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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 8 · Os Bem-Casados

Primeira parte - Capítulo VIII

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D. Alípia era muito econômica. Se descobrisse um erro, por pequeno que fosse, nas contas que os filhos da fazenda lhe prestavam, era certo repreendê-los severamente; e, como nada lhe passava despercebido, eles tinham o máximo cuidado de explicar o emprego de cada vintém. Não fazia roupas novas para os moços. Eles vestiam as que haviam servido ao pai. O corpo não era exatamente igual, mas — ora! — um refego aqui, uma ensancha aproveitada ali, e iam prestando. Para aproveitamento dessas roupas havia uma espécie de hierarquia a observar. Ocupava-as primeiro o Afonso, por ser de mais idade e consideração; depois de algum tempo, passava-as ele ao Cosme, que por sua vez as herdava a Pedrinho — e em tal estado, que ninguém diria que aqueles tristes restos serviram um dia para ocultar as secretas nudezas do Dr. Lopes Coutinho. Em certas ocasiões os filhos, mordidos de ciúme, protestavam contra o esbanjamento de roupas novas para o Juca, o filhinho querido que ainda gozava a regalia de morar na povoação. — Mas o Juca vai seguir os estudos, meus filhos — explicava D. Alípia —, precisa, por isso, apresentar-se com mais decência. — Há de seguir mas é uma figa! — resmoneavam os descontentes, que tinham razões sólidas para descrer das esperanças maternas. Eram, porém, rebeldias de momento. Aquietado o assomo de ciúme, eles se submetiam dóceis ao estatuto econômico com que a matrona os regia.

Para Angélica, D. Alípia conciliara bem o desejo de vê-la vestir-se decentemente com os seus espíritos financeiros, arrematando no negócio do Fragoso uma peça de cassinha branca, meio avariada, oferecida a resto de barato. Como a peça era enorme, rendeu a Angélica sucessivos vestidos brancos, cuja cor, de colaboração com seu andarzinho pulado, lhe davam um ar suficientemente aéreo e níveo de nuvem, sílfide, e outras coisas etéreas que constavam dos versos de Licínio. Foi a esse tempo que ela deu de ficar andeja. Procurava as outras mocinhas de sua idade, e ia com especial predileção à casa de Florinda, porque a costureira tinha o gênio alegre, e gostava de falar de namorados. Não a encontrou, porém, Licínio, no dia em que foi lá cumprir sua promessa. Florinda, que foi ver quem batia, acolheu-o com expansões amistosas: — Que milagre, Sr. Licínio! Quando podíamos esperar que se mostrasse tão gentil! — Pelo que vejo não era muito favorável o juízo que faziam de minha gentileza… — Era, era sim… Mas vamos para a varanda, porque sei que não é de cerimônias… Peço apenas que não repare na confusão. Entraram na sala de jantar. Lá estava Siá Cota numa cadeira de balanço, em maré de langor, lendo um romance. Na mesa estendia-se um corte de vestido, que começava a ser talhado por um molde de jornal velho. A solteirona, sem olhar o moço, disse-lhe um adeus de mão fugidia, com uma expressão transparente de ressentimento, um ar de pessoa desprezada que se queixa. Dando largas a sua expansão de passarinho alegre, Florinda foi desobstruir uma cadeira, em cujo assento e respaldo se amontoava um caos de cortes de fazenda e “preparos”, e ofereceu-lha. Em seguida sentou-se perto de Licínio, apenas recostada ao rebordo de uma cadeira, onde se amontoavam tesouras e carretéis, por um hábito de pessoa atarefada que não está acostumada a perder tempo,

a não ser o estritamente indispensável para dar um dedo de prosa, e cumprir a obrigação, que toda moça tem, de se pôr de vez em quando à janela. Florinda fitou-o com seus olhos vivos, ricos de deliciosos segredos, dizendo-lhe: — Aposto, Sr. Licínio, que não veio para ouvir o que eu tinha para lhe contar… — Perde a aposta. — Ah! então confessa, Sr. Interesseiro! — Mas também vim porque lhes quero bem. — Mais bem do que a nós, quer o senhor a certa pessoa que sabemos, não é, Cota? A irmã grunhiu qualquer coisa, erguendo os olhos sentimentais, grandes como olhos de novilha, para o forro da casa; dali baixou-os para o livro, fingindo que lia. Fingindo, sim, porque nunca passava a folha. Siá Cota estava em crise. Sentia que sua implicância pelo Licínio tendia a cair, cedendo de novo lugar a uma paixão desarrazoada. Atentando nela o moço achou-a esquisita, acabada. Eram os tais dez anos retromencionados. Entre Florinda e Licínio encetou-se uma palestra animada sobre futilidades interessantes. Em pouco não houve mais sombra de constrangimento entre ambos, e a moça pediu licença para conversar trabalhando. Continuou a cortar o pano estendido na mesa pelo molde de jornais. Enquanto a tesoura o sulcava num ruque-ruque abafado, ela confidenciou-lhe: — O meu segredo é que Angélica me tem dito que lhe quer muito bem. Mas muito, mesmo… Contou-me que começou a gostar do senhor naquele baile. — Mas… o Bernardes? Florinda deu um muxoxo: — O Bernardes? Angélica nunca fez conta dele! Achou-o sempre afetado e antipático. Mais razão teria ela para enciumar-se… Olhe, ela anda meio enciumada com o senhor! — Por quê? — perguntou o moço, surpreso.

— Porque… ouviu falar numa rival… numa sua predileta… No auge da comoção, Siá Cota fungou ruidosamente, apurando o ouvido. Seu coração monjolava descompassado, fazendo-lhe cismar que essa predileta era ela. — Numa rival? — Sim… Numa mocinha de São Paulo… Porque é impossível que em São Paulo o senhor não tivesse alguma namorada. Mal reprimindo bufos de despeito, Siá Cota levantou-se de repelão e foi ler para o quarto, a resmungar contra a irmã, a quem ela chamava tagarela e alcoviteira. Mas Florinda protestou: — Alcoviteira, meu Deus! Já nem se pode conversar mais! Minha mana tem um gênio esquisito, Sr. Licínio… Não se ofenda com os modos dela, senão estaria a sentir-se ofendido a cada instante. Agora, tagarela, sou mesmo. Tenho qualquer coisa (mostrou a garganta) que me faz cócega aqui e me obriga a falar, falar, falar… Enquanto não falo muito não sossego… Riram-se os dois; e, tornando ao primeiro assunto, Florinda insistiu: — Confesse que deixou um “doce enlevo” em São Paulo. — Juro que não! Nunca namorei — afirmou Licínio, esquecendo as oito ou dez pequenas que lhe inspiraram os versos de fabrico anterior. — Pois direi a Angélica que o senhor jurou. A coitadinha vai ficar contente… Ah! outro segredo: ela anda queixosa do senhor, porque é tão amigo do Juca e depois daquele dia não voltou à casa dela… — Mas D. Alípia… — começou Licínio, deixando entrever os receios que a matrona lhe causava. — D. Alípia simpatiza muito com o senhor — atalhou Florinda —; acha-o um moço distinto, instruído e de futuro brilhante. Licínio achava-se no pináculo da ventura. Não se lembrava de outro dia de felicidade igual. Quando se levantou para sair dizia para si que Florinda era a mais ideal das criaturas, depois de Angélica e de D. Alípia. Não se despediu de Siá Cota, que lá estava com os burros, sumida no quarto.

Fez o percurso até a casa num estado tal de ventura, que via apenas seus pensamentos, e nada do mundo exterior. Ao chegar, lembrou-se, por associação de ideias, de sua mãe, e da pergunta desta no dia em que lhe anunciara a resolução de não ir mais para São Paulo: “Que futuro você vê aqui, meu filho?”. Concentrando-se, para encará-lo, ele viu de novo o resplendor branco que o iluminava com a doçura de uma alvorada e o fazia ver diversas estradas ridentes que divergiam para todos os rumos. Como não serem ridentes, se uma luz tão doce as aclarava? Via idealmente a mesma irradiação de estradas que existiam num campo ao sair de Três Barras. Essas estradas materiais se sutilizaram em visão abstrata. Era tão exata essa superposição do concreto e do abstrato, que chegava a ser imbecil. Por exemplo, se Licínio fixava a atenção nas estradas de seu futuro, pedindo mais nitidez, mais pormenores, via um pinheiro seco com três casas de joão-de-barro ao lado de uma delas. Como no real, exatamente, o que não o deixava mais adiantado.

Os Bem-Casados

Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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