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Os Bem-Casados

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Os Bem-Casados

Capítulo 20 · Os Bem-Casados

Segunda parte - Capítulo III

20 de 31 ≈ 16 min de leitura

Na família do Dr. Lopes Coutinho a gravidez era uma coisa solene e sagrada. A mulher, nesse estado, adquiria um prestígio de ente sobrenatural, sendo venerada e obedecida sem limites. Assim, na mudança de gênio por que passava Angélica, entrava muito o nobre orgulho de sentir-se mãe. Sabia que agora iam volver para si a admiração e os desvelos de todos, e isso a elevava em seu próprio conceito. Declarado o seu estado, implicou-se um tanto com Licínio, notando que ele não a cercava daquele cuidado meticuloso, daquela atenção carinhosa que seu pai tinha com a mulher, quando ela estava nesse período melindroso. Achava que o moço não se mostrava suficientemente entusiasmado com a sua paternidade; longe disso: quando sentia bem forte o acordo da realidade, Licínio espichava uma cara inexpressiva, como bestificado pela superveniência dum acontecimento aborrecido. Via-se claro, pelo seu pasmo sorna, que não compreendia todo o alcance e glória daquele sucesso. É que a existência do feto complicava mais a sua situação no seio da família, situação que para ele já era penosa. Amargava-lhe aquela existência de parasita; sentia-se constrangido, devido, provavelmente, à ponta de animosidade que transparecia dos modos com que o tratavam. Começavam a considerá-lo um hóspede importuno; todos o olhavam de través, como a um intrometido que ali nada tinha que fazer. Fazia exceção a Noemiazinha. Sempre dedicada e terna, tinha-lhe grande estima. Lembrava-se dele a cada instante; um doce, uma fruta que se comesse longe de Licínio, a menina não deixava de

reservar-lhe um pedaço; quando nada sobrava, dava do seu próprio, satisfeita. Em paga de tudo só pedia que poupasse as rosas do jardinzinho que ela mesma plantara, as quais no princípio o moço devastava, ignorando que apanhar uma flor era o mesmo que arrancar uma fibra do coração da pequena ménagère. Noêmia não se cansava de fazer-lhe recomendações: — É para as jarras, aos domingos — explicava com gravidade. Licínio, em sua situação, não achava uma válvula de escapamento. Um emprego, era delusório; continuar os estudos, uma ideia no ar. Momentos houve em que lhe avaliou a praticabilidade; sua mãe aumentar-lhe-ia a pensão que lhe fazia dantes, e então, vivendo com economia, talvez ele e Angélica… Não finalizou o raciocínio lembrando-se do desastroso estado de pobreza em que a viúva ficara nas vésperas de seu casamento, privada até da máquina que lhe fazia ganhar alguma coisa. Já o futuro, em vez das estradas múltiplas a se bifurcarem para um impreciso radioso, antolhava-se-lhe agora uma vereda única que ia esbarrar num impasse. Felizmente, as tristezas de Licínio eram névoas passageiras, pois tinha gênio acomodatício e fatalista, procurando tirar do presente todo o prazer possível, não por espírito de sistema, mas por índole imprevidente. Força para resistir aos aborrecimentos da vida, alguns podem obtê-la por educação filosófica; outros já nascem com ela, e são, para assim dizer, filósofos de nascença. Isto não era inútil a Licínio naquela fase matrimonial, pois a gravidez dava a Angélica uma irascibilidade que se manifestava a propósito das mínimas coisas. Foi ela causa, uma tarde, à hora do jantar, de forte desavença entre os dois. Sucedeu assim: achavam-se no quintal vendo as crianças pular na corda, e Licínio, em veia de infantilidade, assentou de intrometer-se em seu brinquedo. — Vou pular também — disse à Angélica. — Não faça isso, Licínio. Não é próprio. É uma criancice. — Ora! casar é renascer. Seu amor fez o milagre de restituir-me os meus oitos anos. — Tolice! Isso é uma inconveniência. Papai nunca pulou na corda.

— Pois eu pulo. — Não pule! — Pulo! E ele, rindo-se, fez como os pequenos, não prevendo a que ponto sua insubmissão ia irritar Angélica. Esta embranqueceu, e, frenética, bradou: — Ah! quer pular, siô Coisa! E se estragar a botina quem é que vai dar outra? Decerto você não vai comprar com seu dinheiro! E após o insulto, branca de ira, entrou em casa, ao passo que Licínio, num assomo de indignação impotente, foi sentar-se arredio, num banco tosco do jardim. Ali ficou. Não quis jantar, apesar dos chamados insistentes de Noêmia. Um pedaço de carne que esta lhe levou espetada num garfo, ele fingiu que ia comer; mas, apenas a menina saiu, o atirou a um gato esfomeado. Quase ao anoitecer a taramela do portão fez barulho. Abriu-se, e apareceu D. Alípia que o ia procurar. A matrona se reservava para agir diretamente só nas grandes ocasiões. — Sr. Licínio — perguntou desabridamente —, que escândalo é esse? O moço gaguejou, avermelhando-se de vergonha: Angélica ofendera-o… — Mas não sabe que minha filha se acha… pesada? Que pode ter um aborto, à mínima contrariedade? Que o senhor pode assim ser o assassino dela e de seu filho? Licínio humilhou-se. Não pensara em tal! Pediria perdão a Angélica. — Pois é! Peça, que é esse o seu dever! Ele assim fez. E prometeu a si ter sempre presente, desse incidente em diante, as catástrofes que poderia causar se a contrariasse. Seria paciente, para evitar possíveis remorsos, pois lembrou-se de ter ouvido contar muita coisa acontecida a mulheres no estado melindroso de Angélica. Uma semana depois novo incidente veio turbar o modus vivendi conjugal. Ouviu-se estrondar forte pancadaria na porta da rua.

— O Bolão! O Bolão! — berrou a pequenada, lançando o alarma em toda a casa. Era aquele o processo mais delicado de bater, do terrível pedidor de esmolas. Novas pancadas atroaram na porta. Angélica, sobressaltada, gritou por Licínio, que foi acalmar o importuno, dando-lhe um pedaço de pão. A esse tempo D. Alípia acudia da cozinha, a perguntar à filha se se assustara. E Licínio, de volta da porta da rua, encontrou-a no quarto onde se achava Angélica, a exclamar com grandes gestos: — É inqualificável! Sustentar um vagabundo destes para andar de casa em casa a inquietar todo o mundo! Em risco de minha filha ter um mau sucesso e morrerem, ela mais a criança! É falta de consciência alimentar a ociosidade de vagabundos inconvenientes! Se o tem em casa por caridade, prenda-o lá, para não importunar os outros! Licínio não sabia com que mais se consternasse: se com o risco sofrido por Angélica e o futuro filho, ou com a alusão a sua mãe. Titubeou sob a afronta, conseguindo, em sua confusão, articular: — Sinto muito… Efetivamente, foi grave o perigo… Se quiserem, vou ter com mamãe… para não se repetir o fato… — Se tem de ir, vá já, antes que essa súcia mate minha filha — conveio D. Alípia, categórica, acentuando a palavra “súcia”. Licínio tomou o chapéu e saiu. A ideia de rever a mãe e o lar onde vivera tantos meses de esperanças intercaladas de angústias, perturbava-o. Desde o dia do casamento Licínio não estivera com a viúva, pois saía raramente, quase limitando-se a pagar com Angélica as visitas que lhes faziam, ou a “cavar” pelas vendas o seu querido “poço-fundo”, tão execrado por todos daquela casa. Pelo seu lado, a viúva, receando incomodar, não o visitava. Limitava-se a passar cada semana pelo sobrado do médico, e a perguntar da porta, a quem aparecesse: — O Licínio e a Angélica vão bem? E, ouvindo a resposta afirmativa, deixava lembranças a todos e ia embora.

O filho preferia isso, para não ter diante da vista a figura lastimosa da mãe, decaída e velha, em contraste com o entono triunfante de D. Alípia. À proporção que se afastava da casa do médico, do novo ambiente em que se confinara durante os últimos meses, como que Licínio se modificava e retornava ao passado; revivia sua antiga vida, tornava a ser o moço sem cuidados e amante do poetar à namorada, que arribara uma tarde, a gozar férias, em sua terra natal. Esse choque de sentimentos renovados apurava-lhe a emotividade, afinava-a delicadamente fazendo-a vibrar à mais leve percussão de uma ideia ou de uma reminiscência. Ao avizinhar-se da casa da mãe estranhou não ouvir o rumor familiar da máquina de costura, em que ela se azafamava a dar conta de tarefas infindáveis para ganhar o seu sustento e a mesada do filho. Só então teve Licínio exata consciência do valor de um acontecimento que lhe parecera insignificante: a entrega da máquina aos credores, nas vésperas de seu casamento. Cheia de dívidas como ainda ficara, conseguira a viúva recursos para comprar outra? Se não, do que vivia ela? Nesse momento o filho teve acordo de sua ingratidão. À ideia de vê-lo em São Paulo desamparado, a viver de seu trabalho, a mãe se inquietaria pelos apuros que ele poderia passar; no entanto, ele nem um instante detivera ainda a atenção a se perguntar se a pobre viúva, velha e só, não estaria enferma ou passando privações. Como um esboço de ideia, de uma ideia que não acabara de germinar, Licínio sentia confusamente que seu dever de filho era protegê-la, alimentá-la, garantir-lhe uma velhice sem cuidados; lembrou-se dos irmãos ingratos que a esqueceram, e viu-se igual a eles, a desprezar a fonte estanque de sua vida, aquele resto de gente encarquilhado e humilde, como a árvore que já deu frutos, e que o tempo vai secando e matando. E sentiu o desejo intenso de dedicar-se a ela, de cumprir o dever de filho; mas sobreveio-lhe a lembrança de sua situação, e esse desejo morreu desarvorado, como os braços que descaem em atitude cansada de desalento, à simples ideia de tentar-se uma empresa impossível.

A casa estava fechada e no interior reinava grande silêncio. Licínio bateu, mas em seguida não ouviu o estralar das chinelas de sua mãe indo abrir a porta. Bateu de novo. — D. Ismênia saiu, compadre — gritou-lhe uma voz conhecida. O moço voltou-se e viu no casebre vizinho o Pedro Carpinteiro com o cepilho suspenso, sorrindo-lhe amistosamente. Tratara-o de compadre, por haver levado a Licínio como padrinho do último filho, cujo nascimento coincidira com sua chegada a Três Barras. O moço dirigiu-se à casa de Pedro, que depôs a ferramenta, e lhe estendeu a mão calosa. — Que sumiço o seu! — exclamou. — Eu e a Maroca sempre dizemos que é como se o compadre não morasse mais aqui… Sua mãe está na fonte. Lava da manhã até à noite! Nesse momento o moço recordou-se vagamente de que já lhe haviam dito que era esse agora o trabalho da viúva. — Como vai ela? — perguntou. — Tem envelhecido muito, coitada! Com um serviço tão pesado! Além disso, vieram umas novidades de rins, umas cólicas aperreadas… Para mim é da umidade! Mas conformada sempre, e com aquele gênio de animar os outros! — Por onde se vai onde ela está? Pedro deu-lhe a indicação pedida. Licínio ia afastar-se, mas Pedro o reteve, para que a mulher o visse. — Maroca! Maroca! — gritou para dentro. — Olhe aqui o compadre! A mulher apareceu depois de uma pequena demora, para enfiar atarantadamente uma saia clara de ramagens vermelhas, à altura do honroso compadresco. Teve muitas exclamações de contentamento por ver Licínio. Achou-o mais gordo e forte. Prometeu ir um dia com o Pedro visitá-lo mais a Angélica. Não consentiu que ele saísse antes da formalidade imprescindível de deitar a bênção no afilhado. Aquela cordialidade insinuou um indizível bem-estar no ânimo do moço, que dizia consigo, depois de despedir-se, pondo-se a caminho do lavadouro.

— São espalhafatosos em suas demonstrações de afeto, mas vê-se que é boa gente. Contanto que não se lembrem de cumprir a promessa da visita, que me iria envergonhar! O sol estava a pino, mas Licínio se comprazia com aquele farto banho de luz. Vivera tão enclausurado, que aquele passeio, e a soledade bucólica da ruela deserta em que se metera, lhe davam uma sensação de liberdade. O céu era azul e semeado de nuvenzitas brancas. Ele se deleitou em contemplá-lo, um tanto surpreso, como se visse uma novidade desacostumada; esperava, talvez, vê-lo coberto de tábuas pintadas de branco, como o forro da casa do médico. Desembocou num campo. Pancadas ritmadas de roupas nos batedouros chegaram-lhe aos ouvidos. Não muito longe divisou mulheres a lavar e a palrar. Entre elas reconheceu a mãe. À proporção que se avizinhava, um sentimento estranho intumescia-lhe a alma, vinha-lhe uma vontade histérica de chorar. Por quê? Que falta cometera para justificar aquele pungir aflitivo de um grande remorso? Não o sabia dizer: era um incógnito misterioso e complexo, que lhe trazia à boca uma sensação física de amargor. Conhecendo de longe Licínio, D. Ismênia veio alvoroçada ao seu encontro. — Que novidade, que prazer, meu filho! Eu já sentia tanta saudade de você… Por que não tem aparecido? E, assim dizendo, deitava para trás mechas rebeldes do cabelo quase branco, que a fuligem do fogão encardira. Enxugou a mão na saia para dá-la a beijar ao filho. E cuidadosa, receando que o sol o molestasse, levou-o para a sombra de um pinheiro novo, a poucas braças da fonte. Licínio embrulhou umas desculpas, a explicar seu sumiço. A mãe atalhou-as, para livrá-lo do vexame de mentir: — Sei, sei, meu filho. O motivo é muito justo. A gente, quando muda de vida, fica assim desnorteada… De mais a mais, a Angélica está grávida… Ela tem passado bem? — Tem… salvo uns enjoos… umas impertinências… — Isso é da “doença” — disse D. Ismênia, rindo-se. — Nada de dar cuidados, felizmente.

E, enquanto falava, ela não desfitava o filho, como a bebê-lo com a vista, a saciar-se, com os olhos, do desejo de fazer-lhe mil carícias, de apertá-lo nos seus braços esmirrados. Tinha receio de desgostá-lo ou causar repulsa levando a carícia além daquela meiga contemplação de mãe amorosa. No seu olhar fito passava a escala dos sentimentos: o amor, a saudade, o orgulho materno, o desejo de dedicação, a piedade… Sim, também num olhar apiedado envolveu o filho, sabendo-o fraco, pressentindo-o infeliz. Compreendendo-lhe a muda linguagem, Licínio baixou a fronte e murmurou um pedido: — Veja se me arranja um emprego. — Vou fazer o possível, meu filho. O moço tocou no motivo que o levara ali — o escarcéu feito pelo louco, o susto de Angélica; rematou perguntando à mãe se não via um modo de evitar a repetição do fato. — Que hei de fazer! — disse a viúva, desconsolada. — Procuro prendê-lo em casa, mas passo os dias fora, não o posso vigiar. E seria impossível segurá-lo num lugar, porque está habituado a andar pelas ruas o dia inteiro. Depois de alguns minutos de silêncio, em que mãe e filho percebiam que eram curiosamente observados, recomeçou o chalrar das lavadeiras, e seu cantar monótono, escandido pelo bater compassado da roupa nas tábuas. Em cada uma das companheiras de lavadouro encontrava D. Ismênia uma afeição profunda e respeitosa. Todas lastimavam ver descida a condição tão ínfima quem dantes, em tempos de prosperidade, as cumulara de favores. O espetáculo dessa decadência contrista os humildes, que acham natural a miséria em que vivem, mas não a das pessoas que conheceram em situação elevada. A bondosa D. Ismênia ser obrigada a lavar roupa! A seus olhos era isso uma revoltante injustiça da sorte. — Não se cansa com essa vida? — perguntou, apiedado, Licínio. — Um pouco… — respondeu a viúva. — É um trabalho ingrato… Ganha-se uma miséria. Agora é que vejo como o serviço dessa pobre gente — e apontou as lavadeiras — é mal recompensado.

Labuta-se o dia inteiro para se ganhar uns dez tostões. Depois, as contrariedades, o descontentamento dos fregueses, os dias de chuva improdutivos, os bichinhos que roem a roupa quando fica serenando nos coradouros… Não o digo por mim — e sim por essas coitadas, porque sou só, e o pouco que faço me dá para viver, e ainda para pagar uns restinhos de dívidas. Houve tempo em que eu era injusta e exigente com as pobres lavadeiras… Trocadas mais algumas frases, Licínio despediu-se da mãe, que o acompanhou com um olhar amoroso e melancólico até que o perdeu de vista. Então ela suspirou, murmurando: — Coitado! Não é por ser mau que me esquece… Tudo simplicidade… Todos são assim; só depois que os pais da gente morrem é que nos arrependemos de não lhes ter mostrado mais amor… Licínio, pelo seu lado, afastou-se com a alma contente e aligeirada, como se a consciência o premiasse por ter tratado carinhosamente a mãe naquele rápido colóquio. Ao reentrar na casa do médico seu estado de espírito mudou. Só então compreendeu a inutilidade dos passos que dera para tranquilizar a sogra. Apreensivo dirigiu-se à varanda, onde encontrou as duas em surdo conciliábulo. À sua chegada interromperam-se, encarando-o mudamente, com uma expressão displicente de expectativa, que parecia dizer: “Vamos ver se esta criatura imprestável serviu para alguma coisa!”. — Estive com mamãe — disse Licínio —, e contei-lhe o que se passou. Ela acha impossível segurar o Bolão em casa. É meio louco, não atende ao que se pede… Os narizes de mãe e filha levantaram-se paralelamente em sinal de desprezo. E, a par uma da outra, sem se exprimirem por outro modo a não ser por um silêncio glacial, afastaram-se para a cozinha.

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Sinopse

Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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