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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 18 · Os Bem-Casados

Segunda parte - Capítulo I

18 de 31 ≈ 6 min de leitura

D. Alípia tinha motivo para estar contente; realizara seu sonho de casar a filha com um rapaz bem-apessoado e de boa família, o que não era, em Três Barras, problema de fácil solução. Sem embargo disso, chorara no dia do casamento e nos seguintes, sempre com a ideia triste de que sua filha ia para longe, muito longe. Ela dizia suas tristezas ao Lopes: — É brinquedo? Tem a gente uma filha — vê-a crescer ao seu lado, depois ela casa-se e parte para sempre… Meu Deus! Nunca terei coragem de separar-me de Angélica! O Dr. Lopes concordava em que era uma coisa muito triste; e, assim dizendo, fechava prudentemente os livros de escrituração, nunca esquecido da célebre lágrima, cujos vestígios lá se achavam imperecíveis, na folha de um de seus mais queridos diários. Todavia, estava longe do pensamento de Licínio ir para terras distantes. Contrastava com a tristeza dos pais a alegria dos desposados. Nas primeiras semanas os dois não se desagarravam; viviam enlaçados, o braço de um na cintura do outro; onde quer que aparecessem, era sempre assim, mesmo deambulando vadiamente pela casa, quando em nada se interessavam; ficando a sós prorrompiam em risadas sem fim, intervaladas pelo bisbilho de beijos. Tudo era-lhes causa de alegres casquinadas. Às vezes Licínio olhava Angélica de um jeito sério, e riam-se por isso; outras fazia-lhe cócegas, e ela torcia-se-lhe ao colo, sufocada de riso; ou tomava-lhe o inseparável lencinho, ou Angélica lhe desfazia o nó da gravata — estas pequeninas coisas lhes davam inigualável ventura.

Não se incomodavam com o que quer que fosse que se prendesse aos cuidados da vida comum; quando as visitas começaram a ir felicitá-los, D. Alípia precisava constrangê-los a aparecer, invocando as conveniências. Em muitas ocasiões ela chamara a filha à parte, para admoestá-la: — Angélica, isso não são modos; vocês pensam que casamento é brincadeira! É um estado sério e grave, de muita responsabilidade! Essas expansões, essas alegrias, só se permitem entre noivos. Não veem como eu e o Lopes nos tratamos? Amamo-nos muito, talvez mais do que vocês se amam; mas não usamos tais infantilidades; de mais a mais, entre casados convém não haver muita confiança; é preciso mútuo respeito. Acabou-se a criancice, Angélica! Agora você precisa ficar circunspecta. Isso ou nada, era o mesmo para a moça; em presença da mãe, fazia-se compenetrada e obediente; mas, apenas saia de sua vista, corria a reproduzir a parlenga a Licínio, com voz grave, de inflexões convincentes, a imitar a matrona. Morriam de riso a motejar-lhe as ideias absurdas; para eles o casamento era um segundo berço, donde renasciam crianças. — Mamãe disse que devo dar-me ao respeito, Cininho — gracejava Angélica franzindo comicamente as sobrancelhas e ameaçando-o com o dedo, se ele queria abraçá-la. Cininho era um nome de querer bem. Ele, por seu turno, chamava-lhe Geliquinha, ou Quiquinha. Entre si usavam uma linguagem especial, extravagante, rica em diminutivos, o que lhes dava prazer. Certos momentos tratavam-se de “minha mulherzinha” e “meu maridinho”, como as crianças a “brincarem de comadre”. À hora de dormir, quando Angélica, em camisa, se ajoelhava na cama para rezar os padre-nossos e ave-marias do costume, Licínio a inquietava, fazendo-lhe perder o fio da reza, dando-lhe beijos pruintes na nuca e no lóbulo da orelha, ou fazendo-lhe cócegas na sola dos pés, chamando-lhe sua “carolinha querida” e “devotinha adorada”. Ela fingia-se de zangada e recomeçava a oração a penitenciar-se com palmadas no rosto, dizendo “Deus me perdoe! Deus me

perdoe!”, o que não obstava a que em muitas noites cometesse o pecado de dormir sem rezar. Certos momentos, ela, de ordinário tão calada, sentia-se tomada de loquacidade invencível; punha-se a contar, com uma precipitação que lhe tirava o fôlego, cenas da meninice; Licínio, sem buscar compreender, enlevava-se a ouvir-lhe o chilrear de passarinho. De improviso atalhava-lhe o fio da narrativa sugando-lhe a boquinha rósea com frenesi, como a querer, na expressão de lago, “arrancar os beijos pela raiz”; e Angélica debatia-se, semissufocada, a chorar de riso. Outras vezes não se sentiam em veia de brincar; eram momentos de suave sentimentalismo. Com Angélica ao lado, Licínio tomava-lhe a mãozinha e fitava-lhe o olhar, em adoração; dizia-lhe emocionado tudo o que achava que ela era; louvava-lhe o “olhar celeste”, a “graça divina”, chamava-lhe “visão etérea”, “lírio imaculado”, “raio de luz”, compunha-lhe uma ladainha de atributos de Maria Santíssima; e, com intercadência, beijava-lhe meigamente os olhos. Angélica quedava-se a ouvi-lo, profundamente envaidecida de ser tanta coisa bonita; deixava-se beijar passivamente, imitando as santas de verdade; e, de tanto ouvi-lo e crê-lo, exagerava as qualidades que o moço lhe via com olhos de poeta em cio, tomava-se mais etérea e alada, mais divinal, a ponto de as amigas começarem a evitá-la, achando-a excessivamente “enjoada”. Licínio adorava-a assim, achava-a uma harmonia viva em tudo, no corpo esbelto, na expressão do rosto, no modo de andar. Quando caminhava, Angélica adquiria a particularidade dum bamboleio que ele comparava às oscilações de um pedúnculo de flor a uma leve aragem. D. Alípia chegou a implicar e disse uma vez: — Angélica, que jeito é esse, esquisito, de andar? Você parece um pata choca… Endireite o corpo! Melindrada com as palavras maternas, de tal modo se habituara a elogios, ela saiu dando uma rabanada, que, por dignidade, D. Alípia fingiu não ver.

Licínio não ouviu aqueles ralhos; se ouvisse, a comparação lhe inspiraria novos diminutivos; chamar-lhe mil vezes, entre beijos, “Minha patinha querida” e “Chochoquinha de meu coração”! Assim corria-lhes a vida. Licínio sentia-se perfeitamente feliz, sem se inquietar com as possíveis sombras do futuro. Que importava o mais, se o presente era belo? Naquele momento a sorte lhe sorria — era quanto bastava. E, adotando esse doce fatalismo, os dias fluíam brandamente, com a passividade da água que corre e se deixa correr.

Os Bem-Casados

Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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