Universo da obra
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Desde a manhã do pelourinho, os vizinhos de Notre-Dame julgavam notar que o ardor de Quasimodo pelos carrilhões esfriara muito. Antes, havia repiques a todo propósito, longas alvoradas que duravam de prima a completas, grandes voos do campanário por uma missa solene, ricas escalas passeadas pelos sininhos por ocasião de casamento ou batismo, entrelaçando-se no ar como um bordado de toda sorte de sons encantadores. A velha igreja, toda vibrante e sonora, vivia numa perpétua alegria de sinos. Sentia-se nela sem cessar a atuação de um espírito de ruído e capricho que cantava por todas aquelas bocas de bronze. Agora, esse espírito parecia ter desaparecido; a catedral parecia lúgubre e preferia o silêncio. Festas e enterros recebiam o simples toque, seco e nu, exigido pelo ritual, nada mais. Do duplo ruído feito por uma igreja, o órgão dentro e o sino fora, só restava o órgão. Dir-se-ia que já não havia músico nos campanários. Quasimodo, no entanto, continuava ali. Que se passara nele? Seria que a vergonha e o desespero do pelourinho ainda duravam no fundo do coração, que os golpes de chicote do verdugo repercutiam sem fim em sua alma e que a tristeza de semelhante tratamento apagara tudo nele, até a paixão pelos sinos? Ou seria que Marie tinha uma rival no coração do sineiro de Notre-Dame e que o grande sino e suas quatorze irmãs eram negligenciados por algo mais amável e mais belo?
Aconteceu que, naquele gracioso ano, a Anunciação caiu numa terça-feira de março. Nesse dia, o ar estava tão puro e leve que Quasimodo sentiu voltar algum amor pelos sinos. Subiu, portanto, à torre setentrional, enquanto embaixo o sacristão abria de par em par as portas da igreja, que eram então enormes painéis de madeira forte, cobertos de couro, orlados de pregos de ferro dourado e enquadrados por esculturas “muito artificiosamente trabalhadas”.
Chegando à alta gaiola do campanário, Quasimodo contemplou por algum tempo, com triste meneio de cabeça, os seis sinos, como se lamentasse alguma coisa estranha que se interpusera em seu coração entre eles e ele. Mas, quando os pôs em movimento, quando sentiu aquele cacho de sinos agitar-se sob sua mão, quando viu, pois não ouvia, a oitava palpitante subir e descer por aquela escala sonora como um pássaro que salta de galho em galho, quando o diabo da música, esse demônio que sacode um molho cintilante de estreitos, trinados e arpejos, apoderou-se do pobre surdo, então ele voltou a ser feliz, esqueceu tudo, e o coração, dilatando-se, fez-lhe desabrochar o rosto.
Ia e vinha, batia palmas, corria de uma corda a outra, animava os seis cantores com voz e gestos, como um maestro que esporeia virtuoses inteligentes.
— Vá — dizia —, vá, Gabrielle. Derrame todo o seu ruído sobre a praça. Hoje é festa. Thibauld, nada de preguiça. Está diminuindo. Vá, vá logo! Enferrujou, indolente? Muito bem! Depressa! Depressa! Que não se veja o badalo. Deixe-os todos surdos como eu. Isso, Thibauld, com bravura! Guillaume! Guillaume! Você é o maior, e Pasquier é o menor, e Pasquier vai melhor. Aposto que os que ouvem escutam melhor a ele do que a você. Bem! Bem! Minha Gabrielle, forte! Mais forte! Ei! Que fazem lá em cima vocês dois, os Moineaux? Não vejo que produzam o menor ruído. Que são esses bicos de bronze que parecem bocejar quando é preciso cantar? Vamos, trabalhem! É a Anunciação. Há um belo sol. É preciso um belo carrilhão. Pobre Guillaume! Você já está sem fôlego, meu gordo!
Estava inteiramente ocupado em estimular os sinos, que saltavam todos os seis, cada qual melhor que o outro, sacudindo os flancos reluzentes como um ruidoso tiro de mulas espanholas picadas aqui e ali pelas invectivas do condutor.
De súbito, deixando cair o olhar por entre as largas escamas de ardósia que cobrem, a certa altura, a parede a pique do campanário, viu na praça uma jovem vestida de modo estranho, que parava, estendia no chão um tapete sobre o qual vinha instalar-se uma cabritinha, e um grupo de espectadores que se arredondava ao redor. A visão mudou subitamente o curso de seus pensamentos e congelou seu entusiasmo musical como um sopro de ar congela uma resina em fusão. Parou, voltou as costas ao carrilhão e agachou-se atrás do alpendre de ardósia, fixando na dançarina aquele olhar sonhador, terno e doce que já uma vez surpreendera o arquidiácono. Entretanto, os sinos esquecidos extinguiram-se bruscamente todos ao mesmo tempo, para grande desapontamento dos amantes de repiques, que escutavam de boa-fé o carrilhão do alto da Pont-au-Change e se retiraram estupefatos como um cão a quem se mostrou um osso e a quem se dá uma pedra.
Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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