Leia agora
O Corcunda de Notre Dame

Universo da obra

O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 48 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO NONO — VI. CONTINUAÇÃO DA CHAVE DA PORTE-ROUGE

48 de 59 ≈ 6 min de leitura

LIVRO NONO

VI. CONTINUAÇÃO DA CHAVE DA PORTE-ROUGE

Naquela noite, a Esmeralda adormecera na pequena cela, cheia de esquecimento, esperança e doces pensamentos. Dormia havia algum tempo, sonhando, como sempre, com Phoebus, quando lhe pareceu ouvir um ruído ao redor. Tinha o sono leve e inquieto, sono de pássaro. Qualquer coisa a despertava. Abriu os olhos. A noite estava muito escura. Entretanto, viu na lucarna uma figura que a olhava. Havia uma lâmpada iluminando aquela aparição. No momento em que se viu percebida pela Esmeralda, a figura soprou a lâmpada. Ainda assim, a jovem tivera tempo de entrevê-la. Suas pálpebras se fecharam de terror.

— Oh! — disse com voz apagada. — O padre!

Toda a sua desgraça passada voltou-lhe como num relâmpago. Caiu de novo sobre a cama, gelada.

Um momento depois, sentiu ao longo do corpo um contato que a fez estremecer de tal modo que se ergueu, desperta e furiosa, sentando-se de súbito.

O padre acabava de insinuar-se junto dela. Cercava-a com os dois braços.

Ela quis gritar e não pôde.

— Vá embora, monstro! Vá embora, assassino! — disse com voz trêmula e baixa, de tanta cólera e pavor.

— Misericórdia! Misericórdia! — murmurou o padre, imprimindo os lábios sobre seus ombros.

Ela tomou-lhe a cabeça calva entre as duas mãos, pelos poucos cabelos que restavam, e esforçou-se por afastar aqueles beijos como se fossem mordidas.

— Misericórdia! — repetia o infeliz. — Se soubesse o que é meu amor por você! É fogo, chumbo derretido, mil facas em meu coração!

E prendeu os dois braços dela com força sobre-humana. Alucinada, ela disse:

— Solte-me, ou cuspo em seu rosto!

Ele a soltou.

— Avilte-me, bata em mim, seja cruel! Faça o que quiser! Mas tenha piedade! Ame-me!

Então ela o golpeou com furor de criança. Retesava as belas mãos para ferir-lhe o rosto.

— Vá embora, demônio!

— Ame-me! Ame-me! Piedade! — gritava o pobre padre, rolando sobre ela e respondendo aos golpes com carícias.

De repente, ela o sentiu mais forte do que ela.

— É preciso acabar! — disse ele, rangendo os dentes.

Ela estava dominada, palpitante, quebrada entre seus braços, à mercê dele. Sentia uma mão lasciva perder-se sobre seu corpo. Fez um último esforço e começou a gritar:

— Socorro! Acudam! Um vampiro! Um vampiro!

Nada vinha. Só Djali estava acordada e balia com angústia.

— Cale-se! — dizia o padre, ofegante.

De repente, ao debater-se, ao arrastar-se pelo chão, a mão da egípcia encontrou alguma coisa fria e metálica. Era o apito de Quasimodo. Agarrou-o numa convulsão de esperança, levou-o aos lábios e assobiou com toda a força que lhe restava. O apito produziu um som claro, agudo, penetrante.

— Que é isso? — disse o padre.

Quase no mesmo instante, sentiu-se erguido por um braço vigoroso; a cela estava escura, não pôde distinguir claramente quem o segurava assim; mas ouviu dentes baterem de raiva, e havia luz difusa suficiente na sombra para que visse brilhar acima de sua cabeça a larga lâmina de um cutelo.

O padre julgou perceber a forma de Quasimodo. Supôs que não podia ser outro. Lembrou-se de ter tropeçado, ao entrar, num volume estendido do lado de fora, atravessado diante da porta. Entretanto, como o recém-chegado não proferia uma palavra, não sabia o que pensar. Lançou-se sobre o braço que segurava o cutelo, gritando:

— Quasimodo!

Esquecia, naquele momento de aflição, que Quasimodo era surdo.

Num abrir e fechar de olhos, o padre foi derrubado e sentiu um joelho de chumbo apoiar-se em seu peito. Pela impressão angulosa daquele joelho, reconheceu Quasimodo. Mas que fazer? Como ser reconhecido por ele? A noite tornava cego o surdo.

Estava perdido. A jovem, sem compaixão, como uma tigresa irritada, não intervinha para salvá-lo. O cutelo aproximava-se de sua cabeça. O momento era crítico. De repente, seu adversário pareceu hesitar.

— Nada de sangue sobre ela! — disse com voz surda.

Era, de fato, a voz de Quasimodo.

Então o padre sentiu a mão enorme arrastá-lo pelo pé para fora da cela. Era ali que devia morrer. Felizmente para ele, a lua acabava de nascer.

Quando transpuseram a porta da cela, seu raio pálido caiu sobre o rosto do padre. Quasimodo olhou-o de frente; um tremor o tomou; soltou o padre e recuou.

A egípcia, que avançara até o limiar da cela, viu com surpresa os papéis inverterem-se de repente. Era agora o padre quem ameaçava e Quasimodo quem suplicava.

O padre, que esmagava o surdo sob gestos de cólera e censura, fez-lhe violentamente sinal para retirar-se.

O surdo baixou a cabeça; depois veio ajoelhar-se diante da porta da egípcia.

— Monseigneur — disse com voz grave e resignada —, depois fará de mim o que quiser; mas mate-me primeiro.

Ao falar assim, oferecia o cutelo ao padre. Fora de si, o padre lançou-se sobre a arma, mas a jovem foi mais rápida. Arrancou a faca das mãos de Quasimodo e soltou uma gargalhada furiosa.

— Aproxime-se! — disse ao padre.

Mantinha a lâmina erguida. O padre permaneceu indeciso. Ela teria golpeado, com certeza.

— Já não ousa aproximar-se, covarde! — gritou-lhe.

Depois acrescentou com uma expressão impiedosa, sabendo muito bem que atravessaria com mil ferros em brasa o coração do padre:

— Ah! Eu sei que Phoebus não está morto!

O padre derrubou Quasimodo ao chão com um pontapé e mergulhou de novo, tremendo de raiva, sob a abóbada da escada.

Quando ele partiu, Quasimodo apanhou o apito que acabava de salvar a egípcia.

— Estava enferrujando — disse, ao devolvê-lo.

Depois deixou-a só.

A jovem, transtornada pela cena violenta, caiu exausta sobre a cama e começou a chorar aos soluços. Seu horizonte voltava a tornar-se sinistro.

De seu lado, o padre regressara às apalpadelas para a cela.

Estava consumado. Dom Claude tinha ciúmes de Quasimodo!

Repetiu, pensativo, a palavra fatal:

— Ninguém a terá!

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

O Corcunda de Notre Dame

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de O Corcunda de Notre Dame

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Corcunda de Notre Dame Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 48 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Corcunda de Notre Dame

Capa de O Corcunda de Notre Dame
Continue a leitura LIVRO NONO — VI. CONTINUAÇÃO DA CHAVE DA PORTE-ROUGE Capítulo 48 · 48 de 59 · ≈ 6 min
Todos os capítulos 59 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir