Universo da obra
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D. Alípia e Angélica, que andavam inquietas à procura de Licínio, chamaram-no da porta em altas vozes. A uma recomendação de Maroca, que lhes veio ao encontro, entraram pé ante pé na casa da finada. Maroca, num gesto consternado, deu a entender que o achava abalado do juízo. Angélica recalcava uma surda irritação. Não lhe desculpava o ter passado pelo sobrado sem lhe atender aos apelos, e dar, com sua dor intempestiva, um ridículo espetáculo a todo o povo do arraial. D. Alípia, com a fleuma de pessoa experiente, encarava as coisas sob um aspecto mais geral e filosófico, não participando da irritação da filha. — Dar agora para louco! — esmoía Angélica entre dentes. — Era o que faltava! E, avistando-o à porta do terreiro, chamou colérica: — Licínio! — Licínio! — repetiu daí a pouco, mais enérgica. Maroca, escandalizada, exprobrava-a: deixasse o pobre moço! Se visse o seu desespero, as suas feições transtornadas, ao chegar do cemitério! As grandes dores precisam desabafar-se na calma. — Mas é fingimento! — protestou a moça. — Nunca lhe conheci dessas adorações por D. Ismênia! É gosto de se mostrar, de dar que falar! D. Alípia, porém, puxou-a para si, segredando: — Não, Angélica, você não tem razão. Isto agora é sincero. As pessoas nervosas nessas ocasiões sentem grande abalo.
Lembra-me um caso antigo do Lopes… A morte é coisa que impressiona sempre, minha filha! E, além disso, mãe sempre é mãe, não acha, Siá Maroca? E depois de uma pausa, preenchida pela confirmação da interrogada, D. Alípia continuou: — Esses abalos são mais frequentes do que você pensa, Angélica. A princípio uma pessoa fica aturdida, principalmente quando a notícia é repentina demais, mas depois passa. O que lhe faz mal é não virem as lágrimas. Se ele chorar, verá como fica aliviado. Quedaram as três, mudas, a observá-lo. Pálido como um morto, Licínio esgazeava o olhar febril em torno. Súbito a atenção prendeu-se-lhe ao que quer que era no portal. Inclinou-se, desfeito, examinando… No auge do interesse, para prova do que afirmara, D. Alípia acotovelou a filha: — Repare! Repare! Ele agora vai chorar. Licínio, a tremer, cravava um olhar obstinado e repassado de dor nuns fios de cabelos grisalhos agarrados a uma lasca do portal; e de improviso, num impulso irresistível, postou-se de joelhos e beijou sofregamente aqueles cabelos, murmurando, aos arrancos, entre soluços incoercíveis: — Mamãe… Mamãe…
Leia gratuitamente Os Bem-Casados, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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