Universo da obra
Universo da obra
Além de Noêmia havia ali outra pessoa que simpatizava muito com Licínio: era D. Rita, porque o moço tinha paciência para responder a seu rosário de perguntas. Licínio não lhe evitava a companhia incomodativa, talvez porque os irmanava a sua igual condição de poleás naquela casa. A velhota andara uns tempos doente, e, à exceção do moço, ninguém fora a seu quarto pedir notícias. Agora já se levantara e podia andar, arrimada a um bastãozinho. À medida que aumentava em idade, parecia tomada de uma gana maior de saber as coisas, como se a possuísse o receio de morrer sem saber tudo o que se passava e se dizia na face da Terra. As pessoas da família a relegaram para o esquecimento; ninguém lhe dirigia a palavra a não ser para ralhar-lhe ou dirigir-lhe observações desagradáveis. Exasperada pelo isolamento, e incontentada, apesar da complacência de Licínio, que não sabia novidades a contar-lhe, por sair pouco, e já muito fraca para correr as casas do arraial a fim de fazer a sua colheita de mexericos interessantes, era a janela o seu supremo desafogo. Para ela corria ao rumor de passos de algum transeunte, que seu ouvido apurado adivinhava ainda longe; notava donde vinha, para onde ia, procurando depreender, pelos seus modos e precedentes sabidos, o que pensava e o que ia fazer. Não sendo pessoa de cerimônia, a octogenária não resistia, fazia-a parar: — Bom dia! — Bom dia! — Aonde vai?
— À chácara da Sinh’Ana. — É para ela esse presente? — Não é presente, não senhora, é arroz que vou levando neste saco. — Onde comprou? por quanto? é do catetinho? Qual seu nome todo? E de seu pai? Sua mãe ainda não morreu? Quem é ela? Geralmente suas últimas perguntas ficavam sem resposta, porque o interpelado finalmente fugia, a passos rápidos, surdo aos chamados insistentes com que ela procurava repescá-lo. Num domingo, à falta de outro interlocutor mais interessante, D. Rita aproveitava-se da passividade de Licínio fazendo uma investigação em regra sobre seus antepassados. O moço respondia o que sabia, com meio tento na conversa e outro meio na lembrança de que a mãe lhe prometera uma visita naquele dia. Apesar de a esperar, foi D. Rita quem deu pela chegada da viúva. — Está alguém na porta — disse ela com a boca semiaberta, em atitude suspensa, de atenção, e as mãos aduncas paralisadas num gesto, como a suster algo invisível no ar. Admirado de tal acuidade auditiva, Licínio foi ver, reconhecendo sua mãe. Ele não prevenira da visita a família do médico, pois, sem saber por quê, acanhava-se de falar nela. Sentiu certo desapontamento vendo-a, a seu convite, subir a escada do sobrado, como se lhe fosse desagradável como realização aquela visita que, esperada, era um prazer. Chegada ao patamar, D. Ismênia sorriu para o filho e abraçou-o às pressas a fim de apertar a mão de D. Rita, que o acompanhara. — Vamos entrar — disse Licínio, um pouco embaraçado. — A senhora está muito conservada, D. Rita — disse D. Ismênia, ao entrarem na sala de jantar. — Qual! — respondeu a velha. — Só me falta morrer! Parece-me às vezes que já estou morta em pé. Sentaram-se. D. Rita contou suas doenças à mãe de Licínio e pediu-lhe em seguida notícias dos conhecidos. Dos lados da cozinha ouvia-se a voz de D. Alípia falar em “inconveniência”, “excessiva intimidade” e “sala de visitas”. Apareceu, por fim, trombuda, mas só. Tomou um ar altivo e seco, e não quis
sentar-se depois de dar a mão à viúva. Licínio não tirava os olhos de uma e outra, angustiado e inquieto, querendo ler, na expressão dos semblantes, o que lhes passava no íntimo. Viu, com vexame, D. Alípia reparar na saia de ramagens vermelhas que trazia sua mãe. Ele lembrou-se de que já conhecia aquela saia, mas não atinava com quem vira. Súbito recordou-se de que fora com a Maroca, mulher do Pedro Carpinteiro. Provavelmente aquela chitinha ridícula era a roupa melhor de seu vestiário, e por isso a emprestara a D. Ismênia para aquela visita de circunstância. Se D. Alípia soubesse, ele morreria de vergonha! Poucas frases trocaram as duas. D. Rita, que podia sustentar conversas com suas perguntas inesgotáveis, foi-se escapulindo para o seu quartinho apenas chegou à “varanda” D. Alípia, de quem ela sentia muito medo. Licínio achava sua mãe excessivamente esquerda e calada, dando má ideia de si. D. Alípia podia tomar seu acanhamento como frieza. Desejaria que ela se mostrasse loquaz, insinuante, risonha, desfazendo à força de afabilidade afetuosa a prega de descontentamento que se cavara na linha mediana da testa de sua sogra. Como desejaria vê-las íntimas, muito amigas! Decididamente sua mãe era intratável. Licínio tinha-lhe ressentimento pelos seus modos reservados. Não vendo Angélica, o moço foi procurá-la no quarto, para dizer-lhe que a mãe dele estava lá. — Dê uma desculpa por eu não aparecer — respondeu ela. — Estou suja, e para trocar roupa demoraria. — Mamãe não é de cerimônia — disse Licínio em tom súplice. — Assim mesmo fico acanhada. Ele ainda pediu-lhe humildemente que, para ela não ir sem um agrado, lhe fosse fazer um “cafezinho”. — Não posso passar pela varanda nesta sujeira para ir à cozinha — disse Angélica, já um tanto irritada. — Além disso, estou com dor de cabeça. Licínio não insistiu. Voltou para a sala de jantar e sentou-se numa banqueta baixa, com os cotovelos nos joelhos e as mãos no queixo, em postura de desalento e tristeza. Xanxã, que entrava, achando-o
cavalgável, de um salto pulou-lhe no cogote. Com paciência e custo Licínio conseguiu libertar-se do fedelho. Era-lhe o maior dos suplícios a palestra de sua mãe e D. Alípia, que ele apatetadamente ouvia. Limitava-se a perguntas tímidas de D. Ismênia sobre as pessoas da família do médico, às quais D. Alípia dava respostas breves. Sempre de pé, a última provocava pesados silêncios incômodos, que coagiram D. Ismênia a levantar-se para sair. Arregaçando um sorriso falso, D. Alípia teve a condescendência de acompanhá-la até o patamar. Licínio desceu a escada em companhia da mãe. Chegados à porta da rua, D. Ismênia relanceou para o alto, e, não avistando ninguém, disse baixo ao filho: — Fiquei acanhada de dizer o fim de minha visita hoje aqui. Eu queria oferecer a D. Alípia para lavar a roupa de todos da casa. Para ela convém, porque não terá de pagar nada. — Mas a senhora já trabalha tanto, mamãe! — objetou pro forma Licínio, a quem o oferecimento dava viva satisfação, porque sabia que, com seus instintos econômicos, D. Alípia ia ficar contente, passando a ver-lhe a mãe com melhores olhos. — Ora! — respondeu a viúva — o aumento de serviço é insignificante. Diga a ela, sim? Ouvindo no sobrado os passos pesados da matrona, D. Ismênia abraçou rapidamente o filho e afastou-se. D. Alípia, assomando ao alto, aguardou que o moço subisse. Disse-lhe, então, com expressão pausada: — Sr. Licínio, não me agradam cochichos em minha casa! Isso é mais próprio de negros. Desconcertado de todo, mal pôde o moço gaguejar o recado da mãe. Defendeu-a: foi por acanhamento que falara a sós com ele sobre o assunto. Ela insistia para que aceitassem seu oferecimento. Nada cobraria pela lavagem da roupa… — Não sei se convirá aceitar — disse D. Alípia, mudando de tom. — Depois dou minha resposta. — Depois dou minha resposta — repetiu maquinalmente o Dr. Lopes Coutinho, que passava perto, pelo hábito que adquirira de reproduzir distraidamente as frases que ouvia à sua mulher.
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