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Os Bem-Casados

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Capítulo 24 · Os Bem-Casados

Segunda parte - Capítulo VII

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Tão grande foi o contentamento de Licínio ao ver reentrar sua vida no andamento costumado, que seus sentimentos para com a família do médico de todo o ponto se modificaram. Votava agora um misto de admiração e reconhecimento a D. Alípia e a Angélica. O que dantes constituía para ele motivo de implicância, tornava-se objeto de veneração. Achava agora certa grandeza moral na gravidade com que as duas conversavam sobre assuntos sérios, induzindo das mínimas coisas generalizações filosóficas profundas. Compreendia quanto fora fútil e presumido. Como não tinha bom senso, o melhor que lhe cumpria fazer era deixar-se guiar pelas cabeças sensatas das duas. Desistia de todas as veleidades de emancipação. Como pudera pensar nisso quando compromissos graves lhe atavam a conduta, compromissos assumidos com o passo decisivo do casamento? E a transformação se acentuava, como por obra de milagre. Começou a ser muito meticuloso, a fazer suas obrigações com o amor e o escrúpulo de quem quer fazer tudo bem feito. Para que houvesse esquecimento total do passado, tornava-se acomodatício. Ao dirigir-se a Angélica, sua voz era mansa e quase apagada; se não obtinha resposta, em vez de embezerrar, como dantes, resignava-se. Toda a sua atitude para com ela era humílima, o que se revelava até no abuso dos diminutivos. Precisando do lenço ou de punhos, pedia-lhe “o favorzinho de lhe dar um lencinho ou um parzinho de punhos”. Era como se ansiasse por se diminuir a si próprio e a seus desejos para se fazer tolerado.

Essa regeneração captou-lhe de novo a simpatia dos moradores da casa. Todos lhe prestavam mais atenção, e não raro D. Alípia já lhe solicitava o parecer sobre os negócios domésticos. Com Angélica recomeçara uma lua de mel sui generis toda de afeição discreta e mútuo respeito. Um dia a sogra, como testemunho da amizade crescente que lhe votava, chamou-o ao vestiário do Lopes, para presenteá-lo com sua última roupa velha. O presente não valia tanto por si, como pelo significado simbólico, pois aos filhos da casa é que competia a sucessão das calças remendadas do pai, e semelhante dádiva era nada menos que elevá-lo à categoria de filho. Licínio compreendeu; e foi com orgulho e satisfação que se enfiou naquelas roupas amplas, que vinham no momento psicológico substituir sua ultracoçada fatiota de zurra. Tão a sério tomou sua perfilhação, que de instinto esposou a hostilidade da família contra D. Rita. Repelia-a com mau modo, se o buscava para encher-lhe o ouvido de perguntas ou de queixas contra a nora. Para D. Rita foi um golpe considerável, pois era o único desabafo que lhe restava, depois que a família julgou conveniente, a fim de pôr cobro às indiscrições da velha nas casas que frequentava, contando pormenores da vida íntima da família, proibir-lhe que saísse só. Para ir à missa ou fazer visitas, era escoltada pela vigilância alerta da nora ou de Angélica. Nem à janela lhe permitiam ir, “para se evitarem as conversas intempestivas”, no dizer de D. Alípia. Exasperada em sua curiosidade insatisfeita, D. Rita caiu de cama e entrevou, com um mal de nervos que lhe puxava gemidos prolongados que ninguém ia consolar. Em família, às vezes D. Alípia referia-se à mãe de Licínio, reparando certas coisas. Fazia-o até em presença do moço, mas em termos comedidos, o que era nova prova de consideração. A cada observação dizia com delicadeza: — Desculpe-me falar assim, Sr. Licínio, mas o senhor, como moço sensato, não deixará de dar-me razão. Licínio concordava sempre com tudo. Juiz desse tribunal doméstico, condenava a mãe todas as vezes que D. Alípia a acusava. Não

era, todavia, sem um repuxamento doloroso d’alma, de que ele evitava ter consciência, pelo receio de se sentir culpado. Enxotava de si a sensação molesta que sorrateiramente lhe cravava o ferrão envenenado de uma espécie de remorso. Sua atitude psicológica em relação à viúva era procurar esquecê-la; e se raro em raro acontecia vislumbrar seu rosto encarquilhado e triste, sentia contra ela uma surda irritação por vir fazer-se presente em seu espírito. Uma vez foi quando o Tobias morreu de tísica. D. Ismênia assistiu-lhe os últimos momentos e auxiliou, piedosa, os preparativos para o enterro. Obedecendo à tendência caritativa de sua alma, era a enfermeira de todos os doentes do povoado. Como Tobias fosse tuberculoso, D. Alípia referveu em justa indignação: — É demais, Sr. Licínio! O senhor há de concordar… Nem tem qualificativo esse procedimento! Sua mãe não se lembra de que cuida da nossa roupa, esquece que tem de lavá-la com as mesmas mãos com que lavou o corpo de um tísico! Licínio abundou nos mesmos sentimentos. Esse gosto de ir “fossar” na casa dos doentes, prosseguiu D. Alípia, não a recomendava muito perante as pessoas de conceito. São “folias” próprias de gentinha. Já bastava o trabalho de lavadeira! Procedendo assim, ela desmoralizava a si, e, indiretamente à família dela, Alípia, por causa dos laços que a prendiam a Licínio. — Sua mãe é muito esquisita — acrescentou. — Falta-lhe um pouco de respeito às conveniências! Vê-se isso até na escolha das amizades. Vive numa intimidade reprovável com a Maroca do Pedro Carpinteiro e com as lavadeiras com quem bate roupa na fonte, e fica tão contente nessa rodinha, que não cuida de procurar a amizade de pessoas dignas. Por isso é que todos a tratavam com descaso. A nós, por exemplo, ela procura? Procura o senhor, que é seu filho? Mal pede notícias suas. E mostra muito má vontade, quanto às obrigações… Não se lhe pode dizer nada, mesmo quando é de precisão. Anteontem, por exemplo, conferindo o rol, demos por falta de uma fronha. Como não é a primeira vez que isto sucede, falei-lhe com certa energia. E só o senhor vendo! Fechou

uma cara feia e fingiu que estava chorando. Não compreendo essa pouca vontade de se corrigir! Licínio concordava, convencido pelas razões irresistíveis da sogra, que era a Razão em pessoa, não só nas palavras como na entoação da voz, na atitude, no olhar e nos reboleios majestosos do corpo. Dias depois o moço teve motivo para ficar-lhe grato. Embalava o José Antônio na rede, quando sentiu que sua mãe entrava no cômodo contíguo, perguntando por ele a D. Alípia. Era pela manhã. — Ele agora está ocupado, respondeu a matrona, estranhando aquela vinda em hora imprópria. — Então não precisa chamá-lo. Falarei com a senhora mesma… Ele vai bem? — Sim senhora, obrigada. — Angélica e todos os mais, bons? — Também, obrigada… Não quer sentar-se? O convite foi feito com um sorriso forçado e uma voz amarela, que davam a compreender que a viúva estava sendo importuna. — Agradecida. Eu desejava apenas… dizer ao Licínio… que lhe arranjei um emprego. — Um emprego? — espantou-se D. Alípia. — Sim… De caixeiro, no Fragoso. D. Alípia entufou-se de indignação. — Oh, Siá Ismênia! A senhora acha meu genro com cara de empregado! De caixeiro! E, além disso, do Fragoso, que tanto o desfeiteou a ele e à senhora, por causa de dívidas? O Fragoso se arrependera, explicou a viúva. Fora pedir-lhe desculpas e fazer oferecimentos. Ela desculpara, como era natural, e, quanto aos oferecimentos, dissera que aceitaria um arranjo para o filho, se fosse possível. Ele prometeu pensar a respeito, e depois, generosamente, ofereceu-lhe um emprego no negócio. — Caixeiro! — horrorizava-se a matrona. — Um genro meu! Um genro do Dr. Lopes Coutinho! Penso que não foi o Sr. Licínio que lhe pediu esse lugar?

— Não… — tartamudeou a viúva. — Pensei que… para ele não ficar pesando à sua família… — Pois não se preocupe mais com meu genro! Na minha família, graças a Deus, não há nenhum caixeiro, e feijão para mais uma pessoa não é que vai fazer falta! Se o Sr. Licínio algum dia precisar de colocação, nós a arranjaremos, e digna! E estendeu a mão à viúva, dando por terminada a discussão e a visita. A matrona, ainda palpitante de indignação, foi direito onde estava o genro: — Ouviu, Sr. Licínio? — Sim, senhora. — Caixeiro! Quando o senhor quiser, eu mesma o colocarei, e bem! Olhe… talvez até na fazenda. Graças a Deus, recursos não nos faltam para encarreirar as pessoas da família! Dispensamos o intermédio de estranhos! Além do emprego, D. Alípia aludiu vagamente à tenção de metê-lo na política. Mais tarde, depois do Cosme. A eleição deste para vereador preocupava-o bastante. Em tempos fora o Lopes político, com elementos próprios; depois descuidara-se, abandonando o eleitorado. Mas refletindo bem agora no prestígio que um lugar na câmara dá a uma pessoa, e em certas vantagens que poderiam auferir, como, por exemplo, melhorar a estrada da fazenda, ambicionou esse cargo para um dos filhos. Lembrou-se logo do Cosme, que na fazenda era um imprestável, com a sua eterna preocupação de comer. E com isso a atrapalhar os outros, armando quizílias. Agora, principalmente, depois da ida do Juca, andavam os dois engalfinhados em brigas o dia todo, como dois criançolas que eram. A conselho do Afonso, julgava necessário tirar um deles da fazenda, e ela escolhia o Cosme, porque, além de inútil, sua estupidez lhe dava uma aparência de gravidade que dizia bem com o sério das funções a que era destinado. A ideia de fazê-lo vereador encontrou certa oposição, principalmente da parte do padre, que se intrometia na política, e já tinha candidato para o lugar cobiçado. Divergir do reverendo Gauquério

era mau, porque, excessivamente autoritário, em todos os assuntos, religiosos ou profanos, só admitia uma opinião, que era a sua. Depois de algumas sondagens cautelosas que não surtiram efeito, para encaixar o candidato, D. Alípia julgou necessário um ato decisivo que definisse a situação: mandou o Lopes, de sobrecasaca e calva bem-ensaboada, ir dar parte, ao reverendo, das pretensões do Cosme. O padre Gauquério tomou o negócio em riso: — O Cosme? Camarista? Ah! ah! ah! É de gloriosa! E como o doutor insistisse a sério, reproduzindo o recado bem-ensinado: — Não! É impossível. Não pode ser! Não saiu desses três argumentos talhantes. Ao saber a resposta, D. Alípia encheu-se de uma daquelas santas indignações que a faziam gesticular, rebojando as banhas, com os pés inquietos a dançarem febrilmente no mesmo lugar: — Não pode, não é? Pois veremos! Ele é o padre Gauquério, mas o Lopes é o Dr. Lopes Coutinho! Se não quer as coisas por bem, haverá luta! Teremos a consciência tranquila, porque a declaração de guerra não partiu do nosso lado. Eu queria saber no que é que o candidato do padre Gauquério é melhor do que o Cosme! E no mesmo dia escovou o chapéu do Lopes, pô-lo sobre sua calva, acavalou-lhe no nariz os óculos de ouro, e, tomando-lhe o braço, saíram à rua. Era o princípio da campanha. Correram às casas dos conhecidos, explicando a situação e pedindo-lhes o voto. A ideia de dissidência foi bem recebida, porque o povo já estava cansado da política mandona do padre. E desse dia em diante, até a grande ata do pleito, não parava de entrar e sair gente na casa do médico, onde iam conferenciar com a matrona. O Dr. Lopes, compenetrado e de óculos, o cabelo restante muito bem penteado para trás das orelhas, presidia aos conciliábulos, proferindo a intervalos generalidades muito vagas, o que era seu modo de opinar, pois deixava à consorte o cuidado de debater os detalhes práticos. Leôncio era o mais extremado inimigo do padre, desde que este,

do alto do púlpito, lhe lançara a excomunhão, por saber que ele, por diletantismo, andava metido em maquinações de magia negra. O inventor passou a frequentar assiduamente a casa de D. Alípia. Esta ouvia com um sorriso melífluo suas intermináveis dissertações sobre a máquina de sua invenção e outras coisas importantes; sorria ainda ao ouvi-lo falar nos milhares de contos que lhe ofereceram pelo privilégio daquele invento, e que ele ia agora aceitar. — Não fosse a eleição, D. Alípia — dizia ele —, eu já estava no Rio a embolsar a cobreira! E a matrona admirava-se da insistência que ele punha em dizer uma coisa que ninguém levava a sério. Enquanto isso, o Cosme, instalado na casa paterna, aperfeiçoava-se para a grande investidura. A mãe corrigia-lhe a atitude lorpa, o olhar banazola; ensinava-lhe que dentro de casa não se anda com chapéu. Além disso, procurava tirar-lhe o feio vício da gula. Se o via com os bolsos crescidos, passava-lhes revista, sacando para fora broas, nacos de pão, bananas e mais comezainas que neles atafulhava de mistura. Cosme acompanhava com um olhar consternado aquelas preciosidades, que eram atiradas janela fora pelas mãos inexoráveis da matrona. Não tardou, a mãe achou que o rapaz já adquirira um verniz suficiente. Nas reuniões de eleitores, esquecida de sua autoria na transformação, ela era a primeira a admirar a compostura do candidato. Não falava; fechado em concentramento silencioso, tinha um ar de pensamentos graves. Se urgia dar conselho ou decisão, sabia emitir pequeninas respostas, lacônicas, como aperfeiçoada boneca falante, respostas que se prestavam admiravelmente a todos os assuntos: “Perfeitamente. Pois não! Veremos. Pois sim. Bem”. Puro milagre! D. Alípia enternecia-se até às lágrimas, ao observá-lo. Confidenciou certa feita ao marido, a indicá-lo: — Olhe, Lopes, o Cosme não é tão burro como pensávamos! Repare que tem seu tino. Na fazenda estava mesmo se perdendo. Pena foi não ter seguido uma carreira! — Podia ser hoje padre — respondeu o facultativo.

— Não, padre não! — apressou-se D. Alípia a responder —; não sei por quê, Deus me perdoe, mas estou tomando birra com essa gente, em cuja santidade não acredito mais. Não vê o procedimento indigno do padre Gauquério? No entanto, não lhe faltavam motivos de ser-nos grato! Sempre assinamos em subscrições para festas, tenho sido festeira muitas vezes, e você nunca deixou de vigiar o Santíssimo e carregar o pálio, nem de fazer parte das comissões para as obras da igreja. Sou uma desiludida… E acrescentou com um olhar vago, o pensamento a flutuar em hipóteses: — Talvez minha mana Lucrécia é quem tem razão, com o seu protestantismo… Mas repelindo a tentação: — Nunca se deve dizer “Desta água não beberei”, mas em minha família, protestantes, nunca! — Nunca! — ecoou o Dr. Lopes Coutinho. O ressentimento contra o padre se agravava de domingo para domingo. É que o reverendo Gauquério, desatinando ao ver seus fiéis debandarem para o partido do médico, entrara a fazer política do púlpito. Foram a principio alusões discretas; depois, indiscretas, e, por fim, sentindo-se a pique de uma derrota, não se continha, e despejava do alto de sua tribuna um enxurro de impropérios contra os antagonistas. E recorria às ameaças: — Sim, meus irmãos! — pregava ele um dia, rubro de cólera —; excomungarei daqui deste lugar todos os que votarem com a Chefa. Tão certo como Deus está no Céu! Havia sempre alguém que levava a D. Alípia o teor dos sermões dominicais. Desta vez ela bufou, sabendo do apelido: — “Chefa”, Lopes, “Chefa”, Angélica! Ouviu, Sr. Licínio? Cosme! desconhecem a autoridade de seu pai! Então acham que a opinião do Lopes não pesa? Que ele é uma besta? Um dois de paus? — Acham que sou um dois de paus? Uma besta? — repetiu com veemência o médico.

Mas toda a cólera cessou no dia do enorme triunfo. Também, de memória de gente, não se lembravam em Três Barras de festa como a que comemorou a vitória da nova dissidência. A cerveja espoucou profusa, e fez-se uma hecatombe de leitoas. A casa regurgitou de correligionários. É verdade que num dia se foram pela água abaixo as economias de meses; mas foram-se cantando, com a alegria do dinheiro bem gasto, que compensa em risos e festas o que absorveu de doloroso labor.

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Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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