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Os Bem-Casados

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Capítulo 27 · Os Bem-Casados

Segunda parte - Capítulo X

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Decorreram alguns anos. Nesse interregno Licínio e Angélica conceberam outros filhos e filhas. Os meninos, ao ficarem taludinhos, iam para a fazenda, onde o José Antônio já começava a prestar alguns serviços. Licínio sentia-se tranquilo e feliz. O único espinho que o molestava, era saber que sua mãe vivia há muito tempo da caridade pública. Assim como a família da mulher, ele reprovava mais essa degradação. Seria tão fácil a viúva evitá-la, recorrendo ao filho, que não a repeliria, ou mesmo trabalhando como dantes. Pois não era inválida, nem estava decrépita. Sem embargo desse mau procedimento da viúva, no fundo da consciência de Licínio persistia a ponta acerada de um incomparável remorso. No arraial, a novidade máxima desse período de tempo, foi a fortuna inesperada de Leôncio. Há muito que o homem dos sete instrumentos havia abandonado todas as mais cogitações para se dar a umas combinações exóticas de números, os quais, pela influência de São Cipriano e certos demônios que lhe eram familiares, deviam dar-lhe a sorte grande. Baseado nesses cálculos comprava bilhetes e mais bilhetes, e um dia — zás! — arranca uma sorte de vinte contos. Pela sua oportunidade esses vinte contos valiam por duzentos. Seus múltiplos negócios andavam rendendo pouco, seus talismãs miraculosos não tinham procura, os doentes receavam suas garrafadas a que se atribuíam uns tantos desastres, e, apesar dos muitos mil contos que o moto-contínuo lhe devia trazer, o certo era que, enquanto eles não vinham, as chitinhas baratas com que se vestiam sua

mulher e sua filha inspiravam comiseração, e a mocidade decaída da Augusta ia-lhe dando probabilidades de ficar solteirona. Dia a dia Mole-Mole se fazia mais murcha e cor de queijo, ao passo que sua corcundinha se ia tornando em gibosidade. A notícia dos vinte contos arrebentou com fragor naquela terriola pacata. O Tristão, fascinado, rompeu seu interminável noivado com Siá Cota, e pediu a Augusta em casamento. Foi aceito e casaram-se logo. Quanto a Siá Cota, desesperada, chorou três dias e três noites ao ver fugir aquele último rastilho de esperança. Apegou-se de novo à ideia do convento, mas via não ter coragem de pô-la em prática. Seu coração era um enigma. Pois a solteirona não reconhecia que, mesmo depois do Tristão casado, o amava muito, mas muito? E não podia ocultar-lhe essa paixão pecaminosa, malgrado as admoestações revoltadas de Florinda. Quanto ao malandro do Tristão, não via tal paixão com maus olhos. E Siá Cota, sentindo-se à beira de um abismo, atirou-se com fervor à religião, frequentando assiduamente a igreja, não perdendo missas nem novenas. Nas suas confissões expandia-se com o padre Gauquério, a quem revelava suas lutas íntimas. Nesses instantes a irascibilidade do reverendo se aplacava e ele ouvia-a com um sorriso bonacheirão de quem vê mais motivo para rir do que para arrepelar-se. Um dia em que Siá Cota lhe suplicava que a salvasse do abismo ele aconselhou-a: — Tranque-se em casa e evite olhar o moço. — Não posso! — gemeu Siá Cota. — Então faça uma promessa a Santa Úrsula e reze padre-nossos para as Onze Mil Virgens, um para cada uma. A solteirona começou a cumprir a penitência dificílima; mas seu coração continuava rebelde. Apesar de rico, Leôncio ainda continuava na política, sendo o colaborador mais ativo do partido do médico. D. Alípia e este, presos pela gratidão, lastimavam a negra melancolia que a fortuna parecia ter-lhe trazido. Poucos meses depois do casamento da filha ele deu em sair pouco de casa, mergulhado em suas combinações tenebrosas de números. E continuou a comprar, a comprar bilhetes, o que

deu ensejo a cochichar-se que as suas combinações milagrosas já lhe haviam absorvido os vinte contos da sorte e mais o valor do que possuía em bens. Durante o mesmo intervalo de tempo, grande acontecimento para a família do Dr. Lopes foi o pungentíssimo golpe da morte de D. Rita. Seria difícil descrever o desespero da família no dia da grande desgraça. Era um sentir profundo e comovente. D. Alípia e o Dr. Lopes abraçavam em lágrimas o cadáver amortalhado, que pareciam querer revocar à vida, espetáculo que arrancava jorros de pranto das pessoas amigas que lhes enchiam a casa. Trajaram rigoroso luto por um ano; e muito tempo depois de morta, ela era ainda o assunto obrigatório em todos os serões. D. Alípia e o marido recordavam toda a vida de D. Rita, pondo-lhe em destaque as virtudes. — Um consolo ao menos ela teve — observava a matrona —, é que nunca lhe faltou coisa alguma. E com os olhos marejados rematava: — Nunca lhe conheci defeitos. D. Rita era uma santa! — Era uma santa! — suspirava o facultativo, comovido. Na política, sempre vitoriosos, e, por essa causa, molestados pela hostilidade incansável do padre Gauquério. O reverendo, iracundo, despeitado, despicava-se contra a “Chefa” em todos os sermões. No dia do acesso do Cosme à presidência da Câmara, lançara do púlpito excomunhão solene em toda a família. Todos tremeram de horror, menos a matrona, que só viu o lado injurioso do ato e embranqueceu de raiva a essa nova afronta. Em diversas cartas a Lucrécia, a irmã protestante, ela escrevera queixas amargas contra o reverendo. A irmã respondia-lhe prontamente longas epístolas semeadas de Mat. VI, 33, João XII, 35 e outros engrimanços assim, que a família olhava sem compreender, com pasmada admiração. Essas respostas punham D. Alípia cogitativa. Esmoía consigo umas tantas dúvidas, dizendo às vezes em família: — Sabem em que ando pensando? Tenho-me perguntado se não será minha irmã que está com a razão… Esses padres são tão perversos que lançam na alma da gente uma dúvida; será possível que criaturas assim sejam sagradas e ministros de Deus?

Um dia entrou-lhe a casa uma mulher seca, espigada, duns cinquenta anos. D. Alípia deu um grito, atirando-se-lhe nos braços. — Lucrécia! Você! Que surpresa agradável, minha irmã! Em altas vozes chamou as pessoas de casa; e em pouco a recém-vinda era abraçada e festejada por todos, inclusive os sobrinhos que não a conheciam ainda. — Sim! Sou eu — repetia ela —; vim numa santa missão buscar para o rebanho do Senhor muitas ovelhas desgarradas! Aos poucos as expansões foram cedendo lugar a uma calma satisfação, e todos, alegres e respeitosos, admiravam aquela mulher de voz metálica e gesticulação abundante, que pregava como um padre. Trouxera como bagagem uma grande mala atochada de livros e folhetos de propaganda e de números de jornais evangélicos. D. Alípia passou o resto do dia desabafando no seio da irmã os seus desgostos profundos. — Minha mana — disse Lucrécia —, por que se apega a essas coisas terrenas? A seara do Senhor é só o que importa, e ela precisa de ceifadores! E, cada vez que se tocava no nome do padre, a irmã, colérica, improperava: — Os padres são enviados pelo Anticristo, para corromper os corações! A Igreja Romana é a sinagoga de Satanás, ouviu, Alípia? À noite reuniram-se todos na sala de jantar. Lucrécia sentou-se tendo ao lado um montão de bíblias e folhetos, para iniciar a santa missão. A família escutava, pasmada de tanta coisa nova de que nunca ouvira falar. Quando a predicante se referia ao romanismo, aos poucos tomava calor, exaltava-se, até que, possessa de indignação, numa transfiguração de sacerdotisa inspirada, punha-se de pé, e, brandindo os braços, com a voz blindada vibrando como a trombeta do Juízo Final, anunciava o fim do mundo. Culpava de todas as calamidades do universo os padres e os papas; e atirando o punho cerrado para o lado do Cosme, que se transia de terror, ameaçava Roma e o Vaticano:

— Besta de Sete Cabeças! Serás arrasada e consumida em cinzas! Pagarás teus malefícios com pranto e ranger de dentes, e da tua fortaleza não ficará pedra sobre pedra! Depois a missionária se apaziguava, entrando por várias explanações. Se havia tanto pecado no mundo, disse ela, é porque o Diabo andava solto; mas Deus, na sua misericórdia, ia dar aos homens mil anos de felicidade, mandando um anjo agarrar o Maldito (“Aqui está, no Apocalipse, cap. XX!”) e amarrá-lo durante aquele tempo, e então reinariam paz e harmonia no mundo. — Eu também sei amarrar o diabo! — aparteou o Xanxã. E como a tia o encarasse severa e interrogativamente, ele explicou: — Quando a gente perde alguma coisa, dá um nó numa tira de pano e o prende debaixo de um pé de mesa. O diabo fica amarrado e logo se acha o que se procura. — Isso são superstições romanas! — vociferou Lucrécia num tom que não encorajava novas interrupções. Continuou falando sobre outras coisas interessantes, como o mistério do 666 e o episódio da burra de Balaão. Este divertiu particularmente as crianças, ao passo que o primeiro provocou profundas reflexões no cérebro das pessoas grandes. Finalizou a noite fazendo oração e entoando em solo vários hinos sagrados, contraste de harmonias sumamente tranquilizador depois de suas explosões temerosas, sendo apenas de lastimar que certo pigarro lhe prejudicasse as notas mais belas, nos trechos mais próprios a elevar a alma em êxtase. Em seguida foram todos silenciosamente deitar-se, cada qual levando embaixo do braço uma Bíblia oferecida pela missionária. No dia seguinte Licínio e os rapazes da fazenda foram chamados, e, durante a semana em que Lucrécia esteve ali, D. Alípia obrigou-os a ir passar o serão em família, para lhe beberem a palavra inspirada. Na véspera de sua partida, depois que a irmã se foi deitar, D. Alípia congregou na varanda todos os membros da família, em sessão solene: — Escutem — disse-lhes entre o silêncio respeitoso de todos —, Deus foi servido de mostrar-me o caminho da Verdade. Declaro aqui

perante todos que adoto as ideias de minha irmã. Digam se não tenho razão de proceder assim, depois do que temos sofrido da parte do padre Gauquério. Respondeu-lhe o silêncio aprovador de todos. — Muito bem! — disse ela. — Sou feliz por ver que todos pensamos do mesmo modo. No dia seguinte, quando Alípia contou à irmã o resultado da conferência, Lucrécia, rejubilando, propôs fazerem um culto em ação de graças, para comemorar o grande acontecimento. Findo o culto, entoou novos cânticos adequados à circunstância, cânticos de uma elevação sublime, que fazia esquecer as deficiências da voz. Em seguida abraçou a todos e partiu. Um ar de santidade começou a reinar na casa que ela deixara. Havia bíblias esparramadas por toda parte, entre aluviões de folhetos sobre o papel conjugal de São José e a multiparidade provada da Virgem Maria. D. Alípia várias vezes teve que puxar as orelhas da pequenada, que profanava os santos livros brincando de fazer com eles casinhas. Aquela abundância resvalava às vezes a entulho. Era um atravancamento incômodo em todas as partes, no chão, em cima das mesas, em cima das camas, com grande consternação de D. Alípia, que não via mais jeito de ver a casa parar arrumada. “Faziam culto” todas as noites. Aos domingos o faziam também antes do jantar, para os filhos fazendeiros tomarem parte. Lucrécia insistira para guardarem escrupulosamente os domingos, deixando para outro dia as contas da fazenda; mas D. Alípia achava ser questão de consciência, e a dela não lhe dava rebates por isso. Nos cultos era de rigor guardar-se o mais absoluto respeito, cláusula difícil de observar para o Pedrinho, a quem certas palavras cabeludas ou certos episódios como o das filhas de Ló e o de Abisague, faziam prorromper em gargalhadas intempestivas, que eram atalhadas pelas mais acerbas censuras de D. Alípia. Com esse revide contra o padre Gauquério a casa se fez mais feliz. Haviam-se emancipado da influência da Igreja, e isto era uma nova vitória. A matrona pensava em ampliá-la mais, convertendo

ao protestantismo o rebanho do padre. A primeira conversa foi Siá Cota. Esta reconhecia a inutilidade das difíceis promessas que andava cumprindo. Jejuns, cilícios, orações prolongadas — bastava um sorriso do Tristão para demolir essa fortaleza em que se entrincheirava. Refazia ela assim o crochê infindável de Penélope. E, sentindo-se a um passo do abismo, abraçou-se com fervor às ideias que D. Alípia lhe incutia, buscando a salvação na nova crença. Por esse tempo começou a raiar para Licínio a vaga possibilidade de voltar a morar no povoado. O caso é que já se fazia urgente dar-se um substituto ao Dr. Lopes na escrituração, e o genro foi lembrado para isso. Havia, porém, um enorme obstáculo — e era que, quando se tocava no assunto, o Dr. Lopes ficava tão consternado, que a matrona, de dó, não insistia. No entanto, ela via que daquele modo as coisas não podiam continuar. O facultativo estava imprestável, confundia tudo, errava crassamente contas simples. A verdade é que, numa caducidade precoce, o cérebro já lhe desatremava, inclinando-o a várias manias. Pois, com aquela história de protestantismo, a cabeça não lhe ficara mais abalada? Desde a primeira leitura da Bíblia manifestara sua preferência pelos capítulos das gerações, que para ele encerravam todas as belezas do novo credo. Lia-os, relia-os, tentava decorar; horas mortas levantava-se do leito e punha-se a andar pelo quarto, monologando: “Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacó, Jacó gerou a Judas e a seus irmãos”, etc.… Isto sem termo, recomeçando depois de terminar, subindo dos últimos para os primeiros, e refazendo a escala descendente, a ponto de D. Alípia perder a paciência. Às vezes até pecava, tentando reconstruir sua própria geração, numa paródia aos livros sacros: “Manuel Coutinho gerou ao Coronel João Coutinho; o Coronel João Coutinho gerou ao Dr. José Antônio Lopes Coutinho; o Dr. José Antônio Lopes Coutinho gerou a Angélica Coutinho e Angélica Coutinho…”. Dizia os nomes dos netos; depois que terminava subia; e, como não podia ir além do avô, suas ideias se embaralhavam e começava a dizer coisas desatadas. Além disso, a mania caligráfica e do desenho confirmavam seu desequilíbrio mental. Tinha uma variada coleção de tintas de cor

e chorava como criança quando D. Alípia as escondia. Uns tempos andara maníaco pela letra gótica, e copiara integralmente em caracteres irrepreensíveis uma obra de terapêutica em dois volumes. Nos livros de escrituração fazia iluminuras interessantes: se lançava um assento de leite, pintava ao lado uma vaca; registrando colheita de milho, ou ovos, pintava um pé de milho ou um galo. (Não se compreende por que não pintava uma galinha, o que seria mais lógico.) E tudo com as maiores arbitrariedades de cor. Por exemplo, pintando um galo, punha-lhe asas vermelhas, rabo amarelo, cabeça azul e pés verdes. Era lamentável semelhante decadência de uma pessoa de tanta respeitabilidade! E D. Alípia, em todas as suas orações, não se esquecia de pedir fervorosamente a Deus que lhe desse forças para não perder a paciência com o Lopes.

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Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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