Universo da obra
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Licínio obteve o “sim”. Da casa do Leôncio, onde foi saber a resposta, dirigiu-se à residência do médico. D. Alípia recebeu-o de braços abertos, e, cingindo-o contra o peito, chamou-lhe filho. Oh, como ele achou dulcíssima esta palavra, ouvida assim reclinado sobre o almofadado busto da matrona, onde todo ele se fundiu, naquele momento de suave comoção! Todos os da família o trataram com carinho, à exceção do Afonso, que manteve uma atitude discreta de expectativa, e do Juca, que continuava de pique. Desastrado Juca! Essa hostilidade apressou o seu desterro para a fazenda, que já era sentença lavrada e passada em julgado, só dependendo de execução. Na tarde desse mesmo dia lá seguiu ele, inconsolável, cavalgando um burrico velho, entre os irmãos que o debicavam, considerando-se a mais infeliz das criaturas! No dia imediato D. Alípia deu um passo decisivo que lisonjeou os sentimentos filiais de Licínio: foram ela e Angélica visitar D. Ismênia, a moça trajando vaporosa cassinha azul-celeste, e a matrona encouraçada num tailleur imponente, abotoado justo, que acusava as rotundidades encobertas. Que suave comoção a de Licínio, ao ver a cordialidade com que se tratavam as pessoas que, pela natureza e eleição afetiva, lhe eram mais caras! Angélica deu-lhe nesse dia, enquanto as duas mães conversavam, os seus mais deliciosos olhares, insistentes, apaixonados, que ele achou celestialmente expressivos, talvez por influxo da vaporosidade azul-celeste da cassinha de que ia vestida; e, quando o olhava, sorria um sorriso gracioso que lhe abria covinhas nas faces. Restabelecidas,
assim, as boas relações entre as duas famílias, e definida a posição de Licínio como noivo de Angélica, restava apenas decidir-se um ponto: a época do casamento. No princípio ela ficou envolta num vago, numa imprecisão que não procuraram esclarecer; depois, por sugestão da mãe, que lhe pediu não esquecesse o seu futuro e a necessidade de encarreirar-se, Licínio disse consigo, que, para possuir, como sua, aquela sílfide azul de encantos celestiais, precisava estar em condições de ganhar a vida. Não sentindo inclinação para outra coisa, pensou em terminar os estudos. Abriu-se com D. Alípia dizendo-lhe suas incertezas e planos, mas, cada vez que tocava em São Paulo, a matrona lhe retorquia friamente em frases reticenciadas e dubitativas, e Angélica, com uma ligeira ruga da testa, volvia o olhar pensativo para o bico das sandálias. Não era que não quisessem ver Licínio formado; receavam, porém, que lhes fugisse. Afinal, D. Alípia resolveu refletir a sério sobre o assunto, e um dia, como o abordassem de novo, disse deliberadamente: — Sr. Licínio, o senhor nos tem falado na sua intenção de prosseguir nos estudos. É bela a carreira que escolheu, porém longa. Terá coragem de ficar tanto tempo ausente, sabendo a estima que lhe temos? — Penso na carreira apenas como um meio de poder casar. Sem emprego, como vivo… — Ora, um moço, como o senhor, apoquentar-se com isso? Com as aptidões que tem? Para ganhar-se a vida não é preciso ser formado; aí estão a política, o comércio… a lavoura… Graças a Deus, o Lopes goza de alguma influência e compromete-se a colocá-lo bem. O casamento, por consequência, não dependerá dessa circunstância. Pode fazer-se daqui a um ano, ou um mês, quando quiser! Mesmo que resolva continuar a estudar mais tarde, não lhe será obstáculo. Conheço tantas pessoas que se formaram casadas! — Como a senhora é bondosa! — disse Licínio. — Admiro também a sua sensatez. Prevê tudo, dispõe tudo, abrindo-me as portas da felicidade!
O agradecimento revia dos olhos dele. Todavia, não ousava ainda marcar um prazo próximo; era um confuso temor incompreensível, o receio de magoar a mãe… — Assim — concluiu a matrona —, marcará o senhor mesmo a data. E D. Alípia levantou-se, para tratar do café. Ficaram sós os noivos. — Para daqui a um mês — pediu Angélica, com a sua vozinha simpática. O moço, ainda irresoluto, fitou-a. Ela esperava sorridente a solução do pedido, lábios semiabertos, duas covinhas nas faces. Licínio não se conteve. Tomou-lhe o queixo com a mão e deu-lhe um beijo na boquinha rosada. Tão doce o achou que ardeu de desejo de sorver outros, inúmeros, infindáveis. Foi o alea jacta est da sua perplexidade. — Para daqui a um mês — disse.
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