Universo da obra
Universo da obra
Licínio passou a noite a refletir, insone, fazendo e refazendo o mesmo círculo de ideias. Estas sucediam-se tão atropeladas, que às vezes se faziam indistintas e giravam-lhe no cérebro em remoinhos sibilantes. Repetiu-se a sensação da locomotiva, e do carroção barulhento solavancando, aos trancos. Depois do eclipse as ideias voltavam, sempre as mesmas, como uma fita de cinema de brinquedo ou uma correia sem fim: seu desemprego, a falta de dinheiro, o Afonso; a ameaçadora falange dos credores, São Paulo, o Afonso; o pedido de casamento inevitável; D. Alípia, o Afonso; Angélica… Angélica era o oásis luminoso da sua torvação. Ele lembrava-se do abraço, desejaria abraçá-la outra vez; não passiva, com seu modo de bobinha; mas a debater-se, branca de despeito e ciúmes, mordendo o beiço; ou chorosa, para que ele a consolasse, beijando-lhe os olhos lacrimosos. Passou toda a noite a revezar essas reflexões. Como tanto pensar lhe fazia dolorida a cabeça, alta madrugada escancarou as folhas da janela e debruçou-se ao peitoril, mergulhando as pupilas na escuridão externa. Quedou-se ali tempo esquecido, encontrando-o na mesma postura o primeiro albor matutino. Então, extenuado, deitou-se de novo e conseguiu dormir. Mas o sono foi breve. Despertou subitamente aos urros, presa de um pesadelo. Sonhara que Afonso o atirara por terra, e que, de joelhos sobre ele, lhe enterrava uma faca entre as costelas — lentamente, aos bocadinhos, saboreando-se de seu terror.
— Que foi, Licínio? — perguntou D. Ismênia, aflita, do outro lado da porta. — Nada… Estava sonhando. A viúva, tranquilizada, afastou-se. Fugindo da cama com horror, Licínio preferiu dar um giro pelo arraial. Às seis horas, depois de partir o trem, ele observou distraidamente as raras pessoas que voltavam da estação. Sobressaltou-se vendo entre elas o Afonso. Cumprira a palavra! Isto incutiu-lhe a ideia de cumprir também a sua. Faria pessoalmente o pedido? Acanhava-se; julgou melhor valer-se de um intermediário. Lembrou-se para esse fim do Leôncio. Quando julgou poder encontrá-lo de pé, dirigiu-se à casa dele. Veio abrir Leôncio em pessoa. O inventor era uma figura sinistra em seu déshabillé matinal. Com a guedelha e a barba arrepiadas, lembrava uma horrível caricatura de um sol cujos raios fossem fios de cabelos. Trajava calça de brim, larga na cintura e sem nada que a prendesse, o que lhe dava certa tendência para cair, tendência contrariada pela sua mão esquerda, que lhe repuxava a todo o instante o cós. Da cintura para cima, unicamente a camisa de meia, por cuja abertura saíam tufos revoltos de pelos. Apesar de viver ocupadíssimo, às voltas com as invenções e os aperfeiçoamentos, deixava tudo pelo prazer de dar ao primeiro interlocutor que se lhe deparasse dois dedos de prosa, ou melhor, duas mãos inteiras, porque Leôncio era de gênio assaz comunicativo, e, em começando a contar casos ou a exibir habilidades, não acabava mais. Como Licínio lhe pedisse um particular, ele exultou: — Vamos, vamos entrar… Vamos para o laboratório… Desculpe achar-me nestes trajos e com estas chinelas… (espichou um pé e mostrou). Isto é de minha invenção. Casca de tatu. Hein? Confesse que é original… Veja que não fica feio… E de uma solidez! Parece ferro. É como se a gente andasse de caçambas… Lembra-me a história da moça que casou com o Diabo e que este obrigou-a morar no inferno até que se gastassem uns sapatos de ferro que lhe deu… Conhece-a? Oh! vai já sabê-la, é uma história importante!
Licínio, parado à porta, e de chapéu na mão, ouvia-a em todas as suas peripécias. Quando, a poder de ácido úrico, os sapatos de ferro se gastaram e a moça saiu do inferno, Leôncio introduziu Licínio no lugar anunciado. O laboratório era um salão de aspecto apocalíptico, em cujo ambiente pairava um cheirinho de erva-de-santa-maria complicado com exalação de barrigada de porco de uma tachada de sabão. Esse o antro temível de Leôncio, a caverna digna daquele bípede hirsuto. A caliça centenária se despegava das paredes; desciam do forro sanefas espessas de teias de aranha que tornavam o ambiente pesado e baixo, velando a verdadeira altura do cômodo; aos lados, mesas compridas perlongavam as paredes, dando a ideia dum largo balcão quadrilateral; mesinhas, banquetas e cavaletes tomavam o centro. A um canto, avultava num enorme cavalete um miguelangelesco Judas Iscariotes, de tintas berrantes. A luz que se coava naquela sala era escassa e difusa, como o longe albor que insinua nas trevas dum subterrâneo um espiráculo remoto. Sobre as mesas havia um amontoamento macabro de todas as coisas imagináveis. Primeiro a botica, vastas fileiras de boiões, caixetas, latinhas, garrafinhas de óleo de rícino, seringas, almofarizes. Ervas de todas as qualidades pendiam em molhos das paredes; no meio delas havia um rolo de couro de jiboia, preciosidade que Leôncio vendia para cintos largos. Viam-se espingardas quebradas, relógios azinhavrados, muitos deles abertos, com as rodinhas esparsas; a um canto um presepe de Natal, já célebre em Três Barras, com os Reis Magos e um Menino Jesus num rancho de capim. Atrás, uma vasta cidade — Belém, com gente nas ruas, burricos com cargueiros, monjolos, moinhos, S. José serrando tábua, lavadeiras, enxadeiros e outras coisas como essas, que na ocasião do Natal ele fazia moverem-se por meio de engenhos secretos. Ia ver quem queria, pagando uma “espórtula” módica em benefício de coisas confusas, que ele procurava embaralhar o mais possível. Como um Baedecker falante, Leôncio mostrava tudo, desenrolando o fio de explicações intermináveis. — Olhe este trenzinho de ferro. Ele anda só.
— Não é possível — disse Licínio. — Não é? Pois vai ver! Leôncio moveu os lábios a pronunciar palavras cabalísticas, ao mesmo tempo que apertava disfarçadamente um botão. O trem começou a mover-se ante os olhos admirados de Licínio, sobre uns trilhos de arame. Percorreu todas as ruas de Belém, saiu por um lado e foi seguindo pelas mesas até que mais adiante descarrilou, tombando sem ruído. — Meus ovos de beija-flor! — exclamou Leôncio, consternado. — De fato, o descarrilamento se dera devido a um ovinho que rolara da sua coleção, indo parar nos trilhos. Apesar de haver suportado o peso todo da locomotiva estava intacto. Já aliviado do susto, Leôncio chamou a atenção de Licínio para as numerosas variedades dessa coleção. Formava-a fazia trinta anos e possuía mais de trezentas variedades. Mostrou-lhe um ovo de cobra, dizendo-lhe, entre parênteses, que descobrira um remédio infalível contra as mordeduras destas. Outro ovo, sobranceando os demais como um gigante um exército de pigmeus, era de ema. — Isto é da nossa avestruz brasileira — disse Leôncio, mostrando-o. — Tenho a ideia de mandar vir do Egito um casal de avestruzes para começar uma criação. Que acha? — perguntou. — Parece boa ideia. — É! Vou mostrar-lhe as vantagens. Tenho um livro que só trata disso… E levou o moço, por entre uma floresta de mesinha e cavaletes, ao recanto onde estava a “biblioteca”. Era um caixão enorme repleto de livros esfarelados de cupins e caindo aos pedaços, com sinais digitais em cada página. Um e outro examinavam os títulos. Leôncio fazia a espaços considerações: — Guia do horticultor… 1.001 receitas… Manual do fabricante de vernizes… As estrelas são habitadas?. São — comentou ele, respondendo ao título. — Tenho um telescópio de minha invenção, Sr. Licínio, ali, debaixo daquela coleção de pedras, que ainda lhe vou mostrar. Escrevi, até, a respeito, uma notícia que vai causar sensação. Examinando com atenção a Lua, enxerguei, atrás de S. José puxando o burrinho com Nossa Senhora e o Menino Jesus, uma cidade perfeita! Admira-me que os sábios até hoje não tenham dado por tal! Vi casas, uma igreja, pessoas andando nas ruas. Não foi ilusão, Sr. Licínio! Vi com estes olhos, e o senhor também poderá ver quando quiser. Livro de S. Cipriano… Guia do hipnotizador… Manual da evocação dos mortos… Isto é uma maravilha, Sr. Licínio. Acredita em almas do outro mundo? Não? Duvida? Mas afirmo-lhe que já vi! Um dia — Leôncio benzeu-se — saí de casa à meia-noite para chamar a parteira; fazia um luar mortiço como luz de alumiar defunto. Nisto uma coisa pesada voou sobre minha cabeça… Foi, veio e repassou… Meus cabelos ficaram em pé. Quase sem querer levantei a cabeça e olhei. Não avalia meu terror ao ver um negro voando, batendo as mãos feito asas, de rabinho torcido como rabo de porco! Reconheci-o: era a alma daquele Ananias que em vida virava lobisomem. Cruz, credo! O tratante olhava para mim e ria; eu baixei a cabeça, rezando com devoção a coroinha de S. Cipriano. Olhe, cá está (desaninhou-a da floresta de pelos pectorais e a mostrou a Licínio). Tem virtudes que o senhor não imagina. Foi benzida por um nigromante do Rio. Outra vez vi a mula sem cabeça… Leôncio contou esse e mais outros casos verídicos, segurando com cuidado o Guia do evocador, como quem se ampara a um talismã defensivo de malefícios sobrenaturais. Licínio sentia-se ansioso para entrar no assunto que o levara ali; mas Leôncio não deixava brecha para ele encaixar duas palavras. — Guia do prestidigitador — continuou. — Ah! ah! ah! admirou-se, não foi? ao ver meu trenzinho de ferro andar; mas nada havia de miraculoso, só habilidade. Outra, por exemplo: repare bem neste livrinho. Está vendo? Vou comê-lo! Leôncio teve gestos de quem o atafulhava na boca. — Veja como falo! Não me atrapalha a voz. Quer agora encontrá-lo? Não olhe para os lados, procure no bolso! Licínio, boquiaberto, sacou o livro do bolso do paletó. — Ah, ah! ah! — riu-se triunfante Leôncio Vercingetórix Sá. — Que tal? gostou? Faço coisas muito mais difíceis! Breve darei
um espetáculo de mágicas. Tenho também um teatrinho João Minhoca que poderia exibir; infelizmente o povo deste arraial não sabe dar apreço ao mérito… Pouco tempo antes — disse ele —, expusera seu Judas Iscariotes — levou Licínio para ver o quadro — um trabalho formidável, pelo que exigiu de tempo e de tinta, para os três-barrenses conhecerem um artista conterrâneo. No entanto, o que sucedeu! As beatas, ao verem o quadro, tinham apenas palavras de ódio. Algumas cuspiram no Judas, exclamando: — Toma, Cusarruim! Isto é para tu vender Nossenhor! O próprio padre, horrorizado, excomungara-o. — Mas não ficará só nisso — disse Leôncio com um olhar vingativo. — No dia seguinte escrevi ao papa um longo memorial narrando o fato e pedindo justiça. Não tardará por aí a bula. Agora, cá entre nós, Sr. Licínio, a verdade é que, desde que estou excomungado, muita coisa me sai às avessas! Um dia destes plantei um canteiro de alecrim, para certas coisas cá do meu segredo, e só nasceu picão! — Todos deviam ver que não foi por mal que o senhor pintou o Judas — comentou Licínio. — Pois é! Essa é a verdade; simples trabalho de curioso. Mas esta gente… esta gente… Leôncio abanou a cabeça com desânimo. — Para o senhor ver: sou agricultor, torneiro, farmacêutico, fotógrafo e cem coisas mais; e acredita que mal ganho para comer? — Santo de casa não faz milagre — sentenciou o moço. — Nem ninguém é profeta em sua terra. Trocados estes conceitos profundos, Leôncio mostrou a Licínio uma coleção de selos, outra de conchas, outra de rótulos de caixas de fósforos; como o moço quisesse falar, ele atalhou-o com um gesto intimativo de silêncio; e, tirando de uma caixeta uma moeda, perguntou-lhe: — Que é isto? — Uma prata. — Das boas?
— É… — respondeu o moço duvidosamente, pois achava-lhe o metal muito baço. — Pois olhe — e Leôncio triunfou de novo —, é falsa. Feita por mim. Trabalho de curioso! Se eu não fosse honesto poderia ficar rico. Aqui está uma porção de outras. Enquanto as desempacotava, a curiosidade de Licínio foi atraída por um maquinismo complicado, instalado num tripé. Era uma coisa híbrida, de vagas parecenças com um moinho e uma máquina de costura. — Que é isto? — inquiriu interessado, a mirar o maquinismo. — Arrede-se! — bradou Leôncio, lívido. De um salto, tomando de uma manta, abafou a engenhoca, com a precipitação de quem abafa um incêndio. Em seguida, muito pálido e esgazeado, tomou as mãos de Licínio convulsivamente: — O senhor viu? compreendeu meu… moto-contínuo? — Vi-o ligeiramente, apenas — respondeu o moço, desapontado pela sua indiscrição. — Descobriu meu segredo? — interrogou de novo Leôncio, terebrando-o com o olhar suspeitoso. — Não senhor! Somente divisei uma espécie de moinho. — Infeliz! — exclamou Leôncio, levando as mãos à gaforinha hirsuta. — E pensar que basta eu apertar um botão para lançá-lo num abismo! Mas repugna-me a violência. Decerto percebeu, mas o Sr. Licínio não há de querer roubar o futuro de minha mulher e minha filha! É um bom moço, tenha piedade, jure que nunca revelará o meu segredo! — Mas nada percebi! — tartamudeou Licínio. — Não quer jurar! — disse desesperadamente Leôncio. — Jure! Pelo amor de Deus! — Juro! — Ah — suspirou, aliviado, o descobridor. E, a enxugar as bagas agônicas que lhe camarinhavam a fronte, foi conduzindo o moço para fora de seu santuário, como a temer novo desastre. Quis levá-lo à sala de visitas, mas Licínio alegou pressa; diria ao que viera ali
mesmo, no corredor. Então, expondo seu desejo de pedir Angélica, rogou-lhe que fosse o intermediário. Depois de manifestar-se surpreso, pois já supunha o casamento contratado, Leôncio prometeu satisfazê-lo naquele mesmo dia. Licínio agradeceu e despediu-se. Quando ia transpor a porta da saída, Leôncio deteve-o, ainda suspeitoso, e foi buscar uma bíblia em hebraico. — Vê este alfarrábio? — perguntou ao moço, mostrando-lhe os misteriosos caracteres — é o livro mais velho e mais sagrado do mundo. Tem mais de mil anos! Acontecem as piores desgraças a quem quebra um juramento feito sobre ele. É encadernado em pele humana. Ponha sua mão na capa! Licínio colocou-a. — Jure outra vez que guardará segredo. — Juro!
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