Universo da obra
Universo da obra
Passaram-se muitas semanas. Licínio voltara mais de uma vez à casa de Angélica, o que era facilitado pela sua amizade com o Juca. Já o tratavam ali com certa intimidade de parente, exceto o Afonso, cuja prevenção se conservava irredutível, malgrado as reiteradas ponderações de D. Alípia, que a julgava desarrazoada. Perto do moço a matrona já não usava muita cautela para encobrir certas particularidades íntimas, como a sua ascendência sobre o Lopes, que do papel de chefe de família respeitado e temido descambava a figura meramente ornamental. Com o correr do tempo, D. Rita também decaiu do seu prestígio de “mãe do Lopes”. Quando surgia na sala e se dispunha a submeter Licínio a novo interrogatório, D. Alípia a remetia com palavradas azedas para o seu quartinho sombrio, cujos palmos de assoalho eram a única área da casa onde lhe permitiam francas deambulações. Licínio, não obstante o muito que venerava o tronco sagrado de que rebentara a celestial vergôntea — Angélica —, não desgostava dessa medida, que lhe parecia sensata e indispensável, como tudo aquilo que pensasse uma cabeça tão assisada como a de D. Alípia. Num domingo achava-se Angélica defronte do espelho, desembaraçando os cabelos, à espera da visita costumada do rapaz. Flauzina auxiliava-a. A pretinha tomara a precaução de taramelar a porta do quarto, para dar-se ao regalo de puxar umas fumaças do cigarro que trazia escondido no seio, junto com a caixa de fósforos
da cozinha, suja de carvão e gordura. A intervalos deixava o toco num canto do lavatório e ia a mandado de Angélica espiar “se o moço já vinha”. Numa das vezes em que a rapariga foi inspecionar a rua, Angélica, depois de dar a última demão ao penteado e ajeitar a um lado da cabeça o lacinho com que costumava prender uma madeixa, dispôs-se a ir para a sala. Vendo no lavatório o toco de cigarro, parou para acabar de fumá-lo. Acendeu-o de novo, e, enquanto lhe aspirava as fumaças espessas, pensava em seu namoro com Licínio. Gostava do moço. Não tanto como do Bernardes, mas sentia prazer em vê-lo e namorá-lo, em receber os olhares de adoração que ele lhe lançava, uns olhares humildes, que pareciam estar de joelhos e de mãos postas. Preferia, porém, os olhares do Bernardes, intimativos, como dotados de magnetismo, que a punham tontinha, tontinha, como um inseto fascinado pela luz. Sentira despeito vendo-se preterida pela Ercília, mas um despeito que não chegava a ciúme e não a molestava em excesso. Não achava o Licínio feio, e parecia-lhe bom rapaz. Agradava-lhe a ideia de um dia casar com ele. Via-o mentalmente, mais a si, vivendo juntos, cercados de filharada numerosa. Aos domingos andariam de braço pelas ruas de Três Barras, a pagar e fazer visitas. Comeriam à mesma mesa, dormiriam na mesma cama. Ele haveria de usar aqueles colarinhos altos que lhe assentavam tão bem, e traria sempre as botinas cuidadosamente engraxadas como usava. Este prospecto de vida comum parecia-lhe interessante, e seu espírito, como o do vulgar das mulheres, não ia a maiores funduras sentimentais. Em suma, Licínio, tal como era, agradava-lhe muito. Numa coisa, porém, preferia vê-lo modificado: era no modo de olhar. E havia de modificar-se, pois, cada vez que o moço lhe fitasse seus olhares humildes com que a envolvia em adoração, ela observaria: “Assim não, Licínio, olhe-me fixamente, imperativamente!”. — Evém, Sá Angélica, evém! — exclamou alvoroçada a negrinha irrompendo pelo quarto.
— Já? Antes de correr para fora, Angélica se mirou ainda ao espelho, ajeitando o penteado. Quando ia sair, Flauzina reclamou: — Gentes! e meu cigarro que larguei aqui? — Fumei — disse a moça, rindo. — Ah! ladra! Angélica disparou para a saleta de entrada, pois já se ouviam os passos do moço subindo a longa escadaria. Para a mesma saleta, a fim de recebê-lo, convergiram em poucos instantes Noêmia, D. Alípia e o Dr. Lopes Coutinho. Introduzido solenemente na sala de visitas, aí o trataram com a habitual distinção. D. Alípia esbanjou, em seu proveito, tesouros de maternidade afetuosa, e os demais requintaram igualmente em gentileza. — Onde está o Juca? — perguntou certo momento Licínio, dando por falta dele. D. Alípia respondeu-lhe que se achava em casa do vizinho alfaiate, a exercitar-se num velho piano de cauda, que, de tão desafinado, fazia muitos anos que servia a seu dono unicamente como mesa de corte. De fato, ouvia-se próximo um subir e descer de escalas. Era o rapaz. A espaços parava numa tecla afônica, e martelava-lhe até arrancar-lhe um ruído que se parecia com uma nota. Juca havia enjoado da flauta. Quando veio de São Paulo a de treze chaves, cara, de ébano e prata, com que Licínio o presenteara, já se havia desiludido de seu pendor para flautista. A vinda do novo instrumento fez renascer nele, por uns dias, a mania antiga; mas era tão complicado, tão inútil em suas mãos, que foi o golpe decisivo na sua vocação. — Quero aprender um instrumento que se não precise acompanhar — disse. — Piano, por exemplo. E fora o piano. No entanto, os estudos é que estavam sendo prejudicados. Fazia meses que o pai, desistindo de encarreirá-lo, não o chamava nem uma vez à lição. D. Alípia também não insistira mais,
sentindo desvanecer-se sua veleidade de ter um filho doutor. Para ela, agora, tudo era “a sorte”, fórmula comodista que exonerava de responsabilidades ou dispensava do trabalho de resolver; se “tivesse de ser”, o Juca um dia seria alguma coisa; se não, a lavoura estava ali para recebê-lo, tanto mais que a fazenda prosperava, e os filhos mais velhos reclamavam mais um auxiliar. — Irá o Juca — disse D. Alípia. — Irá o Juca, se… — respondeu o pai. Este “se…” era o último esforço, facilmente combatível, com que ele procurava reter o filho. Juca horrorizou-se quando soube da possível resolução dos pais. — Não tenho vocação para a lavoura, mamãe — protestou com veemência —; nasci para os estudos ou para a música. Ainda hei de ser um grande pianista! D. Alípia não discutiu nem respondeu. A opinião do Juca não pesava. Veria. Para o filho, no entanto, a coisa mais sagrada do mundo era a “vocação”, e ele a alegava como argumento irrespondível. Era hábito proferir-se esta palavra em sua família com tanta unção, que ele a reverenciava, como ao nome de uma potestade suprema. Àquele ponto ouviu-se um tropel de cavalos, e dali a pouco subiam a escada, lentamente, os três irmãos da fazenda. D. Alípia foi-lhes ao encontro, recebendo-os com palavras de acre censura por terem faltado à missa. Não sabiam que era esse um dever de cristãos, de administradores honestos, e filhos obedientes? Todos ouviram em silêncio e de cabeça baixa. Quando a mãe finalizou, desculparam-se com o trabalho excessivo. Terminada esta cerimônia preliminar, indispensável para a conservação das boas normas de disciplina com que os regia, a mãe conduziu-os para a sala, a fim de “estarem com o Sr. Licínio”. — Desculpe os trajos de meus filhos — disse —; andaram três léguas a cavalo! O moço, levantando-se para cumprimentá-los, conturbou-se vendo o rosto carrancudo de Afonso, que lhe estendeu a mão constrangido, grunhindo um “bom-dia” feroz. Lembrou-se de que era
temível, de que dera facadas num camarada, e de que estava prevenido com ele, Licínio. A essa rápida reflexão, um arrepio fino desceu-lhe ao longo do espinhaço. “Tolice!”, pensou consigo, para afugentar essa impressão importuna; um irmão de Angélica não podia ser mau rapaz. Aquilo eram modos sisudos e concentrados de quem tem muito em que pensar. Mesmo se existisse prevenção, seria até razoável, por causa da canalhice de certos tipos namoriscadores como o Bernardes. Um dia, quando reconhecesse suas intenções leais, Afonso julgá-lo-ia merecedor de sua estima. Cumprimentando Pedrinho, achou-o, como sempre, com o ar alegre de pessoa contente consigo e com os outros. Quanto ao Cosme, o ar estúpido do costume. Avisado de que Licínio se achava em sua casa, Juca subiu a escada correndo. — Bom dia! — exclamou, entrando a sala. — Não sabia que já estava aqui. Olhou de soslaio os irmãos, de quem pouco gostava. Vendo-os juntos, a todos os quatro, Licínio confrontou-os, entre si, resultando desse confronto conclusão favorável para o Juca: era desembaraçado, bem-vestido, tratável; os outros tinham um aspecto matuto aumentado pelas roupas desajeitadas, que bem se via terem sido feitas para outro corpo. Os irmãos lançaram ao Juca um olhar atravessado de inveja odienta. Sua prevenção contra ele revelou-se dali a pouco, quando, depois de tocarem em vários assuntos, Afonso voltou-se para a mãe e perguntou: — Quando é que o Juca vai para a fazenda? D. Alípia ficou constrangida; não lhe agradava que os filhos, em presença de terceiros, se esquecessem de prestigiar o Dr. Lopes Coutinho, dirigindo-se a ela, e não a ele, para tomar resoluções que competiam a um chefe de família; por isso respondeu: — Não sei… O Lopes vai resolver. Depois ele dirá. — Eu, ir para a fazenda! — exclamou Juca. — Não nasci para caipira! E meus estudos?
— Juca! — censurou a mãe. — Você já está velho para começar — tornou-lhe Afonso, ríspido. — Começar?! — engalispou-se de novo o rapaz —; pensam que sou ignorante como vocês? Para o ano faço os preparatórios, não é, papai? O doutor limitou-se a fazer um gesto vago. Estava meio deitado no sofá, e cingia com o braço a cintura de Noêmia. Os filhos da fazenda olharam isto como bom augúrio, compreendendo ter havido uma daquelas reviravoltas de afeto a que o pai era dado, e que substituíam um antigo predileto por outro. O médico enjoara do Juca, e Noêmia ia ser agora a queridinha. Afonso, no entanto, replicou com ironia: — Olhem o sabichão que vai concluir os preparatórios e ainda escreve “trouxe” com “c” cedilhado! — Mentira! — berrou o Juca, possesso. — Ora, mentira! O irmão provou o que afirmava tirando do bolso do colete um bilhetinho preciosamente conservado, que apresentou ao pai. O Dr. Lopes Coutinho tomou-o, incrédulo; mas logo que leu abanou a cabeça com um jeito de condenação. Passou o bilhete a D. Alípia, que teve para o Juca um risinho que este achou terrível. Estava derrotado. Fora de si, dando rabanada, saiu da sala. Cosme, a quem a natureza, por um fenômeno de compensação, convertera a inteligência, que lhe fazia míngua, em voracidade excepcional, também saiu a esse ponto para varejar os armários, à cata de algum comestível. Cruzou-se com um batalhão ruidoso de crianças que subia as escadas em tropel, invadindo a saleta de entrada. — Para trás, corja! — gritou D. Alípia. O batalhão recuou, apavorado. Metade desandou escada abaixo; eram os intrusos, moleques das vizinhanças; os moleques da família, isto é, a filharada miúda, manteve a posição espalhando-se em correrias e altos gritos pelo interior da casa, a chicotear os cavalos de pau. O chefe, Xanxã, ficou na sala, todo ancho com seu capacete de jornal. Encarando com arreganho a Licínio, exclamou em tom de quem reata assunto velho:
— E o tostão que me prometeu ontem? Pondo as mãos atrás das costas, perfilou-se diante de Licínio, em atitude de quem espera. O interpelado amarelou de susto, porque apenas tinha no bolso uma nota de dois mil réis, a última que lhe restava dos cinquenta que a mãe lhe dera poucos dias antes. — Não tenho dinheiro trocado, Xanxã — disse com voz acanhada —, porém amanhã pago a você. — Vejamos se não tem mesmo — tornou o menino. — Vou passar-lhe uma revista. E avançou com uma calma terrível, para pôr em prática a ameaça. — Xanxã! — censurou D. Alípia, querendo debalde tornar severa a voz, que era toda tolerância materna, ao ver o menino precipitar-se em assalto sobre Licínio. Estirado no sofá, também o doutor engrolou uma repreensão acariciando distraidamente os cabelos de Noêmia. O pirralho revolveu todas as algibeiras de Licínio. Dum bolsinho sacou a nota, muito amarrotada. — Olhe aqui, Sr. Mentiroso! Achei ou não achei? — exclamou o menino vitoriosamente, a fazer-lhe fosquinhas com ela. — Este menino toma muita intimidade com os estranhos, mamãe — observou Afonso, cerrando os sobrolhos. Pedrinho deu uma gargalhada, achando graça. — Restitua o dinheiro, Xanxã! — ralhou D. Alípia, agridulçurosamente. Licínio protestou: — Ora, uma tuta e meia! guarde, Xanxã. E assim se fez. Guardada a nota, Xanxã, pondo-se diante de Licínio em atitude de pulo, exclamou em voz de comando: — E agora — firme! O moço compreendeu que naquele dia ia repetir-se uma coisa muito desagradável. Perante a namorada, seu corpo, nas mais humilhantes posições, ia servir de trapézio para várias acrobacias do menino. Xanxã, precipitando-se, montou-lhe na perna cruzada. Instalado aí, pediu-lhe que “galopasse”. Licínio, em postura incômoda,
fê-lo pular cinco minutos e trinta e cinco segundos. Quando queria afrouxar, estimulavam-no os coices que Xanxã lhe dava na perna, à guisa de esporadas, com os calcanhares enlameados, gritando: — Upa, cavalo lerdo! Mais depressa! Depois, trepando-lhe no cogote, pediu-lhe que corresse pela sala. Licínio o fez, suando, enquanto o menino pinoteava para excitá-lo, agarrado aos seus cabelos como às crinas de um animal. Ao rumor do galope, o resto da criançada veio do interior e atirou-se sobre o moço, subindo-lhe pelo corpo como correição de formigas assanhadas. Todos, à exceção de Afonso, que fechara tromba de desagrado, olhavam satisfeitos aquela cena tão edificante de amor aos pequeninos. Afinal, de fôlego curto, Licínio caiu numa cadeira. Xanxã esporeou-o de novo. — Vamos! vamos! Que cavalo lerdo! Está querendo afrouxar! O resto da petizada puxava-o da cadeira, instando: — Outra vez! Outra vez! E recomeçou o galope. Sorrindo com benevolência, D. Alípia perguntou, quando o moço, derretendo-se em suor, caiu de novo na cadeira: — Gosta muito de crianças, Sr. Licínio? — Muito — respondeu ele enxugando a fronte. Como os fedelhos fizessem muita algazarra, a pedir a continuação da brincadeira, D. Alípia enxotou-os, afinal: — Basta, agora! Vão brincar lá fora. Deixem o Sr. Licínio sossegado. — Não! Não! — protestaram. — Já disse! Passa para fora, cambada! Bateu o pé. A meninada espirrou por todas as portas. Pondo os bofes pela boca, Licínio continuava a enxugar a testa alagada. — Esse é um bom exercício, disse o Dr. Lopes Coutinho, porque faz suar. Lembro-me, até, a respeito, de um preceito de Hipócrates. É o aforismo n.o… n. o… Oh, esta minha cabeça! Não precisava o número.
Bastava ser de Hipócrates e reafirmado pelo Dr. Lopes Coutinho, para que todos o achassem sábio e reverenciável. Licínio admirou o saber profundo do pai de Angélica. — Mamãe! — lembrou Noêmia, que estalava cafunés nas falripas ralas do pai. — E a víspora? — É verdade, Sr. Licínio — acudiu D. Alípia —, havia-me esquecido de convidá-lo para uma víspora esta noite. — Mamãe! — censurou Afonso, saindo de seu mutismo concentrado. A matrona fez-se de desentendida. Licínio prometeu ir. — Agora, meus filhos — disse D. Alípia a Afonso e Pedrinho —, vamos às nossas contas. Você, Lopes, fique aí com a Angélica, dando uma prosa com o Sr. Licínio. Se for preciso nós o chamaremos. E o Cosme? Esse Cosme… Onde estará ele? Vá buscá-lo, Afonso! Afonso obedeceu, constrangendo o irmão a acompanhá-lo. Cosme não o fez sem despedir-se, com um aperto d’alma, do resto do bolo destinado a Licínio, bolo que era inteiro e fora reduzido por ele àquele estado de resto. Mas não se despediu apenas com a alma que se lhe vazava pelo olhar guloso, e sim também com a boca que no momento extremo da separação ele atafulhou o mais que pôde. Ao entrar na sala, onde não contava encontrar mais o moço, parou boquiaberto, na sua atitude mais cretina, mostrando entre as maxilas resíduos “do bolo para o Sr. Licínio”. — Venham, meus filhos! Às contas! — determinou a matrona. E foram entrando no consultório. — Alípia… — implorou o médico, segurando-lhe levemente o braço. — Alípia… A matrona deteve-se. — Que é, Lopes? — Se eu fosse ver a requinta… — continuou ele, com a voz e os olhos súplices. — O Sr. Licínio gostaria de ouvir-me tocar… — Muito, muito — afirmou o moço cordialmente. D. Alípia, depois de hesitar, cedeu, descontente: — Pois toque, Lopes. Mas você não sabe nada.
— Eu! — revoltou-se o marido. — No meu tempo… — Ora! — atalhou a mulher. — Isso foi no seu tempo. Hoje o tempo não é seu, e sim da geração nova. Mas pode ir buscar o instrumento. Para atenuar a autoridade com que falara ao marido, explicou a Licínio: — Oponho-me a que o Lopes toque, porque lhe faz mal ao peito. — Oh! nesse caso!… — conveio o moço. Mas o médico, rejubilante, já tivera tempo de ir buscar a requinta, e voltava com ela triunfalmente na mão, e mais um molho de velhas partituras. A mãe e os três filhos trancaram-se no consultório. — Vá buscar, Noêmia! — disse o doutor à menina, que compreendeu de que se tratava. Não tardou, ela trouxe uma estante exígua e leve, que colocou num ângulo da sala. O médico postou-se em frente, ladeado pela menina, que devia virar as folhas da música. Antes de principiar, o doutor voltou-se, anunciando o Carnaval de Veneza. Ato contínuo embocou o instrumento e começou. Licínio, atrás dele, apreciava-lhe a calva pelo seu lado posterior, que era igualmente majestoso. Notou, porém, que o modo por que o médico inchava as bochechas em sua função musical lhe tirava um tudo-nada da majestade impressionadora do seu aspecto. Enquanto a requinta se esganiçava horripilante, Licínio sentia-se feliz vendo-se quase só com Angélica. A cadeira da moça convizinhava com a sua. Ele olhou-a, ela olhou-o, sorriram-se, disfarçaram; depois olharam-se de novo e novamente sorriram, e desta vez não disfarçaram, quedando-se em recíproca e muda contemplação. Então, tremulamente Licínio avançou a mão e tomou-lhe a mãozinha nívea; Angélica abandonou-a, inerte, na sua; a palma estava quente e úmida. Como o doutor parasse, voltando-se, para anunciar o “Stabat Mater”, num movimento rápido retraíram-se; depois, de manso Licínio retomou a adorável mãozinha.
Sentia numa exultação indefinível. Não lhe parecia possível existir felicidade superior à daquele contato. Ela sentia-se também feliz. Quanto tempo assim ficaram, de mãos dadas? Não o saberiam dizer, porque o êxtase do amor absorvia-lhes todas as noções elementares do espírito humano, inclusive as do tempo e do lugar. Como uma catástrofe inopinada, viram apenas abrir-se de súbito a porta do consultório, aparecendo D. Alípia e os três rapazes. Foi tão rápido, que Licínio se quedou apatetado, e não deixaria a mão da moça se ela mesma não se lembrasse de retirá-la, indo disfarçar para a janela. D. Alípia olhou-os estarrecida. Afonso teve um relâmpago assassino no olhar. O Cosme e o Pedrinho se limitaram a acompanhar o pasmo materno. Quanto ao doutor, compenetrado, mostrava agora sua agilidade em subir escalas. Ia subindo até arrancar da requinta guinchos finíssimos, perfurantes, que eram o seu orgulho, pois desafiava a quem os tirasse mais agudos. Licínio, afinal, ergueu-se cambaleando para buscar o chapéu. Despediu-se às tontas e saiu sentindo um torvelinho na cabeça, sem compreender as últimas palavras de D. Alípia, gritadas do alto da escada: — Não se esqueça da víspora à noite! Momentos depois estava a família do médico reunida no consultório, em grave conciliábulo secreto: os pais e os três filhos mais velhos. Todos rodeavam a mesinha redonda. No princípio fez-se um silêncio augusto. D. Alípia, que convocara a reunião, quebrou-o, dizendo: — Eu tinha a intenção de um dia reunir todos aqui para tratarmos do futuro de Angélica; mas, como o namoro dela com o Licínio já está muito adiantado, como todos viram, achei bom que conferenciássemos agora, para resolvermos o que for mais avisado. Afonso — e ao dizer este nome a matrona voltou-se para o filho mais velho —, você não tem razão de estar prevenido com o Licínio. É rapaz sério, de boa família, e, se namora sua irmã, é com as melhores intenções. Garanto que ele já a teria pedido em casamento se não fosse tão acanhado.
— É sim, muito acanhado, com “c” cedilhado — aparteou Afonso sacudindo afirmativamente a cabeça, com uma ironia feroz. — Mas agora — continuou a matrona sem replicar ao aparte — que nós o temos encorajado dando-lhe intimidade na casa, tratando-o quase como filho, esse acanhamento se torna intempestivo, pois, não ficando definida sua situação como noivo de Angélica, isso vai dar matéria à tagarelice dos desocupados, como já está dando. Ainda hoje a comadre Antônia me perguntou se o casamento já estava marcado. Disse-lhe que não havia nada, que eram boatos. Mas fiquei com uma cara! Todos ouviam em religioso silêncio. — Por isso — concluiu a matrona —, eu achava bom encorajarmos mais explicitamente o moço a fazer o pedido. Por exemplo, em sua qualidade de irmão mais velho, iria o Afonso procurar Licínio, e far-lhe-ia ver, com toda a diplomacia, que a sua pretensão não seria mal-acolhida por nós, e que retardar o pedido teria seus inconvenientes. Mas dir-lhe-ia isto habilmente, com muito bons modos, não é, Afonso? — Vou e mato-o! — berrou Afonso, dando uma punhada na mesa. D. Alípia levantou-se de golpe. — Afonso! — exprobrou, assumindo o ar de chefe da família. — Proíbo-lhe que lhe faça qualquer coisa! Proíbo-lhe, ouviu? O filho curvou a cabeça, vencido. Mas aquela explosão inesperada deixou-a hesitante. Depois de frisar seu descontentamento por ato de tanta rebeldia, declarou que dava o dito por não dito, adiando o passo decisivo para mais tarde.
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