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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 19 · Os Bem-Casados

Segunda parte - Capítulo II

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Em Três Barras a mais perfeita dona de casa era D. Alípia. A autoridade com que se impunha aos filhos, a sensata clarividência com que procedia nas circunstâncias mais intrincadas, a boa ordem de seu lar, faziam que muita gente exclamasse, apontando-a como modelo: — Aquilo é que é dona de casa! D. Alípia é uma guerreira! Sobejava-lhes razão para falarem assim. Ninguém havia tão amante da ordem, em todas as suas acepções, a começar pelo arranjo e asseio. Um fósforo riscado que achasse no chão, ela apanhava e atravessava a casa inteira para o atirar na lata de lixo. Tudo ali vivia espanado, alinhado, reluzente de limpeza, inclusive a calva do Dr. Lopes Coutinho, que com o correr dos anos passava da categoria de homem pensante a objeto doméstico, calva que tinha, em certas condições de luz, reflexos de marfim brunido. Era devido a esse meticuloso cuidado em tudo que as coisas na fazenda corriam tão satisfatórias; mesmo de longe, seu tino administrativo fazia a lavoura prosperar; ela via tudo, sabia tudo; quando não sabia, adivinhava; e, nas conferências semanais com os filhos lavradores, dava pelo desvio de aplicação de um vintém, quando as contas não eram lisamente prestadas. Por isso a matrona elogiava sempre o Afonso, dizendo que era seu filho de mais juízo, que mais puxara por ela; talvez porque criado muito agarrado à mãe, desde cedo ela lhe embutira a noção do que é justo e do que não o é. A consciência da matrona parecia uma casa em ordem, com os móveis todos nos lugares, em simetria, sem poeira e sem fósforos

riscados no chão. À noite, feitas as suas orações, a matrona balanceava o frutífero emprego do dia, e sentia-se tão placidamente feliz, tão satisfeita consigo própria, que sorria um dilatado sorriso interior, que era a expressão tranquila da consciência de sua força. E, sobre esse sorriso, como recompensa merecida, vinha-lhe um sono tranquilo e repousador. Mas agora, depois do casamento de Angélica, D. Alípia já não andava satisfeita consigo; a consciência dava-lhe rebate de graves desordens no andamento normal dos negócios da família, desordens que convinha logo reparar, para restituir-se, durante as noites, ao calmo ritmo de seu ressonar tranquilo. Supusera que a filha, depois do casamento, a tomasse como exemplo, encarando sisudamente a vida. Longe disso! Faziam os dois um par de malucos. Que diferença dela! Desde os primeiros dias de casada soubera tomar uma atitude digna, que a fazia respeitada e obedecida pelo Lopes; não que mandasse nele, isso nunca, porque a mulher não deve mandar no marido; sua missão é convencer, para o marido render-se à razão e viverem em feliz acordo. Aquelas expansões, os flagrantes beijos em que os surpreendia, aquele modo de viverem abraçados, precisavam um corretivo eficaz; e a ela, como cabeça dirigente, cumpria fazê-los tomar propósito. Procurava pretexto, cada dia, para ter Angélica junto de si e aconselhá-la. Costumava chamá-la para desembaraçar os cabelos dela, Alípia, e, enquanto o pente embaraçava em seu rabicho grisalho e rompia as maçarocas, quem estivesse a certa distância, ouviria um zum-zum-zum ininterrupto, que era o chorrilho das frases persuasivas com que catequizava a filha. A impaciência desta, que a maltratava com movimentos estabanados do pente, olhando a cada momento a porta, dava causa a que a matrona a retivesse mais tempo, contrariando-lhe o pendor da cabecinha amalucada. D. Alípia não variava muito sua argumentação; tinha para si, entre os preceitos claros que adotava, que o melhor meio de convencer é repisar incansável, infindavelmente, e outra coisa não era aquele zum-zum-zum que o destilar seguido das mesmas admoestações.

Censurava Angélica pelo seu procedimento, acrescentando que iguais conselhos não dava a Licínio, com o receio de que ele ficasse sentido. — Isso não são modos! — dizia. — Olhe, ainda ontem a Augusta veio visitar você, e, quando entrou na sala, viu você sentada no colo do Sr. Licínio. É um escândalo que nunca eu e seu pai demos! Que hão de dizer por aí? Nestes últimos poucos dias fiquei velha, de vergonha. Tenha mais propósito! — Mas é ele mamãe, que faz isso… — desculpava-se a filha. — Pois não consinta! Diga-lhe francamente, explicando-lhe, se preferir, que sou eu que não quero. Como moço sensato ele cairá em si. Deve falar também sobre o cigarro. Em casa, graças a Deus, ninguém fuma! E o Sr. Licínio, não é por falar mal, é inconveniente, não tira o cigarro da boca. Não é só por economia, é falta de educação. Minha mãe sempre me dizia que em nossa família não admitia que ninguém fumasse — e não fumavam. E, cá entre nós, minha filha, o mais feio é que ele vai comprando isso nos negócios e para mim é que mandam as contas. Eu não digo nada, porque o Sr. Licínio ainda não está formado, nem arranjou emprego; mas que é feio para ele, é. — Tenho vergonha de falar, mamãe. — Antes você falar, porque se for eu será pior. D. Alípia desfiava o mais que lhe turvava o sossego espiritual, descarregando-se do peso dessas preocupações. Queixou-se do pouco caso que Licínio fazia agora de todos. Dantes dava suas prosas com o Lopes; agora, não! não lhe mostrava a consideração devida a um sogro e a uma pessoa da sua condição social. Com ela, poucas palavras se dignava trocar, mas o que mais a magoava era sua brutalidade com as crianças. Em noivo, tantos caídos com o Xanxã e os outros; e agora… Não se lembrava de que ele beliscara o Tavico, não sabia mais por quê? Por sinal que ela não se contivera, e dissera-lhe secamente: “Sr. Licínio, quando meus filhos o importunarem, dê-me parte que eu os saberei castigar!”. — Falei secamente — explicou D. Alípia —, porque é preciso desde o princípio encarrilhar as coisas pelo caminho da razão e da

ordem; e durante o resto do dia fiquei de cara fechada. Mas ele é simples, parece que não percebeu. Enquanto é tempo, minha filha, cortemos o mal pela raiz. Pense bem nisto: maltratar um inocentinho que é seu irmão, e que nesta casa tem mais direitos que ele, que é nosso hóspede… Não acha feio? Angélica a princípio ouvia-a com visível impaciência; depois, enquanto a mãe falava, ela se quedava cismativa, a absorver os seus conselhos. E foi assim que um dia, atentando na filha, D. Alípia exclamou, rejubilando: — Mas você já me compreende! Tem por quem puxar. Em nossa família todos sempre viveram de acordo — é tradição que vem de pais a filhos; e você há de ser também muito sensata, não é, minha filha? Foi dessa época em diante que Angélica começou a modificar-se. Dava-se a transição da criança para a mulher. Era como se os olhos dela se desvendassem para a luz do bom senso. Essa transformação consternava Licínio, que a atribuía a um princípio suspeitado de gravidez. Restringiram-se consideravelmente suas prerrogativas conjugais. Não era a qualquer momento que Angélica se mostrava disposta a acolher bem os seus carinhos, nem os seus melífluos diminutivos, de modo que o moço, receando repulsa, hesitava em chamar-lhe Geliquinha, ou em acariciar-lhe os cabelos, quando a via quieta e pensativa ao pé dele. “Tenha modo!”, “Tenha propósito!” eram as palavras que a todo instante lhe ouvia. Fora-se sua garrulice louca de avezinha, e com frequência deixava Licínio só, para ir ajudar a mãe na labuta doméstica, ou ouvir-lhe os salutares conselhos, cuja toada zumbidora chegava até os ouvidos do rapaz; se vinham visitas, já não as evitava; comprazia-se em fazer-lhes sala conversando gravemente sobre assuntos sérios, à imitação da mãe. Evitava gracejos ou brincadeiras fúteis com Licínio, para que se mantivessem entre ambos as boas normas do recíproco respeito. Se tinham momentos de maior expansão, Angélica aproveitava-os para fazer-lhe ver o que não agradava à mãe, e pedia-lhe que se modificasse. Desconcertado com a mudança rápida, ele tudo

prometia, embora seu indolente comodismo não se prestasse às transformações subitâneas. Por exemplo, custava fazer-lhes o sacrifício do cigarro. A gravidez incipiente de Angélica, já confirmada, e que serviu de poderoso elemento para sua catequização, foi impotente para obter o sacrifício exigido. Se puxava um cigarro do bolso, Angélica, a pretexto de engulhos, fugia-lhe de ao pé, e toda a família deixava-o isolado como a um contaminado de peste; embora os da casa concentrassem para o vilíssimo cigarro as baterias da sua hostilidade, o vício venceu, e, melancólico, Licínio espairecia as tristezas de sua soledade puxando as deliciosas fumaças de seu “poço-fundo”. À noite, quando se ajoelhava em camisa para fazer as orações, Angélica não consentia que Licínio a interrompesse com “agrados intempestivos”, o que lhe dizia num tom que tirava ao moço vontade de continuar; nesses momentos ele mantinha-se encolhido no canto da cama, colocação de praxe na família, retendo o mais possível o fôlego e os movimentos, para evitar maior severidade. Decorrido ano e tanto de casados, até no físico se refletia a transformação da moça. Harmonizando com o ventre que bojava, carnes fartas lhe medravam em todo o corpo, como se aquele puro lírio apenas aguardasse a eiva matrimonial para deitar rotundidades de abóbora; roscas enxundiosas bambeavam-lhe no pescoço e nos punhos, tendendo a uma parecença crescente com D. Alípia. Seu andar já não era levípede e etéreo: ao deslocar-se, abalava o assoalho velho com passos tardos de proboscídeo, e todo o seu corpo tremia em ondulações e rebojamentos de banhas. Começara a nascer-lhe um buço carregado, como o da mãe, ao passo que o desta propendia a bigode; e a voz grossa da Angélica ajuizada nada tinha no timbre que lembrasse papeios de ave. Licínio olhava com espanto essa mutação rápida, dizendo para si, tristemente, que a borboleta aérea se invertera em lagarta pesada; e à noite, depois de deitado, vendo-a a seu lado em trajes menores, o moço sentia uma coisa esquisita, misto de terror e de respeito: tinha a horrenda sensação de estar dormindo com a sogra!

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Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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