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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 22 · Os Bem-Casados

Segunda parte - Capítulo V

22 de 31 ≈ 24 min de leitura

A resposta foi decidida em conselho de família, com o meticuloso escrúpulo que exige a discussão de um pedido de casamento. No dia imediato mandaram a D. Ismênia o “sim”, acautelado por uma porção de cláusulas — não pusesse a roupa a perder, nada deixasse sumir, pregasse botões e consertasse o que fosse preciso, não anilasse demais, etc. Nesse passo de tão grande ponderação, o Dr. Lopes Coutinho foi consultado, para que não se dissesse que a opinião do chefe de família não pesava; consulta essa, aliás, de simples formalidade, como a que se faz aos santos da parede, pois o médico, apenas com os seus cinquenta e poucos anos, já sofria de uns lapsos intelectuais que indicavam caduquice precoce. Levava a vida tão pacata e metódica, girando no círculo estreito de tão poucos hábitos, sem ocasiões de desenvolver atividade ou raciocínio, que a inteligência se embotara, afinal, como se atrofia um órgão não exercitado. Como sintoma alarmante, seu amor pela requinta ia-se fazendo paixão desarrazoada. D. Alípia quase perdia a paciência, tantas vezes ele lhe pedia com humildade, as lágrimas nos olhos, que o deixasse tocar. Se obtinha licença, a casa enchia-se com as escalas fanhosas de seu instrumento, coisa de ensurdecer a todos. Foi a ponto que um dia D. Alípia não se conteve: pegou na requinta, na caixa da requinta, na estante, nas músicas (inclusive o “Stabat Mater”!), fez de tudo um monte e pôs fogo. Fizera-o a contragosto, pois desagradava-lhe desprestigiar a personalidade respeitável do médico, mas explicou a Angélica que

há situações em que a mulher precisa ser enérgica, quando é para bem do marido e este não vê a razão. O Dr. Lopes Coutinho ficou inconsolável. Como derivativo a sua mágoa incurável, dedicou-se com aferro aos livros da escrita. Nessa época enriqueceu suas tintas com mais uma cor — a roxa —; e, em lua de mel com ela, sentiu atenuada a tristeza de ver seus vastos dotes musicais condenados a esterilidade perpétua. Aceito o oferecimento, D. Ismênia, na primeira segunda-feira, entrou no exercício de suas novas funções. Às segundas ia buscar a trouxa, e aos sábados levava-a, com a roupa pronta. Houve a princípio algumas reclamações e exigências que depois diminuíram, pois D. Ismênia ia aprendendo os hábitos da família e cada vez servia mais a contento. Licínio ficou satisfeito, por contribuir desse modo para as despesas domésticas; humilhava-o, porém, ver sua mãe ocupar esse emprego subalterno, no qual substituía uma Siá Bonifácia, cabocla muito baixa. A similitude das funções como que nivelava as pessoas. No ritual da entrega e do recebimento da roupa, nada se modificara para marcar consideração à mãe de Licínio; as verificações se faziam pelo mesmo processo: Angélica a contar as peças, separando-as, e D. Alípia, de pé, com o lápis e o rol na mão. Não davam mais à viúva a sombra de deferência que os demais ainda tributavam a sua antiga posição social naquele lugarejo. Dirigiam-se a ela com a sem-cerimônia com que tratavam Siá Bonifácia, reclamando o que queriam, e limitando a conversa a coisas da lavagem. Por fim, Licínio quase se agastava com a ideia generosa da mãe, porque sentia-se descer à proporção que ela descia. Parecia que, à menor contrariedade que causava em casa, tinham todos engatilhada a injúria: “Você é filho de uma lavadeira!”. Por isso evitava com mil cuidados dar azo a que se fizesse um pequeno movimento de lábios e o ultraje fosse irreparavelmente articulado em palavras. Pois que poderia responder? Ouvia às vezes mãe e filha, quando se julgavam sós, rirem-se de D. Ismênia, do seu rosto encarquilhado, da eterna saia de ramagens com que aparecia ali, das velhas botinas furadas de Licínio que ela usava e procurava esconder, do seu

cabelo empaçocado num coque; torciam-se de riso comparando a epiderme sedosa de suas mãos com a pele encoscorada e encardida das de D. Ismênia, a que Angélica, em guinchos de hilaridade, chamava “mãos de craca”. Iam-se habituando a falar dela à vontade em presença de Licínio; e, como sinal visível de desconsideração, já não a tratavam de “D. Ismênia”; era “Siá Ismênia”, simplesmente, como a outra era “Siá Bonifácia”. Licínio evitava encontrar a mãe quando esta ia buscar ou levar roupa, pois sentia um estranho amargor ao espetáculo de vê-la, assim degradada, a falar, como a outra, unicamente em coisas da lavagem. Não era difícil esquivar-se aos encontros, pois a viúva não merecia as honras de sala: recebiam-na no quarto dos arrumos, sem a mandar sentar, e dali ela saía, depois de uma despedida acanhada, sem ousar estender a mão a ninguém. Mal dava Licínio pela sua estada na casa. Mesmo nisso, frisava a desigualdade. Fosse alguma visita, ou algum parente longe da família do médico, haveria um tumulto alegre; D. Alípia e Angélica comporiam o rosto com o seu sorriso mais amável, mudariam de voz, esmerando-se em dizer melosidades sorridentes, para “agradar”. Este era o moto a que cumpria obedecer. Até a Licínio, Angélica ia desencafuá-lo onde estivesse, dizendo-lhe apressurada: — Fulana está na sala, Licínio! Precisa aparecer, senão ela repara! E, se o moço quisesse objetar, ela punha-o pela frente, quase a empurrar, dando em alvoroço instruções em voz abafada: — Não fique embezerrado, como no outro dia, saiba “agradar”. Não converse em assuntos de bobagem. Veja papai. Que compostura bonita numa sala! Fale em coisas sérias. Por essa época os hábitos de Licínio se modificaram um pouco. Desde o dia em que fora procurar a mãe à fonte e tivera aquela sensação embebedante de liberdade, desejara renovar esses momentos, variando a monotonia, que já lhe pesava, de sua vida cotidiana. Alguns dias saiu regularmente, indo jogar damas com o Tristão, que também lhe emprestava romances. Quem os fornecia ao oficial de alfaiate, era Siá Cota, que procurava tomá-lo da Augusta Mole-Mole. Já a esse

tempo, um tanto desenganado dos possíveis milhares de contos do moto-contínuo, Tristão mantinha entre as duas uma atitude ambígua, que levantava fervuras de paixão no coração da solteirona. E, em perplexidade infindável, não se cansava de pesar mentalmente — de um lado os quarenta anos maciços de D. Cota, e do outro os dois casebres velhos de que era proprietária. Nesses momentos de agradável espairecimento extraconjugal também Licínio podia fumar, filando cigarros do Tristão; dava assim desafogo a seu vício querido, pois fumo e cigarro, em casa da sogra, eram contrabandos que a Flauzina, muito recomendada, não se atrevia mais a trazer das vendas. Licínio, que em tempos anteriores tentara vezes sem conta, inutilmente, deixar de fumar, viu-se então subitamente desmamado como o Dr. Lopes outrora; mas o vício mal-extirpado conservava reclamos latentes; por isso, desses passeios levava para casa boa provisão de cigarros do amigo. A sogra e a mulher viam com maus olhos essas fugas, que revelavam propensão à vagabundagem. Graças a Deus, ninguém na família delas era corredor de casas, nem jogador, diziam, de modo que Licínio entendesse a alusão. Debalde o moço explicava que não arriscava dinheiro, que o jogo de damas era uma simples distração; Angélica voltava diariamente à carga, acoroçoada por D. Alípia, que lhe reforçava a resolução, dizendo: — Pois não ouviu falar no despotismo de dívidas que tinha quando se casou? Eram decerto as damas, a tal jogatina! Não! isso não tem propósito. — Vou proibir Licínio de sair, mamãe, é o melhor — disse Angélica em ar categórico. — Não! — moderou D. Alípia. — Também não se deve ir assim a ferro e fogo. Tente conseguir pelo bem, pela paciência, sem desanimar; mas afinal, se não houver outro recurso, imponha sua autoridade, pois você é mulher dele, e ele, como seu marido, deve respeitar a sua vontade. No dia seguinte, vendo Licínio a procurar o chapéu, Angélica chamou-o. Ela estava sentada num banquinho, a fazer uma carapuça de lã.

— Que é, meu bem? — Sente-se aqui ao pé de mim. Licínio trouxe uma cadeira e sentou-se, fitando-lhe, em seguida, um olhar interrogativo. Ela sorriu, perguntando: — Você me quer bem? — Quero. — Então fique aí bem quietinho, ao pé de mim, sim? E dizendo estas palavras esqueceu Licínio, remergulhando a atenção nos pontos da carapuça. Embora um tanto intrigado, Licínio ficou. Fez uma conjectura agradável: “Angélica vai ficar outra vez boazinha, como nos primeiros tempos de casada”. No fim de uma hora de imobilidade ele pôs-se a mexer com os pés, procurando instintivamente com os olhos o chapéu. Vendo-o fazer menção de levantar-se, Angélica o olhou e sorriu, pedindo: — Fique aí sossegadinho, sim, meu amor? — Pois não! Ela, agradecendo com outro sorriso, retomou a agulha, continuando a carapuça. Licínio tentou uma carícia, mas Angélica lhe rogou que ficasse bem quietinho, que daquele modo a fazia errar os pontos. Passada a hora de o marido “bater rua”, ela soltou-o, satisfeita com essa primeira vitória. No dia imediato, mal Licínio relanceou o cabide, na sofreguidão de sair, Angélica, que no mesmo banquinho terminava a carapuça, pediu-lhe melifluamente: — Meu bem, sente-se aqui pertinho de mim! Mais intrigado, Licínio começou a entrever a verdade. — Como ontem? — perguntou. — Sim, meu amor! — Não! desejo andar um pouco. Angélica depôs o trabalho no regaço e insistiu: — Deveras, você tem coragem de sair de perto de sua mulherzinha?

Ele encarou-a bem de fito, dizendo: — Confesse que esse é um modo disfarçado de me pôr de castigo, para não sair? Mas estou com vontade de passear. Angélica branqueou de ira, quebrando com um estalido seco a agulha de osso. — Não se zangue, meu amor, que eu não saio! — acudiu Licínio, precipitadamente, lembrando-se da gravidez. — Pode ir… vá… para o inferno! — rugiu Angélica, pondo-se de pé e arrebentando furiosamente a carapuça. Ao brado da filha, D. Alípia acudiu pesadamente, abalando o assoalho com sua massa adiposa. — Olhe! olhe, mamãe! — disse Angélica, apontando Licínio. — Quer ruar, como nos outros dias, e por mais que eu peça não atende! — Não vou… Havia-me esquecido… — murmurou Licínio, de cabeça baixa. — É por causa da tal jogatina, não é? — invectivou-o D. Alípia. — Mas o senhor é um inconsciente? Não vê o estado de minha filha? E não se lembra dos desastres a que o levaram seus vícios? Em nossa casa não admitimos jogadores! Graças a Deus, em minha família não há ninguém assim! Parece que se casou somente para contrariar a coitadinha de minha filha! Dançando no mesmo lugar, a sogra prosseguiu, contando nos dedos: — Ela não quer que o senhor fume, e o senhor fuma; não quer que o senhor jogue, e o senhor joga; não quer que leia romances, e o senhor teima em trazê-los para casa. Romances, santo Deus! Graças a Deus, em minha família ninguém lê romances! E, com as mãos na vasta cintura, franzindo o nariz, D. Alípia interpelou-o: — Se o senhor tinha essas intenções, por que pediu minha filha em casamento? Dito isto, numa imponente reviravolta, voltou-lhe as costas, desembocando para fora do quarto.

Licínio ficou aterrado, triturado. Não podia haver acachapamento maior no momento das explosões da mulher e da sogra. A reação de amargor e dignidade vinha sempre tardia. “Vá lá”, pensou à noite, sentindo o princípio de uma revoltazinha; “seja tudo por amor da gravidez de Angélica. Quando ela ficar livre, passearei a meu gosto e farei o que me aprouver”. E desse dia em diante não fumou, não jogou damas nem leu romances. Nos domingos todos os filhos jantavam com os pais, na imensa mesa da varanda; só à tarde é que os da fazenda montavam a cavalo, de regresso para a roça, onde passavam a semana. Enquanto comiam, ninguém dizia palavra, regra de educação que desde cedo D. Alípia incutia nos filhos. Licínio ficava sempre constrangido, porque naquele silêncio religioso, apenas cortado pelo trinclido dos talheres e pelo ruminar barulhento das mandíbulas glutonas do Cosme, lia o que os olhares diziam. Todos tinham um modo oblíquo de observá-lo, e cada garfada do moço era analisada pelos olhares de todos, que acompanhavam a comida desde o prato até entrar na boca. Num domingo estava à mesa toda a família, guardando o silêncio de costume. Acabava-se de jantar. Então o Dr. Lopes Coutinho pediu o café. Era o sinal para as palestras. Começou-se a falar sobre vários assuntos. Pedrinho, de natural buliçoso, perguntou ao cunhado: — Como vai de estudos? Licínio grunhiu uma resposta descochada. — Eu soube que ele vai para São Paulo fazer exames? — perguntou o Juca a Angélica, muito enciumado. Continuava inimigo de Licínio e evitava dirigir-lhe a palavra. — Licínio fala em arranjar emprego em São Paulo e continuar os estudos, mas ele diz as coisas à toa. — Não — corrigiu Licínio —; eu disse que iríamos para lá se arranjasse emprego. Escrevi a vários conhecidos, mas nada consegui.

— Ah, Licínio! — replicou Angélica com calor —; não foi isso que você falou! Você diz uma coisa e depois vem com outra. O que você disse é que se fôssemos para lá, arranjaria emprego com facilidade. O moço protestou, o que deu azo a que lhe achassem novas contradições. D. Alípia, que gostava de falar em preceitos gerais, cortou a discussão concluindo sentenciosamente: — Nunca se devem dizer as coisas à toa. Fazendo-se eco da mulher, o Dr. Lopes Coutinho distraidamente repetiu muitas vezes em tom sentencioso: — Nunca se devem dizer as coisas à toa! Depois de uma pausa, Pedrinho desfechou nova ironia: — Mas não é só arranjar emprego: para estudar é preciso alguma coisa na cachola! — Inteligência ali não falta — disse Juca com escárnio, enquanto os demais tinham um meio riso de confirmação. Afonso, amante de palestras graves, voltou o assunto para as ditaduras do dia. Era pelo Hermes, que lhe parecia um homem de ação. D. Alípia também era pela espada. No país andavam as coisas tão tortas, havia tanta vagabundagem (voltou com disfarce o rabo do olho para Licínio) que só um homem enérgico e meio absoluto podia pôr cobro a isso. Licínio, com fumaças acadêmicas, julgou de seu dever dissentir: — Mas o Rui… — objetou timidamente — a Águia de Haia, um homem erudito, inteligente… — De inteligências andamos cheios! — retrucou a sogra com intenção. — Estamos cheios de inteligência — repetiu o Dr. Lopes Coutinho, que não ouvira bem. — Estamos literalmente cheios! A Alípia é um poço de inteligência! A matrona mordeu o beiço, descochada, mas nada disse, para não desprestigiar o venerável chefe da família. Depois de percorrer a mesa com o olhar, procurando água, Licínio foi buscá-la, à talha. Era essa uma de suas graves infrações

à praxe da família, quase uma afronta à autoridade do facultativo, porque este, já consultado, se referira a um aforismo de Hipócrates, que condenava a água nas refeições. “Aforismo número… Oh! esta minha memória!”, dissera ele. Atos miúdos como esse, reproduzidos por Licínio com frequência, faziam-no descer constantemente no conceito das pessoas da família. Depois que Licínio tornou a sentar-se debaixo do olhar reprovador da sogra, Afonso encaminhou a palestra para outro assunto grave, perguntando: — A “doença” da Angélica não demora, mamãe? O Pedrinho e o Juca, que se riam do cunhado, e a criançada que começava a fazer algazarra, todos se calaram, conservando-se em silêncio solene. É que se falava na gravidez da moça. Esta assumiu expressão absorta e séria, de ente sagrado, consciente de sua divindade, que se respeita a si próprio. — Pelo nosso cálculo faltam poucas semanas — respondeu D. Alípia gravemente. — Talvez pela lua nova. Angélica disse que, para ser feliz, fizera uma promessa a cumprir-se no próximo sábado. Era todos da família confessarem-se nesse dia, e comungarem solenemente no dia imediato, domingo, à hora da segunda missa. — Bonita promessa, não acha, Lopes? — disse D. Alípia, orgulhosa de sua filha ter concebido uma ideia tão bela. O Dr. Lopes concordou que sim. Todos se figuravam mentalmente à imponente comunhão da família inteira, que moveria a admiração de todos os três-barrenses. No arraial esse fato tomaria o vulto de um grande acontecimento. Licínio fez exceção ao êxtase geral, para dizer, imprudentemente: — Mas eu penso que me dispensarão! Não sou religioso, e confissão de quem não tem fé não tem valor. — Como! — clamou D. Alípia. — Não tem religião! Todos da família, escandalizados, o olharam com estupefação e desprezo. Farejando acontecimentos extraordinários, D. Rita, que

não era mais admitida a comer à mesa comum, por causa de suas inconveniências, e que tinha, por muito conceder, o seu quarto por menagem, intrometeu o nariz pelo vão da porta e pôs-se à escuta. Angélica foi a primeira que rompeu o silêncio opressor: — Ah, Licínio! para que diz as coisas à toa! Então você não tem religião? — Não, ou melhor, para mim todas as religiões são boas — disse o moço, querendo afetar liberalidade, o que achava digno de um “intelectual”. — Então como é que vai à missa e se ajoelha? — tornou a moça, esmagando-o com essas novas contradições. — Como é que confessou e comungou para casar? Meu Deus! O Licínio não é capaz de dizer coisa com coisa! Ele fala demais! — Não há incoerência de minha parte — retrucou Licínio, com pruridos de discutir —; e vou provar. Primeiro… — Basta! — atalhou D. Alípia com severidade. — Em minha casa não admito discussões de religião! O Sr. Licínio tem o péssimo hábito de turrar! Se não tinha religião, para que foi pedir minha filha em casamento? Graças a Deus, em minha família não há ninguém protestante! — Há — tornou Licínio, com uma valentia desacostumada, que a hostilidade geral exasperava —; sua irmã, de Rio Preto, é protestante. A senhora ainda há poucos dias o disse. Houve uma pausa horrível. Sob a afronta inesperada, a matrona branqueou. Ninguém nunca fora tão longe, nem o Lopes, quando se casou, e tinha, como Licínio, suas asperezas de educação, que ela depois com paciência bruniu, pondo tudo lisinho e igual, como sua calva reluzente. O nariz de D. Rita arfava na fisga da porta, esperando um lance magistral. Rangendo os dentes, Afonso pusera-se de pé, à espera de um sinal para lançar o bote sobre o cunhado. Mas foi a matrona, ela própria, quem tirou o despique. Levantando-se, a rebojar furiosamente o corpo de elefante, sem parar com os pés no mesmo lugar, disse ao atrevido:

— O senhor não tem que meter o bedelho em negócios de minha família! É muito intrometido, ouviu? Mesmo que fosse verdade, não haveria mal, porque minha irmã é senhora muito distinta e poderá ter suas convicções, o que não se dá com o senhor, que é um lagalhé mal-agradecido! E D. Alípia, num súbito desmancho nervoso, caiu arquejando numa cadeira. Dando um urro, Afonso precipitou-se contra Licínio, que assumiu atitude defensiva. Mas um guincho agudo de Angélica veio mudar favoravelmente para Licínio o curso dos acontecimentos. Todos fitaram-na angustiosos. Tinha o olhar desvairado, e com a mão segurava o ventre, gemendo. Recobrando-se instantaneamente do vágado, D. Alípia foi a primeira a correr, aflita, para ela, perguntando: — Que é, minha filha? Angélica, em tom flébil, respondeu-lhe que fora uma dor aguda, como uma punhalada, no ventre. Então, com um gesto de final de ato, a matrona apontou Licínio, rouquejando: — Assassino! Matou minha filha! Felizmente não foi nada. No sábado seguinte Licínio confessou-se, à imitação de toda a família, sentindo não poder fazer mais sacrifícios, para manifestar a Angélica seu arrependimento. Pedira humildemente perdão a ela e a D. Alípia, prometendo emendar-se. A comunhão foi solene. O povo, de natural devoto, via aquele exemplo com admiração e inveja. Quantas famílias se poderiam gabar de uma tal coesão em crenças? Mas o que os fazia pasmar era a súbita conversão de Licínio, que todos sabiam ser ateu — ou “livre-pensador”, conforme o moço dizia, para saborear o prazer de escandalizar seus conterrâneos de espírito simples e pouco afeitos a essa novidade “de fora”. Porque Três Barras era uma poça estagnada de vidas humanas, onde os hábitos, as ideias e as crenças também se haviam estagnado no marasmo da mesmice. A conversão de Licínio constituía um autêntico triunfo com que a rotina rejubilava. Todos notaram a unção mística com que o moço

espichara a língua para receber a hóstia e com que depois a recolhera com sua carga santa. Como recompensa justíssima, o filho veio suavemente. Foi tão fácil e rápido o parto, que o povo atribuiu esta circunstância à conversão de Licínio. Diversas senhoras, em vésperas das dores, na convicção de que se tratasse de virtude mirífica do marido de Angélica, se empenhavam com o moço para que também se confessasse na intenção delas. Lisonjeado com o pedido, Licínio as satisfazia; e como com o tempo a confiança do povo se transmitisse a ele, começou a sentir certa veneração por si próprio. Para não se achar ridículo na sua credulidade, fortalecia-se com a citação de Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha a nossa filosofia”. E eram dois motivos de vaidade: os milagres que obrava e o citar-se Shakespeare a propósito. Quando José Antônio veio à luz, Licínio recebeu-o com prazer nos seus braços paternais. Ninou-o comovido a noite toda; e o outro dia, cheio do doce alvoroço de ser pai, passou-o a pajear o menino. Achava mil encantos na caramunha que o pequerrucho fazia para vagir e mil harmonias no seu berrar incessante. Do terceiro dia em diante começou a achar um tanto fastidioso aquele chorar sem paradeiro, pois José Antônio chorava para mamar, chorava para dormir, para acordar, para parar de mamar, e, quando não ocorria algum desses motivos, chorava de dor de barriga. Por fim, entediado, Licínio ansiava pela dita de reentrar na posse de sua querida liberdade, de que se via privado havia não poucos meses. Mas não queria ser imprudente. D. Alípia lhe falara nos melindrosos cuidados que exigiam as puérperas nos quarenta dias subsequentes ao parto, e ele resolveu dedicar-se ainda esses quarenta, já que assim era preciso, a bem da saúde da mãe. Foi esse o período mais difícil para o estreante pai. Não era só ninar sem parada, a passear pelo quarto o José Antônio em berros, mas havia os cocôs a limpar, as fraldas a pôr, os nós a dar e desdar nas carapuças e sapatinhos — ele que dantes não conseguia nunca desatar sem dificuldade um nó.

E o choro infindável! Com voz débil, a cada momento Angélica reclamava do leito: — Acomode essa criança, Licínio! Seus gritos me dão dor de cabeça! Ele tentava-o experimentando pôr José Antônio em todas as posições, de costas ou de bruços, de um lado ou do outro, sacudindo-o aos tremidinhos ou ninando-o em movimentos compassados — mas era inútil! Não havia mezinha, chupeta ou cataplasma que aplacasse aquele esgoelar-se infindável. Com isso, o receio de repreensões de D. Alípia, que mais de uma vez lhe dissera: — Tenha dó de seu filho, Sr. Licínio! O senhor parece que o pega com pouco caso! Não havia recurso. A manhã do José Antônio era a expressão em choro infantil da fatalidade inelutável com que sucedem as coisas irrevogavelmente fadadas pelas Potestades Supremas. Era como a lei da queda dos corpos, da flutuação, das combinações químicas, enfim, um aspecto da imutabilidade das leis universais: era fatal, cientificamente fatal, que José Antônio goelasse vinte e quatro horas por dia. Era por isso que Licínio pensava tanto na libertação do quadragésimo dia. Seria então como que subir ao Sétimo Céu. Como se sentiria feliz ao emancipar-se daqueles cuidados de pajem! Findo o resguardo, ele deporia o pirralho no regaço de Angélica, dizendo: — Tome o petiz. De hoje em diante fica entregue aos seus carinhos. Uma mãe sem um filho nos braços, é um altar sem imagem, um corpo sem alma, um jardim sem flores! A última comparação ele aprendera com o barbeiro, um baixote de olhos piscos, que não deixava de dizer a cada um dos fregueses, no momento de barbeá-los: “Um rosto sem barba feita é como um jardim sem flores”. E, ao dizê-lo, os olhinhos piscos do barbeiro assumiam uma expressão vaidosa e satisfeita. Era a coisa mais fina que ele aprendera em toda a sua vida.

Ele o diria, sim, com toda a energia. Era preciso energia, porque não precisava ter a argúcia do barbeiro sentencioso para compreender que entre mãe e filha ficara resolvido que ele, Licínio, seria o pajem perpétuo do José Antônio. E, se encontrasse oposição, fugiria de casa cedo e voltaria ao anoitecer. Havia de rebelar-se! pois bem notava que de dia para dia tinha mais restrita a sua ação pessoal, que a família da mulher tentava impor-lhe as ideias, os hábitos, a vontade, manipulando-o, à sua guisa, para afinal fazer dele um manequim apatetado como o Dr. Lopes Coutinho. Fora-se o cabresto da gravidez. Até ali suportara tudo porque sua consciência se melindraria se fosse causa de uma desgraça; contava os dias restantes do resguardo, como um preso os que faltam para a sua liberdade. E noites a fio já sonhava com o Tristão e os romances de Siá Cota, e planejava pescarias, excursões. Essa perspectiva o fazia submisso. Angélica tanto se agradou de suas novas maneiras que vez em vez lhe dizia palavras ternas ou lhe fazia uma carícia, como justa recompensa da ilimitada paciência com que ele cuidava do José Antônio. Por sinal que no trigésimo nono dia o abraçou e lhe pediu um beijo; e, imensamente venturosa, num retrocesso de noivado feliz, ela pousou com meiguice a cabeça no seu ombro e sussurrou-lhe no ouvido a grata novidade: — Já estou outra vez, Cininho! — Grávida! — exclamou Licínio dando um pulo. — Sim… — murmurou ela, ruborizando-se. Graças a Deus era sempre assim, na família do Dr. Lopes Coutinho!

Os Bem-Casados

Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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