Universo da obra
Universo da obra
Licínio saiu da casa do médico quase inconsciente da realidade, num estado de confusão indescritível. Achava-se incapaz de conceber a mínima ideia. Ele era todo das sensações, que se lhe sucediam atropeladamente no espírito. Primeiro pareceu-lhe ter no cérebro um remoinho que girava infrenemente fazendo “zum!”. Depois o remoinho mudou-se em matracolejo de caminhão desconjuntado, solavancando em chão desigual. Foi-se o caminhão, e com ele figurou-se a Licínio ter-se ido todo o conteúdo do crânio, ficando este vazio como os espécimes das coleções de ovos. Era um delicioso aniquilamento. Mas, enquanto andava, sentia um zumbido de palavras que lhe esvoejavam em torno do ouvido, querendo entrar. Era o eco da última recomendação de D. Alípia, que ele não lograra compreender desde logo, no atordoamento em que saíra. Apenas achou-se em estado de dar-lhes atenção, as palavras enfiaram-se-lhe pela consciência adentro, repetindo: “Não se esqueça da víspora à noite!”. Então clareou-lhe instantaneamente a realidade. Primeiro encheu-se de um misto de terror, vergonha e assombro pelo trágico ridículo da surpresa de que fora vítima; depois, como um óleo balsâmico, relembrou a última frase de D. Alípia. A matrona avultou em prestígio para ele. Santa mulher! Que bondosa tolerância! Que outra mãe, depois de um escândalo daqueles, estenderia, sobre seu causador, as magnânimas asas de perdão? Como pudera rápido prever todo o bem que lhe iam causar suas últimas palavras e dizê-las tão oportunamente, de modo que ele ainda saísse com
elas esvoejando-lhe em torno do ouvido, para o confortarem? Não havia dúvida de que a matrona era um “espírito superior”, uma supermulher. Suas vagas reminiscências de Nietzsche serviram-lhe naquele momento para agraciar D. Alípia com o atributo mais honroso do repertório de seu uso. Super-homem, supermulher — Licínio não esbanjava estas palavras sem discernimento, poupava-as aplicando-as somente às pessoas de reconhecida superioridade a seus olhos. Assim, D. Alípia foi promovida a supermulher. Angélica, há muito que o fora; e ele, à sua parte, considerava-se um super-homem. Estava a pique de conceder a mesma honra a Afonso, mas retinha-o um tal ou qual ressentimento pela hostilidade com que era tratado por ele. Depois de sentir-se mais tranquilo, Licínio pôs-se a esmoer outra reflexão desagradável. Lembrou-se de que prometera ir à víspora e perguntava a si mesmo com que cara se apresentaria em casa do médico. Além disso, outra dificuldade. Ir à víspora implicava a necessidade de ter no mínimo dez mil réis no bolso, e achava-se sem vintém. Essa víspora era uma instituição temível, apesar de remuneradora sob o ponto de vista sentimental. Ganhava em olhares de Angélica o que perdia em dinheiro, pois era Licínio quem lhe fazia as despesas. Juca, Noêmia, Xanxã, ficavam alvoroçados sempre que ele ia jogar. O primeiro ganhava quase ininterruptamente usando de processos poucos lisos para baldear ao seu bolsinho os níqueis de Licínio. Xanxã propunha logo sociedade, ficando com todos os proveitos, ao passo que competia a Licínio entrar com todo o capital. Muitos lhe pediam entrada; e durante a noite Noêmia, quando não jogava, lhe botava uns olhos tão compridos, que ele logo lhe passava um punhado de fichas. D. Alípia a tudo assistia com seu bom riso de tolerância, estendendo sobre a adorada prole as asas da condescendência maternal. Tudo nela dava a ideia desse “estender de asas”, embora a comparação seja vulgar e excessivamente galinácea. Em suma, ao retirar-se, Licínio levava confortada sua alma de namorado, mas vazios os bolsos. Na sua qualidade de homem superior não detinha a atenção em tais miudezas pecuniárias, dando por
bem empregada essa quantia que lhe comprava o prazer de passar os serões ao pé de sua querida florinha agreste. Mas naquele dia ele estava sem vintém e não sabia como obter dinheiro. Sua pobre mãe, embora mourejasse o dia e grande parte da noite, mal podia prover às despesas da casa e dele. Porque Licínio tinha despesas suas e não pequenas. Com certa vergonha reconhecia que naquele vilarejo, tendo tudo o de que necessitava, despendia ainda mais do que quando estudava em São Paulo. A princípio ele tinha um secreto ressentimento da mãe, achando insuficientes as mesadas que lhe mandava; começava, porém, a compreender não ser a culpa da escassez do dinheiro e sim de seu pouco cálculo no gastar. Tudo o que sobrava das despesas da casa, dava-lho a viúva, e esse tudo se dissolvia em suas mãos, aplicado em insignificâncias dispendiosas. Com suas exigências amiudadas de dinheiro ele percebia que a mãe às vezes lhe entregava o que estava reservado para o pagamento de dívidas ou para abastecer a minguada despensa. Em muitas ocasiões, depois de formular seu pedido, via a viúva enrolar na cabeça o xalinho preto de ir à rua, e sair disfarçadamente sem lhe dizer qual o seu destino. Licínio adivinhava: ia pedir dinheiro emprestado. Nos últimos tempos as saídas se fizeram mais frequentes. Ele apiedava-se, tinha remorsos de suas dissipações, mas essas revoltas da consciência eram inconsistentes e passageiras. Quando não queria agravar mais a situação da mãe obrigando-a a recorrer a empréstimos, era ele que usava esse expediente. Já não devia pouco ao Fragoso e à Josefa, baiana vendeira em cuja mercearia costumava abastecer-se de cigarros e de balas para as crianças de D. Alípia e oferecer cerveja ao Juca. Notava que seus credores já não o olhavam com bons olhos, e que, ao venderem-lhe a prazo já punham dificuldades: mentiam dizendo que não tinham o objeto desejado ou faziam-no esperar, semeando reticências ofensivas entre o pedido do moço e a entrega da mercadoria. Essa desconfiança feria os brios de Licínio, mas não obstava a que, levado pelos seus caprichos, mais fraco do que eles, reincidisse nos empréstimos e nas compras fiadas.
Naquele dia Licínio se lembrou de valer-se de Leôncio; o inventor, porém, confessou-lhe com franqueza que, embora aguardando os doze mil contos do moto-contínuo, se achava momentaneamente “desprevenido”. A clientela rareava na botica, pois as drogas de seu invento iam perdendo a cotação. Saindo de sua casa, o moço recalcou o orgulho ferido e entrou no Fragoso, que ficava perto. O negociante valeu-lhe com a metade do que pedira, mastigando entre dentes que isso de duas contas complicava a escrita e que achava melhor reunir a conta dele à de D. Ismênia. Licínio covardemente murmurou um assentimento e saiu felicíssimo, encasando no bolsinho do colete a nota que lhe dava ingresso, à noite, na mansão bem-aventurada em que residia Angélica. E foi à víspora. Entrou timorato, gaguejando ao cumprimentar; D. Alípia, todavia, requintou em tanta gentileza, que momentos depois ele se sentia à vontade, como se nada de vexatório houvera sucedido naquele dia.
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