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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 9 · Os Bem-Casados

Primeira parte - Capítulo IX

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No domingo seguinte, D. Alípia, que ainda hesitava em fazer uma visita a D. Ismênia, recomendou ao Juca que levasse outra vez Licínio à sua casa. Combinaram esse ponto com o cuidado minucioso com que os generais planejam uma batalha; de véspera não se falava noutra coisa, a tal ponto que D. Rita, sentindo o ambiente prenhe de novidades, vivia com o nariz adunco para o ar, farejando por toda parte, tentando adivinhar aquilo que se urdia em voz baixa, em torno dela. Esperando os rapazes, marido e mulher estavam na sala; Angélica, à janela, sondava a ponta da rua; perto dela, Flauzina, sentada no chão, segredava-lhe, bufando de riso malcontido, coisas picantes, que faziam também a patroazinha rir-se. Não tardaram os esperados. D. Alípia acolheu Licínio com o mais condescendente dos sorrisos, e o doutor apertou-lhe vigorosamente a mão. Apenas Angélica não se moveu da janela, a torcer nervosamente o lencinho de seda. — Angélica! — chamou a mãe. Mas a moça, paralisada de acanhamento, não atendeu. — Desculpe, Sr. Licínio, minha filha é uma caipirinha! — explicou D. Alípia, sorridente. Achando encantador o seu enleio, Licínio adiantou-se até a moça, que lhe estendeu a mão sem o olhar. E conservou-se à janela, arredia dos mais, como uma cabritinha arisca, corando de ver em vez, se Licínio lhe surpreendia algum olhar furtivo.

O moço, naquele interior, sentia uma impressão indefinível e embebedante. D. Alípia impressionava-o; achava-lhe maneiras nobres, de suprema distinção; tudo nela parecia-lhe perfeitamente adequado e harmônico, inclusive o buço carregado, que dava à larga boca um quê de severo e ao mesmo tempo maternal. Sugestionavam docemente o moço as mínimas coisas da sala, que era como uma nesga extraterrestre, confinante com o céu. Cada pessoa ali, cada objeto, pareciam-lhe de valor inestimável; não fosse o ligeiro receio que lhe inspiravam os pais de Angélica, seria completamente feliz. Olhando em torno, dizia para si que, naquele canapé em que fora ficar, Angélica já se sentara: sua mão já teria tocado o lugar onde ele pousava a sua; tudo estava impregnado de sua existência — o peitoril da janela, a maçaneta da porta, o pedaço de céu que dali se divisava. A gravura da parede (um Napoleão vulgar num cavalicoque malpintado) seu olhar a santificara, e por isso equivalia para Licínio a uma raridade artística. D. Alípia amavelmente perguntou-lhe por D. Ismênia, chamando-lhe ingrata por fazer-se fugitiva havia tantos anos. Não sabia se tinha motivo de agravo contra ela, Alípia; por sua parte, continuava a estimá-la do mesmo modo. Queriam-se tanto em solteiras! Contou episódios de seu tempo, frisando a intimidade da convivência. Em seguida perguntou a Licínio sobre seus estudos; e como o rapaz respondesse que desistira da carreira, a matrona aprovou, acrescentando que um moço como ele nunca se perdia, dado seu talento, amor ao estudo e outras prendas de estimação. — É bondade sua, D. Alípia. — Não é bondade, é justiça — retrucou ela, no tom com que D. João confidenciou à amante: “Não é remorso, é fome!”. Licínio ainda protestou, porém debalde; D. Alípia continuou a afirmar que ele tinha belas qualidades que lhe garantiam um futuro brilhante. — E, caso o senhor queira, poderá continuar os estudos mais tarde. Com os começos que já tem, ser-lhe-á fácil conseguir um diploma.

Pelo modo pensativo com que isto disse, parecia que a matrona estava a falar mais consigo mesma do que com o rapaz. — Será fácil, não há dúvida — confirmou Licínio, definitivamente conquistado pela mãe de Angélica. D. Alípia ainda conversou um bocado, em seguida pediu licença para sair da sala, pois ia “arranjar um docinho”. — Oh! tanto incômodo! — exclamou Licínio. — Incômodo nenhum! O senhor é muito merecedor. E, voltando-se para o marido, que até aí ouvira quieto, com um sorriso abstrato: — Converse com o Sr. Licínio, Lopes. Deu ainda um olhar sorridente ao moço e saiu da sala. Defronte de Licínio ficara sentado o Juca, que o olhava com simpatia, roendo silenciosamente as unhas. Angélica, do seu posto, dava-lhe uns olhares menos furtivos e mais frequentes que em começo. Cada vez que os olhos de ambos se encontravam, Flauzina, que os observava enrodilhada aos pés da patroa como um canito de estimação, abafava um riso convulsivo. O Dr. Lopes Coutinho convidou Licínio a visitar seu antigo consultório. O moço admirou-se da boa ordem de tudo, e do brilho metálico dos instrumentos cirúrgicos. O doutor pôs-lhe à frente uma rima de livros comerciais, e, passando as folhas de um deles, mostrava a Licínio seu capricho. O moço elogiou-lhe a letra regular e bela. O doutor agradeceu o elogio e continuou a passar as folhas. Fazia-o devagar, religiosamente, e pelo ar de enlevo com que se mirava na sua obra, percebia-se que o motivo para a mostrar era pretexto para a ver de novo. Numa das folhas ele deteve-se, desgostoso, mostrando a Licínio: — Há aqui esta manchinha, que não acho meio de tirar! Já tentei todos os meios, heureca, borracha, raspadeira, e nada! A folha já está quase furada. Isto me contraria muito! — Mas não aparece quase — objetou Licínio. — Aparece muito, muito! É a única mancha existente no livro, e me dá um real desgosto! Foi a Alípia, a causadora…

Era a ex-lágrima. Folheou o resto do livro, não já com o agrado do começo, e depois tirou da rima outros, que mostrou também. Terminado isso, o doutor ficou quieto, a olhar Licínio com uma expressão de cândida seriedade, que parecia dizer: “Meu assunto acabou. Não sei mais que hei de fazer ou dizer para lhe ser agradável.” O facultativo achou boa solução convidar Licínio a tornar à sala. Ao vê-lo, Juca dirigiu-lhe a palavra: — Você deve achar este lugar muito triste. — Não, não acho — respondeu Licínio. — Pois admira… Habituado a morar em cidade grande… — Gosto mais daqui — asseverou Licínio. — Deveras? Juca boquiabriu-se. Não era possível! Para ele o sonho dourado era conhecer São Paulo, que em sua imaginação resumia todas as grandezas. — Gosto muito mais — confirmou Licínio, com intenção, olhando Angélica, que, no auge da perturbação, mordeu nervosamente o beicinho ao passo que Flauzina caía numa casquinada surda e infindável, que abafava na manga do paletó. — Tenha modos, Flauzina! — disse a moça, desapontada, dando-lhe disfarçadamente um pontapé. O moço sorriu-lhe; ela entressorriu-lhe enrubescida. Juca ficou aparvoado, sem saber se devia fingir que não via. Tirou a vista dos namorados e fixou-a na gaveta da mesinha. Nessa gaveta havia qualquer coisa que ele hesitava em tomar. Afinal levantou-se sem dizer palavra e abriu-a, desencafuando sua flauta. Volvendo a seu lugar, mostrou-a a Licínio. — Eu tenho um irmão, o Afonso, que toca flauta muito bem — disse. — Já tive ocasião de o ouvir — respondeu Licínio. Juca fez uma pausa de expectativa. Como Licínio nada lhe pedisse, resolveu acrescentar:

— Ele está me ensinando agora. — Toque alguma coisa, então. — Não sei ainda quase… — É modéstia. Juca, ligeiramente acanhado, olhou a flauta; afinal criou coragem, e, embocando-a resoluto, anunciou: — O princípio duma quadrilha. Só sei a primeira parte. E tocou. Mas errou logo. Recomeçou, explicando que tinha errado. Depois da quadrilha vieram outras músicas, todas truncadas, principiadas apenas. — Escute agora minha valsinha predileta. Licínio, embevecido em Angélica, fitava-a a cada momento. Trocaram sorrisos. Flauzina tornou-se tão importuna com suas risadas intempestivas, que a mocinha a expulsou para dentro. — Muito bem! — aplaudiu Licínio por delicadeza, ao terminar a valsinha. — Agradecido — disse Juca. — Ouça agora o “Ora vai tu”. — Na minha família todos têm muita vocação para a música, explicou o médico, despertando de um ligeiro cochilo, a que se deixara insensivelmente arrastar. — Têm por quem puxar — observou Licínio —, pois eu soube que o senhor antigamente também tocava requinta. — Ainda toco! — retificou o doutor acaloradamente. — Mas tenho perdido muito, por falta de exercício. O senhor julgará por si mesmo… — Lopes! — disse severamente D. Alípia, que por decreto da Providência chegara à porta no momento em que o marido fazia menção de ir buscar o instrumento. O médico, tristemente, arrepiou caminho. E a mãe, dirigindo-se ao filho que repisava o “Ora vai tu”: — Pare com isso um pouco, Juca, e traga o Sr. Licínio para comer um pires de arroz-doce. Entraram na sala de jantar, onde a mesa estava posta com muita ordem. Noêmia, seriazinha, com o paletó arremangado a mostrar

os braços finos, acabava de colocar molhos de rosas nos vasos do aparador. Deixara sozinho o Lolô, que chorava desconsolado, estranhando a ausência da mãezinha. Meia dúzia de fedelhos dependuraram-se às saias amplas de D. Alípia, em grita alegre, pedindo doce. A mãe os enxotava a rir forçadamente, afetando tolerância; conseguiu afinal serená-los com piscadelas terríveis, que prometiam coisas “para depois que o moço saísse”. Licínio foi convidado a sentar-se no lugar de honra, e Angélica se postou na extremidade oposta. O moço apenas tocou no doce. Sentia na alma suave repleção de sentimentos; não se lembrava naquela hora de que possuía vísceras prosaicas que precisava atulhar de substâncias ternárias e azotadas umas tantas vezes por dia. Instigado por D. Alípia, o doutor não se cansava de instar: — Mais um pouquinho, o senhor não comeu quase! Um pedaço de queijo. Só? — As laranjas, Lopes! — Então uma laranja, ao menos! São da fazenda, e excelentes. — Os caquis, Lopes! — Prove este caqui… Licínio aceitava, por comprazer. Juca é que aproveitava a ocasião comendo valentemente o que Licínio recusava, a fazer-se desentendido das olhadas rigorosas de D. Alípia. Soou atrás um passo leve. Era D. Rita voltando da missa. Ao chegar, pressentindo novidade, entrara pé ante pé, para surpreender algum segredo. Atenuando sua prevenção com um ar de afabilidade forçada, D. Alípia apresentou: — Minha sogra D. Rita, Sr. Licínio; não sei se já conhece. O moço cumprimentou delicadamente. — Quem é mesmo o senhor? — perguntou a velha. — Custo a reconhecer as pessoas… Ando com a cabeça muito fraca! — É o Sr. Licínio, filho da Ismênia — explicou a nora. — Licínio? filho de D. Ismênia? — inquiriu D. Rita, incrédula. — Não pode ser.

Encobriam-lhe tanto as coisas naquela casa, que bastava lhe dizerem isto ou aquilo, para ela desconfiar de que se tratava justamente do contrário. Por isso pôs-se a examiná-lo meticulosamente, querendo ver tudo claro à luz da maior certeza possível. — Sou eu mesmo, D. Rita — respondeu o moço, submetendo-se risonho à inspeção. D. Alípia irrompeu, perdendo a paciência: — D. Rita, a senhora está a ver que é o Sr. Licínio mesmo, e põe-se a fingir que não o conhece! Tendo a velha, afinal, presunções veementes para supor que não lhe encobriam a verdade, resolveu tomar a mão que Licínio lhe oferecia, e que, desde a apresentação, pairava desconcertada no espaço intermédio aos dois. Depois que a segurou, não quis mais largá-la. Reteve-a prisioneira, como refém, até que o moço lhe dissesse qual o seu nome todo, quantos anos tinha, se ainda ia para São Paulo estudar, como passava sua mãe, por que a Joaninha Cega não pedia mais esmolas. Licínio respondia a tudo, satisfeito pela cordialidade com que o tratava a avó de Angélica, título valiosíssimo a seus olhos. A velha também satisfeita por achar quem lhe respondesse a todas as perguntas não lhe largava a mão, indagando novas coisas. Conservou-a segura até a hora de voltarem todos para a sala de visitas, que foi o pretexto que D. Alípia achou para atalhar o interrogatório infindável. Instantes depois chegaram também da missa os três rapazes da fazenda, de quem a mãe exigia maior religiosidade que dos outros filhos, para sempre prestarem contas boas e honestas. Afonso olhou carrancudo a Licínio, cumprimentando-o com mau modo, ao passo que os outros dois o encararam com ar fraterno. Pouco mais se demorou Licínio em casa do médico, para não ser importuno, pois calculava que era aquela a hora solene em que os pais e os três filhos se deviam recolher ao consultório, para as terríveis contas da semana. D. Alípia e o médico acompanharam-no gentilmente até o patamar. Juca correu a tomar o chapéu para sair com ele. Ao transporem a porta da rua, a matrona ainda disse, do alto da escada:

— Já aprendeu o caminho, Sr. Licínio, agora é aparecer sempre, que nos dará muito prazer! — Prazer todo meu, dona Alípia — respondeu o moço, que sabia as frases de uso. E saíram. A princípio nada se disseram. Depois, Juca, que procurava rodeio para dizer certa coisa que lhe parafusava o espírito, quebrou o silêncio dizendo seus planos. Estudava os preparatórios para medicina. Concluídos que fossem, iria cursar a faculdade do Rio ou de São Paulo. Aqui achou a transição suficiente e perguntou, mudando de tom: — Diga-me uma coisa, Licínio, em São Paulo há flautas de treze chaves para vender? — Decerto há — respondeu o interrogado. — Dizem que são muito boas. Calou-se um pedaço. Daí a pouco recomeçou a falar. Referiu-se aos irmãos mais velhos, contando os projetos falhos sobre seus estudos. Tomou um diapasão de confidência para revelar: — O Afonso… Hesitou um momento; mas de improviso resolveu ser franco: — Olhe, de meus irmãos, o Afonso é o mais esquisito. É inteligente, sim, e tem muito juízo; mamãe pede-lhe sempre a opinião para resolver qualquer coisa de importância, mas é de um mau gênio… Um dia destes, porque o Pedrinho lhe chamou “pisca-pisca”, assentou-lhe um murro que lhe tirou sangue no nariz; e, faz uns meses, na fazenda — aqui baixou mais confidencialmente a voz — deu uma facada num capinador que quase o matou. Felizmente a polícia não soube, porque mamãe pagou o ferido para que nada dissesse. Mas o que eu lhe ia dizendo é que… ele tem implicância com você. Primeiro era com o Bernardes — você sabe, aquele cometa — depois virou para você. E isso à toa, à toa, só porque… Sem motivo nenhum. Acanhou-se de completar a confidência. Calou um momento, pondo-se em seguida a falar de Angélica. Disse-lhe que a irmã tinha

quinze anos e ia completar os dezesseis no dia tal, dali a poucas semanas. Estimava muito a irmã porque era boazinha. E recatada. Nunca tivera namorado algum. Soube que se falara no Bernardes, mas era mentira, mentira deslavada. Juca continuou a falar em Angélica, e era este ainda seu tema quando chegaram ao largo. Próximo do chafariz ele deteve-se, dizendo que dali voltava. Licínio lamentou separarem-se tão depressa. — Preciso voltar — disse Juca. Mas não se despedia, indeciso… Afinal cobrou resolução e perguntou: — Você pode fazer-me um favor, Licínio? — Pois não — respondeu o moço. — É o de encomendar-me de São Paulo uma flauta de treze chaves. Você tem conhecidos lá, não lhe será difícil… — Com todo o gosto — respondeu Licínio. — Pois será um grande obséquio. Quando vier, eu lhe darei a importância. — Não falemos nisso. E separaram-se.

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Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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