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O Corcunda de Notre Dame

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O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 36 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO SÉTIMO — VIII. UTILIDADE DAS JANELAS QUE DÃO PARA O RIO

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LIVRO SÉTIMO

VIII. UTILIDADE DAS JANELAS QUE DÃO PARA O RIO

Claude Frollo, pois presumimos que o leitor, mais inteligente que Phœbus, não viu em toda essa aventura outro monge-papão senão o arquidiácono, tateou por alguns instantes no reduto tenebroso onde o capitão o trancara. Era um daqueles cantos que os arquitetos às vezes reservam no ponto de junção do telhado com a parede de apoio. O corte vertical daquele canil, como Phœbus o chamara tão bem, teria dado um triângulo. De resto, não havia janela nem lucarna, e a inclinação do telhado impedia que se permanecesse de pé. Claude agachou-se, portanto, na poeira e nos pedaços de reboco que se esmagavam sob ele. Sua cabeça ardia. Remexendo em torno com as mãos, encontrou no chão um pedaço de vidro quebrado, encostou-o à fronte e a frescura aliviou-o um pouco.

Que se passava naquele momento na alma obscura do arquidiácono? Só ele e Deus puderam saber.

Segundo que ordem fatal dispunha em pensamento La Esmeralda, Phœbus, Jacques Charmolue, o jovem irmão tão amado, abandonado por ele na lama, sua batina de arquidiácono, sua reputação talvez arrastada até a casa de la Falourdel, todas essas imagens, todas essas aventuras? Não saberíamos dizer. Mas é certo que essas ideias formavam em seu espírito um grupo horrível.

Esperava havia um quarto de hora; parecia-lhe ter envelhecido um século. De súbito, ouviu ranger os degraus da escada de madeira. Alguém subia. A abertura tornou a abrir-se, e uma luz reapareceu. Havia na porta carcomida de seu cubículo uma fresta bastante larga; ele colou o rosto nela. Assim podia ver tudo o que se passava na sala vizinha. A velha com rosto de gato saiu primeiro da abertura, a lâmpada na mão; depois Phœbus, retorcendo o bigode; depois uma terceira pessoa, aquela bela e graciosa figura, La Esmeralda. O padre a viu sair da terra como uma aparição deslumbrante. Claude tremeu, uma nuvem lhe cobriu os olhos, as artérias bateram com força, tudo rugia e girava ao redor. Não viu nem ouviu mais nada.

Quando voltou a si, Phœbus e La Esmeralda estavam sós, sentados na arca de madeira junto à lâmpada, que fazia saltar aos olhos do arquidiácono os dois jovens rostos e um miserável catre ao fundo do sótão.

Junto ao catre havia uma janela cuja vidraça, desmantelada como teia de aranha sobre a qual caíra chuva, deixava ver por suas malhas rompidas um canto do céu e a lua deitada ao longe sobre um edredom de nuvens macias.

A jovem estava vermelha, confusa, palpitante. Os longos cílios baixos sombreavam-lhe as faces púrpuras. O oficial, sobre quem ela não ousava erguer os olhos, irradiava. Maquinalmente, com um gesto encantador de falta de jeito, ela traçava com a ponta do dedo linhas incoerentes sobre o banco e olhava o dedo. Não se via o pé; a cabritinha estava agachada sobre ele.

O capitão estava vestido com muita galanteria; tinha no pescoço e nos punhos tufos de rendas, grande elegância de então.

Dom Claude não conseguiu sem esforço ouvir o que diziam através do zumbido do sangue que lhe fervia nas têmporas.

Coisa bastante banal, uma conversa de amantes. É um “amo você” perpétuo. Frase musical muito nua e muito insípida para os indiferentes que escutam, quando não é ornamentada por algum floreio. Mas Claude não escutava como indiferente.

— Oh! — dizia a jovem, sem erguer os olhos. — Não me despreze, monsenhor Phœbus. Sinto que o que faço é errado.

— Desprezá-la, bela criança! — respondia o oficial, com um ar de galanteria superior e distinta. — Desprezá-la, cabeça de Deus! E por quê?

— Por tê-lo seguido.

— Sobre esse ponto, minha bela, não nos entendemos. Eu não deveria desprezá-la, mas odiá-la.

A jovem olhou-o com medo.

— Odiar-me! Que fiz?

— Por se ter feito rogar tanto.

— Ai de mim! — disse ela. — É que falto a um voto... Não reencontrarei meus pais... O amuleto perderá a virtude. Mas que importa? Que necessidade tenho agora de pai e mãe?

Ao falar assim, fixava no capitão os grandes olhos negros úmidos de alegria e ternura.

— Que o diabo me leve se a compreendo! — exclamou Phœbus.

La Esmeralda permaneceu um instante em silêncio; depois, uma lágrima saiu-lhe dos olhos, um suspiro dos lábios, e disse:

— Oh, monsenhor, eu o amo.

Havia em torno da jovem tal perfume de castidade, tal encanto de virtude, que Phœbus não se sentia inteiramente à vontade junto dela. Entretanto, a palavra o encorajou.

— Você me ama! — disse com arrebatamento, e lançou o braço em torno da cintura da egípcia. Só esperava essa ocasião.

O padre viu e experimentou com a ponta do dedo o gume de um punhal que trazia escondido no peito.

— Phœbus — prosseguiu a boêmia, desprendendo suavemente do cinto as mãos tenazes do capitão —, você é bom, generoso, belo. Salvou-me, a mim que sou apenas uma pobre criança perdida na Boêmia. Há muito tempo sonho com um oficial que me salva a vida. Era com você que sonhava antes de conhecê-lo, meu Phœbus. Meu sonho tinha uma bela libré como a sua, uma grande aparência, uma espada. Chama-se Phœbus, é um belo nome. Amo seu nome, amo sua espada. Tire a espada, Phœbus, para eu vê-la.

— Criança! — disse o capitão, desembainhando a espada com um sorriso.

A egípcia olhou o punho e a lâmina, examinou com curiosidade adorável o monograma da guarda e beijou a espada, dizendo-lhe:

— Você é a espada de um valente. Amo meu capitão.

Phœbus aproveitou outra vez a ocasião para depor no belo pescoço curvado um beijo que fez a jovem endireitar-se vermelha como cereja. O padre rangeu os dentes nas trevas.

— Phœbus — retomou a egípcia —, deixe-me falar. Ande um pouco, para que eu o veja em toda a altura e ouça soar suas esporas. Como é belo!

O capitão levantou-se para agradá-la, repreendendo-a com um sorriso satisfeito:

— Mas você é uma criança! A propósito, encantadora, já me viu com meu gibão de cerimônia?

— Infelizmente, não — respondeu ela.

— Isso é que é belo!

Phœbus tornou a sentar-se junto dela, mas muito mais perto do que antes.

— Escute, minha querida...

A egípcia deu-lhe pequenos golpes com a bela mão na boca, com uma meninice cheia de loucura, graça e alegria.

— Não, não, não vou escutá-lo. Você me ama? Quero que diga se me ama.

— Se a amo, anjo de minha vida! — exclamou o capitão, meio ajoelhado. — Meu corpo, meu sangue, minha alma, tudo é seu, tudo é para você. Eu a amo e nunca amei outra.

O capitão repetira tantas vezes essa frase em tantas conjunturas semelhantes que a recitou de um só fôlego sem cometer um único erro de memória. À declaração apaixonada, a egípcia ergueu para o teto sujo que fazia as vezes de céu um olhar cheio de felicidade angélica.

— Oh! — murmurou. — Este é o momento em que se deveria morrer!

Phœbus achou “o momento” bom para furtar-lhe novo beijo, que foi torturar em seu canto o miserável arquidiácono.

— Morrer! — exclamou o capitão apaixonado. — Que diz, belo anjo? É ocasião de viver, ou Júpiter não passa de um patife! Morrer no começo de coisa tão doce! Chifre de boi, que brincadeira! Não é isso. Escute, minha querida Similar... Esmenarda... Perdão, mas tem um nome tão prodigiosamente sarraceno que não consigo desembaraçar-me dele. É uma moita que me detém.

— Meu Deus — disse a pobre moça —, eu que julgava bonito esse nome por sua singularidade! Mas, já que lhe desagrada, gostaria de me chamar Goton.

— Ah! Não choremos por tão pouco, minha graciosa! É um nome ao qual é preciso acostumar-se, eis tudo. Quando o souber de cor, sairá sozinho. Escute, minha cara Similar, eu a adoro apaixonadamente. Amo-a verdadeiramente, é milagroso. Conheço uma que morre de raiva por isso...

A moça ciumenta o interrompeu:

— Quem?

— Que nos importa? — disse Phœbus. — Você me ama?

— Oh!... — disse ela.

— Pois então, é tudo. Verá como eu também a amo. Quero que o grande diabo Neptunus me monte se não a fizer a criatura mais feliz do mundo. Teremos uma linda casinha em algum lugar. Farei meus arqueiros desfilarem sob suas janelas. Estão todos a cavalo e fazem caretas para os do capitão Mignon. Há lanceiros, besteiros e arcabuzeiros de mão. Vou levá-la às grandes revistas dos parisienses na grange de Rully. É magnífico. Oitenta mil cabeças armadas; trinta mil armaduras brancas, jaques ou brigandinas; as sessenta e sete bandeiras dos ofícios; os estandartes do parlamento, da Cour des Comptes, do tesouro dos generais, das ajudas das moedas; uma comitiva do diabo, enfim! Vou levá-la para ver os leões do Hôtel du Roi, que são feras. Todas as mulheres gostam disso.

Havia alguns instantes, a jovem, absorvida nos encantadores pensamentos, sonhava ao som da voz sem escutar o sentido das palavras.

— Oh! Você será feliz! — continuou o capitão e, ao mesmo tempo, soltou suavemente o cinturão da egípcia.

— Que está fazendo? — disse ela vivamente.

A ação a arrancara do devaneio.

— Nada — respondeu Phœbus. — Eu dizia apenas que seria preciso abandonar todo esse traje de loucura e esquina quando estivesse comigo.

— Quando eu estiver com você, meu Phœbus! — disse ternamente a jovem.

Tornou-se pensativa e silenciosa.

O capitão, encorajado pela doçura, tomou-lhe a cintura sem que ela resistisse, depois começou a desamarrar em silêncio o corpete da pobre criança e desarranjou tanto a gola que o padre ofegante viu sair da gaze o belo ombro nu da boêmia, redondo e moreno como a lua que se levanta na bruma do horizonte.

A jovem deixava Phœbus agir. Parecia não perceber. Os olhos do ousado capitão cintilavam.

De repente, voltou-se para ele.

— Phœbus — disse, com expressão de amor infinito —, ensine-me sua religião.

— Minha religião! — exclamou o capitão, caindo na risada. — Eu, ensiná-la em minha religião! Chifre e trovão! Que quer fazer com minha religião?

— É para nos casarmos — respondeu ela.

O rosto do capitão tomou uma expressão misturada de surpresa, desdém, despreocupação e paixão libertina.

— Ora! — disse. — Por acaso as pessoas se casam?

A boêmia empalideceu e deixou cair tristemente a cabeça sobre o peito.

— Bela enamorada — retomou Phœbus com ternura —, que loucuras são essas? Grande coisa o casamento! Ama-se menos por não ter cuspido latim na loja de um padre?

Falando assim com sua voz mais doce, aproximava-se extremamente da egípcia; as mãos acariciantes retomaram o posto em torno daquela cintura tão fina e flexível; os olhos se acendiam cada vez mais, e tudo anunciava que o senhor Phœbus chegava evidentemente a um daqueles momentos em que o próprio Júpiter faz tantas tolices que o bom Homero é obrigado a chamar uma nuvem em seu socorro.

Dom Claude, entretanto, via tudo. A porta era feita de aduelas podres que deixavam entre si largas passagens para seu olhar de ave de rapina. Aquele padre de pele morena e ombros largos, até então condenado à austera virgindade do claustro, estremecia e fervia diante daquela cena de amor, noite e volúpia. A jovem e bela moça entregue em desordem ao ardente rapaz fazia-lhe correr chumbo derretido nas veias. Movimentos extraordinários se produziam nele. Seu olhar mergulhava com ciúme lascivo sob todos aqueles alfinetes desfeitos. Quem pudesse ver naquele momento o rosto do infeliz colado às barras carcomidas teria acreditado ver a face de um tigre que, do fundo de uma jaula, contempla algum chacal devorando uma gazela. A pupila estourava como vela pelas frestas da porta.

De súbito, Phœbus arrancou com gesto rápido a gola da egípcia.

A pobre criança, que permanecera pálida e sonhadora, despertou como de sobressalto. Afastou-se bruscamente do oficial atrevido e, lançando um olhar ao colo e aos ombros nus, vermelha, confusa e muda de vergonha, cruzou os dois belos braços sobre o peito para escondê-lo. Sem a chama que lhe incendiava as faces, ao vê-la assim silenciosa e imóvel, dir-se-ia uma estátua do pudor. Seus olhos permaneciam baixos.

Entretanto, o gesto do capitão pusera a descoberto o amuleto misterioso que ela trazia ao pescoço.

— Que é isso? — disse ele, aproveitando o pretexto para se aproximar da bela criatura que acabara de assustar.

— Não toque! — respondeu ela vivamente. — É meu guardião. É ele que me fará reencontrar minha família, se eu permanecer digna. Oh! Deixe-me, senhor capitão! Minha mãe! Minha pobre mãe! Minha mãe! Onde está? Socorro! Graça, senhor Phœbus! Devolva-me a gola!

Phœbus recuou e disse em tom frio:

— Oh, senhorita! Vejo muito bem que não me ama!

— Não o amo! — exclamou a pobre e infeliz criança.

E, ao mesmo tempo, pendurou-se no capitão, fazendo-o sentar-se junto dela.

— Não o amo, meu Phœbus! Que diz, malvado, para despedaçar meu coração? Oh, vá! Tome-me, tome tudo! Faça de mim o que quiser. Sou sua. Que me importa o amuleto? Que me importa minha mãe? É você minha mãe, já que o amo! Phœbus, meu Phœbus bem-amado, vê-me? Sou eu, olhe para mim. É esta pequena que o senhor consente em não repelir, que vem, que vem ela própria procurá-lo. Minha alma, minha vida, meu corpo, minha pessoa, tudo isso é uma coisa que lhe pertence, meu capitão. Pois então, não! Não nos casemos, isso o aborrece. E depois, que sou eu? Uma miserável moça da sarjeta, enquanto você, meu Phœbus, é gentil-homem. Bela coisa, de fato, uma dançarina desposar um oficial! Eu estava louca. Não, Phœbus, não. Serei sua amante, seu divertimento, seu prazer, quando quiser, uma moça que será sua; só fui feita para isso, manchada, desprezada, desonrada, que importa!, amada. Serei a mais altiva e alegre das mulheres. E, quando eu estiver velha ou feia, Phœbus, quando já não servir para amá-lo, monsenhor, ainda me permitirá servi-lo. Outras bordarão seus lenços. Eu, a criada, cuidarei deles. Deixará que eu lustre suas esporas, escove o gibão, sacuda a poeira das botas de montaria. Não é verdade, meu Phœbus, que terá essa piedade? Enquanto isso, tome-me! Veja, Phœbus, tudo isto lhe pertence, apenas me ame! Nós, egípcias, só precisamos disso: ar e amor.

Falando assim, lançava os braços ao redor do pescoço do oficial, olhava-o de baixo para cima, suplicante, com um belo sorriso todo em lágrimas; o colo delicado roçava o gibão de pano e os bordados ásperos. Torcia sobre os joelhos o belo corpo seminu. O capitão, embriagado, colou os lábios ardentes àqueles belos ombros africanos. A jovem, os olhos perdidos no teto, inclinada para trás, tremia toda palpitante sob o beijo.

De súbito, acima da cabeça de Phœbus, ela viu outra cabeça, um rosto lívido, verde, convulso, com olhar de condenado. Junto ao rosto havia uma mão que segurava um punhal. Era o rosto e a mão do padre. Ele arrombara a porta e estava ali. Phœbus não podia vê-lo. A jovem ficou imóvel, gelada, muda diante da aparição terrível, como uma pomba que erguesse a cabeça no momento em que a águia-pescadora olha o ninho com os olhos redondos.

Nem sequer conseguiu soltar um grito. Viu o punhal abater-se sobre Phœbus e erguer-se fumegante.

— Maldição! — disse o capitão, e caiu.

Ela desmaiou.

No momento em que os olhos se fechavam, em que todo sentimento se dispersava nela, acreditou sentir imprimir-se nos lábios um contato de fogo, um beijo mais ardente que o ferro em brasa do carrasco.

Quando recobrou os sentidos, estava cercada por soldados da ronda. Levavam o capitão banhado em sangue; o padre desaparecera; a janela do fundo da sala, que dava para o rio, estava escancarada; recolhiam um manto que se supunha pertencer ao oficial; e ela ouvia dizer ao redor:

— Foi uma feiticeira que apunhalou um capitão.

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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