Leia agora
Os Bem-Casados

Universo da obra

Os Bem-Casados

Capítulo 3 · Os Bem-Casados

Primeira parte - Capítulo III

3 de 31 ≈ 29 min de leitura

Ao chegar à casa do Dr. Lopes Coutinho, as primeiras pessoas que Licínio viu numa espécie de antessala que comunicava com a sala de jantar foram o mocinho que o convidara conversando com o Bernardes. Conversando, não: ouvindo. Era esse o único modo de palestra compatível com a importância do seu interlocutor. Bernardes era muito desejado para genro a vinte léguas de contorno, devido às cem mil arrobas de café do pai, um barão de qualquer coisa conhecido unicamente como “Barão”. Eram cem mil, mas Bernardes, ancho de seus haveres, envaidecido de andar tão requestado, dava-se ares de duzentas mil, de mais ainda. Quem lhe fixava a cara esnobe, analisando-lhe os modos esnobes, e as demais afetações que perfaziam o aspecto geral de sua pessoa, não deixava de pensar num arranque de inveja: “O Barão deve colher quinhentas mil arrobas, no mínimo!”. A ostentação de fortuna que lhe aprazia fazer naqueles meios de tacanhice roceira, às vezes ultrapassava seu alvo, que era deslumbrar. Tão destoantes eram seus modos, palavras, trajos, ideias, dos usados no gasto ordinário da vida social, que aos olhos de muitos ele era algo como um museu de raridades. Fitavam-no como aos espécimes exóticos de algum jardim zoológico, boquiabrindo-se ao medir com os olhos o pescoço de uma girafa, ou ao contar as ramificações da cornadura de um veado galheiro. Era o mesmo abrir de bocas e pasmar quando trocavam entre si comentários: “Tem três

anéis de brilhantes nos dedos!”, “Que botina pontuda!”, “Que será que dá aquele lustre à sua camisa?”, “É cera ou pomada o que lhe levanta as pontas do bigode?”. Cada centímetro quadrado da superfície de sua pessoa dava aso a um semicolapso de estupefação e a outros comentários do mesmo jaez. Falava-se de seu namoro com a Angélica, filha do Dr. Lopes Coutinho, atribuindo-se a essa causa os bailes e jantares na casa do facultativo ao mais descabelado pretexto, quando acertava de estar o Bernardes de passeio ou a negócio do pai em Três Barras. Corria aquele boato; como, porém, em cada uma das localidades vizinhas havia uma ou duas Angélicas cortejadas do mesmo modo pelo Bernardes, quedavam-se todos céticos quanto ao desenlace desejado pela família do médico. Enquanto Bernardes falava, Juca, o filho do Dr. Lopes Coutinho, bebia-lhe as palavras pela boca, pelos olhos, pelos ouvidos, pelas narinas, todo ele numa atitude passiva de absorção e maravilha. A figura pernalta e a semiadolescência do moço davam-lhe ares de um frango ao qual as esporas tardam ainda. Por cacoete, a cada momento repuxava nervosamente o buço, como para o fazer crescer. Bernardes acabava de contar que chegara um automóvel para sua fazenda; e descrevia-lhe as peças, dava ideias, com gestos e torceduras de corpo, do modo como se guiava. Juca acenava com a cabeça para indicar que estava entendendo, o que era, todavia, muito problemático, pois nenhum desses veículos havia ainda aparecido em Três Barras. Licínio quis cumprimentar os dois, mas esperou que primeiro dessem demonstração de terem notado sua presença. Mas era como se fosse um espírito invisível. Nem o Juca nem o Bernardes atentaram nele para o cumprimentar. Embevecido com a honra de tão alta companhia, Juca julgaria rebaixar-se conversando com Licínio, ao passo que Bernardes assumira o ar das quinhentas mil arrobas com que gostava de impressionar as caras novas. Licínio tossiu, arrastou o pé, mas Juca continuou no seu enlevo, e Bernardes acintosamente olhava para tudo — para a maçaneta da porta, para a escarradeira, para o armário de livros — menos para Licínio. Este observou

que de vez em vez o filho do cafezista enfiava o olhar para a sala de jantar, para o grupo formado por duas moças e senhoras de mais idade. Aquelas duas olhavam mais ou menos disfarçadamente o Bernardes. Achou uma delas, em quem reconheceu Angélica, irmã do Juca, uma figurinha desenxabida e apagada. A outra devia ser a prima do Rio, Ercília, a aniversariante. Trajava com gosto, ao rir sabia mostrar os belíssimos dentes, e mostrava o desembaraço de quem tem traquejo social. “Era a carioca!”, pensou Licínio contemplando-lhe com admiração namorada a silhueta. E aparava com os seus os olhares que ela lançava, endereçados ao Bernardes, que visivelmente lhe correspondia. Afinal, Juca resolveu dar pela presença de Licínio, a quem disse: — Então, veio também? — Sim — respondeu Licínio, vexado, cumprimentando com a cabeça Bernardes, que supôs estar olhando para seu lado. Mas puro engano. O olhar dele, tangenciando a têmpora esquerda de Licínio, fixava o brilho niquelado de instrumentos cirúrgicos num armário envidraçado, por isso não viu o cumprimento. — O Licínio, estudante… — apresentou o Juca. — Ah, estudante… E no tom desdenhoso com que o disse, Bernardes parecia acentuar que não havia mácula maior para uma pessoa. Deu a mão por condescendência, mas ato contínuo afastou-se, como quem não se quer contaminar com más companhias. Juca, aflito, foi-lhe na cola. Entrementes, outras pessoas chegavam. Ouviam-se a cada momento os passos de mais convidados subindo a escada. Em cima espalhavam-se os homens pelos vários cômodos que antecediam a “varanda” ou sala de jantar; quanto às mulheres, entravam para esta, onde havia o afã de crioulas pondo a mesa, meio estonteadas pelo ar de festa que reinava na casa, e a fazer com os pratos, copos e talheres mais barulho do que o estritamente necessário. Entre os recém-chegados estava o Leôncio de Sá, cuja loquela incansável fazia o monopólio das atenções em qualquer roda onde

se achasse. Era calvo e de uma cara sem idade, tanto podendo ter quarenta, como cinquenta ou sessenta anos. Homem maravilhoso e extraordinário, uma espécie de alquimista desgarrado num século que não era o seu, Leôncio tinha habilidades enciclopédicas que o talhavam para muitas grandezas. Basta dizer que em época não remota revolucionara o pacato vilarejo com a descoberta do moto-contínuo, preocupação que sobrepujava as demais, numerosíssimas, que povoavam seu cérebro. Por causa desse invento tomara uns tempos certos modos estranhos que o faziam passar por louco; vivia em viagens misteriosas a diversas localidades, em conciliábulos maçônicos com ferreiros, mecânicos e funileiros a quem encomendava as peças de seu maquinismo, uma aqui, outra ali, para não lhe reconstituírem a engenhoca, roubando-lhe o segredo. Houve uma ocasião em que viajara três dias para ir buscar um parafuso vulgar. Depois de um longo período dessa operosidade dispersiva, ele fez retumbar a grande nova: descobrira o moto-contínuo e ia vender seu invento por seis mil contos! Do aparelho nada se sabia, a não serem vagos informes pelas indiscrições da mulher e das filhas do Leôncio, que contavam que um dia o foram espiar a furto, e que tinha mais rodinhas que um relógio. E, aguardando a riqueza, elas já andavam alvoroçadas pelos negócios, deixando de olho muita teteia apetecida e muita fazenda fina pelas quais iam trocar as chitinhas de somenos a que as obrigavam os poucos recursos do genial inventor. A ocasião de ir buscar a bolada chegou. Leôncio tomou o trem sobraçando um vasto pacote: era a coisa! Mas voltou com o embrulho, descontente, porque, dissera, apenas lhe ofereceram quinhentos contos, ínfima quantia pela qual não se resolvia a malbaratar seu invento. Leôncio era em três Barras coletor federal, boticário, carimbamba (concorrente terrível do Dr. Lopes Coutinho, cuja clientela absorvera), torneiro, chefe de banda, fotógrafo, merceeiro, criador de coelhos, fundidor, prestidigitador, descobridor de um remédio para mordeduras de cobras, escultor, finalmente, tudo, e mais alguma coisa. E note-se que era defeituoso, tinha um dedo quebrado. Como inventor, não só ideava e executava descobertas próprias,

como aperfeiçoava as alheias, numa ânsia do mais perfeito que raiava pela mania. Dessem-lhe uma cadeira de quatro pernas, ele meteria uma quinta, no centro, com ponderações justificativas. Se Deus lhe pedisse a opinião sobre a máquina do universo, é mais que certo que Leôncio não deixaria de levantar seu toco de dedo, que era o indicador da mão direita, e sugerir ao Inventor do Moto-Contínuo universal. — Saberá Vossa Divindade que eu acharia melhor, para variar a monotonia do céu, fazer umas estrelas redondas, outras quadradas; preferiria também que, em vez de dois olhos voltados para a frente, tivéssemos um de cada lado, perto da abertura da orelha, ou então um no meio da testa e outro na nuca, para enxergarmos para todos os lados ao mesmo tempo, etc. Nisso de querer aperfeiçoar tudo, Leôncio chegava a ser de um intrometimento que provocava remoques de seus conterrâneos. Diziam entre si: — Por que ele não endireita a corcundinha da Augusta, e não lhe põe dentro do corpo uma armação de arame, para não ser mole-mole? Augusta, de apelido a Mole-Mole, era sua filha mais velha, cor de queijo, um saco de preguiça. Tinha preguiça até de ter o corpo direito, o que lhe dava um jeito corcovado e propensões a encostar-se aos portais e aos móveis, no abandono de quem se deita. Trazia a cabeça caída sobre o ombro, também de preguiça de tê-la direita. Naquele momento, Leôncio, que mal acabara de chegar com a família, já organizara entre os homens uma rodinha de palestra, na qual pontificava, explicando interminavelmente qualquer coisa. Todos, de cabeça inclinada, observavam-lhe o que quer que fosse na mão. Ao avizinhar-se Licínio, como este era mais ou menos conhecido dos componentes da roda, interromperam-se para cumprimentá-lo. Em seguida Leôncio disse: — Dr. Licínio… — Doutor, não! Licínio somente.

— Ora, dessa massa é que se fazem! O senhor está no forno… Eu mostrava aqui a estes amigos um pequeno aparelho interessante: um isqueiro automático… Retomou o fio da explicação, depois de, por esse modo sumário, incorporar Licínio ao seu auditório. O moço também se pôs de cabeça curvada, como os outros, observando o isqueiro. Leôncio acendia-o, apagava-o, encarecendo-lhe a utilidade. Ia porém melhorá-lo, adaptando-o a uma bolsa de fumante, de sorte que, quando torcesse a mola, aparecesse, ao mesmo tempo que a chama, uma mãozinha oferecendo um cigarro. Leôncio trazia sempre consigo uma porção de maravilhas dessa espécie. Sua casa, por sua vez, diziam que era um lugar impressionador, com mecanismos de alçapões misteriosos que tiravam toda a segurança e calma de espírito ao inerme visitante, que receava, a um ligeiro movimento inadvertido, ver abrir-se-lhe aos pés, no assoalho, o buraco de um precipício. Uma caverna perigosíssima, em vez de um lar tranquilo! Depois do isqueiro, mostrou ainda uma sua fotografia animada, que, por meio de uma compressão, abria e fechava a boca e os olhos, sorria, fazia caretas. Faltava, porém, ali, não sei quê, para, etc., melhoramento que ele ainda havia de pôr-lhe. Todos os do grupo mostravam tanto interesse no que dizia e mostrava Leôncio, que outros se foram chegando, para ver também. Entre eles o Tristão, empregado do alfaiate, rapaz de condição humilde, gentinha, mas que gozava em Três Barras de uma consideração enorme, devido à escassez de moços casadores. Até lhe esqueciam os cabelos crespos de mulato e a voz fanhosa, essa voz característica de quem fala com um pente, coberto de papel de seda, em frente da boca. Veio também o dono da casa, o Dr. Lopes Coutinho, a cujo ombro se apoiava sorridente, com o seu melhor sorriso de agradar visitas, a venerável matrona D. Alípia, sua mulher. O médico era calvo, não tanto pelos anos, que não excederiam uns cinquenta, mas, provavelmente, pelas longas meditações no silêncio de seu gabinete, sobre as moléstias de seus antigos clientes, no tempo em que o Leôncio ainda não lhos havia tomado. Saiba-se que, apesar disto,

reinava a melhor harmonia entre ambos, circunstância fenomenal, destoante dos usos das terriolas primitivas. Licínio ficou profundamente impressionado pelo ar sisudo do Dr. Lopes Coutinho. Este e a esposa saudaram afavelmente os convidados. D. Alípia ia dizer-lhes que o jantar estava à espera; aproveitando-se, porém, do descortino que a porta daquele gabinete dava ao que se passava na “varanda”, ela fingiu interessar-se com o marido nos objetos curiosos de Leôncio, na intenção de observar dali o grupo formado pelas duas moças, a que se foram agregar o Juca e o Bernardes. Embora não se lhe dissipasse do rosto afável seu sorriso de agradar visitas, D. Alípia estava apreensiva, com a coincidência de umas tantas observações miúdas colhidas aquela noite. Parecia-lhe que as atenções do namorado de Angélica se iam deslocando desta para Ercília, o que muito a aborrecia, pois era o desmoronamento de um plano amorosamente acariciado. Daquele ponto de mira, conforme via Bernardes voltar-se para uma ou outra moça, sucediam-lhe no espírito alternativas de esperança e desilusão, com predominância da última. E foi a ponto de ela sentir urgente necessidade de agradar Licínio, com a previdência da mãe que em benefício dos filhos vai de longe aplainando o caminho de sucessos futuros, para que estes venham deslizando suave e seguro, como automóvel em asfalto. — Que prazer em vê-lo aqui, Sr. Licínio! — disse. — Desculpe não o termos convidado com maior antecedência, mas só ontem à noite soubemos de sua chegada. D. Ismênia como vai? Por que não veio também? Licínio, ao mesmo tempo que ia dando as respostas convenientes, observava-a. Achava-a simpática. Tinha uns modos tão insinuantes, tão bons… Apesar de orçar pelos mesmos cinquenta anos do marido, parecia menos idosa. Era alta, exuberante de carnes, seios volumosos, cintura enorme. Usava os abundantes cabelos retorcidos para o alto, em capacete frígio. — Simpatizo muito com o senhor — disse-lhe com sua maneira mais cativante, os olhos parados no grupo da “varanda”, onde se via o Bernardes todo da Ercília, namorando-a às claras.

— É muita bondade, D. Alípia… — respondeu Licínio. Os laços dessa afeição nascente foram-se estreitando mais no decurso do jantar. Quando os convidados rodeavam a grande mesa, onde Bernardes se postara ao lado de Ercília, todo atenções e sorrisos para ela, cada vez que D. Alípia via Angélica murcha e esquecida, dava a Licínio um dilatado sorriso maternal, que era mais uma confirmação de sua simpatia. Licínio, ao recebê-lo, totalmente cativo, baixava os olhos. Baixava os olhos porque não sabia onde pô-los. O moço sentia uma extraordinária confusão. Não acostumado a frequentar reuniões, achava-se semiapatetado e incapaz de analisar seus próprios sentimentos. “Que estranha perturbação é esta?”, perguntava-se. “Dar-se-á o caso de eu estar apaixonado? Por Ercília? Ora! Uma namoradeira” (namoradeira era, para Licínio, toda moça que namorava a outro e não a ele). “Por D. Alípia? Horrendo incesto! Sinto por ela apenas afeição filial. Será inveja da riqueza do Bernardes? Temor respeitoso infundido pela sisudez do Dr. Lopes Coutinho?” Licínio debatia-se num mar de dúvidas. A causa de seu estado d’alma talvez fosse nada mais que o acanhamento de comer em público. De tanto baixar os olhos ao receber o sorriso protetor de D. Alípia, ele resolveu ficar com eles no prato, regulando o tamanho das garfadas, fazendo-as diminutas, para não lhe crescerem muito as bochechas ao mastigar. — O senhor não está comendo peru, Sr. Licínio — disse D. Alípia. — Aceita este pedaço? E ameaçava pôr-lhe no prato uma coxa de palmo e meio, que trazia espetada num garfo. Licínio quis recusar; mas, como nesse momento tinha a boca cheia, não pôde emitir mais que um regougo ambíguo que tanto podia ser sim como não. Tomando-o por assentimento, D. Alípia depositou-lhe no prato aquela peça anatômica. No prato, não. O continente era pequeno para tal conteúdo. A coxa ficou ali feito uma colher no açucareiro. Como causava obstrução incomodativa, Licínio tentou pô-la de outro modo, isto é, deitada sobre as bordas

do prato. Mal se pilhou assim, o maldito pedaço foi rolando parar na toalha. Licínio ficou vermelho. Tirou-o da toalha e tornou a atravessá-lo no prato, escorando-o de um lado com uma batata inglesa e do outro com uma pirâmide de tutu de feijão. Houve certo equilíbrio que manteve a coxa em semitranquilidade ilusória. — Peço a palavra! — disse de súbito Bernardes. Houve pânico e petrificação geral. A coxa rolou de novo na toalha, impelindo ante si a batata inglesa, que foi parar fora do alcance de Licínio. Felizmente todas as atenções estavam voltadas para o orador, que saudava a aniversariante. Nesse momento um bufar insólito ao lado de Licínio fez-lhe compreender que algo extraordinário ali se passava. Era a solteirona Siá Cota, irmã mais velha da costureira Florinda, que emitia aqueles bufos, relampejando olhares de cólera no Tristão do alfaiate. A razão era que Siá Cota morria de amores pelo rapazola, e nesse momento acabava de surpreendê-lo a namorar escandalosamente a Augusta Mole- -Mole, Filha do Moto-Contínuo! Oh pérfido! pérfido Tristão! E Siá Cota coriscava olhares desvairados para os dois. Florinda acotovelou-a, avisando: — Estão olhando, Cota! Tenha modo! Chiando e fungando, a solteirona conteve-se, mas via-se que quase explodia, como caldeira em excesso de pressão. Daí a pouco a lufada de cólera passou, deixando-a apenas imensamente triste e abatida, tão abatida que desse momento em diante recusou tudo o que lhe ofereceram, até café. Depois do jantar, que acabou tarde, os moços e moças falaram tanto em baile, que não houve remédio senão improvisar-se uma orquestra para poderem dançar. Um tanto a contragosto de D. Alípia, é verdade, conforme a matrona confidenciou a Licínio ao começarem os preparativos: — Não me agradam muito essas folias quando há certos tipos de fora que a gente não conhece bem…

Frisou a alusão mostrando com o beiço o Bernardes, que de novo, renteado pelo Juca, se abeirara do grupo das moças, donde o atraía o olhar namorado de Ercília. — Juca! — exclamou D. Alípia chamando o filho. Juca estava tão boquiaberto de admiração pelo Bernardes, que a mãe precisou repetir o chamado três vezes. Assim que atendeu, D. Alípia levou-o a um particular no corredor, onde lhe segredou umas tantas instruções secretas. Não se sabe exatamente o que eram; mas o Juca, em virtude delas, ficou desconsolado, e manteve-se o resto da noite arredado do Bernardes, fazendo-lhe apenas companhia com o olhar invejoso e admirativo. Como o Pedrinho, um seu irmão de mais idade, de cara de macaco e trocista, quisesse tirar graças com ele, Juca, mal-humorado, repeliu-o. Para lhe aliviar o desconsolo, restava-lhe apenas o recurso dos apaixonados, de falar sobre a criatura amada. — Olhe, Licínio — disse Juca aproximando-se do estudante —, vê aquele plastrão do Bernardes? Não adivinha quanto custou. — Não… — Faça um cálculo. — Dez mil réis. — Acertou. Foram dez. Quanto ao alfinete… Juca estendeu-se num inventário meticuloso dos valores que constituíam a casca daquele ser humano, sobre os quais se achava perfeitamente informado. Fingindo ouvir, Licínio observava as moças. Não cria nos boatos que sua mãe lhe transmitira, isto é, dos intuitos secretos das festas dadas pela família do médico. Um homem tão austero como este, e uma senhora tão bondosa como D. Alípia, que se derramava toda em maternidade afetuosa com os convidados, não podiam maquinar essas tramas matrimoniais. Ao passo que assim pensava, Licínio observava Angélica. À primeira vista achara-a incolor, insignificante, de tal modo desaparecia na presença de Ercília. Esta, esmerada nos trajos, sabendo sorrir, conversar, era toda ela esse complicado aparelho de seduzir que a cultura social produz; Angélica, tímida e arisca, a relancear olhares fugitivos para a sala,

amarfanhava de contínuo o lencinho de seda, sestro de menina acanhada. Podia-se dizer menina, com os seus dezesseis anos. “A Ostentação e a Modéstia”, pensou Licínio, resumindo suas impressões numa frase. “Modéstia, sim!”, disse ele consigo. Angélica parecia mais um símbolo que um ente real, na candidez de seu singelo vestido branco. Vaporosa, etérea. Era certamente por essas qualidades de rarefação que se fazia quase invisível, despercebida aos olhares, como o fora para os seus, dele Licínio, que a princípio mal dera com sua presença ali. Acudiam-lhe, ao vê-la, todas as comparações castas: lírio, cecém, florinha agreste. Talvez não fosse bela, mas atraía irresistivelmente a simpatia. Simples, acanhada, era o tipo da menina de seu arraial. “Será namoradeira como Ercília?” A esta pergunta o coração de Licínio confrangeu-se, como se a resposta lhe importasse muito. Não! Não podia ser. E, repetindo o paralelo entre as duas moças, Angélica vencia de novo, enfeitada pelas suas qualidades negativas, por não ser triunfantemente bela como a prima, por não ser tão elegante, nem graciosa, por não saber conversar, nem sorrir, andar, ou sentar-se. Usava os cabelos soltos, e no penteado, única faceirice desculpável, um lacinho vermelho colhia-lhe uma madeixa sobre a orelha esquerda. — Angélica! — murmurou Licínio. — Não se pode adaptar melhor um nome à pessoa. Até ali Licínio apenas conhecera com esse nome uma cabocla papuda, que costumava ir à casa de sua mãe pedir “ajutórios”; esse nome sempre a trazia à sua memória, e parecia-lhe que todas as Angélicas deviam ser assim; agora o nome se nobilitara de súbito, parecendo-lhe singularmente belo. Com a boa vontade dos convidados, improvisou-se uma orquestra mista. Indo de um grupo a outro, D. Alípia lastimava-se por não ter previsto a tempo que tivessem a intenção de dançar, porque então contrataria a banda. Mas era mais do que sabido que os jantares do Dr. Lopes Coutinho tinham sempre esse desfecho dançante, e essa imprevisão, eternamente repetida, faria pensar que estivesse nos cálculos de anfitrião econômico

regalar os convidados com a menor despesa possível, dado o caráter gratuito com que prestavam seus serviços as orquestras improvisadas. Os instrumentos eram vários e malcombinados: flauta, cavaquinho, violão, sax… Leôncio, o homem dos mil ofícios, foi correndo à sua casa buscar um instrumento meio requinta, meio outra coisa, invenção dele, que apregoava como a mais genial novidade em música, de que tirara privilégio que futuramente pretendia explorar. Seu único defeito era ter um som muito grosso, de taquara rachada, percuciente para os tímpanos. Chamava-lhe requintão. Quando o viu assomar à porta com o instrumento, o Dr. Lopes Coutinho foi-lhe ao encontro, e pela primeira vez Licínio notou que ele deixava seu ar severo, rememorando coisas da mocidade: — E a minha requinta, hein, Leôncio, no nosso tempo? — Você foi um turuna, foi — confirmou Leôncio com uma voz ambígua de quem faz o elogio por obséquio. Era uma alusão aos tempos de rapazote, em que o Dr. Lopes Coutinho pertencia à banda então regida pelo pai do Leôncio, ex-escrivão, ex-dentista, ex-fotógrafo, ex-tudo, e de que o filho iria ser mais tarde uma edição mais complicada. Contava-se que o doutor cobrara tal amor a esse instrumento, que ainda agora lhe aprazia recordar variações antigas; e, se não fosse a proibição categórica de D. Alípia, ele, para aperfeiçoar-se, tomaria lições com o Leôncio. Àquele ponto a palestra foi cortada por um olhar severo da matrona, que desse modo lembrava ao marido que ela não gostava dessas reminiscências musicais. Leôncio foi incorporar-se à orquestra, que se instalara num ângulo do salão. Passou também para lá, com uma flauta, Afonso, filho mais velho do Dr. Lopes Coutinho. Morava numa fazenda do pai, administrada por ele, a poucos quilômetros do arraial. Era sisudo e reconcentrado, qualidades carrancudas contrabalançadas por certo número de sestros ridículos, como piscar muito, comprimindo os olhos, e lamber a cada instante as pontas dos dedos. Diziam ser aquilo o efeito de muita inteligência, que lhe desequilibrava um tanto a cachimônia. Era o orgulho da família, e, se esse orgulho

se justificava, dissesse-o seu talento na flauta, que chorava quando lhe encostava o bico, acolhendo-a sob a vasta bigodeira, caída como os ramos de um salgueiro. “Que prole numerosa tem o Dr. Lopes Coutinho!”, pensou Licínio. “Recapitulemos, para evitar alguma rata: Angélica, Juca, Pedrinho, Afonso… E ainda não são todos!” E como visse perto a matrona: — A senhora tem um numeroso batalhão de filhos, D. Alípia — disse. — Quantos? — Quatorze, Sr. Licínio! quatorze! — É uma felicidade! — tornou o moço, não se lembrando de frase menos chocha para responder. — Nem tanto! Quatorze filhos são quatorze cuidados… E o pior é que depois de crescidos se separam da gente. Tenho três na fazenda, os três mais velhos. Inda bem que não pensam em casamento, e isso me conforta! Aqui D. Alípia perturbou-se como se lhe houvesse escapado uma inconveniência, e procurou emendar a mão: — Quanto a Angélica… essa, não sei se pensará; acho-a tão incompreensível… Referia-me aos filhos homens. — Sua filha, D. Angélica… — começou Licínio a dizer, irreflexivamente. Engasgou-se, porém, no meio da frase, sem coragem de rematá-la. — Que é? — perguntou D. Alípia, de modo acoroçoador. — … é muito simpática — concluiu Licínio, avermelhando-se consideravelmente. Que ousadia fora essa? perguntou para si. Ele, tão tímido, atrever-se a dizer palavras tão denunciativas à mãe da mocinha que o encantara! Mas a figura rebojuda e afável de D. Alípia animava essas confidências, infundia nos que a avizinhavam imensa confiança, em sua tolerante bondade. Licínio achava-a sublime, aureolada de seu prestígio de mãe de numerosa prole, e especialmente de mãe de Angélica. Mal disse o moço aquelas palavras, D. Alípia fez um sinal, chamando a filha.

— Angélica! Venha ouvir o que o Sr. Licínio está dizendo de você! E quando a filha se aproximou: — Ele acha você muito simpática. Angélica também corou, fazendo pendant à rubefação de Licínio. Havia levantado para este os olhos, mas baixou-os confusa, ouvindo o que a mãe dissera. E ficou esquerda, retorcida de acanhamento. Nunca as palavras “simpleza”, “bonina”, “florinha silvestre” se aplicariam tão bem a uma criatura humana! Agravava-se em Licínio o mal de amor nascente. Conversaram algum tempo os três. Enquanto isso, o coração de Licínio batia misteriosos rebates. Que “namoradas estranhezas” eram aquelas? Amor? Receio de não ter correspondência? Vagos ciúmes do Bernardes, que tentara imiscuir-se na conversa, e que D. Alípia pronto despachara com três respostas secas? O resto da noite ele passou assim, ao mesmo tempo que observava furtivamente o vulto claro de Angélica, enchendo-se de alegre alvoroço quando julgava perceber que ela furtivamente também o buscava com seu olhar puro. O baile já começara. Licínio, que não sabia dançar, ficou como mero espectador. Acompanhava com os olhos o movimento dos pares, e tanto Angélica os levava consigo no giro das valsas, que poderia ele dizer como o poeta: “O meu olhar valsa com ela”. Enlevando-se com a vista de sua silhueta clara dançando, ele sentia-se feliz; preferia, porém, que naquele momento lhe acariciasse o ouvido música mais suave, no diapasão dos seus sentimentos delicados, e não a bulha infernal daquela “orquestra” macabra. O requintão era atordoador. O cavaquinho do Pedro, irmão de Angélica, tinha repinicados implicantes, e o sax do Tristão coaxava numa monotonia exasperadora. Os gemidos do violão e o choro da flauta do Afonso eram absorvidos no rumor atordoante dos outros instrumentos. Às vezes, para não se fazer notado, Licínio desviava os olhos de Angélica, e observava semidistraído os outros pares; via as pernas em parênteses de um, os sapatos cambados de fulana… Uma senhora baixa e gorducha, de cabelo levantado, dançava aos pinchos, socando o pericote, ritmicamente, nos queixos do par infeliz, que em

legítima defesa levantava o rosto o mais que podia, o que lhe dava o ar de um poeta a ouvir estrelas, ou de “Simplício olha para o ar” do livro de João Felpudo. Nas quadrilhas, era marcante o Zé de Paula, redator do periódico local, um semanário morrediço que apenas longe em longe saía de seu letargo “à luz da publicidade”. Dançava com a cabeça a oscilar sobre os ombros marcando o compasso, e o saliente pomo de adão a fazer pontaria no par fronteiro. Licínio achou cômico o Tristão do alfaiate, tocador de sax. Era louco por quadrilhas, e não sabia dançar outra coisa. Mal o Zé de Paula batia palmas gritando “Gerais!” Tristão largava o instrumento para o lado, e, malgrado os protestos dos companheiros de orquestra, ia tirar par. Seu par era sempre o mesmo, a Augusta Mole-Mole, filha do Leôncio, magricela, nariguda, cor de coalhada, cuja corcundinha tinha ondulações desgraciosas durante as evoluções da quadrilha. Siá Cota, sentada próximo de Licínio, comia-a com uns olhões ferozes, mas Tristão, nem por sombras se incomodava com o ciúme que carbonizava o coração da solteirona. Era todo de Augusta e da quadrilha. Mais ainda da quadrilha que de Augusta. Era o seu fraco. Tornara-se célebre o garbo com que fazia o En avant! avançando de esguelha, a jogar os braços com entusiasmo, à cadência da música; e, ao recuar, descrevendo um arco de círculo com precisão tal, que ia tornar exatinho no ponto de partida. Outra vez avançava de esguelha e descrevia ao voltar o mesmo arco… Não olhava para trás. Quem quisesse, fugisse da trajetória de regresso, se não queria ir num boléu parar longe. Nesse dia seu garbo esteve acima de tudo o que se podia esperar. Mole-Mole ficou totalmente rendida, e Siá Cota desesperada. Tão desesperada que Licínio se apiedou, perguntando-lhe delicadamente: — Está triste, D. Cota? Vendo-o interessado pelos seus penares, a solteirona respondeu, deitando-lhe um olhar agradecido: — Muito, muito triste! — Por que não dança também? — Não gosto… Não quero… Tenho o gênio reconcentrado…

Preferia viver num ermo… Resolvi entrar para um convento. — Um convento? — espantou-se Licínio. — Ainda existem conventos? — Não sei — respondeu a solteirona com sentimentalismo. — Devem existir, para refúgio das infelizes como eu! — Não diga isso — tornou Licínio delicadamente aflito —, nem pense em tal. É loucura! — Não! — replicou Siá Cota com veemência. — Já decidi… E sou firme nas minhas resoluções. — Nesse caso… Licínio não insistiu mais, por discrição. Mas parece que, com a sua delicada interferência nos padecimentos de Siá Cota, ganhou as boas graças desta, que desse momento em diante acentuou sua gratidão, dirigindo frequentemente para seu lado os olhos grandes de novilha. Tanto foi, que Licínio achou prudente afastar-se, colocando-se de modo a evitar o canhoneio silencioso de seus olhares ternos. Em seguida, abstraído da sala, ele enlevou-se todo em Angélica. Sentia-se arroubado. Tinha a sensação de pairar e sonhar. Talvez pelos efeitos hipnotizantes do requintão fanhoso, esse sonho figurado quase se tornou real, porque em dado momento sobressaltou-se, despertando de um cochilo. Então resolveu sair despercebido da sala e recolher-se. Toda a noite sonhou com Angélica. Ora a via no altar, como uma santa, ou no baile, a dançar, levípede e branca, ou numa nuvem, transfeita em sílfide, nuvem muito branca, donde sua figura também muito branca difundia um suave palor de luar sobre o universo.

Os Bem-Casados

Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Os Bem-Casados

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Os Bem-Casados

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Os Bem-Casados

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Os Bem-Casados Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Os Bem-Casados

Capa de Os Bem-Casados
Continue a leitura Primeira parte - Capítulo III Capítulo 3 · 3 de 31 · ≈ 29 min
Todos os capítulos 31 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir