Universo da obra
Universo da obra
Nos últimos tempos passara por grande modificação o gênio de D. Ismênia. Quanto mais os dias corriam, mais longe de si sentia o coração do filho. Caía, enfim, a ilusão materna em que se embalara a vida toda; e ainda bem que tardiamente, depois que lhe branqueara a cabeça. O trabalho já não bastava a aplacar-lhe o desgosto; era frequente sentir afrouxarem-lhe os braços durante a lavagem, menos por exaustão física do que por doloroso desalento; em tais momentos esquecia a roupa no batedor, e quedava-se cismando, na atitude alheada de quem tem o espírito a cem léguas de distância. E as outras lavadeiras se entreolhavam, penalizadas, murmurando umas às outras: — Coitada de D. Ismênia! — Aquilo é o filho! — Não pode ser; tão bem casado! — discordava uma. — Tenho para mim que são outros desgostos. Aventavam ainda que podia ser doença. Andava ela se queixando de umas pontadas no peito, cuja causa era talvez friagem apanhada na labuta da fonte. Felizmente a viúva ainda nutria alguma dúvida. “Licínio parece indiferente”, dizia consigo, “mas no fundo é o mesmo. É retraído, não se manifesta, não me procura, mas isso nada significa; ele sempre foi meio cabeça no ar. Como agora anda querido, esquece-me um bocadinho. Não mudou, não! Sempre a mesma criança grande…”.
Habituada a sofrer pelo esquecimento dos filhos, seu estoicismo dava-lhe argumentos contra a dor. Fora sempre uma resignada. No momento, porém, em que compareceu ante o filho como ré e lhe ouviu as exprobrações duras, fugira-lhe dos lábios o primeiro queixume nas palavras: “Você, meu filho!”. Ainda sentia a esperança extrema de vê-lo cair em si e arrepender-se; ou esperava que Licínio lhe significasse de qualquer modo que aquilo era uma atitude artificial, forçada, pura comédia para contentar a família da mulher. Ela ainda o desculparia e aprovaria. Mas não! o filho permaneceu seco e ríspido, compenetrado do que dizia, como um juiz verdadeiro que pronuncia a condenação de uma verdadeira ré. “Perdi meu filho!”, soluçou-lhe a alma naquele momento decisivo. Saiu pungida por um agudo sofrimento. Com o desalento, bambearam-lhe as pernas e caiu na escada. Levantou-se, sem voltar a vista e seguiu. Sentia uma dor viva que não sabia localizar. Com os braços instintivamente apertava o próprio peito para lhe amortecer as pontadas. Inútil! A sede do sofrimento era outra, toda subjetiva. Na semi-inconsciência dessa hora chegou a casa, onde se pôs automaticamente a andar de um lado para outro, na aflição de quem procura uma coisa e não acha. Depois foi à porta do terreiro e correu os olhos em torno, como à espera de encontrar lá o que buscava. Viu roupas a branquejarem nos coradouros, e, mais além, os canteiros da horta. Não estava também lá. Apoiada ao umbral, teve ainda o gesto de cingir o peito, para fazer calar o sofrimento; e recalcando um soluço, a triste mãe murmurou: — Meu Deus! Perdi meu filho! Sentou-se desanimada na soleira, na atitude encolhida da Joaninha Cega que morara ali. Cansada de lutar em vão, rendia-se à fatalidade. Teve a visão de sua velhice inútil e desprezada, e pediu a Deus a dádiva da morte. Sua tristeza era amarga como fel. Ancorou-lhe na alma como um penedo onde debalde iam embater-se as preocupações da vida comum. A cada instante a força do hábito trazia-lhe à lembrança uma obrigação: a roupa a recolher; o preparo do jantar; as trouxas em atraso a serem entregues… Costumada à longa servidão voluntária em que levara a vida
para beneficiar os seus, esforçava-se para se levantar e cuidar do serviço; mas surgiam-lhe as interrogações paralisantes: Para que trabalhar? Para que viver? Perdera os filhos todos. Sua missão estava finda. E, enovelada como a ceguinha, amortalhada na treva de seu sofrimento, esperava cabisbaixa a morte. Oh, se ela tardasse! Se aquela noite sombria se prolongasse indefinidamente! Ante a possibilidade deste novo horror, não teve mais forças para sofrer silenciosa; intumesceu-se-lhe a garganta, sacudiu-se-lhe o peito e rompeu em soluços altos, enquanto as lágrimas lhe corriam pelo rosto encarquilhado. Quantos anos havia que não pranteava! Quanto padecimento ela estoicamente forçara a silenciar! E agora, soltas as fontes das lágrimas, chorava doridamente e sem fim, pelo muito que deixara de chorar. Relembrava os filhos todos, esparsos por terras distantes, que aos poucos a foram esquecendo, e que já eram como mortos. A noite a encontrou sentada na soleira; lenta e soturna sua negridão a envolveu toda; e a desoras, entre o coaxar das rãs, o trilo melancólico dos insetos e as pragas do Bolão, faminto, no cubículo do terreiro, seu soluçar infindável ajuntava ao concerto dessas vozes noturnas uma nota estranha, misto de regougo e de gemido humano. Os dias se passaram em monótona sucessão de claridade e sombras, sem que cessasse o doloroso marasmo da viúva, para quem o ambiente exterior tinha o ar de irrealidade e pesadelo. Pessoas batiam à porta. Cansadas de bater em vão, invadiam-lhe a casa, injuriando-a, em constantes reclamações enérgicas. E, atentando-lhe na inconsciência, ajuntavam a roupa onde a encontravam e levavam-na, sem obterem da viúva resposta às palavras que lhe dirigiam. Começaram a dá-la por louca. As lavadeiras suas conhecidas vinham à tarde fazer-lhe companhia. Rodeavam-lhe o corpo esquelético e diziam-lhe palavras de consolo, como os amigos de Jó: — D. Ismênia, que é isso! Pois a senhora não vê o sereno? Vamos para dentro! — Não! não! — gemia a viúva. — Que pecado! — redarguía outra. — Deus não gosta de um desespero como o seu! Pare de chorar, D. Ismênia! Ninguém morreu!
Era inútil; mas as visitas compreendiam que sua companhia a confortava, fazendo-lhe o pranto marejar mais suave. E que pranto sem fim! Ela já tinha os olhos inchados; e o rosto, continuamente repuxado pelo choro, como que diminuíra. A Maroca do Pedro Carpinteiro vivia acabrunhada por essa mudança. Diziam que D. Ismênia estava louca; ela, porém, tinha para si que isso não era verdade. Antes fosse! A loucura seria um benfazejo princípio de morte. Estimava há tantos anos a viúva! Por sinal que fora esta quem arranjara seu casamento com o Pedro. Davam-se muito, marido e mulher. Ele não bebia, não vadiava, todo de seu trabalho e da família; ela a cuidar da casa e da petizada já numerosa. Tudo para o Pedro era a Maroca, e a Maroca não ia a parte alguma sem o Pedro. Mesmo assim, nessa perfeita vida doméstica, ela sentia-se consternada desde que D. Ismênia perdera a resignação; doía-se de sua desdita como de uma desgraça pessoal. — Não sei por quê — explicava, enxugando os olhos na manga do paletó —, mas eu às vezes penso que D. Ismênia é minha mãe de verdade! Nem sei dizer o amor que lhe tenho! À hora de comer, solícita, o primeiro bocado em que tocava era para levar à viúva. Escolhia o prato menos quebrado do guarda-louça pobre, asseava um garfo, e ia “pelejar” com D. Ismênia para que tomasse alimento; e dava-se por feliz quando a poder de instâncias via-a comer um pouquinho. Toda a sua solicitude, porém, não conseguia dissipar-lhe a tristeza mortal. Não havia mais nenhum meio de reanimar aquela alma com um sopro de alegria. D. Ismênia desdeixara a casa e o trabalho; na horta o mato invasor afogava os canteiros; as cercas caíam; e não saíam de dentro da casa as galinhas e os bácoros da vizinhança, que iam fossar nas canastras, e nas roupas velhas que encontravam pelos cantos. Ressentido do abandono e esbravejando, Bolão um dia foi-se embora. Saiu ameaçador, invocando todas as maldições do Céu sobre aquela casa onde o queriam matar de fome. E num assomo de cólera, antes de arredar-se dali, arrebentou com o bastão os últimos vidros das janelas.
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