Universo da obra
Universo da obra
Execrado o Bernardes, todas as esperanças de D. Alípia se mudaram para Licínio, embora fosse um consolo mínimo para perda tão grande. Parecia que o namoro pegara. Angélica vira-o passar pela rua, dias depois do baile, buscando-a com os olhos. Sabendo isso, D. Alípia, no dia imediato, esperava com o coração nadando em júbilo que se repetisse o acontecimento. Às onze horas o Dr. Lopes Coutinho postou-se no escritório em frente de seus preciosos livros, a fim de pôr em dia a escrita atrasada. Sucedeu, então, o que sempre sucedia: não achou caneta, não achou tinta, tudo em desordem: a heureca derramada, a borracha sumida. O doutor tinha uma escadinha de filhos pequenos, capitaneados pelo Xanxã, que orçava pelos oito anos, umas pestinhas, como dizia D. Alípia nos momentos de irritação, que em dois tempos punham de pernas para o ar a casa mais bem arranjada. O descanso dela era enxotá-los para a rua. — Noêmia! — gritou o doutor com impaciência, cansado de procurar. — Noêmia! A menina estava na alcova, longe dali, fazendo dormir o Lolô, seu irmãozinho de dois meses, e não ouviu o chamado. — Juca! — bradou ele, lembrando-se do filho, que àquela hora devia estar em casa, em obediência às exigências enérgicas do horário de lições. Juca não apareceu. Percebendo que a mulher se achava na sala de visitas, o doutor foi até a porta, donde viu D. Alípia à janela, por trás da Angélica,
a cabeça por cima da cabeça desta, o que havia de fazer parecer, a quem as visse de fora, que a moça tinha uma cara de dois andares. — Alípia — disse o doutor quase choroso —, sumiu tudo! Não acho caneta, nem tinta, nem nada! A mulher voltou-se com um “chut”, de indicador cruzado na boca; e saindo de seu posto segredou ao marido: — O Licínio vai passando ali! — Então, D. Angélica — gracejou o pai mudando de sentimentos, Vossa Excelência anda de namoricos… A filha não ouviu. Os pais contemplaram-na pelas costas, com os rostos expandidos num sorriso feliz. Tinha ela os cabelos despenteados caindo-lhe em maçaroca nas costas. Para ver melhor, pisava com as pontas dos pés descalços a sola das chinelas velhas. Parecia embebida no que via. Passos tímidos aproximavam-se na calçada. D. Alípia não se pôde conter; apressou-se a retomar sua primeira postura. Com seu corpanzil cobria totalmente a filha, ao modo de ave que protege a prole, conchegando-a sob as asas maternais. Licínio passou, muito pálido e simpático, tirando o chapéu. As duas cabeças se inclinaram simultaneamente, correspondendo ao cumprimento. Afastando-se, o moço levou após si os olhos de mãe e filha. No momento, de regresso ao consultório, o Dr. Lopes Coutinho sentiu voltar sua indignação contra os filhos miúdos. — Noêmia! Noêmia! — atroou a sua voz. Ouviram-se, por fim, os passinhos diligentes da menina, que logo entrou muito séria, como pessoa grande que cuida da obrigação. Tinha nove anos apenas. Apesar de tão tenros anos, era em casa a “achadeira” de tudo o que sumisse, mesmo sem “amarrar o diabo” nem prometer vinténs a Sto. Antônio. — Quero escrever — exclamou o pai —, e não acho nada! Sumiu tudo! — Não passa do Xanxã! — disse Noêmia. — Esse menino é os meus pecados!
E, com os modos de ménagère ativa, rebuscou em cada canto, cômodo por cômodo. Em breve trouxe as coisas reclamadas, que foi encontrar no terreiro; e, antes de sair, recomendou ao pai: — Quando acabar, tranque seus objetos na gaveta e dê-me a chave. E foi-se com o seu passinho leve, num plique-plique de chinelinhas no assoalho. A “achadeira”, embora tão novinha, era uma espécie de mãe da criançada mais nova, e um pouco dos irmãos de mais idade. O Dr. Lopes Coutinho podia ser incluído na sua prole graúda, como filho mais velho. O queridinho de Noêmia era porém o Lolô, de dois meses. D. Alípia, toda da Angélica, sua predileta, e cansada de criar filhos, deixava-os crescer um tanto à revelia, espirrando-os para a rua quando já estivessem no ponto de “ruar”, ou desterrando-os para a fazenda, quando os via grandalhões, entupindo-lhe a casa com os corpanzis de marmanjos. Os bem pequenitos, criava-os ajudada pela Noêmia. Esta voltou à alcova donde a tiraram os gritos do pai, e pôs-se a fazer muitas festas ao Lolô: — Ah, meu benzinho, saí agora mesmo e já estava com saudades de você! E riu-se, numa alegria ruidosa, vendo-o todo enrolado na cama, chupando com sofreguidão os dedinhos rosados. Nesse momento Juca voltou da rua, onde estivera a passear. — Juca! Juca! — chamou o pai. O moço entrou no consultório. — Vá preparando a lição de francês enquanto termino esta escrita — disse o médico, armado de um régua, e com a pena de tinta vermelha na mão. — Não posso, tenho de estudar flauta — respondeu o moço, dando-lhe as costas. E, na sala de jantar, pôs-se com afinco a orelhar uma valsinha que lhe caíra no goto. Na família eram todos assim, tinham vocação decidida para a música.
O Dr. Lopes começou o trabalho, mas antes de acabar de riscar uma página do contas-correntes teve que interromper-se, porque D. Alípia, voltando da sala, pousou-lhe a mão no ombro, dizendo: — Lopes, estou muito triste! O marido olhou-a, fazendo-se triste também. — Estou comovida, pensando na Angélica! É bem duro casar uma filha! Muitas vezes é a separação, talvez para sempre… O Sr. Licínio há de querer levá-la para São Paulo… Vendo os olhos marejados de Alípia diluídos em ternura materna, o doutor confirmou que de fato era uma desgraça enorme… — Para sempre, Lopes… É muito triste! E ficaram silenciosos, a ouvir distraídos a flauta estudiosa do Juca, que repisava a primeira parte da valsinha. — É muito triste — repetiu afinal o marido, como um eco tardio. E, enquanto o doutor limpava meticulosamente uma lágrima da mulher que pingara na folha do contas-correntes, D. Alípia pôs-se a fazer considerações sobre aquele novo namoro. Gostava do Licínio, que diziam ser inteligente. Estava muito nos princípios da carreira jurídica, mas devia ter um bonito futuro. Pena é que fosse filho da Ismênia, que vivia desconsiderada, depois que ficara viúva e pobre! E uma criatura que não escolhia trabalho, a cozinhar, lavar, plantar, ombreando-se com qualquer preta! Verdade era que o trabalho não é desdouro. — Olhe — acrescentou —, acho que tenho sido um tanto injusta em pensar mal da Ismênia. Antigamente, nos seus bons tempos, nós nos dávamos tanto! Como era serviçal, a gente estava sempre a dever-lhe obrigação… Mas, por outro lado, decaída como se acha, não ficaria bem a uma pessoa decente frequentar-lhe a casa. Iria até envergonhá-la, pois talvez a coitada não tivesse uma xícara de café para oferecer! — Você pensa com acerto, Alípia. Mas não vejo razão… Alípia acotovelou-o para que se calasse. É que, numa parada do Juca, que reunia novos alentos para tentar a segunda parte da valsinha, ouviram distintamente passos mansos que se avizinhavam para escutar. Pela
fresta da porta apareceu o nariz adunco e o olho murcho de uma velha, que inspecionou a saleta do consultório. Era D. Rita, velha octogenária, mãe do Dr. Lopes Coutinho. Farejando novidade, saíra de seu quarto para ver o que de anormal sucedia. Vivia às espreitas e às escutas, imensamente curiosa de tudo, e constantemente insatisfeita, porque todos procuravam hostilizar sua eterna curiosidade, ocultando-lhe as coisas mais simples, como se fossem segredos de grande monta. Como marido e mulher ficassem calados, ela resolveu mostrar-se e perguntou ao filho: — Que foi que houve, Lopes? — Nada, mamãe — respondeu o facultativo, absorvido agora em tentar a heureca, para tirar os últimos vestígios da lágrima da Alípia na página lustrosa. Na realidade, fazia-o infeliz esse desastre; e, para evitar a outra lágrima, que lentamente se lhe engrossava na papada, ele pensou em falar à mulher que não havia motivo para tanto sentimento! Essa última lágrima em formação dava-lhe sérios cuidados; esperava vê-la escorrer pescoço abaixo, mas a lágrima não se resolvia; causando-lhe um suplício de Dâmocles, mostrava-se ambígua. Para cortar dúvidas, o doutor arredou para um lado o precioso contas-correntes. — Que foi, Alípia? — perguntou a velha, voltando-se para a nora. — Nada que lhe interesse, D. Rita — respondeu a matrona secamente, franzindo o nariz. A velha abriu a caixinha, fungou despeitada uma pitada de rapé e foi saindo. Na sala de jantar ainda parou um instante, na esperança de saber o que sucedia. Porque o ambiente da casa indicava novidade. Pressentia-o, com a argúcia imensa que sua curiosidade eternamente contrariada lhe fizera adquirir. Prestou atenção. Mas a flauta do Juca a impedia de ouvir. Então a velha desprendeu um suspiro e reentrou tristemente no seu quarto, a pedir a Deus que lhe mandasse a morte logo. Como lhe era vedado saber o que de mais interessante se passava no mundo em que vivia, desejava, pelo menos, conhecer as novidades do outro, que lá as deveria haver também.
D. Alípia, ainda melancolizada, voltou para a sala. — Vá desembaraçar o cabelo — disse à filha —; você está feito uma bugra! Angélica obedeceu, e a mãe tomou-lhe o lugar à janela. Ali ficou, pensando no desmazelo incorrigível da filha. Tão sem vaidade que nem parecia moça! Não escovava os dentes, andava de chinelas sem meias, a saia sungada, a cabeça caspenta. Que luta para fazê-la mais caprichosa! Felizmente, depois do namoro com o Bernardes, havia momentos em que despertava nela um pouco de garridice. Aquele hábito de pôr uma fitinha no cabelo, acima da orelha, por exemplo. Recostada ao poial, a matrona remoía estas ideias, quando viu Licínio, já de regresso, apontar na extremidade da rua. — Angélica! — chamou, volvendo a cabeça para o interior da casa. — Angélica! A moça deixou o pente de um lado, e, jogando os cabelos para as costas, atendeu correndo ao chamado. Foi-lhe atrás a pretinha Flauzina, que a ajudava a pentear-se. — Lá vem ele outra vez — disse D. Alípia, alvoroçada. E postaram-se ambas à janela, esperando o moço, a caraça da mãe sobre o rosto da filha. Noêmia, que ouviu o chamado, veio também e trepou no rodapé saliente para espiar. A pretinha Flauzina enfiou a cabeça de um lado. Até o Juca, apressurado, largou a flauta e foi erguer uma vidraça da “varanda”. Licínio, ligeiramente desconcertado, cumprimentou e passou. Do consultório vinham berros insistentes do Dr. Lopes Coutinho, que queria saber a causa do rebuliço. — Alípia! Alípia! A esposa não respondia, interessada em acompanhar o moço até a esquina encobri-lo. — Que houve, Alípia? — O Licínio! — informou a mulher, entrando no gabinete. — Depois que passou, olhou para trás duas vezes! O doutor, bem-humorado, deu uns tapinhas na cabeça da filha, galhofando:
— Então temos namoricos, hein, senhora dona? Angélica safou-se aos pulos para o espelho, fazendo barulhada grande de chinelos. A moça nunca tinha expansões com os pais. Só gostava de conversar com a Flauzina. A negrinha foi-lhe no encalço, rindo. Noêmia voltou para o Lolô e Juca para a flauta. Apenas nesse momento, um tanto atrasada, saía D. Rita do seu quarto, perguntando assarapantada a todos que enxergava: — Que foi? Que sucedeu? Não houve uma alma caridosa que lhe desse resposta.
Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.