Universo da obra
Universo da obra
Aconteceu que, numa bela manhã daquele mesmo mês de março, creio que no sábado, dia de santo Eustáquio, nosso jovem amigo, o estudante Jehan Frollo du Moulin, percebeu, ao vestir-se, que as calças onde guardava a bolsa não produziam som metálico algum.
— Pobre bolsa! — disse, tirando-a do bolso. — Como! Nem o menor parisis! Como os dados, os potes de cerveja e Vênus cruelmente te estriparam! Como estás vazia, enrugada e flácida! Pareces o colo de uma fúria! Pergunto-lhes, messer Cicero e messer Seneca, cujos exemplares ressequidos vejo espalhados pelo chão, de que me serve saber, melhor que um mestre da moeda ou um judeu da Pont-aux-Changeurs, que um escudo de ouro à coroa vale trinta e cinco onzains de vinte e cinco soldos e oito dinheiros parisis cada, e que um escudo ao crescente vale trinta e seis onzains de vinte e seis soldos e seis dinheiros tournois cada um, se não tenho um miserável liard negro para arriscar no duplo seis! Oh, cônsul Cicero! Não é calamidade da qual se saia com perífrases, quemadmodum e verum enim vero!
Vestiu-se tristemente. Uma ideia lhe ocorrera enquanto amarrava os borzeguins, mas primeiro a repeliu; entretanto, ela voltou, e ele vestiu o colete pelo avesso, sinal evidente de violento combate interior. Por fim, atirou rudemente o gorro ao chão e exclamou:
— Pior para mim! Seja o que puder ser. Vou à casa de meu irmão. Apanharei um sermão, mas também apanharei um escudo.
Enfiou às pressas a casaca de mangas acolchoadas, apanhou o gorro e saiu desesperado.
Desceu a rue de la Harpe em direção à Cité. Ao passar diante da rue de la Huchette, o aroma daqueles admiráveis espetos que giravam sem cessar veio acariciar-lhe o aparelho olfativo, e lançou um olhar de amor à ciclópica casa de assados que um dia arrancara ao franciscano Calatagirone esta patética exclamação: Veramente, queste rotisserie sono cosa stupenda! Mas Jehan não tinha com que almoçar e, soltando profundo suspiro, enfiou-se sob o pórtico do Petit-Châtelet, enorme trevo duplo de torres maciças que guardava a entrada da Cité.
Nem sequer teve tempo de lançar uma pedra, como era costume, na miserável estátua daquele Périnet Leclerc que entregara Paris aos ingleses, crime que sua efígie, com o rosto esmagado por pedras e sujo de lama, expiara durante três séculos na esquina das rues de la Harpe e de Bussy, como num pelourinho eterno.
Depois de atravessar a Petit-Pont e transpor a rue Neuve-Sainte-Geneviève, Jehan de Molendino encontrou-se diante de Notre-Dame. Então a indecisão o retomou, e ele passeou alguns instantes ao redor da estátua de M. Legris, repetindo com angústia:
— O sermão é certo, o escudo é duvidoso!
Deteve um sacristão que saía do claustro.
— Onde está o senhor arquidiácono de Josas?
— Creio que está em seu esconderijo na torre — disse o sacristão —, e não o aconselho a perturbá-lo, a menos que venha da parte de alguém como o papa ou o senhor rei.
Jehan bateu palmas.
— Pelo diabo! Eis uma magnífica ocasião de ver a famosa cela de feitiçarias!
Decidido por essa reflexão, entrou resolutamente pela pequena porta negra e começou a subir a escada em espiral de Saint-Gilles que levava aos andares superiores da torre.
— Vou ver! — dizia consigo pelo caminho. — Pelas cornetas da Santa Virgem! Deve ser coisa curiosa essa cela que meu reverendo irmão esconde como seu pudendum! Dizem que acende ali cozinhas do inferno e nelas coze a fogo alto a pedra filosofal. Pelo corpo de Deus! Importo-me com a pedra filosofal como com um seixo, e preferiria encontrar sobre o fogão uma omelete de ovos de Páscoa com toucinho à maior pedra filosofal do mundo!
Chegando à galeria das colunetas, retomou o fôlego por um momento e amaldiçoou a escada interminável por não sei quantos milhões de carroças de diabos; depois retomou a subida pela estreita porta da torre setentrional, hoje fechada ao público. Alguns instantes depois de ultrapassar a gaiola dos sinos, encontrou um pequeno patamar aberto numa reentrância lateral e, sob a abóbada, uma baixa porta ogival. Uma seteira, aberta do outro lado na parede circular da escada, permitiu-lhe observar a enorme fechadura e a poderosa armação de ferro. As pessoas que hoje tiverem curiosidade de visitar essa porta a reconhecerão pela inscrição gravada em letras brancas na parede negra: “Adoro Coralie, 1823. Assinado Ugène.” “Assinado” está no texto.
— Ufa! — disse o estudante. — Deve ser aqui.
A chave estava na fechadura. A porta estava apenas encostada. Empurrou-a levemente e passou a cabeça pela abertura.
O leitor decerto já folheou a obra admirável de Rembrandt, esse Shakespeare da pintura. Entre tantas gravuras maravilhosas, há em particular uma água-forte que representa, supõe-se, o doutor Fausto e que é impossível contemplar sem deslumbramento. É uma cela escura. No meio, uma mesa coberta de objetos horrendos: crânios, esferas, alambiques, compassos, pergaminhos hieroglíficos. O doutor está diante da mesa, vestido com pesada peliça e com o gorro forrado descido até as sobrancelhas. Só se vê a metade de seu corpo. Está meio levantado da imensa poltrona, os punhos crispados apoiados na mesa, e contempla com curiosidade e terror um grande círculo luminoso, formado por letras mágicas, que brilha na parede do fundo como o espectro solar numa câmara escura. Esse sol cabalístico parece tremer aos olhos e enche a cela lívida de misterioso fulgor. É horrível e belo.
Algo bastante semelhante à cela de Fausto ofereceu-se aos olhos de Jehan quando ele arriscou a cabeça pela porta entreaberta. Era também um reduto sombrio e mal iluminado. Havia uma grande poltrona e uma grande mesa, compassos, alambiques, esqueletos de animais pendurados no teto, uma esfera rolando pelo chão, hipocéfalos misturados a frascos onde tremiam folhas de ouro, crânios pousados sobre velinos matizados de figuras e caracteres, grossos manuscritos empilhados e abertos sem piedade para os ângulos quebradiços do pergaminho, enfim, todos os dejetos da ciência e, por toda parte, sobre a confusão, poeira e teias de aranha. Mas não havia círculo de letras luminosas nem doutor em êxtase contemplando a visão flamejante como a águia olha o sol.
Contudo, a cela não estava deserta. Um homem se sentava na poltrona e se curvava sobre a mesa. Jehan, a quem ele dava as costas, só podia ver-lhe os ombros e a parte posterior do crânio; mas não teve dificuldade em reconhecer aquela cabeça calva à qual a natureza fizera uma tonsura eterna, como se houvesse querido assinalar por um símbolo exterior a irresistível vocação clerical do arquidiácono.
Jehan reconheceu, portanto, o irmão. Mas a porta se abrira tão suavemente que nada advertira dom Claude de sua chegada. O estudante curioso aproveitou para examinar por alguns instantes, à vontade, a cela. Um grande forno, que não notara de início, estava à esquerda da poltrona, sob a lucarna. O raio de luz que penetrava por aquela abertura atravessava uma teia de aranha circular, que desenhava com gosto sua delicada rosácea na ogiva da lucarna, no centro da qual o inseto arquiteto permanecia imóvel como o cubo daquela roda de renda. Sobre o forno acumulavam-se em desordem toda sorte de vasos, frascos de grés, retortas de vidro, matrases de carvão. Jehan observou, suspirando, que não havia uma única frigideira.
— Bela bateria de cozinha! — pensou.
De resto, não havia fogo no forno, e parecia mesmo que não se acendia havia muito tempo. Uma máscara de vidro, que Jehan notou entre os utensílios de alquimia e que sem dúvida servia para proteger o rosto do arquidiácono quando elaborava alguma substância perigosa, estava num canto, coberta de poeira e como esquecida. Ao lado jazia um fole não menos empoeirado, cuja folha superior trazia esta legenda incrustada em letras de cobre: SPIRA, SPERA.
Outras inscrições estavam escritas, segundo a moda dos herméticos, em grande número nas paredes; umas traçadas a tinta, outras gravadas com ponta de metal. Letras góticas, hebraicas, gregas e romanas confundiam-se; as inscrições transbordavam ao acaso, umas sobre as outras, as mais recentes apagando as antigas, e todas se entrelaçavam como os galhos de uma moita, como as lanças de uma batalha. Era, de fato, uma confusa batalha de todas as filosofias, de todos os devaneios, de todas as sabedorias humanas. Aqui e ali, uma brilhava sobre as outras como uma bandeira entre ferros de lança. Era, na maioria das vezes, uma breve divisa latina ou grega, tal como a Idade Média tão bem as formulava: Unde? inde? — Homo homini monstrum. — Astra, castra, nomen, numen. — Μέγα βιβλίον, μέγα κακόν. — Sapere aude. — Flat ubi vult, e assim por diante; às vezes uma palavra desprovida de sentido aparente: Ἀναγκοφαγία, que talvez escondesse amarga alusão ao regime do claustro; às vezes uma simples máxima de disciplina clerical formulada em hexâmetro regulamentar: Cœlestem dominum, terrestrem dicito domnum. Havia também, passim, grimórios hebraicos, aos quais Jehan, já pouco versado em grego, nada entendia, e tudo era atravessado a cada momento por estrelas, figuras de homens ou animais e triângulos que se interceptavam, o que contribuía muito para fazer a parede rabiscada da cela parecer uma folha de papel sobre a qual um macaco passeara uma pena carregada de tinta.
O conjunto da pequena cela, de resto, apresentava aspecto geral de abandono e ruína; e o mau estado dos utensílios fazia supor que o mestre havia já bastante tempo se distraía dos trabalhos por outras preocupações.
Esse mestre, entretanto, inclinado sobre um vasto manuscrito ornamentado de pinturas estranhas, parecia atormentado por uma ideia que vinha sem cessar misturar-se às meditações. Ao menos foi o que Jehan julgou, ouvindo-o exclamar, com as pausas pensativas de um sonhador que pensa em voz alta:
— Sim, Manu o diz, e Zoroastro o ensinava: o sol nasce do fogo, a lua do sol. O fogo é a alma do grande todo. Seus átomos elementares se derramam e escorrem incessantemente pelo mundo em correntes infinitas. Nos pontos em que essas correntes se cruzam no céu, produzem a luz; nos pontos de interseção na terra, produzem ouro. A luz, o ouro, a mesma coisa. Fogo em estado concreto. A diferença entre o visível e o palpável, entre o fluido e o sólido para a mesma substância, entre o vapor d’água e o gelo, nada mais. Não são sonhos, é a lei geral da natureza. Mas como arrancar da ciência o segredo dessa lei geral? Como! Esta luz que inunda minha mão é ouro! Esses mesmos átomos, dilatados segundo certa lei, basta condensá-los segundo outra! Como fazer? Alguns imaginaram enterrar um raio do sol. Averróis, sim, é Averróis, enterrou um sob o primeiro pilar à esquerda do santuário do Alcorão, na grande mesquita de Córdoba; mas só se poderá abrir a abóbada para ver se a operação teve êxito daqui a oito mil anos.
— Diabo! — disse Jehan consigo. — É muito tempo para esperar um escudo!
— Outros pensaram — continuou o arquidiácono sonhador — que seria melhor operar sobre um raio de Sírius. Mas é muito difícil obter esse raio puro, por causa da presença simultânea das outras estrelas que vêm misturar-se a ele. Flamel considera mais simples operar sobre o fogo terrestre. Flamel! Nome de predestinado, Flamma! Sim, o fogo. Eis tudo. O diamante está no carvão, o ouro está no fogo. Mas como extraí-lo? Magistri afirma que há certos nomes de mulher de encanto tão doce e misterioso que basta pronunciá-los durante a operação... Leiamos o que diz Manu: “Onde as mulheres são honradas, as divindades se alegram; onde são desprezadas, é inútil orar a Deus. A boca de uma mulher é constantemente pura; é água corrente, é raio de sol. O nome de uma mulher deve ser agradável, doce, imaginário, terminar em vogais longas e parecer uma palavra de bênção.” Sim, o sábio tem razão; de fato, Maria, Sophia, Esmeral... Danação! Sempre esse pensamento!
E fechou o livro com violência.
Passou a mão pela fronte, como para expulsar a ideia que o obcecava. Depois tomou da mesa um prego e um pequeno martelo cujo cabo estava curiosamente pintado com letras cabalísticas.
— Há algum tempo — disse com um sorriso amargo — fracasso em todas as experiências! A ideia fixa me possui e murcha meu cérebro como um trevo de fogo. Nem sequer pude reencontrar o segredo de Cassiodoro, cuja lâmpada ardia sem pavio nem óleo. Coisa simples, contudo!
— Peste! — disse Jehan por entre a barba.
— Basta, portanto — continuou o padre — uma única ideia miserável para tornar um homem fraco e louco! Oh, como Claude Pernelle riria de mim, ela que não pôde desviar por um só instante Nicolas Flamel da busca da grande obra! Como! Tenho na mão o martelo mágico de Zéchiélé! A cada golpe que o terrível rabino, do fundo da cela, dava neste prego com este martelo, aquele de seus inimigos que ele houvesse condenado, estivesse a duas mil léguas, afundava um côvado na terra que o devorava. O próprio rei da França, por haver batido uma noite imprudentemente à porta do taumaturgo, entrou no calçamento de Paris até os joelhos. Isso aconteceu há menos de três séculos. Pois bem! Tenho o martelo e o prego, e não são instrumentos mais formidáveis em minhas mãos que uma tenaz nas mãos de um ferreiro. No entanto, basta reencontrar a palavra mágica que Zéchiélé pronunciava ao golpear o prego.
— Bagatela! — pensou Jehan.
— Vejamos, tentemos — retomou vivamente o arquidiácono. — Se eu conseguir, verei a centelha azul jorrar da cabeça do prego. Emen-hétan! Emen-hétan! Não é isso. Sigéani! Sigéani! Que este prego abra o túmulo a quem quer que tenha o nome de Phœbus!... Maldição! Sempre, ainda, eternamente o mesmo pensamento!
E lançou o martelo com cólera. Depois desabou de tal modo sobre a poltrona e a mesa que Jehan o perdeu de vista atrás do enorme espaldar. Durante alguns minutos, só viu seu punho convulsivo crispado sobre um livro. De súbito, dom Claude levantou-se, tomou um compasso e gravou em silêncio na parede, em letras maiúsculas, esta palavra grega:
ἈΝΆΓΚΗ
— Meu irmão está louco — disse Jehan consigo. — Seria muito mais simples escrever Fatum. Nem todos são obrigados a saber grego.
O arquidiácono voltou a sentar-se e pousou a cabeça nas duas mãos, como faz um doente cuja fronte está pesada e ardente.
O estudante observava o irmão com espanto. Ele, que expunha o coração ao ar livre, que não observava outra lei no mundo senão a boa lei da natureza, que deixava as paixões escoarem pelas inclinações, e em quem o lago das grandes emoções estava sempre seco, de tantas novas valas que cavava largamente todas as manhãs, não sabia com que fúria esse mar das paixões humanas fermenta e ferve quando se lhe recusa qualquer saída; como se acumula, como incha, como transborda, como cava o coração, como explode em soluços interiores e convulsões surdas, até romper os diques e arrebentar o leito. O invólucro austero e glacial de Claude Frollo, aquela fria superfície de virtude íngreme e inacessível, sempre enganara Jehan. O alegre estudante jamais pensara na lava fervente, furiosa e profunda sob a fronte de neve do Etna.
Não sabemos se compreendeu de repente essas ideias, mas, por mais leviano que fosse, percebeu que vira o que não devia ter visto, que acabava de surpreender a alma do irmão mais velho numa de suas atitudes mais secretas e que Claude não devia percebê-lo. Vendo que o arquidiácono recaíra na primeira imobilidade, retirou a cabeça muito suavemente e fez algum ruído de passos atrás da porta, como quem chega e anuncia a chegada.
— Entre! — gritou o arquidiácono do interior da cela. — Eu o esperava. Deixei a chave de propósito na porta. Entre, mestre Jacques.
O estudante entrou com ousadia. O arquidiácono, a quem semelhante visita incomodava muito naquele lugar, estremeceu na poltrona.
— Como! É você, Jehan?
— Continua sendo um J — disse o estudante, com seu rosto vermelho, insolente e alegre.
O semblante de dom Claude retomara a expressão severa.
— Que vem fazer aqui?
— Meu irmão — respondeu o estudante, esforçando-se por assumir um ar decente, lastimoso e modesto, e girando o gorro entre as mãos com expressão de inocência —, vinha pedir-lhe...
— O quê?
— Um pouco de moral, de que preciso muito.
Jehan não ousou acrescentar em voz alta: “E um pouco de dinheiro, de que preciso ainda mais.” Esse último membro da frase ficou inédito.
— Senhor — disse o arquidiácono em tom frio —, estou muito descontente com o senhor.
— Ai de mim! — suspirou o estudante.
Dom Claude fez a poltrona descrever um quarto de círculo e fitou Jehan.
— Fico contente de vê-lo.
Era um exórdio temível. Jehan preparou-se para duro choque.
— Jehan, todos os dias me chegam queixas a seu respeito. Que briga foi aquela em que cobriu de pauladas o pequeno visconde Albert de Ramonchamp?
— Oh! — disse Jehan. — Grande coisa! Um pajem ruim que se divertia em espirrar lama nos estudantes fazendo o cavalo correr pelas poças!
— E que foi isso — retomou o arquidiácono — de rasgar a roupa de Mahiet Fargel? Tunicam dechiraverunt, diz a queixa.
— Ora! Uma capinha ruim de Montaigu! Que coisa!
— A queixa diz tunicam, não cappettam. Sabe latim?
Jehan não respondeu.
— Sim! — prosseguiu o padre, meneando a cabeça. — Eis em que estado se encontram agora os estudos e as letras. A língua latina mal é entendida, a siríaca é desconhecida, a grega tão odiosa que não é ignorância, entre os mais sábios, saltar uma palavra grega sem lê-la e dizer: Græcum est, non legitur.
O estudante ergueu resolutamente os olhos.
— Senhor meu irmão, agrada-lhe que eu explique em boa língua francesa esta palavra grega escrita na parede?
— Que palavra?
— ἈΝΆΓΚΗ.
Um leve rubor desabrochou nas maçãs amareladas do arquidiácono, como a baforada de fumaça que anuncia do lado de fora as secretas comoções de um vulcão. O estudante quase não percebeu.
— E então, Jehan — balbuciou o irmão mais velho com esforço —, que significa essa palavra?
— Fatalidade.
Dom Claude tornou a empalidecer, e o estudante prosseguiu com despreocupação:
— E esta palavra aqui embaixo, gravada pela mesma mão, Ἀναγνεία, significa impureza. Vê que se sabe grego.
O arquidiácono permaneceu em silêncio. A lição de grego o tornara pensativo. O pequeno Jehan, que tinha todas as sutilezas de uma criança mimada, julgou favorável o momento para arriscar o pedido. Tomou, portanto, uma voz extremamente doce e começou:
— Meu bom irmão, por acaso me odeia a ponto de fazer tão feroz expressão por algumas bofetadas e punhaladas ruins distribuídas em boa guerra a não sei que rapazes e marmanjos, quibusdam marmosetis? Vê, bom irmão Claude, que se sabe latim.
Mas toda essa acariciante hipocrisia não teve sobre o severo irmão mais velho o efeito habitual. Cérbero não mordeu o bolo de mel. A fronte do arquidiácono não perdeu uma ruga.
— Aonde quer chegar? — disse secamente.
— Pois bem, ao fato! Aqui está! — respondeu Jehan com coragem. — Preciso de dinheiro.
A essa declaração insolente, a fisionomia do arquidiácono tomou inteiramente a expressão pedagógica e paterna.
— Sabe, senhor Jehan, que nosso feudo de Tirechappe não rende, reunindo censo e rendas das vinte e uma casas, mais que trinta e nove libras, onze soldos e seis dinheiros parisis. É metade a mais do que no tempo dos irmãos Paclet, mas não é muito.
— Preciso de dinheiro — disse estoicamente Jehan.
— Sabe que o oficial decidiu que nossas vinte e uma casas dependiam em pleno feudo do bispado e que só poderíamos resgatar essa homenagem pagando ao reverendo bispo dois marcos de prata dourada, no valor de seis libras parisis. Ora, ainda não pude reunir esses dois marcos. Sabe disso.
— Sei que preciso de dinheiro — repetiu Jehan pela terceira vez.
— E que pretende fazer com ele?
A pergunta fez brilhar uma luz de esperança nos olhos de Jehan. Retomou seu ar felino e meloso.
— Veja, caro irmão Claude, eu não me dirigiria ao senhor com má intenção. Não se trata de fazer-me de belo nas tavernas com seus onzains nem de passear pelas ruas de Paris em arreios de brocado de ouro, com meu lacaio, cum meo laquasio. Não, irmão, é para uma boa obra.
— Que boa obra? — perguntou Claude, um tanto surpreso.
— Dois amigos meus querem comprar um enxoval para o filho de uma pobre viúva haudriette. É uma caridade. Custará três florins, e eu gostaria de dar o meu.
— Como se chamam seus dois amigos?
— Pierre l’Assommeur e Baptiste Croque-Oison.
— Hum! — disse o arquidiácono. — Nomes que assentam numa boa obra como uma bombarda sobre o altar-mor.
É certo que Jehan escolhera muito mal os nomes dos dois amigos. Percebeu tarde demais.
— Além disso — prosseguiu o sagaz Claude —, que enxoval é esse que deve custar três florins? E para o filho de uma haudriette? Desde quando viúvas haudriettes têm bebês de cueiros?
Jehan rompeu o gelo mais uma vez.
— Pois sim! Preciso de dinheiro para ir ver esta noite Isabeau la Thierrye no Val-d’Amour!
— Miserável impuro! — exclamou o padre.
— Ἀναγνεία — disse Jehan.
A citação, que o estudante tomava, talvez com malícia, da parede da cela, produziu efeito singular no padre. Mordeu os lábios, e a cólera se extinguiu no rubor.
— Vá embora — disse então a Jehan. — Estou esperando alguém.
O estudante tentou ainda um esforço.
— Irmão Claude, dê-me ao menos um pequeno parisis para comer.
— Em que ponto está das Decretais de Graciano? — perguntou dom Claude.
— Perdi os cadernos.
— Em que ponto está das humanidades latinas?
— Roubaram meu exemplar de Horatius.
— Em que ponto está de Aristoteles?
— Por minha fé, irmão, qual é o padre da Igreja que diz que os erros dos heréticos sempre tiveram por covil os matagais da metafísica de Aristoteles? Ao diabo Aristoteles! Não quero rasgar minha religião em sua metafísica.
— Jovem — retomou o arquidiácono —, na última entrada do rei havia um gentil-homem chamado Philippe de Comines, que trazia bordada na gualdrapa do cavalo esta divisa, que lhe aconselho meditar: Qui non laborat non manducet.
O estudante ficou um instante em silêncio, o dedo na orelha, os olhos no chão e o rosto contrariado. De repente, voltou-se para Claude com a viva rapidez de uma alvéola.
— Então, bom irmão, recusa-me um sol parisis para comprar uma côdea na casa de um padeiro?
— Qui non laborat non manducet.
A essa resposta do inflexível arquidiácono, Jehan escondeu a cabeça entre as mãos, como mulher que soluça, e exclamou em expressão de desespero:
— Ὢ τοτοτοτοτοῖ!
— Que significa isso, senhor? — perguntou Claude, surpreso com a tirada.
— Ora! — disse o estudante, levantando para Claude olhos insolentes nos quais acabara de enfiar os punhos para lhes dar o vermelho das lágrimas. — É grego! É um anapesto de Ésquilo que exprime perfeitamente a dor.
E caiu numa gargalhada tão bufona e violenta que fez o arquidiácono sorrir. Era culpa de Claude, na verdade. Por que mimara tanto aquela criança?
— Oh, bom irmão Claude — retomou Jehan, encorajado pelo sorriso —, veja meus borzeguins furados. Há coturno mais trágico no mundo que botas cuja sola põe a língua para fora?
O arquidiácono retornara depressa à severidade primeira.
— Mandarei botas novas. Mas nenhum dinheiro.
— Apenas um pobre pequeno parisis, irmão — continuou o suplicante Jehan. — Aprenderei Graciano de cor, acreditarei bem em Deus, serei verdadeiro Pythagoras de ciência e virtude. Mas um pequeno parisis, por graça! Quer que a fome me morda com sua boca que está ali, aberta diante de mim, mais negra, mais fedorenta, mais profunda que o Tártaro ou o nariz de um monge?
Dom Claude meneou a cabeça enrugada.
— Qui non laborat...
Jehan não o deixou terminar.
— Pois bem! — gritou. — Ao diabo! Viva a alegria! Vou me embebedar, vou brigar, quebrar os potes e visitar as moças!
E, dizendo isso, atirou o gorro contra a parede e estalou os dedos como castanholas.
O arquidiácono olhou-o sombriamente.
— Jehan, você não tem alma.
— Nesse caso, segundo Epicurius, falta-me um não sei quê feito de alguma coisa que não tem nome.
— Jehan, é preciso pensar seriamente em corrigir-se.
— Ora! — gritou o estudante, olhando alternadamente para o irmão e para os alambiques do forno. — Tudo aqui tem chifres, as ideias e as garrafas!
— Jehan, está numa inclinação muito escorregadia. Sabe aonde vai?
— À taverna — disse Jehan.
— A taverna conduz ao pelourinho.
— É uma lanterna como outra qualquer, e talvez com essa Diógenes tivesse encontrado seu homem.
— O pelourinho conduz à forca.
— A forca é uma balança que tem um homem numa ponta e toda a terra na outra. É belo ser o homem.
— A forca conduz ao inferno.
— É um fogo grande.
— Jehan, Jehan, o fim será mau.
— O começo terá sido bom.
Nesse momento, ouviu-se na escada o ruído de passos.
— Silêncio! — disse o arquidiácono, levando um dedo aos lábios. — Aí vem mestre Jacques. Escute, Jehan — acrescentou em voz baixa —, guarde-se de falar jamais do que viu e ouviu aqui. Esconda-se depressa sob o forno e não respire.
O estudante enfiou-se sob o forno. Ali lhe veio uma ideia fecunda.
— A propósito, irmão Claude, um florim para eu não respirar.
— Silêncio! Prometo.
— É preciso me dar.
— Tome, então! — disse o arquidiácono, lançando-lhe com cólera a bolsa.
Jehan afundou-se sob o forno, e a porta se abriu.
Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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