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O Corcunda de Notre Dame

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O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 11 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO SEGUNDO — V. CONTINUAÇÃO DOS INCONVENIENTES

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LIVRO SEGUNDO

V. CONTINUAÇÃO DOS INCONVENIENTES

Gringoire, inteiramente aturdido pela queda, permanecera no pavimento diante da boa Virgem da esquina. Pouco a pouco recuperou os sentidos; durante alguns minutos, primeiro flutuou numa espécie de devaneio semissonolento que não era desprovido de doçura, no qual as figuras aéreas da boêmia e da cabra se misturavam à contundência do punho de Quasimodo. O estado durou pouco. Uma impressão bastante viva de frio na parte do corpo que estava em contato com o pavimento o despertou de súbito e fez seu espírito voltar à superfície.

— De onde me vem esse frescor? — perguntou-se bruscamente.

Percebeu então que estava um pouco no meio do escoadouro.

— Diabo de ciclope corcunda! — resmungou entre os dentes, e quis levantar-se. Mas estava demasiado atordoado e moído. Foi forçado a permanecer onde estava. Tinha, aliás, a mão bastante livre; tapou o nariz e resignou-se.

— A lama de Paris — pensou, pois julgava certo que o escoadouro acabaria sendo seu pouso — contém particularmente sais voláteis e nitrosos, cuja existência maître Nicolas Flamel e os herméticos...

A palavra herméticos trouxe subitamente a ideia do arquidiácono Claude Frollo a seu espírito. Lembrou-se da cena violenta que acabara de entrever, de que a boêmia se debatia entre dois homens, de que Quasimodo tinha um companheiro, e o rosto sombrio e altivo do arquidiácono passou confusamente por sua lembrança.

— Isso seria estranho! — pensou.

E começou a erguer, com esse dado e sobre essa base, o fantasioso edifício das hipóteses, esse castelo de cartas dos filósofos. Depois, voltando de súbito à realidade:

— Ora essa! Estou congelando! — exclamou.

O lugar, de fato, tornava-se cada vez menos suportável. Cada molécula da água do escoadouro retirava uma molécula do calor irradiado pelos rins de Gringoire, e o equilíbrio entre a temperatura de seu corpo e a do regato começava a estabelecer-se de maneira rude.

Um incômodo de natureza inteiramente diversa veio de súbito assaltá-lo.

Um grupo de crianças, desses pequenos selvagens descalços que em todos os tempos bateram o pavimento de Paris sob o nome eterno de moleques, e que, quando também éramos crianças, nos atiravam pedras ao sair da aula porque nossas calças não estavam rasgadas, um enxame desses jovens patifes corria para a encruzilhada onde Gringoire jazia, com risadas e gritos que pareciam preocupar-se muito pouco com o sono dos vizinhos. Arrastavam atrás de si não sei que saco informe; apenas o ruído de seus tamancos teria despertado um morto. Gringoire, que ainda não o estava inteiramente, ergueu-se pela metade.

— Olá, Hennequin Dandèche! Olá, Jehan Pincebourde! — gritavam a plenos pulmões. — O velho Eustache Moubon, o ferrageiro da esquina, acaba de morrer. Temos o colchão dele e vamos fazer uma fogueira. Hoje é o dia dos flamengos!

E eis que lançaram o colchão precisamente sobre Gringoire, junto de quem haviam chegado sem vê-lo. Ao mesmo tempo, um deles apanhou um punhado de palha e foi acendê-lo na mecha da boa Virgem.

— Morte de Cristo! — resmungou Gringoire. — Será que agora vou sentir calor demais?

O momento era crítico. Ia ser apanhado entre o fogo e a água; fez um esforço sobrenatural, esforço de falsificador que será fervido e tenta escapar. Levantou-se, lançou o colchão de volta sobre os moleques e fugiu.

— Santa Virgem! — gritaram as crianças. — O ferrageiro voltou!

E fugiram de seu lado.

O colchão permaneceu senhor do campo de batalha. Belleforêt, Père le Juge e Corrozet asseguram que no dia seguinte foi recolhido com grande pompa pelo clero do bairro e levado ao tesouro da igreja Sainte-Opportune, onde o sacristão obteve, até 1789, renda bastante bela com o grande milagre da estátua da Virgem da esquina da rue Mauconseil, que, apenas com sua proximidade, na memorável noite de 6 para 7 de janeiro de 1482, exorcizara o falecido Eustache Moubon, o qual, para pregar uma peça ao diabo, escondera maliciosamente, ao morrer, a alma no colchão.

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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