. Sapos tantangalhavam num

brejo. O chio sinistro de uma coruja lançava a intervalos no espaço a nota arrepiadora de um mau presságio. A poucos passos dali deixaram para trás as últimas casas do arraial, metendo-se numa estrada deserta. Mas estrada deserta ou rua povoada, tudo, àquela hora, era o mesmo ermo e as mesmas trevas. Naquele momento culminante de sua vida Licínio sentia o que deve sentir o condenado caminhando para o cadafalso. E seu espírito centuplicava hipóteses: aonde era levado? A que sacrifício horrendo fora sentenciado? D. Rita delatara tudo? Ia pagar com a vida a ousadia de seu abraço? Quereria D. Alípia vingar-se do desdém com que ultimamente ele tratara Angélica, e que agora frisava com a sua partida iminente? Morrer assassinado! Devia ser horrível! horrível! Uma faca a entrar lentamente na barriga… Porque, decerto, seria a faca. Licínio tiritava. Teve ímpetos de voltar em desabalada carreira; mas Afonso podia alcançá-lo e enterrar-lhe a faca nas costas. Brrr! Sensação horrorosa! Correndo, precipitaria o momento fatal. E prosseguiam. Adivinhavam-se árvores enormes ladeando a estrada, que mergulhava em maior treva. O pé tateava incerto o chão desigual. Sapos coaxavam infernalmente. Mais além uma porteira, ao ser aberta, emitiu um rangido arrepiante. Licínio passou à frente de Afonso, que a ficara segurando; e o baque dela, fechando-se, soou-lhe sinistro, como ao Conde Hugolino o distante ranger da chave fechando o portão da torre onde o iam matar à fome, com os filhos pequeninos. De muito longe chegavam os sons lúgubres de uma marcha fúnebre que a banda do Leôncio ensaiava para um enterro no dia imediato. Continuavam a caminhar, mas Afonso conservava-se atrás, como na intenção de cortar-lhe a retirada. Estavam agora num campo em cujo terreno a estrada se entranhava meio corpo de homem. — Sr. Licínio — começou Afonso calmamente. — Senhor? — retrucou Licínio com humildade. Estacaram em frente um do outro. Afonso continuou: — A pedido de minha mãe quis ter este particular com o senhor. Recebi na fazenda um recado urgente. E, se não chegasse hoje a

tempo de estarmos juntos, tinha ainda até amanhã, à hora do seu embarque. Porque eu iria à estação! — Sim, senhor — disse Licínio, que ouvia, aterrado. — Em primeiro lugar, uma pergunta: quais suas intenções a respeito de… minha irmã? (Este “minha irmã” saiu-lhe com entoação feroz.) — Casar-me com ela — respondeu Licínio flebilmente. Dizendo esta falsidade, pensava consigo: “Se for para optar entre casar-me com Angélica e uma faca enterrada nas costas, prefiro a primeira alternativa. Ainda mais que gosto dela. Tive hoje a prova, vendo-a amuada”. Não digo que nesse momento as frases lhe surgissem no cérebro ordenadas e calmas, mas era isto que se traduzia de seus sentimentos caóticos. — E pode dizer-me — insistiu Afonso com o afobamento do caçador que vê quase acuada a presa — o que significava essa história de viagem de amanhã? — Ia… continuar os estudos… procurar… um meio de vida… Reconheci que… — Devia ter reconhecido antes de namorar, ouviu? — exclamou Afonso, malsopeando a cólera. — Antes de namorar minha irmã, escutou? — berrou sacudindo-lhe com força o braço. — Ainda vai? Ainda vai? — Não… não vou — disse Licínio quase choroso. Afonso largou-lhe o braço e fez uma pausa. — Olhe — continuou daí a pouco —, mamãe tem envelhecido dia a dia, exclusivamente por sua causa. O senhor veio trazer a desmoralização ao nosso lar. O povo já anda com ditinhos, todo o mundo vive a perguntar-nos se é noivo de Angélica. Respondemos que não. E com que carão ficamos! Agora esta sua viagem, para envergonhar-nos ainda mais! Ouvindo-o raciocinar, Licínio cobrou ânimo e conseguiu dizer que lastimava essa situação penosa para a família de Angélica e estava disposto a fazer o que achassem mais razoável.

— Deve pedir minha irmã. É indigno dela, mas depois desses diz que diz que é a solução mais airosa! — Sim senhor… — Amanhã. — Sim senhor… — E, depois de pedir — berrou-lhe Afonso ao ouvido —, vá para São Paulo, ouviu? — atracou-lhe o braço, sacudindo-o outra vez. — Vá, se tiver coragem, seu traste! A imagem da morte inelutável passou de novo ante os olhos de Licínio, mais horrível ali, naquele cenário de solidão e trevas soturnas. Tremulamente confirmou que não iria. Nada mais foi dito entre eles. Voltaram calados, ladeando-se, cada qual revolvendo suas próprias cogitações. Licínio mal acreditou quando se viu só, a reentrar em casa. Chegando à “varanda” levou a mão à cabeça para descobrir-se. Só então notou que saíra sem chapéu. D. Ismênia costurava. À chegada do moço atentou-lhe nas feições desfiguradas. E foi com a voz prenhe de pressentimentos maternos que lhe perguntou: — Não vai mais amanhã, meu filho? Licínio hesitou em responder. Disse consigo que precisava resolver de ânimo perfeitamente livre. Evocou a balança mental em que pesava os motivos; mas depois da entrevista com Afonso pesava na concha dos contras um batatão que levantava irresistivelmente todos os contrapesos… — Não vou, não… — respondeu por fim. — Já o adivinhava — respondeu D. Ismênia, tristemente. E, com um suspiro, continuou a costurar.

Os Bem-Casados

Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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