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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 6 · Os Bem-Casados

Primeira parte - Capítulo VI

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Pelo Juca, com quem se encontrava às vezes, Licínio soube que Angélica se havia confessado; por essa razão, na manhã do dia imediato, que era um domingo, ele se dirigiu à igreja, esperando vê-la, na primeira missa, comparecer à comunhão. O moço fez tristonho esse trajeto: lembrava-se de que era provisória sua estada em Três Barras, e antecipadamente doía-se da ausência. Cada dia que passava arraigava-o mais naquele arraial, mercê da paixão nascida na noite do baile. Não suportava passar vinte e quatro horas sem ver Angélica. A menina enfeitiçara-o de tal arte que ele vivia num estado de semipatetice permanente, toda a alma concentrada nela. Orçava pela monomania. Tudo, menos o seu amor, tomara para ele uma feição de inexistência. Sua mãe, São Paulo, a Academia, as pessoas da povoação, eram como entes e coisas fantásticas, parecendo-lhe existirem na irrealidade dos sonhos. No mundo apenas havia Angélica. Ele estranhava a própria transformação, levando-a à conta de milagre. Se refletisse bem, não veria, todavia, motivo de estranhezas, porque se transformara assim em cada um de seus namoros anteriores. “Amo Angélica”, dizia a si mesmo. “É inegável. Amei-a repentinamente, desde o primeiro momento em que a vi. Mas por que a amo?” Por quê! Ora, um namorado a perguntar-se sobre coisas destas! Porque…

“Compreendo agora!”, refletiu, súbito iluminado. “É porque é única, inigualável. Que outra moça sabe olhar com a doçura de seus olhos de avezinha inocente? Que outra alma se vê assim candidamente espelhada num rostinho de anjo?” Ora, já estão aí duas razões, embora pouco convincentes, da superioridade da moça. Sofismas de namorados! A verdadeira ele atinou alguns passos além, continuando o caminho da igreja. — Angélica é única, não pela beleza, ou pela elegância, ou pela graça — nada disso! —, mas por esse eflúvio sobrenatural que dimana dela, essa radiação imponderável do que quer que seja, que a faz quase divina. Licínio ficou contente por ter achado a solução do enigma; mas, ao entrar na igreja, sustou-se repentinamente, como se alguém, atravessando-se em seu caminho, lhe embargasse o passo. Esse alguém foi uma ideia súbito ocorrida: “E se ela não me ama?”. Nada mais plausível que essa dúvida, pois, para aquela criatura celestial, única, que podia valer um mísero estudante como ele? Se Angélica não estivesse tão próxima, era provável que perdurasse o sofrimento ocasionado pela dúvida, mas a só circunstância de tê-la a dois passos de si, bastava para remover-lhe todas as nuvens do espírito. Porque ela estava ali, adivinhava-o, do outro lado daquele guarda-vento da entrada, a poucos passos de distância. Não precisava vê-la para o saber; dava-lhe o amor a intuição disso; sentia no âmbito um como perfume de flor agreste, que acusava a sua presença. Ele a via com o pensamento. Poderia até determinar o lugar em que a moça estava: num banco da frente, à direita. Ó fenômeno admirável, telepático, ó telegrafia das almas que os sábios negam, os sábios de visão curta e coração seco, que nunca conversaram alma a alma, à distância, com um anjo querido! Lamentando a imbecilidade desses sábios, Licínio entrou. Esperava-o, porém, uma decepção. Angélica ainda não estava lá, nem no banco da frente, nem em parte alguma da igreja. Esta ainda se achava quase deserta; ele se antecipara muito à hora da missa. A desilusão restituiu-o à melancolia da dúvida. “E se ela não me ama?” Viu-se

humilde, indigno de Angélica, a começar pela diferença de posição social. Ele por si ainda era apresentável, tinha o seu polimento e traquejo social, e esmerava-se em se vestir decentemente; mas sua mãe! tão decaída, tão descuidada! Costureira de pobres, e considerada apenas pelos Pedros Carpinteiros, Quinas, e gentalha igual. E a família de Angélica! “Que contraste!”, pensava Licínio, evocando a figura enérgica e sisuda do Dr. Lopes Coutinho, o capacete frígio e a figura repolhuda de D. Alípia, a arredada distinta de seus filhos moços. Ele esmoeu estes amargos pensamentos durante o tempo da espera. Com a aproximação da hora da missa afluíam os frequentadores matinais da igreja. A cada rumor de passos o coração de Licínio dava-lhe rebates telepáticos dizendo com alvoroço: “É ela!”. Ele olhava: ilusão! Começou a achar cansativa essa série de pequeninas decepções. Distraiu o pensamento com outras ideias, e tão bem o fez, que, quando deu acordo da realidade, viu, num sobressalto, a família do médico já no interior da igreja. Vinham apenas o Dr. Lopes e os filhos. Entre estes, Angélica, trajada de branco, como na noite do baile; tão branca, dos sapatos à fita dos cabelos, que Licínio a comparou a um ramo de jasmins. Seus olhos roçaram pelos do estudante, baixando-se, ato contínuo, perturbados. O moço sentiu-se felicíssimo. Foram sentar-se no banco dos comungantes, que ficava na primeira fila. Licínio achou no facultativo o ar grave e austero que o impressionara na noite do baile. Sua calva, grande e lustrosa, dava-lhe um aspecto de solenidade e pensamentos profundos, aureolando-lhe a fronte de uma espécie de prestígio científico. Até esse dia, Licínio encarara com menosprezo as coisas de religião; mas o espetáculo daquele homem de semblante augusto e encanecido no seu elevado mister de médico, que ali vinha comungar como qualquer paroquiano humilde, dando público testemunho de sua fé, abalou-lhe o ceticismo indiferente. Pois o doutor, fundo conhecedor de biologia, ele que no seu tirocínio clínico desmontara a máquina humana em todas as suas peças, que vira o que nela há de empírico e falível, e a dependência em que a alma está de toda essa falibilidade, verdadeiro reflexo dela na sua imperfeição de efeito de

uma causa defeituosa — ele, que o sabia, prosternar-se aos pés de um padre e suplicar perdão para suas culpas! Angélica, a seus olhos, também nobilitava a religião. Como pudera, leviano, escarnecer as ideias em que a moça, uma alma de eleição, acreditava? Tão celestial pureza podia enganar-se? Impossível! Licínio estranhou a falta de D. Alípia. É que as muitas ocupações não lhe deixavam tempo para ir à igreja. Religião não lhe faltava, e gostava de que todos os da família cumprissem com zelo seus deveres para com Deus e o padre Gauquério, pessoa influente e muito da consideração da família, e que podia mais tarde encarreirar-lhe algum dos filhos na política. A matrona exigia dos seus que fossem católicos praticantes. Pois até o doutor, não conseguiu fazê-lo crente fervoroso após cinquenta anos de ateísmo inveterado? Obrigava os rapazes da fazenda a confessar-se na quaresma; e, todos os domingos, se vinham a tempo, ela exigia que, antes da prestação semanal de contas, fossem à igreja, onde eles ouviam a missa ungidos, a exemplo do pai, que respeitavam muito. Embevecido em Angélica, Licínio não teve acordo do decorrer do tempo. Lembrava-se vagamente de que ouvira o soar de campainhas e notas plangentes de harmônio; lembrava-se ainda da figura dos comungantes recebendo a hóstia de língua espichada, recolhendo-a em seguida à boca com infinitas cautelas para não roçar nos dentes; ouvira repique de sinos, notara dentro da nave rebuliço de fim de missa, e a dispersão dos crentes para as várias portas exteriores; a família do médico a sair, e, ao sair — acaso ou intenção? — Angélica que lhe dava um novo olhar. Ele levou para casa esses dois olhares, como suficiente provisão de felicidade para muitos dias; parecia até que foram decisivos para sua carreira, pois uma resolução, que se achava escondidamente fermentando em seu espírito, atravessou, enquanto voltava da igreja, as várias fases psíquicas que medeiam entre o desejo vago e a decisão inabalável. Foi assim que, ao transpor a soleira de sua casa, Licínio murmurava: “Não vou mais para São Paulo”. Lembrou-se de comunicar incontinente sua resolução à mãe. Não a viu na cozinha, nem a lidar com as costuras; pelo som de

machadadas que vinha dos fundos percebeu que arranjava lenha para o almoço. Licínio dirigiu-se para lá. Sentada no patamar da porta do terreiro, o moço viu, com repugnância, encorujada, uma forma humana. Era a Joaninha cega, arcadinha de velhice, que vivia num barracão, dependência da casa, que dantes servia para guardar lenha partida. Havia muitos anos, D. Ismênia cedia aos necessitados esse barracão, sendo a cega o último hóspede. Ali já estivera um paralítico, que morrera, depois a Canã, viúva pedideira de esmolas, com três filhas meninas, que havia mudado de terra; depois um preto papudo, tocador de urucungo, que sofria de “batedeira” e que um dia foi encontrado morto, caído do jirau que lhe servia de cama; era a vez da Joaninha, e já muitos, vendo-a quase acabada, tinham de olho a vaga, e iam teimar com D. Ismênia, que protestava: — Gente, a Joaninha ainda está viva, não agourem a coitada! Não prometo nada! Mas os candidatos não desistiam. Certos sábados os pedidores de esmolas se aglomeravam no terreiro, formando uma espécie de sessão magna, para decidir-se a sorte do quartinho da lenha, depois que a Joaninha o “desocupasse”. Cada um fazia seus arrazoados, havia disputas, armistícios efêmeros, novas discussões. Às vezes a própria Joaninha Cega tomava parte nos conciliábulos e emitia parecer, em sua voz tremida de octogenária: — Quando eu desocupar, Sá Ismênia, cá no meu entender quem deve vir é o Bolão. Era um mendigo meio louco, desbocado, quebrador de vidraças, e ferocíssimo para a molecada, que gostava de o perseguir a pedradas. Bolão não, Bolão sim — e a discussão retravava-se. A Joaninha explicava: todo o mundo tinha-lhe birra, pelas suas más-criações; se uma alma caridosa como Sá Ismênia não cuidasse dele, o Bolão morria de fome. E a questão ficava pendente. Licínio sentia displicência por aquela miséria que diariamente acotovelava em casa de sua mãe. “Se eu ficar aqui”, pensou naquele

momento, “porei um paradeiro a isto”. Da porta do terreiro ele avistou a mãe, a rachar lenha. Meio de costas para ele, a viúva não o viu desde o primeiro momento. Licínio quedou-se na soleira a contemplá-la. Observava-a friamente, analisando-a, julgando-a, surpreendido de que laços tão estreitos de parentesco o ligassem àquele ente misérrimo. Era sua mãe! O que queria dizer, ele era efeito de tal causa; o seu nascimento dependera da existência daquele caco de gente, daquela figura humilde, encarquilhada e magra, que fazia pendant àquele outro resíduo de vida encorujado à porta, na forma da Joaninha Cega. O ambiente de decadência e velhice que o rodeava em casa, acabrunhava-o. As relações mais frequentes, até então, havidas entre mãe e filho, eram o dinheiro da pensão, que ele recebia mensalmente em São Paulo. A imagem da mãe estava sempre aliada, em sua imaginação, à ideia de dar dinheiro. Ele não podia concebê-la agindo por outra forma, costurando, cozinhando, lavando, partindo lenha, pois nunca lhe ocorrera a reflexão comezinha de que as mesadas que recebia representavam o esforço, as vigílias, talvez o sofrimento de quem as remetia. Eram sentimentos como aquele que lhe davam, naquela casa, a sensação permanente de dolorosa surpresa que naquele momento ressentia. E observava-a, desgostoso. Não! Aquela figura encarvoada, quase ridícula, não representava a seus olhos o tipo da verdadeira Mãe. D. Alípia, sim! E evocou-lhe a maternidade triunfante, a figura ancha e majestosa de carnes, meticulosamente asseada, contrapondo, em mente, às horríveis maranhas de cabelos grisalhos de D. Ismênia, a imponente trunfa da outra, alteada em capacete frígio. A viúva expedia um arquejo, a cada machadada: cansaço, o fígado túrgido, a doer-lhe… E vendo-a desengonçada, angulosa, diligente na sua faina brutal, nem remotamente passou pela ideia do moço que ele podia e devia tomar do machado para aliviar-lhe a labuta; foi outra a ideia que lhe atravessou o espírito; foi uma comparação perversa: achou-lhe uns modos de macaca.

Anos depois ia lembrar-se daquele momento e daquela comparação com lancinantes remorsos. Súbito a viúva surpreendeu-lhe a espionagem. Com um movimento de vexame deixou o machado e ajeitou algumas madeixas rebeldes de cabelo atrás das orelhas. — Está reparando em mim? Essa lenha deixa a gente que é só carvão! Donde veio, meu filho? — Da igreja — respondeu Licínio. — Então você agora está devoto… Não será algum namoro? E a mãe sorriu à descocha do moço que não quis negar. — E foi saindo tão caladinho, sem esperar café! Venha tomar. Levou-o para dentro. Enquanto bebia o café, Licínio, espaçando os goles, expôs à mãe sua nova resolução. Não tinha vocação para os estudos e a estadia em São Paulo era dispendiosa… — Que loucura, cortar sua carreira! — observou a mãe. — Mas também, como estudar? — ponderou ele. Por mais sacrifícios que a mãe fizesse, matando-se no trabalho, a mesada que remetia era insuficiente. Ele vestia-se mal, acanhava-se com a sua inferioridade de fortuna junto aos demais colegas… Insistiu nisso. Insistiu com certo amargor, tirando a culpa de si e pondo-a na mãe pobre; e, pela convicção com que alegava, notava-se que havia conseguido convencer-se a si mesmo. Mostrou suas roupas já velhas, os sapatos furados, falou no aumento crescente do preço das pensões. — É impossível continuar assim, mamãe. Só se a minha mesada fosse o dobro. D. Ismênia ouviu-o atenta, desconfiada de que naquilo tudo andasse sugestão de namoro. — Licínio! isso é outra coisa que você não diz. E ela moveu o dedo à altura do rosto, numa intimativa a que lhe revelasse os pensamentos ocultos. — Ora, minha mãe! — respondeu ele. Nesse “ora” pôs certo mau humor que magoou um pouco a viúva, que não objetou mais nada. E, meditando um pouco, ela não tardou a conformar-se. Os últimos exames perdidos provavam

bem a frouxidão de vontade de Licínio, que não se esforçava o bastante. E, ainda mais, a indiferença dos outros filhos, o esquecimento ingrato em que antecipadamente eles a davam por morta, pouco lhes importando que ainda um resto de vida se agarrasse renitente naquele corpo velho, que já havia cumprido para eles sua missão materna… Tanto que os criara mimados! Tanto que se dera a eles, no desejo de fazê-los felizes! E a indiferença a espessar-se cada vez mais entre eles e a mãe, afastando-os irrevogavelmente dela… Restava-lhe Licínio, Licínio apenas! Não voltando ele para São Paulo, ela o conservaria junto a si, reavivando-lhe a estima ao calor de seu afeto, apegando-se egoisticamente a esse resto de felicidade que a vida esmolava à sua velhice triste. Far-se-ia indispensável a ele, para que nunca a abandonasse. Não pôde, porém, deixar de revelar-lhe uma inquietação: — Que futuro você vê aqui, meu filho? Licínio respondeu com um gesto vago. O futuro! Não o afligia o perscrutá-lo. Não via, na sua imprecisão de bruma, nem ameaças de catástrofe nem outra coisa tétrica; o futuro para ele era um indeciso amável, aclarado por um resplendor branco e puro, puro como Angélica, branco como o vestido dela na noite do baile… No futuro ele via Angélica, somente.

Os Bem-Casados

Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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