Universo da obra
Universo da obra
Na véspera de partir, que foi alguns dias depois, Licínio resolveu ir despedir-se da família de Angélica. Não era isso, talvez, estritamente necessário, na situação melindrosa que se criara; mas ele se iludia com os motivos de nobreza com que justificava sua conduta, e, desejoso de portar-se nobremente até o último instante de sua estada ali, tão depressa resolveu como executou. Nesse rasgo generoso não deixava, quiçá, de haver um tanto de temeridade; mas ele sentia-se tranquilo, porque, estando a semana em meio, não era provável encontrar-se com Afonso, que vinha da roça aos domingos. Saiu para esse fim logo depois de almoçar. Ao defrontar o casarão do médico veio-lhe uma leve saudade antecipada — talvez instintiva hipocrisia sentimental. “Adeus!”, disse-lhe em pensamento. E quase se comoveu; agora não tanto da saudade, mas da entoação mental e do gesto de mão também mental com que dera aquele “adeus!”. Nas janelas, ninguém. É que se desabituaram de o esperar. Ele embocou escada acima como pessoa da intimidade da casa. Subia, porém, os degraus com pausa, reunindo coragem para enfrentar a matrona. Renovou-se-lhe nas vísceras a mesma sensação enigmática que parecia medo. Nem pensava no prazer de ver Angélica. Aquelas velhas paredes que ele dantes achava sagradas por asilarem a moça, premiam-no como os paredões de pedra de um calabouço. Correu-lhe a espinha um arrepio de pressentimento desagradável, ao simples conspecto do canzarrão acorrentado, pintado na barra da
parede, bem defronte do patamar. Cérbero de uma só cabeça, mas cujos beiços ferozmente arregaçados deixavam ver uma dentuça digna de um cérbero autêntico. Quando, na antessala, bateu palmas trêmulas, veio-lhe ao encontro D. Alípia em pessoa. Não tinha esse dia aqueles ares de rainha ofendida; mostrou-se afável e risonha, mas sua afabilidade era um tanto constrangida, e seu sorriso repassado de tristeza. — Ah! Sr. Licínio, o senhor é um ingrato! Nós querendo-lhe tanto bem, e o senhor que some de uma vez! — foram suas primeiras palavras. Entrando na sala de visitas, para onde a matrona o conduzia, Licínio desculpava-se. Preocupações… A necessidade de pensar na vida… — Angélica! — chamou D. Alípia. — Venha aqui ver um ingrato fujão! A filha veio e cumprimentou-o sem o olhar. — Ajude-me a ralhar com ele, Angélica, por causa do sumiço! — Decerto é porque acha nossa casa muito triste — disse a moça. Licínio sentia-se à vontade. Caíra a tal qual prevenção com que julgara, durante uns dias, a família do médico. Sentia sobretudo dó de Angélica, que o amava e a quem ia deixar. Pobrezinha! Mas devia afastar-se; a lealdade o exigia. Procedendo assim, dava-lhe a maior prova de afeto. Ela compreenderia mais tarde a delicadeza de seu procedimento. Naquela ocasião só poderia nutrir ressentimento. Estava arrufada, via-se. Não o olhara uma só vez de fito, e com os dedos amarfanhava nervosamente uma preguinha da blusa clara. Muito séria, afetava indiferença. Era a primeira vez que ele a via assim, o que lhe feriu a vaidade. Preferia vê-la dócil e meiga, a botar-lhe seus olhos apagados de carneiro manso. Então teve o desejo de recomeçar a namorá-la, de dizer-lhe que gostava dela e de tomar-lhe a mão… Não a via passivamente enamorada, como nos outros dias; mostrava-se outra: mais mulher, com um quê de autoritário na fixidez do olhar que não o fitava, e no modo por que mordia o lábio inferior. Zelos e despeito, nada mais!
“Recomeço porventura a amá-la?”, perguntou-se Licínio. “Tolice! Até a própria constância significa às vezes volubilidade, porque a Angélica que agora me perturba não é a florinha agreste dos outros dias. Poderia amá-la sempre, se de tempos a tempos ela se transformasse noutra Angélica…” Ele sorriu no seu interior, envaidecido de sua ideia sutil, e esse momento de triunfo subjetivo lhe deu forças para dizer ao que viera. Tornou a desculpar-se de ter andado sumido. Hipocondria, aborrecimento de ser filho-família pesado à mãe e inútil para ela e para a sociedade. Resolvera continuar os estudos interrompidos, tanto que ali fora levar suas despedidas. Partia com pesar, saudoso de todos e de tudo, principalmente daquela casa onde o acolhiam tão afetuosamente. — Faz bem — respondeu D. Alípia, singelamente. — Quando parte? — Amanhã. Seguiu-se uma pausa penosa para os três. Angélica, num trejeito nervoso, mordeu o lábio delgado até tirar sangue. A matrona quis dizer algo para quebrar o silêncio pesado, mas a voz embargou-lhe e ela rompeu num pranto que lhe sacudia o atochado corpanzil. Levantou-se e foi ver um lenço para enxugar os olhos e assoar-se, mal podendo engrolar entre as lágrimas: — Desculpe esta fraqueza, Sr. Licínio… Mas eu já o estimava como… como filho… Recrudesceu o pranto. D. Alípia foi acabar de chorar em outro canto da casa. Licínio, também comovido, olhou Angélica. Esta parecia convergir toda a atenção para uma prega da saia, que em vão tentava rasgar. Sentindo dificuldade em articular as palavras, o rapaz tartamudeou a custo: — Você fica com saudade, Angélica? A moça não respondeu. — Eu vou — disse ele —, mas não é de uma vez. Virei sempre nas férias, só para ver você!
Angélica continuou silenciosa. Súbito Licínio viu-a branquear e tremer o beicinho, prestes a desfazer-se em choro. Irreflexivamente, antes que a moça pudesse pensar em resistir, Licínio avizinhou-se dela e apertou-a doidamente nos braços. — Largue! largue! — disse Angélica, debatendo-se. — Abrace a outra… em São Paulo! — Angélica! — dizia Licínio continuando a enlaçar-lhe o corpo frágil —; não seja tolinha! Só gosto de você! Só, só! Nunca amei a nenhuma outra, ouviu? Juro! Então ela rompeu em soluços que cantavam alto, sufocando-a. Licínio desejaria consolá-la, acariciá-la mais, dizer-lhe ainda meiguices; mas, estarrecido, teve que deixá-la. É que vira na fresta de uma porta o olhar inquisidor de D. Rita, que gulosamente observava tudo.
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