Universo da obra
Universo da obra
No momento em que os malfeitores haviam assaltado a igreja, Esmeralda dormia.
Logo, o rumor sempre crescente em torno do edifício e o balido inquieto de sua cabra, despertada antes dela, arrancaram-na do sono. Sentou-se no leito, escutou, olhou; depois, assustada pelo clarão e pelo estrondo, lançou-se para fora da cela e foi ver. O aspecto da praça, a visão que ali se agitava, a desordem daquele assalto noturno, aquela multidão hedionda, saltitante como uma nuvem de rãs, entrevista pela metade nas trevas, o coaxar daquela turba rouca, aquelas poucas tochas vermelhas correndo e cruzando-se sobre a sombra como fogos noturnos que riscam a superfície brumosa dos pântanos, toda aquela cena lhe produziu o efeito de uma batalha misteriosa travada entre os fantasmas do sabá e os monstros de pedra da igreja. Impregnada desde a infância das superstições da tribo boêmia, seu primeiro pensamento foi que surpreendera em algum sortilégio os estranhos seres próprios da noite. Então correu, apavorada, a esconder-se em sua cela, pedindo ao catre um pesadelo menos horrível.
Pouco a pouco, porém, as primeiras fumaças do medo se dissiparam; pelo ruído que não cessava de aumentar e por vários outros sinais de realidade, sentiu-se cercada, não por espectros, mas por seres humanos. Então seu pavor, sem crescer, transformou-se. Pensou na possibilidade de um motim popular destinado a arrancá-la de seu asilo. A ideia de perder mais uma vez a vida, a esperança, Phoebus, que ela continuava a entrever em seu futuro, o profundo nada de sua fraqueza, todas as fugas fechadas, nenhum apoio, seu abandono, seu isolamento, esses pensamentos e mil outros a esmagaram. Caiu de joelhos, a cabeça sobre o leito, as mãos unidas sobre a cabeça, cheia de ansiedade e tremor; e, embora egípcia, idólatra e pagã, pôs-se a pedir entre soluços a graça do bom Deus cristão e a rezar a Notre-Dame, sua hospedeira. Pois, ainda que não se creia em coisa alguma, há momentos na vida em que se pertence sempre à religião do templo que se tem à mão.
Permaneceu assim prostrada por muito tempo, tremendo, na verdade, mais do que rezava, gelada pelo sopro cada vez mais próximo daquela multidão furiosa, sem compreender coisa alguma daquele desencadeamento, ignorando o que se tramava, o que se fazia, o que se queria, mas pressentindo um desfecho terrível.
Eis que, em meio àquela angústia, ouviu passos perto de si. Voltou-se. Dois homens, um dos quais levava uma lanterna, acabavam de entrar em sua cela. Ela soltou um grito fraco.
— Não tenha medo — disse uma voz que não lhe era desconhecida. — Sou eu.
— Quem? Você? — perguntou ela.
— Pierre Gringoire.
Esse nome a tranquilizou. Ergueu os olhos e reconheceu, de fato, o poeta. Mas havia ao lado dele uma figura negra, velada da cabeça aos pés, que a feriu de silêncio.
— Ah! — retomou Gringoire em tom de censura. — Djali me reconheceu antes de você!
A cabrinha, com efeito, não esperara que Gringoire se apresentasse. Mal ele entrara, ela se esfregara ternamente em seus joelhos, cobrindo o poeta de carícias e de pelos brancos, pois estava na muda. Gringoire retribuía as carícias.
— Quem está aí com você? — disse a egípcia em voz baixa.
— Fique tranquila — respondeu Gringoire. — É um de meus amigos.
Então o filósofo, pousando a lanterna no chão, agachou-se sobre a laje e exclamou com entusiasmo, apertando Djali nos braços:
— Oh! É um animal gracioso, sem dúvida mais considerável pela limpeza do que pelo tamanho, mas engenhoso, sutil e letrado como um gramático! Vejamos, minha Djali, não esqueceste nenhum de teus bonitos truques? Como faz mestre Jacques Charmolue?…
O homem negro não o deixou terminar. Aproximou-se de Gringoire e empurrou-o rudemente pelo ombro. Gringoire levantou-se.
— É verdade — disse ele —, eu me esquecia de que estamos com pressa. Ainda assim, meu mestre, isso não é motivo para enfurecer as pessoas desse modo. Minha querida e bela criança, sua vida está em perigo, e a de Djali também. Querem capturá-la outra vez. Somos seus amigos e viemos salvá-la. Siga-nos.
— É verdade? — exclamou ela, transtornada.
— Sim, muito verdade. Venha depressa!
— Eu vou — balbuciou ela. — Mas por que seu amigo não fala?
— Ah! — disse Gringoire. — É porque o pai e a mãe dele eram pessoas fantasiosas que lhe deram um temperamento taciturno.
Foi preciso que se contentasse com essa explicação. Gringoire tomou-a pela mão, seu companheiro apanhou a lanterna e seguiu à frente. O medo atordoava a jovem. Ela se deixou conduzir. A cabra os acompanhava aos saltos, tão alegre por rever Gringoire que a todo momento o fazia tropeçar ao enfiar os chifres entre suas pernas.
— Eis a vida — dizia o filósofo cada vez que quase caía. — Muitas vezes são nossos melhores amigos que nos fazem tombar!
Desceram rapidamente a escada das torres, atravessaram a igreja, cheia de trevas e solidão e toda ressoante de tumulto, o que produzia um contraste medonho, e saíram para o pátio do claustro pela Porte-Rouge. O claustro estava abandonado; os cônegos haviam fugido para o bispado, a fim de rezar em comum. O pátio estava vazio; alguns lacaios assustados encolhiam-se nos cantos escuros. Dirigiram-se à porta que dava daquele pátio para o Terrain. O homem negro abriu-a com uma chave que trazia consigo. Nossos leitores sabem que o Terrain era uma língua de terra cercada por muros do lado da Cité e pertencente ao capítulo de Notre-Dame, que terminava a ilha a leste, atrás da igreja. Encontraram o recinto inteiramente deserto. Ali já havia menos tumulto no ar. O rumor do assalto dos malfeitores chegava mais confuso e menos estridente. O vento fresco que acompanha o curso da água agitava as folhas da única árvore plantada na ponta do Terrain, com um ruído já perceptível. Contudo, ainda estavam muito perto do perigo. Os edifícios mais próximos eram o bispado e a igreja. Havia visivelmente grande desordem no interior do bispado. Sua massa tenebrosa era toda sulcada por luzes que corriam de uma janela a outra, como quando, depois de queimar papel, resta um sombrio edifício de cinzas onde vivas faíscas fazem mil percursos bizarros. Ao lado, as enormes torres de Notre-Dame, vistas assim por trás, com a longa nave sobre a qual se erguiam, recortadas em negro contra o vasto clarão vermelho que enchia o Parvis, pareciam os dois gigantescos cães de lareira de um fogo de ciclopes.
O que se via de Paris por todos os lados oscilava aos olhos numa sombra mesclada de luz. Rembrandt tem fundos de quadro assim.
O homem da lanterna caminhou diretamente para a ponta do Terrain. Havia ali, na extremidade da margem, os restos carcomidos de uma paliçada de estacas entrelaçadas com ripas, onde uma vinha rasteira prendia alguns ramos magros, estendidos como os dedos de uma mão aberta. Atrás, na sombra produzida por aquela treliça, escondia-se um pequeno barco. O homem fez sinal a Gringoire e à companheira para que entrassem. A cabra os seguiu. O homem desceu por último. Depois cortou a amarra do barco, afastou-o da margem com um longo gancho e, tomando dois remos, sentou-se à proa e remou com todas as forças para o largo. O Sena é muito rápido naquele ponto, e ele teve bastante dificuldade para deixar a ponta da ilha.
O primeiro cuidado de Gringoire ao entrar no barco foi pôr a cabra sobre os joelhos. Instalou-se à popa, e a jovem, a quem o desconhecido inspirava uma inquietação indefinível, veio sentar-se e apertar-se contra o poeta.
Quando nosso filósofo sentiu o barco mover-se, bateu palmas e beijou Djali entre os chifres.
— Oh! — disse ele. — Eis-nos salvos, os quatro.
Acrescentou, com ar de pensador profundo:
— Às vezes devemos à fortuna, às vezes à astúcia, o feliz desfecho das grandes empresas.
O barco seguia lentamente para a margem direita. A jovem observava com um terror secreto o desconhecido. Ele tornara a fechar cuidadosamente a luz de sua lanterna surda. Entrevistava-se na escuridão, à proa do barco, como um espectro. Seu capuz, sempre abaixado, formava-lhe uma espécie de máscara, e, cada vez que ao remar entreabria os braços, dos quais pendiam largas mangas negras, dir-se-iam duas grandes asas de morcego. De resto, ainda não pronunciara uma palavra, nem soltara um sopro. No barco não se ouvia outro ruído além do vaivém dos remos, misturado ao roçar das mil dobras da água ao longo da embarcação.
— Por minha alma! — exclamou de repente Gringoire. — Estamos alegres e joviais como aves agoureiras! Guardamos um silêncio de pitagóricos ou de peixes! Páscoa de Deus! Meus amigos, eu gostaria muito que alguém me falasse. A voz humana é música ao ouvido humano. Não sou eu quem diz isso, mas Dídimo de Alexandria, e são palavras ilustres. Certamente, Dídimo de Alexandria não é filósofo medíocre. Uma palavra, minha bela criança! Diga-me, suplico-lhe, uma palavra. A propósito, você fazia uma engraçada careta singular; ainda a faz? Sabe, minha amiga, que o Parlamento tem plena jurisdição sobre os lugares de asilo e que você corria grande perigo em sua casinha de Notre-Dame? Ai de nós! O pequeno pássaro trochilus faz o ninho na boca do crocodilo. Mestre, eis a lua que reaparece. Contanto que não nos avistem! Fazemos uma coisa louvável salvando a senhorita, e, no entanto, seríamos enforcados em nome do rei se nos apanhassem. Ai de nós! As ações humanas têm duas alças. Em mim se marca com ferro aquilo que em ti se coroa. Um admira César e censura Catilina. Não é verdade, meu mestre? Que diz dessa filosofia? Eu possuo a filosofia por instinto, por natureza, ut apes geometriam. Vamos! Ninguém me responde. Que humores desagradáveis vocês dois têm! Será preciso que eu fale sozinho. É o que chamamos, na tragédia, um monólogo. Páscoa de Deus! Aviso-lhes que acabo de ver o rei Luís XI e dele retive esse juramento. Páscoa de Deus, portanto! Ainda fazem um brado formidável lá na Cité. É um vilão, um velho rei malvado. Está todo enfiado em peles. Ainda me deve o dinheiro do meu epitalâmio, e por pouco não me mandou enforcar esta noite, o que me teria incomodado bastante. É avarento com os homens de mérito. Devia ler os quatro livros de Salviano de Colônia, Adversus avaritiam. Na verdade, é um rei mesquinho em seus modos com as pessoas de letras e pratica crueldades muito bárbaras. É uma esponja de tomar dinheiro pousada sobre o povo. Sua poupança é o baço que incha com a magreza de todos os outros membros. Assim, as queixas contra o rigor dos tempos tornam-se murmúrios contra o príncipe. Sob esse doce senhor devoto, as forcas estalam de enforcados, os cepos apodrecem de sangue, as prisões rebentam como ventres cheios demais. Esse rei tem uma mão que toma e outra que enforca. É o procurador de dona Gabela e de monsenhor Patíbulo. Os grandes são despojados de suas dignidades, e os pequenos, incessantemente esmagados por novos tributos. É um príncipe exorbitante. Não gosto desse monarca. E o senhor, meu mestre?
O homem negro deixava o poeta tagarela discorrer. Continuava a lutar contra a corrente violenta e compacta que separa a popa da Cité da proa da île Notre-Dame, hoje chamada île Saint-Louis.
— A propósito, mestre! — retomou Gringoire de súbito. — No momento em que chegávamos ao Parvis através daqueles malfeitores enfurecidos, sua reverência notou o pobre diabinho cuja cabeça seu surdo estava esmagando contra a rampa da galeria dos reis? Tenho a vista curta e não pude reconhecê-lo. Sabe quem poderia ser?
O desconhecido não respondeu uma palavra. Mas cessou bruscamente de remar; seus braços fraquejaram como se estivessem quebrados, sua cabeça caiu sobre o peito, e Esmeralda o ouviu suspirar convulsivamente. Ela estremeceu por sua vez. Já ouvira suspiros assim.
O barco, abandonado a si mesmo, derivou por alguns instantes ao sabor da água. Mas o homem negro afinal se endireitou, retomou os remos e tornou a subir a corrente. Dobrou a ponta da île Notre-Dame e dirigiu-se ao desembarcadouro do Port-au-Foin.
— Ah! — disse Gringoire. — Eis ali a residência Barbeau. Veja, mestre, olhe aquele grupo de telhados negros que formam ângulos singulares, ali, debaixo daquele amontoado de nuvens baixas, fibrosas, borradas e sujas, onde a lua está toda esmagada e derramada como uma gema de ovo cuja casca se partiu. É uma bela residência. Há uma capela coroada por uma pequena abóbada cheia de ornamentos muito bem recortados. Acima pode-se ver o campanário delicadamente vazado. Há também um jardim agradável, que consiste em um tanque, um viveiro de aves, um eco, um campo de jogo, um labirinto, uma casa para animais ferozes e muitas alamedas cerradas, muito agradáveis a Vênus. Há ainda uma árvore desavergonhada que chamam de luxuriosa, por ter servido aos prazeres de uma princesa famosa e de um condestável da França galante e espirituoso. Ai de nós! Nós, pobres filósofos, somos para um condestável o que um quadrado de couves e rabanetes é para o jardim do Louvre. Que importa, afinal? A vida humana, para os grandes como para nós, é misturada de bem e de mal. A dor está sempre ao lado da alegria, o espondeu junto do dátilo. Mestre, preciso contar-lhe a história da residência Barbeau. Ela termina de maneira trágica. Foi em… sob o reinado de Filipe V, o mais comprido dos reis da França. A moral da história é que as tentações da carne são perniciosas e malignas. Não detenhamos demais o olhar sobre a mulher do vizinho, por mais sensíveis que sejam nossos sentidos à sua beleza. A fornicação é um pensamento muito libertino. O adultério é uma curiosidade pela volúpia alheia… Olá! Eis que o ruído redobra lá longe!
O tumulto, com efeito, crescia em torno de Notre-Dame. Eles escutaram. Ouviam-se com bastante clareza gritos de vitória. De repente, cem archotes, fazendo cintilar capacetes de homens de armas, espalharam-se pela igreja em todas as alturas, nas torres, nas galerias, sob os arcobotantes. Pareciam procurar alguma coisa; e logo aqueles clamores distantes chegaram distintamente até os fugitivos:
— A egípcia! A feiticeira! Morte à egípcia!
A infeliz deixou cair a cabeça entre as mãos, e o desconhecido pôs-se a remar furiosamente para a margem. Enquanto isso, nosso filósofo refletia. Apertava a cabra nos braços e afastava-se devagar da boêmia, que se encolhia cada vez mais contra ele, como junto ao único asilo que lhe restava.
É certo que Gringoire estava em cruel perplexidade. Pensava que a cabra também, segundo a legislação vigente, seria enforcada caso fosse recapturada; que seria grande pena, a pobre Djali; que já eram duas condenadas penduradas em seu pescoço; que, enfim, seu companheiro não pedia coisa melhor do que encarregar-se da egípcia. Travava-se entre seus pensamentos um combate violento, no qual, como o Júpiter da Ilíada, pesava alternadamente a egípcia e a cabra; e olhava para uma e para outra, com os olhos úmidos de lágrimas, dizendo entre os dentes:
— Ainda assim, não posso salvar vocês duas.
Um choque enfim os advertiu de que o barco tocara a margem. O sinistro alarido continuava a encher a Cité. O desconhecido levantou-se, aproximou-se da egípcia e quis tomar-lhe o braço para ajudá-la a desembarcar. Ela o repeliu e agarrou-se à manga de Gringoire, que, por sua vez, ocupado com a cabra, quase a repeliu também. Então ela saltou sozinha para fora do barco. Estava tão perturbada que não sabia o que fazia nem para onde ia. Permaneceu assim por um momento, atônita, olhando a água correr. Quando voltou um pouco a si, estava sozinha no porto com o desconhecido. Parece que Gringoire aproveitara o instante do desembarque para escapar com a cabra pelo quarteirão da rue Grenier-sur-l’Eau.
A pobre egípcia estremeceu ao ver-se a sós com aquele homem. Quis falar, gritar, chamar Gringoire; sua língua estava inerte na boca, e nenhum som lhe saía dos lábios. De repente, sentiu a mão do desconhecido sobre a sua. Era uma mão fria e forte. Seus dentes bateram, ela se tornou mais pálida que o raio de lua que a iluminava. O homem não disse uma palavra. Começou a subir a passos largos em direção à place de Grève, segurando-a pela mão. Naquele instante, ela sentiu vagamente que o destino é uma força irresistível. Já não tinha energia; deixou-se arrastar, correndo enquanto ele caminhava. O cais naquele lugar subia. Parecia-lhe, contudo, que descia uma ladeira.
Olhou para todos os lados. Nenhum transeunte. O cais estava absolutamente deserto. Não ouvia ruído, não sentia homens moverem-se senão na Cité tumultuosa e avermelhada, da qual era separada apenas por um braço do Sena e de onde seu nome lhe chegava misturado a gritos de morte. O restante de Paris espalhava-se em torno dela em grandes blocos de sombra.
Entretanto, o desconhecido continuava a arrastá-la com o mesmo silêncio e a mesma rapidez. Ela não reconhecia nenhum dos lugares por onde passava. Ao passar diante de uma janela iluminada, fez um esforço, enrijeceu-se bruscamente e gritou:
— Socorro!
O burguês a quem pertencia a janela abriu-a, apareceu de camisa, com a lamparina na mão, olhou para o cais com ar aparvalhado, pronunciou algumas palavras que ela não ouviu e tornou a fechar a veneziana. Era a última luz de esperança que se apagava.
O homem negro não proferiu uma sílaba; segurava-a firmemente e tornou a andar mais depressa. Ela não resistiu mais e o seguiu, quebrada.
De tempos em tempos, reunia um pouco de força e dizia com voz entrecortada pelos solavancos do calçamento e pela falta de ar da corrida:
— Quem é você? Quem é você?
Ele não respondia.
Chegaram assim, sempre ao longo do cais, a uma praça bastante grande. Havia um pouco de luar. Era a Grève. Distinguia-se no centro uma espécie de cruz negra erguida. Era o patíbulo. Ela reconheceu tudo aquilo e viu onde estava.
O homem parou, voltou-se para ela e levantou o capuz.
— Oh! — balbuciou ela, petrificada. — Eu sabia que era ele outra vez!
Era o padre. Tinha o aspecto de seu próprio fantasma. É um efeito do luar. Parece que, sob essa luz, só se veem os espectros das coisas.
— Escute — disse-lhe ele.
Ela estremeceu ao som daquela voz funesta, que não ouvia havia muito tempo. Ele continuou, articulando com aquelas sacudidas breves e ofegantes que revelam, por seus abalos, profundos tremores interiores:
— Escute. Estamos aqui. Vou falar com você. Isto é a Grève. É um ponto extremo. O destino nos entrega um ao outro. Vou decidir de sua vida; você, de minha alma. Eis uma praça e uma noite além das quais não se vê nada. Portanto, escute-me. Vou lhe dizer… Antes de tudo, não me fale de seu Phoebus.
Ao dizer isso, ia e vinha, como um homem incapaz de ficar parado, e a puxava atrás de si.
— Não me fale dele. Está vendo? Se pronunciar esse nome, não sei o que farei, mas será terrível.
Dito isso, como um corpo que reencontra o centro de gravidade, tornou-se imóvel. Mas suas palavras não denunciavam menos agitação. Sua voz baixava cada vez mais.
— Não vire a cabeça assim. Escute-me. É coisa séria. Primeiro, eis o que aconteceu. Não se rirá de nada disso, eu lhe juro. Que estava eu dizendo? Lembre-me! Ah! Há uma sentença do Parlamento que a devolve ao cadafalso. Acabo de tirá-la das mãos deles. Mas eles a perseguem. Olhe.
Estendeu o braço para a Cité. As buscas, com efeito, pareciam continuar. Os rumores se aproximavam. A torre da residência do Tenente, situada diante da Grève, estava cheia de ruído e claridade, e viam-se soldados correrem pelo cais oposto, com tochas e estes gritos:
— A egípcia! Onde está a egípcia? Morte! Morte!
— Você vê que a perseguem e que não estou mentindo. Eu a amo. Não abra a boca; sobretudo não me fale, se for para dizer que me odeia. Estou decidido a não ouvir mais isso. Acabo de salvá-la. Deixe-me terminar primeiro. Posso salvá-la por completo. Preparei tudo. Depende de você querer. Como quiser, poderei.
Interrompeu-se violentamente.
— Não, não é isso que devo dizer.
E, correndo e fazendo-a correr, pois não a soltava, caminhou diretamente para o patíbulo e, apontando-o com o dedo, disse friamente:
— Escolha entre nós dois.
Ela arrancou-se de suas mãos e caiu ao pé do patíbulo, abraçando aquele apoio fúnebre. Depois virou a bela cabeça pela metade e olhou o padre por cima do ombro. Parecia uma Santa Virgem ao pé da cruz.
O padre permanecera imóvel, o dedo ainda erguido para o patíbulo, conservando o gesto como uma estátua.
Por fim, a egípcia lhe disse:
— Ele ainda me causa menos horror do que o senhor.
Então ele deixou o braço cair lentamente e olhou o calçamento com profundo abatimento.
— Se estas pedras pudessem falar — murmurou —, sim, diriam que aqui está um homem muito infeliz.
Retomou. A jovem, ajoelhada diante do patíbulo e afogada em seus longos cabelos, deixava-o falar sem interrompê-lo. Ele tinha agora um tom queixoso e suave, dolorosamente contrastante com a aspereza altiva de seus traços.
— Eu a amo. Oh! Isso é, no entanto, bem verdade. Não sai nada, então, para fora deste fogo que me queima o coração? Ai de mim! Jovem, noite e dia, sim, noite e dia, isso não merece piedade alguma? É um amor da noite e do dia, eu lhe digo, é uma tortura. Oh! Sofro demais, minha pobre criança! É coisa digna de compaixão, eu lhe asseguro. Vê que lhe falo com doçura. Eu gostaria muito que já não sentisse esse horror por mim. Afinal, um homem que ama uma mulher não tem culpa disso! Oh, meu Deus! Como! Você nunca me perdoará? Sempre me odiará? Então está acabado! É isso que me torna mau, está vendo, e horrível para mim mesmo! Você nem sequer olha para mim! Talvez esteja pensando em outra coisa enquanto lhe falo, de pé e trêmulo, no limite de nossa eternidade comum! Sobretudo, não me fale do oficial! Como! Eu me lançaria a seus joelhos, beijaria, não seus pés, você não permitiria, mas a terra que está sob seus pés; soluçaria como uma criança; arrancaria de meu peito, não palavras, mas meu coração e minhas entranhas, para lhe dizer que a amo; e tudo seria inútil, tudo! E, no entanto, você não tem na alma senão ternura e clemência; irradia a mais bela doçura; é toda suave, boa, misericordiosa e encantadora. Ai de mim! Só tem maldade para comigo! Oh! Que fatalidade!
Escondeu o rosto nas mãos. A jovem o ouviu chorar. Era a primeira vez. Assim, de pé e sacudido pelos soluços, estava mais miserável e mais suplicante do que de joelhos. Chorou durante algum tempo.
— Vamos! — prosseguiu, passadas as primeiras lágrimas. — Não encontro palavras. Contudo, eu havia pensado muito no que lhe diria. Agora tremo e estremeço, desfaleço no instante decisivo, sinto algo de supremo que nos envolve e balbucio. Oh! Vou cair sobre o calçamento se não tiver piedade de mim, piedade de você. Não nos condene a ambos. Se soubesse quanto a amo! Que coração é o meu coração! Oh! Que deserção de toda virtude! Que abandono desesperado de mim mesmo! Doutor, escarneço da ciência; fidalgo, rasgo meu nome; padre, faço do missal um travesseiro de luxúria, cuspo no rosto de meu Deus! Tudo isso por você, feiticeira! Para ser mais digno de seu inferno! E você não quer o condenado! Oh! Deixe-me dizer tudo! Mais ainda, algo mais horrível, oh, mais horrível!…
Ao pronunciar essas últimas palavras, seu aspecto tornou-se inteiramente desvairado. Calou-se por um instante e retomou, como se falasse consigo mesmo, em voz alta:
— Caim, que fizeste de teu irmão?
Houve outro silêncio. E prosseguiu:
— Que fiz dele, Senhor? Eu o recolhi, criei, alimentei, amei, idolatrava-o, e o matei! Sim, Senhor, acabam de esmagar-lhe a cabeça diante de mim contra a pedra de vossa casa, e foi por minha causa, por causa desta mulher, por causa dela…
Seu olhar estava alucinado. Sua voz se extinguia; ainda repetiu várias vezes, maquinalmente, com intervalos bastante longos, como um sino que prolonga a última vibração:
— Por causa dela… Por causa dela…
Depois sua língua já não articulou som perceptível algum, embora seus lábios continuassem a mover-se. De repente, abateu-se sobre si mesmo como uma coisa que desmorona e permaneceu no chão, imóvel, a cabeça entre os joelhos.
Um roçar da jovem, que retirava o pé de debaixo dele, fê-lo voltar a si. Passou lentamente a mão pelas faces cavadas e olhou por alguns instantes, estupefato, os dedos molhados.
— Como! — murmurou. — Eu chorei!
E, voltando-se subitamente para a egípcia com uma angústia inexprimível:
— Ai de mim! Você me viu chorar com frieza! Criança, sabe que essas lágrimas são lavas? Então é verdade: nada vindo do homem odiado comove. Você me veria morrer e riria. Oh! Eu não quero vê-la morrer! Uma palavra! Uma só palavra de perdão! Não me diga que me ama; diga apenas que consente, isso bastará, eu a salvarei. Senão… Oh! A hora passa. Eu lhe suplico por tudo o que é sagrado, não espere que eu torne a ser de pedra como este patíbulo que também a reclama! Pense que tenho nossos dois destinos na mão, que sou insensato, e isso é terrível; que posso deixar tudo cair e que há abaixo de nós um abismo sem fundo, infeliz, onde minha queda perseguirá a sua por toda a eternidade! Uma palavra de bondade! Diga uma palavra! Nada além de uma palavra!
Ela abriu a boca para responder. Ele se lançou de joelhos diante dela para recolher com adoração a palavra, talvez enternecida, que sairia de seus lábios. Ela lhe disse:
— O senhor é um assassino!
O padre tomou-a nos braços com furor e pôs-se a rir com um riso abominável.
— Pois bem, sim! Assassino! — disse ele. — E eu terei você. Não me quer como escravo, terá como senhor. Eu a terei! Tenho um covil para onde a arrastarei. Você me seguirá; será obrigada a me seguir, ou eu a entrego! É preciso morrer, bela, ou ser minha! Ser do padre! Ser do apóstata! Ser do assassino! Ainda esta noite, ouviu? Vamos! Alegria! Vamos! Beije-me, louca! A sepultura ou meu leito!
Seus olhos faiscavam de impureza e raiva. Sua boca lasciva avermelhava o pescoço da jovem. Ela se debatia em seus braços. Ele a cobria de beijos espumantes.
— Não me morda, monstro! — gritou ela. — Oh, monge odioso e infecto! Solte-me! Vou arrancar seus feios cabelos grisalhos e atirá-los em punhados na sua cara!
Ele enrubesceu, empalideceu, depois a soltou e olhou-a sombriamente. Ela se julgou vitoriosa e prosseguiu:
— Eu lhe digo que pertenço ao meu Phoebus, que é Phoebus que amo, que Phoebus é belo! O senhor, padre, é velho! É feio! Vá embora!
Ele soltou um grito violento, como o miserável a quem se aplica um ferro em brasa.
— Então morra! — disse entre dentes.
Ela viu seu olhar medonho e quis fugir. Ele a agarrou de novo, sacudiu-a, lançou-a ao chão e caminhou a passos rápidos para o canto da Tour-Roland, arrastando-a pelo calçamento pelas belas mãos.
Chegando ali, voltou-se para ela:
— Pela última vez, quer ser minha?
Ela respondeu com força:
— Não.
Então ele gritou em voz alta:
— Gudule! Gudule! Eis a egípcia! Vingue-se!
A jovem sentiu-se bruscamente agarrada pelo cotovelo. Olhou. Era um braço descarnado que saía de uma abertura no muro e a segurava como uma mão de ferro.
— Segure-a bem! — disse o padre. — É a egípcia que escapou. Não a solte. Vou buscar os sargentos. Você a verá enforcada.
Um riso gutural respondeu do interior do muro àquelas palavras sanguinárias:
— Ha! Ha! Ha!
A egípcia viu o padre afastar-se correndo na direção da Pont Notre-Dame. Ouvia-se uma cavalgada daquele lado.
A jovem reconhecera a reclusa maligna. Ofegante de terror, tentou libertar-se. Torceu-se, deu vários arrancos de agonia e desespero, mas a outra a segurava com força inaudita. Os dedos ossudos e magros que lhe machucavam a carne crispavam-se em torno dela e se tocavam. Parecia que aquela mão estava rebitada a seu braço. Era mais que uma corrente, mais que uma gargalheira, mais que um anel de ferro; era uma tenaz inteligente e viva que saía de um muro.
Exausta, ela tornou a cair contra a muralha, e então o medo da morte se apoderou dela. Pensou na beleza da vida, na juventude, na visão do céu, nos aspectos da natureza, no amor, em Phoebus, em tudo o que fugia e em tudo o que se aproximava, no padre que a denunciava, no carrasco que viria, no patíbulo que estava ali. Então sentiu o espanto subir-lhe até a raiz dos cabelos e ouviu o riso lúgubre da reclusa, que lhe dizia baixinho:
— Ha! Ha! Ha! Você vai ser enforcada!
Voltou-se, moribunda, para a abertura e viu o rosto feroz da emparedada através das grades.
— Que lhe fiz? — disse, quase sem vida.
A reclusa não respondeu; pôs-se a resmungar, com uma entonação cantante, irritada e zombeteira:
— Filha do Egito! Filha do Egito! Filha do Egito!
A infeliz Esmeralda deixou a cabeça cair sob os cabelos, compreendendo que não tinha diante de si um ser humano.
De repente, a reclusa exclamou, como se a pergunta da egípcia tivesse levado todo aquele tempo para chegar a seu pensamento:
— O que você me fez, pergunta? Ah! O que você me fez, egípcia! Pois bem, escute. Eu tinha uma criança, está vendo? Tinha uma criança! Uma criança, estou dizendo! Uma linda menininha! Minha Agnès — retomou, desvairada, beijando alguma coisa nas trevas. — Pois bem, está vendo, filha do Egito? Tiraram minha criança, roubaram minha criança, comeram minha criança. Foi isso que você me fez.
A jovem respondeu como um cordeiro:
— Ai de mim! Talvez eu nem tivesse nascido ainda!
— Oh, sim! — replicou a reclusa. — Devia ter nascido. Você estava entre elas. Ela teria sua idade! Assim! Há quinze anos estou aqui, quinze anos sofrendo, quinze anos rezando, quinze anos batendo a cabeça contra estas quatro paredes. Eu lhe digo que foram egípcias que a roubaram de mim, ouviu? E que a comeram com os dentes. Você tem coração? Imagine o que é uma criança que brinca, uma criança que mama, uma criança que dorme. É tão inocente! Pois bem, isso, foi isso que tiraram de mim, que mataram! O bom Deus bem sabe! Hoje é minha vez, vou comer uma egípcia. Oh! Como eu a morderia se as grades não me impedissem! Minha cabeça é grande demais! A pobrezinha! Enquanto dormia! E, se a despertaram ao levá-la, de nada adiantou gritar, eu não estava lá! Ah! Mães egípcias, vocês comeram minha criança! Venham ver a de vocês.
Então pôs-se a rir ou a ranger os dentes; as duas coisas se pareciam naquele rosto furioso. O dia começava a nascer. Um reflexo de cinza iluminava vagamente a cena, e o patíbulo tornava-se cada vez mais distinto na praça. Do outro lado, em direção à Pont Notre-Dame, a pobre condenada julgava ouvir aproximar-se o ruído da cavalaria.
— Senhora! — gritou ela, juntando as mãos e caindo de joelhos, desgrenhada, perdida, louca de medo. — Senhora, tenha piedade. Eles vêm. Não lhe fiz nada. Quer me ver morrer dessa maneira horrível diante de seus olhos? A senhora tem piedade, tenho certeza. É terrível demais. Deixe-me fugir. Solte-me! Graça! Não quero morrer assim!
— Devolva minha criança! — disse a reclusa.
— Graça! Graça!
— Devolva minha criança!
— Solte-me, em nome do céu!
— Devolva minha criança!
Desta vez ainda, a jovem tornou a cair, exausta, quebrada, já com o olhar vítreo de quem está na cova.
— Ai de mim! — balbuciou. — A senhora procura sua criança. Eu procuro meus pais.
— Devolva minha pequena Agnès! — continuou Gudule. — Você não sabe onde ela está? Então morra! Vou lhe contar. Eu era uma moça de prazer, tinha uma criança, tiraram minha criança de mim. Foram as egípcias. Você vê que precisa morrer. Quando sua mãe egípcia vier reclamá-la, eu lhe direi: “Mãe, olhe para aquele patíbulo!” Ou então devolva minha criança. Sabe onde está minha menininha? Espere, vou mostrar. Aqui está seu sapato, tudo o que me resta dela. Sabe onde está o par? Se sabe, diga-me, e ainda que esteja no outro extremo da terra, irei buscá-lo caminhando de joelhos.
Enquanto falava, com o outro braço estendido para fora da abertura, mostrava à egípcia o sapatinho bordado. Já havia luz suficiente para distinguir-lhe a forma e as cores.
— Mostre-me esse sapato — disse a egípcia, estremecendo. — Deus! Deus!
Ao mesmo tempo, com a mão que tinha livre, abria vivamente o pequeno saquinho ornamentado com contas verdes que trazia ao pescoço.
— Vá! Vá! — resmungava Gudule. — Revire seu amuleto do demônio!
De repente, interrompeu-se, tremeu no corpo inteiro e gritou com uma voz vinda do mais profundo das entranhas:
— Minha filha!
A egípcia acabava de tirar do saquinho um pequeno sapato absolutamente igual ao outro. Preso a ele havia um pergaminho no qual estava escrito este dístico:
> Quando o igual deste sapatinho for encontrado,
> Tua mãe te estenderá os braços.
Em menos tempo do que leva um relâmpago, a reclusa comparara os dois sapatos, lera a inscrição do pergaminho e colara às grades da abertura o rosto radiante de alegria celestial, gritando:
— Minha filha! Minha filha!
— Minha mãe! — respondeu a egípcia.
Aqui renunciamos a pintar.
A parede e as grades de ferro estavam entre as duas.
— Oh, a parede! — gritou a reclusa. — Vê-la e não abraçá-la! Sua mão! Sua mão!
A jovem passou-lhe o braço pela abertura. A reclusa lançou-se sobre aquela mão, colou-lhe os lábios e ali permaneceu, abismada naquele beijo, sem dar outro sinal de vida além de um soluço que de tempos em tempos lhe erguia os flancos. Contudo, chorava a torrentes, em silêncio, na sombra, como uma chuva noturna. A pobre mãe esvaziava em ondas sobre aquela mão adorada o poço negro e profundo de lágrimas que trazia dentro de si e onde toda a sua dor se infiltrara, gota a gota, durante quinze anos.
De repente, levantou-se, afastou os longos cabelos grisalhos da testa e, sem dizer palavra, pôs-se a sacudir com as duas mãos as grades de sua cela, mais furiosamente que uma leoa. As grades resistiram. Então foi buscar num canto da cela uma grande pedra que lhe servia de travesseiro e lançou-a contra elas com tanta violência que uma das barras se partiu, lançando mil faíscas. Um segundo golpe derrubou por completo a velha cruz de ferro que barricava a abertura. Então, com as duas mãos, acabou de romper e afastar os pedaços enferrujados das grades. Há momentos em que as mãos de uma mulher têm força sobre-humana.
Aberta a passagem, e foi preciso menos de um minuto para isso, agarrou a filha pelo meio do corpo e puxou-a para dentro da cela.
— Venha! Deixe-me pescá-la de volta do abismo! — murmurava.
Quando a filha estava na cela, pousou-a suavemente no chão, depois tornou a tomá-la e, carregando-a nos braços como se ainda fosse apenas sua pequena Agnès, ia e vinha pela estreita morada, embriagada, frenética, jubilosa, gritando, cantando, beijando a filha, falando-lhe, explodindo em riso, desfazendo-se em lágrimas, tudo ao mesmo tempo e com arrebatamento.
— Minha filha! Minha filha! — dizia. — Tenho minha filha! Aqui está ela. O bom Deus a devolveu a mim. Ei, vocês! Venham todos! Há alguém aí para ver que tenho minha filha? Senhor Jesus, como ela é bela! Vós me fizestes esperar quinze anos, meu bom Deus, mas era para devolvê-la bela. Então as egípcias não a comeram! Quem disse isso? Minha menininha! Minha menininha! Beije-me. Boas egípcias! Eu amo as egípcias. É mesmo você. Então era por isso que meu coração saltava cada vez que passava. E eu pensava que era ódio! Perdoe-me, minha Agnès, perdoe-me. Você me achou muito má, não achou? Eu a amo. Seu pequeno sinal no pescoço, ainda o tem? Deixe-me ver. Ainda está aí. Oh, você é bela! Fui eu que lhe fiz esses olhos grandes, senhorita. Beije-me. Eu a amo. Não me importa que as outras mães tenham filhos; pouco me importam agora. Que venham. Aqui está a minha. Aqui estão seu pescoço, seus olhos, seus cabelos, sua mão. Encontrem para mim alguma coisa tão bela! Oh, eu lhes garanto que esta terá amantes! Chorei quinze anos. Toda a minha beleza se foi e passou para ela. Beije-me!
Dizia-lhe mil outros despropósitos cuja beleza estava toda no tom, desarranjava as roupas da pobre jovem até fazê-la corar, alisava-lhe com a mão os cabelos de seda, beijava-lhe o pé, o joelho, a testa, os olhos, extasiava-se com tudo. A jovem deixava que fizesse, repetindo a intervalos, muito baixo e com infinita doçura:
— Minha mãe!
— Está vendo, minha menininha — retomava a reclusa, entrecortando todas as palavras com beijos —, está vendo, eu a amarei muito. Iremos embora daqui. Seremos muito felizes. Herdei alguma coisa em Reims, em nossa terra. Você sabe, Reims? Ah, não, não sabe, era pequena demais! Se soubesse como era bonita aos quatro meses! Uns pezinhos que vinham ver por curiosidade desde Épernay, que fica a sete léguas! Teremos um campo, uma casa. Eu a deitarei na minha cama. Meu Deus! Meu Deus! Quem acreditaria nisso? Tenho minha filha!
— Oh, minha mãe! — disse a jovem, encontrando enfim forças para falar em sua emoção. — A egípcia bem me havia dito. Há uma boa egípcia das nossas que morreu no ano passado e que sempre cuidou de mim como uma ama. Foi ela que pôs este saquinho em meu pescoço. Dizia-me sempre: “Pequena, guarde bem esta joia. É um tesouro. Fará você reencontrar sua mãe. Você carrega sua mãe no pescoço.” Ela havia predito, a egípcia!
A emparedada tornou a apertar a filha nos braços.
— Venha, deixe-me beijá-la! Você diz isso com tanta graça. Quando estivermos em nossa terra, calçaremos um Menino Jesus de igreja com os sapatinhos. Devemos isso à boa Santa Virgem. Meu Deus, que voz bonita você tem! Quando me falava ainda há pouco, era música! Ah, meu Deus Senhor! Reencontrei minha filha! Mas é possível acreditar numa história assim? Ninguém morre de coisa alguma, pois eu não morri de alegria.
E tornou a bater palmas, a rir e a gritar:
— Seremos felizes!
Nesse momento, a cela retumbou com um tilintar de armas e um galope de cavalos que pareciam desembocar da Pont Notre-Dame e avançar cada vez mais pelo cais. A egípcia lançou-se angustiada nos braços da emparedada.
— Salve-me! Salve-me, minha mãe! Eles vêm aí!
A reclusa empalideceu.
— Oh, céu! Que está dizendo? Eu me esquecera! Perseguem você! Que fez?
— Não sei — respondeu a infeliz criança —, mas fui condenada à morte.
— Morrer! — disse Gudule, cambaleando como sob um raio. — Morrer! — repetiu lentamente, olhando a filha com o olho fixo.
— Sim, minha mãe — retomou a jovem, desvairada. — Querem me matar. Estão vindo me buscar. Aquela forca é para mim! Salve-me! Salve-me! Estão chegando! Salve-me!
A reclusa permaneceu alguns instantes imóvel, como petrificada; depois moveu a cabeça em sinal de dúvida e, de repente, soltou uma gargalhada, mas aquela gargalhada assustadora que lhe voltara:
— Oh! Oh! Não! Isso que me conta é um sonho. Ah, sim! Eu a teria perdido, isso teria durado quinze anos; depois eu a reencontraria, e duraria um minuto! E a tirariam de mim de novo! E agora que ela é bela, que cresceu, que fala comigo, que me ama, é agora que viriam comê-la diante de meus olhos, diante de mim, que sou a mãe! Oh, não! Coisas assim não são possíveis. O bom Deus não permite coisas assim.
Nesse momento, a cavalgada pareceu parar, e ouviu-se uma voz distante dizer:
— Por aqui, messire Tristan! O padre disse que a encontraríamos no Trou aux Rats.
O ruído dos cavalos recomeçou.
A reclusa levantou-se com um grito desesperado.
— Fuja! Fuja, minha filha! Tudo me volta à memória. Você tem razão. É sua morte! Horror! Maldição! Fuja!
Pôs a cabeça para fora da abertura e recolheu-a depressa.
— Fique — disse em voz baixa, breve e lúgubre, apertando convulsivamente a mão da egípcia, mais morta que viva. — Fique! Não respire! Há soldados por toda parte. Você não pode sair. Está claro demais.
Seus olhos estavam secos e ardentes. Permaneceu um momento sem falar. Apenas caminhava a passos largos pela cela e parava a intervalos para arrancar punhados de cabelos grisalhos, que depois dilacerava com os dentes.
De repente, disse:
— Eles se aproximam. Vou falar com eles. Esconda-se naquele canto. Não a verão. Eu lhes direi que você fugiu, que a soltei, por minha fé!
Pôs a filha, pois ainda a carregava, num canto da cela que não se via de fora. Fez com que se agachasse, arrumou-a cuidadosamente para que nem o pé nem a mão ultrapassassem a sombra, soltou-lhe os cabelos negros, que espalhou sobre o vestido branco para mascará-la, colocou diante dela a bilha e a pedra, os únicos móveis que possuía, imaginando que a bilha e a pedra a esconderiam. E, quando terminou, mais tranquila, ajoelhou-se e rezou. O dia, que apenas começava a nascer, ainda deixava muitas trevas no Trou aux Rats.
Nesse instante, a voz do padre, aquela voz infernal, passou muito perto da cela, gritando:
— Por aqui, capitão Phoebus de Châteaupers!
Ao ouvir aquele nome, aquela voz, Esmeralda, escondida em seu canto, fez um movimento.
— Não se mexa! — disse Gudule.
Mal terminara de falar quando um tumulto de homens, espadas e cavalos parou em torno da cela. A mãe levantou-se depressa e foi postar-se diante da abertura para tapá-la. Viu uma grande tropa de homens armados, a pé e a cavalo, disposta na Grève. Aquele que os comandava desmontou e veio até ela.
— Velha — disse esse homem, que tinha um rosto atroz —, procuramos uma feiticeira para enforcá-la; disseram-nos que você a tinha.
A pobre mãe assumiu o ar mais indiferente que pôde e respondeu:
— Não sei bem o que o senhor quer dizer.
O outro retomou:
— Cabeça de Deus! Que cantava então aquele alucinado do arquidiácono? Onde está ele?
— Monsenhor — disse um soldado —, desapareceu.
— Ora, velha louca — replicou o comandante —, não minta. Deram-lhe uma feiticeira para guardar. Que fez dela?
A reclusa não quis negar tudo, temendo despertar suspeitas, e respondeu com um tom sincero e rude:
— Se fala de uma moça alta que penduraram em minhas mãos há pouco, direi que ela me mordeu e eu a soltei. Pronto. Deixem-me em paz.
O comandante fez uma careta de desapontamento.
— Não vá mentir para mim, velho espectro — retomou. — Chamo-me Tristan l’Hermite e sou compadre do rei. Tristan l’Hermite, ouviu?
Acrescentou, olhando em torno para a place de Grève:
— É um nome que tem eco aqui.
— Ainda que fosse Satan l’Hermite — replicou Gudule, que recobrava a esperança —, eu não teria outra coisa a lhe dizer nem medo do senhor.
— Cabeça de Deus! — disse Tristan. — Eis uma comadre e tanto! Ah, a feiticeira fugiu! E por onde foi?
Gudule respondeu em tom descuidado:
— Pela rue du Mouton, creio.
Tristan virou a cabeça e fez sinal à tropa para se preparar a partir. A reclusa respirou.
— Monsenhor — disse de repente um arqueiro —, pergunte à velha fada por que as grades da abertura estão desfeitas assim.
A pergunta fez a angústia voltar ao coração da infeliz mãe. Contudo, não perdeu inteiramente a lucidez.
— Sempre foram assim — balbuciou.
— Ora essa! — replicou o arqueiro. — Ainda ontem formavam uma bela cruz negra que inspirava devoção.
Tristan lançou um olhar oblíquo à reclusa.
— Creio que a comadre está perturbada!
A infeliz sentiu que tudo dependia de sua firmeza e, com a morte na alma, pôs-se a rir entre dentes. As mães têm forças assim.
— Ora! — disse ela. — Esse homem está bêbado. Faz mais de um ano que a traseira de uma carroça de pedras bateu na minha abertura e arrebentou a grade. Até insultei o carroceiro!
— É verdade — disse outro arqueiro. — Eu estava aqui.
Sempre se encontram por toda parte pessoas que viram tudo. Esse testemunho inesperado do arqueiro reanimou a reclusa, a quem o interrogatório fazia atravessar um abismo sobre o fio de uma faca.
Mas ela estava condenada a uma alternância contínua de esperança e alarme.
— Se foi uma carroça que fez isso — replicou o primeiro soldado —, os pedaços das barras deveriam estar empurrados para dentro, ao passo que estão curvados para fora.
— Ei, ei! — disse Tristan ao soldado. — Você tem nariz de investigador do Châtelet. Responda ao que ele diz, velha!
— Meu Deus! — exclamou ela, encurralada, com a voz involuntariamente cheia de lágrimas. — Eu lhe juro, monsenhor, que foi uma carroça que quebrou essas barras. O senhor ouviu que este homem viu. E, além disso, o que isso tem a ver com sua egípcia?
— Hum! — resmungou Tristan.
— Diabo! — retomou o soldado, lisonjeado pelo elogio do preboste. — As fraturas do ferro estão novinhas!
Tristan balançou a cabeça. Ela empalideceu.
— Há quanto tempo, diz você, aconteceu isso com a carroça?
— Um mês, talvez quinze dias, monsenhor. Já não sei.
— Primeiro ela disse mais de um ano — observou o soldado.
— Isto é suspeito! — disse o preboste.
— Monsenhor — gritou ela, sempre colada diante da abertura e tremendo de que a suspeita os levasse a enfiar a cabeça e olhar para dentro da cela —, monsenhor, eu lhe juro que foi uma carroça que quebrou esta grade. Juro pelos santos anjos do paraíso. Se não foi uma carroça, quero ser eternamente condenada e renego Deus!
— Você põe muito calor nesse juramento! — disse Tristan com seu olhar de inquisidor.
A pobre mulher sentia sua segurança desvanecer-se cada vez mais. Começava a cometer erros e compreendia com terror que não dizia o que deveria dizer.
Nesse momento, outro soldado chegou gritando:
— Monsenhor, a velha fada mente. A feiticeira não fugiu pela rue du Mouton. A corrente da rua permaneceu estendida a noite inteira, e o guarda da corrente não viu ninguém passar.
Tristan, cuja fisionomia se tornava mais sinistra a cada instante, interpelou a reclusa:
— Que tem a dizer sobre isso?
Ela ainda tentou enfrentar o novo incidente:
— Que não sei, monsenhor, que posso ter me enganado. Creio que ela atravessou a água, na verdade.
— É o lado oposto — disse o preboste. — E não parece muito provável que tenha querido voltar à Cité, onde era perseguida. Você mente, velha!
— E depois — acrescentou o primeiro soldado —, não há barco nem deste lado da água nem do outro.
— Terá passado a nado — replicou a reclusa, defendendo o terreno palmo a palmo.
— Mulheres nadam? — disse o soldado.
— Cabeça de Deus! Velha, você mente! Mente! — retomou Tristan, colérico. — Tenho muita vontade de deixar essa feiticeira de lado e enforcar você. Um quarto de hora de tortura talvez lhe arranque a verdade da garganta. Vamos! Você vai nos acompanhar.
Ela agarrou aquelas palavras com avidez.
— Como quiser, monsenhor. Faça isso. Faça. A tortura, aceito. Leve-me. Depressa, depressa! Partamos agora mesmo.
“Durante esse tempo”, pensava ela, “minha filha fugirá.”
— Morte de Deus! — disse o preboste. — Que apetite pelo cavalete! Não compreendo nada dessa louca.
Um velho sargento da guarda, de cabeça grisalha, saiu das fileiras e dirigiu-se ao preboste:
— Louca, com efeito, monsenhor! Se soltou a egípcia, não foi por culpa dela, pois não gosta de egípcias. Há quinze anos faço a guarda e todas as noites a ouço amaldiçoar as mulheres boêmias com imprecações sem fim. Se aquela que perseguimos é, como creio, a pequena dançarina da cabra, ela odeia sobretudo essa.
Gudule fez um esforço e disse:
— Sobretudo essa.
O testemunho unânime dos homens da guarda confirmou ao preboste as palavras do velho sargento. Tristan l’Hermite, desesperando de arrancar qualquer coisa da reclusa, voltou-lhe as costas, e ela o viu, com ansiedade inexprimível, caminhar lentamente para o cavalo.
— Vamos — dizia ele entre os dentes —, em marcha! Retomemos a busca. Não dormirei enquanto a egípcia não for enforcada.
Entretanto, ainda hesitou por algum tempo antes de montar. Gudule palpitava entre a vida e a morte ao vê-lo percorrer a praça com o ar inquieto de um cão de caça que sente perto de si o covil da presa e resiste a afastar-se. Por fim, ele sacudiu a cabeça e saltou à sela. O coração de Gudule, tão horrivelmente comprimido, dilatou-se, e ela disse em voz baixa, lançando um olhar à filha, para quem ainda não ousara olhar desde que eles estavam ali:
— Salva!
A pobre criança permanecera todo aquele tempo em seu canto, sem respirar, sem se mover, com a ideia da morte em pé diante dela. Nada perdera da cena entre Gudule e Tristan, e cada uma das angústias da mãe repercutira nela. Ouvira todos os estalos sucessivos do fio que a mantinha suspensa sobre o abismo; vinte vezes julgara vê-lo romper-se, e começava enfim a respirar e a sentir o pé em terra firme. Nesse momento, ouviu uma voz dizer ao preboste:
— Corpo de boi, senhor preboste, não é meu ofício, a mim, homem de armas, enforcar feiticeiras. A canalha do povo está abatida. Deixo-o trabalhar sozinho. O senhor achará bom que eu vá reunir-me à minha companhia, pois ela está sem capitão.
Aquela voz era a de Phoebus de Châteaupers. O que se passou dentro dela é inexprimível. Ele estava ali, portanto, seu amigo, seu protetor, seu apoio, seu asilo, seu Phoebus! Levantou-se e, antes que a mãe pudesse impedi-la, lançou-se à abertura, gritando:
— Phoebus! Socorro, meu Phoebus!
Phoebus já não estava ali. Acabara de dobrar a galope a esquina da rue de la Coutellerie. Mas Tristan ainda não partira.
A reclusa lançou-se sobre a filha com um rugido. Puxou-a violentamente para trás, cravando-lhe as unhas no pescoço. Uma mãe tigresa não olha tão de perto. Mas era tarde demais. Tristan vira.
— Ei, ei! — exclamou ele, com um riso que lhe descalçava todos os dentes e fazia seu rosto parecer o focinho de um lobo. — Dois ratos na ratoeira!
— Eu desconfiava — disse o soldado.
Tristan bateu-lhe no ombro.
— Você é um bom gato! Vamos — acrescentou —, onde está Henriet Cousin?
Um homem que não tinha nem a roupa nem o aspecto dos soldados saiu das fileiras. Vestia um traje metade cinza, metade castanho, tinha os cabelos lisos, mangas de couro e um feixe de cordas na mão grossa. Esse homem acompanhava sempre Tristan, que acompanhava sempre Luís XI.
— Amigo — disse Tristan l’Hermite —, suponho que aí está a feiticeira que procurávamos. Você vai enforcar isso. Tem sua escada?
— Há uma ali, sob o telheiro da Maison-aux-Piliers — respondeu o homem. — É naquela justiça que faremos a coisa? — prosseguiu, apontando o patíbulo de pedra.
— Sim.
— Oh, ei! — retomou o homem, com um riso grosso ainda mais bestial que o do preboste. — Não teremos muito caminho a fazer.
— Depressa! — disse Tristan. — Você rirá depois.
Entretanto, desde que Tristan vira sua filha e toda esperança se perdera, a reclusa ainda não pronunciara palavra. Atirara a pobre egípcia, semimorta, no canto do cárcere e tornara a postar-se diante da abertura, as duas mãos apoiadas nos ângulos do entablamento como duas garras. Nessa atitude, viam-na passear intrépida sobre todos os soldados seu olhar, que tornara a ficar feroz e insensato. No momento em que Henriet Cousin se aproximou da cela, ela lhe fez um rosto tão selvagem que ele recuou.
— Monsenhor — disse, voltando ao preboste —, qual delas devo pegar?
— A jovem.
— Tanto melhor. Porque a velha parece difícil.
— Pobre pequena dançarina da cabra! — disse o velho sargento da guarda.
Henriet Cousin tornou a aproximar-se da abertura. O olhar da mãe fez baixar o dele. Disse, um tanto timidamente:
— Senhora…
Ela o interrompeu com voz muito baixa e furiosa:
— Que quer?
— Não é a senhora — disse ele —, é a outra.
— Que outra?
— A jovem.
Ela começou a sacudir a cabeça, gritando:
— Não há ninguém! Não há ninguém! Não há ninguém!
— Há, sim! — retomou o carrasco. — A senhora bem sabe. Deixe-me pegar a jovem. Não quero lhe fazer mal.
Ela disse com um riso estranho:
— Ah! Você não quer me fazer mal!
— Deixe-me pegar a outra, senhora; é o senhor preboste quem quer.
Ela repetiu com ar de loucura:
— Não há ninguém.
— Eu lhe digo que há! — replicou o carrasco. — Todos vimos que eram duas.
— Então olhe! — disse a reclusa, rindo. — Enfie a cabeça pela abertura.
O carrasco examinou as unhas da mãe e não ousou.
— Depressa! — gritou Tristan, que acabava de dispor a tropa em círculo ao redor do Trou aux Rats e permanecia a cavalo perto do patíbulo.
Henriet voltou ao preboste mais uma vez, muito embaraçado. Pusera a corda no chão e enrolava desajeitadamente o chapéu entre as mãos.
— Monsenhor — perguntou —, por onde se entra?
— Pela porta.
— Não há porta.
— Pela janela.
— É estreita demais.
— Alargue-a — disse Tristan, colérico. — Não tem picaretas?
Do fundo do antro, a mãe, sempre alerta, observava. Já não esperava coisa alguma, não sabia mais o que queria, mas não queria que lhe tirassem a filha.
Henriet Cousin foi buscar a caixa de ferramentas das baixas obras sob o telheiro da Maison-aux-Piliers. Tirou também a escada dupla, que aplicou imediatamente ao patíbulo. Cinco ou seis homens da prebostaria armaram-se de picaretas e alavancas, e Tristan dirigiu-se com eles para a abertura.
— Velha — disse o preboste em tom severo —, entregue-nos essa moça de boa vontade.
Ela o olhou como quem não compreende.
— Cabeça de Deus! — retomou Tristan. — Que tem você contra o fato de essa feiticeira ser enforcada, como apraz ao rei?
A infeliz pôs-se a rir com seu riso feroz.
— Que tenho contra? É minha filha.
O tom com que pronunciou essa palavra fez estremecer o próprio Henriet Cousin.
— Lamento — replicou o preboste. — Mas é a boa vontade do rei.
Ela gritou, redobrando o riso terrível:
— Que me importa seu rei? Eu lhe digo que é minha filha!
— Abram a parede — disse Tristan.
Bastava, para praticar uma abertura suficientemente larga, retirar uma fiada de pedra abaixo da janela. Quando a mãe ouviu as picaretas e alavancas minarem sua fortaleza, soltou um grito espantoso; depois pôs-se a girar com velocidade assustadora em torno da cela, hábito de fera que a jaula lhe dera. Já não dizia nada, mas seus olhos flamejavam. Os soldados sentiam o coração gelar.
De repente, ela tomou sua pedra, riu e lançou-a com as duas mãos sobre os trabalhadores. Mal arremessada, pois suas mãos tremiam, a pedra não atingiu ninguém e parou sob os pés do cavalo de Tristan. Ela rangeu os dentes.
Entretanto, embora o sol ainda não tivesse nascido, era pleno dia; uma bela tonalidade cor-de-rosa alegrava as velhas chaminés carcomidas da Maison-aux-Piliers. Era a hora em que as janelas mais madrugadoras da grande cidade se abrem alegremente sobre os telhados. Alguns camponeses, alguns vendedores de frutas a caminho das Halles em seus burros, começavam a atravessar a Grève; paravam um instante diante daquele grupo de soldados amontoados em torno do Trou aux Rats, contemplavam-no com ar espantado e seguiam adiante.
A reclusa fora sentar-se junto à filha, cobrindo-a com o corpo, diante dela, o olhar fixo, escutando a pobre criança, que não se movia e murmurava baixinho, como única palavra:
— Phoebus! Phoebus!
À medida que o trabalho dos demolidores parecia avançar, a mãe recuava maquinalmente e apertava a jovem cada vez mais contra a parede. De repente, a reclusa viu a pedra, pois montava guarda e não a tirava dos olhos, abalar-se, e ouviu a voz de Tristan encorajar os trabalhadores. Então saiu do abatimento em que caíra havia alguns instantes e gritou; e, enquanto falava, sua voz ora rasgava o ouvido como uma serra, ora balbuciava como se todas as maldições se comprimissem em seus lábios para explodir ao mesmo tempo:
— Oh! Oh! Oh! Mas é horrível! Vocês são bandidos! Vão mesmo tirar minha filha de mim? Eu lhes digo que é minha filha! Oh, covardes! Oh, lacaios carrascos! Miseráveis criados assassinos! Socorro! Socorro! Fogo! Mas vão tirar minha criança de mim assim? Quem é, então, que chamam de bom Deus?
Então, dirigindo-se a Tristan, espumante, o olhar alucinado, de quatro como uma pantera, toda eriçada:
— Aproxime-se um pouco para tirar minha filha! Não compreende quando uma mulher lhe diz que é sua filha? Sabe o que é ter uma criança? Ei, lobo-cerval, nunca se deitou com sua loba? Nunca teve um lobinho? E, se tem filhotes, quando eles uivam, não há nada em suas entranhas que se remexa?
— Derrubem a pedra — disse Tristan. — Já não se sustenta.
As alavancas ergueram a pesada fiada. Era, como dissemos, o último baluarte da mãe. Ela se lançou sobre a pedra, quis retê-la, arranhou-a com as unhas, mas o bloco maciço, posto em movimento por seis homens, escapou-lhe e deslizou suavemente até o chão ao longo das alavancas de ferro.
A mãe, vendo a entrada aberta, caiu atravessada diante dela, barricando a brecha com o corpo, torcendo os braços, batendo a cabeça na laje e gritando com voz rouca de cansaço, quase inaudível:
— Socorro! Fogo! Fogo!
— Agora, peguem a moça — disse Tristan, sempre impassível.
A mãe olhou os soldados de maneira tão formidável que eles tinham mais vontade de recuar do que de avançar.
— Vamos — retomou o preboste. — Henriet Cousin, você!
Ninguém deu um passo.
O preboste praguejou:
— Cabeça de Cristo! Meus homens de guerra! Com medo de uma mulher!
— Monsenhor — disse Henriet —, chama isso de mulher?
— Ela tem uma juba de leão! — disse outro.
— Vamos! — replicou o preboste. — A abertura é larga o bastante. Entrem três de frente, como na brecha de Pontoise. Acabemos com isso, morte de Maomé! O primeiro que recuar, corto-o em dois!
Colocados entre o preboste e a mãe, ambos ameaçadores, os soldados hesitaram um momento; depois, tomando uma decisão, avançaram para o Trou aux Rats.
Quando a reclusa viu isso, ergueu-se bruscamente sobre os joelhos, afastou os cabelos do rosto e deixou cair as mãos magras e esfoladas sobre as coxas. Então grossas lágrimas saíram uma a uma de seus olhos; desciam por uma ruga ao longo das faces como uma torrente pelo leito que cavou. Ao mesmo tempo, pôs-se a falar, mas com voz tão suplicante, tão doce, tão submissa e tão pungente que, ao redor de Tristan, mais de um velho esbirro capaz de comer carne humana enxugava os olhos.
— Monsenhores! Senhores sargentos, uma palavra! Há uma coisa que preciso lhes dizer. É minha filha, estão vendo? Minha querida menininha que eu havia perdido! Escutem. É uma história. Imaginem que conheço muito bem os senhores sargentos. Sempre foram bons comigo no tempo em que os meninos me atiravam pedras porque eu vivia de amores. Estão vendo? Vocês me deixarão minha criança quando souberem! Sou uma pobre moça de prazer. Foram as boêmias que a roubaram de mim. Guardei seu sapato durante quinze anos. Aqui está. Ela tinha este pé. Em Reims! La Chantefleurie! Rue Folle-Peine! Talvez tenham conhecido. Era eu. Na juventude de vocês, então, eram bons tempos. Passávamos bons quartos de hora. Terão piedade de mim, não terão, monsenhores? As egípcias a roubaram, esconderam-na de mim durante quinze anos. Eu a julgava morta. Imaginem, bons amigos, eu a julgava morta. Passei quinze anos aqui, nesta cave, sem fogo no inverno. É duro. O pobre e querido sapatinho! Gritei tanto que o bom Deus me ouviu. Esta noite, devolveu-me minha filha. É um milagre do bom Deus. Ela não estava morta. Vocês não a tirarão de mim, tenho certeza. Se fosse eu, não diria nada, mas ela, uma criança de dezesseis anos! Deixem-lhe tempo de ver o sol! Que lhes fez? Nada. Eu também não. Se soubessem que só tenho a ela, que estou velha, que é uma bênção que a Santa Virgem me envia. E depois, vocês são todos tão bons! Não sabiam que era minha filha; agora sabem. Oh, eu a amo! Senhor grande preboste, eu preferiria um buraco nas entranhas a um arranhão no dedo dela! O senhor tem aspecto de bom senhor! O que lhe digo explica a coisa, não é verdade? Oh, se teve mãe, monsenhor! O senhor é o capitão, deixe-me minha criança! Considere que lhe peço de joelhos, como se pede a Jesus Cristo! Não peço nada a ninguém; sou de Reims, monsenhores, tenho um pequeno campo de meu tio Mahiet Pradon. Não sou mendiga. Não quero nada, mas quero minha criança! Oh, quero guardar minha criança! O bom Deus, que é o senhor, não a devolveu a mim sem motivo! O rei! Vocês dizem o rei! Isso não lhe dará grande prazer, afinal, matar minha menininha! E depois o rei é bom! É minha filha! É minha filha, minha! Ela não pertence ao rei! Não pertence a vocês! Quero ir embora! Queremos ir embora! Afinal, duas mulheres que passam, uma mãe e uma filha, deixam-nas passar! Deixem-nos passar! Somos de Reims. Oh, vocês são muito bons, senhores sargentos, eu amo todos vocês. Não tirarão de mim minha querida pequena, é impossível! Não é verdade que é inteiramente impossível? Minha criança! Minha criança!
Não tentaremos dar ideia de seus gestos, de seu tom, das lágrimas que bebia enquanto falava, das mãos que juntava e depois torcia, dos sorrisos dolorosos, dos olhares afogados, dos gemidos, suspiros, gritos miseráveis e penetrantes que misturava às palavras desordenadas, loucas e desconexas. Quando se calou, Tristan l’Hermite franziu a testa, mas era para esconder uma lágrima que rolava em seu olho de tigre. Contudo, venceu essa fraqueza e disse em tom breve:
— O rei quer.
Depois inclinou-se ao ouvido de Henriet Cousin e disse-lhe baixinho:
— Acabe depressa!
Talvez o temível preboste sentisse o coração faltar também.
O carrasco e os sargentos entraram na cela. A mãe não ofereceu resistência; apenas se arrastou até a filha e lançou-se de corpo inteiro sobre ela. A egípcia viu os soldados aproximarem-se. O horror da morte a reanimou.
— Minha mãe! — gritou com um tom inexprimível de aflição. — Minha mãe! Eles vêm! Defenda-me!
— Sim, meu amor, eu a defendo! — respondeu a mãe com voz apagada e, apertando-a estreitamente nos braços, cobriu-a de beijos.
As duas assim no chão, a mãe sobre a filha, ofereciam um espetáculo digno de piedade.
Henriet Cousin tomou a jovem pelo meio do corpo, sob seus belos ombros. Quando sentiu aquela mão, ela soltou um “Ah!” e desmaiou. O carrasco, que deixava cair sobre ela, gota a gota, grossas lágrimas, quis levantá-la nos braços. Tentou desprender a mãe, que havia, por assim dizer, amarrado as duas mãos em torno da cintura da filha, mas ela estava agarrada com tanta força à criança que foi impossível separá-las. Henriet Cousin então arrastou a jovem para fora da cela, e a mãe atrás dela. A mãe também mantinha os olhos fechados.
O sol nascia naquele momento, e já havia na praça um bom ajuntamento de gente olhando de longe o que assim arrastavam pelo calçamento em direção ao patíbulo. Pois esse era o costume do preboste Tristan nas execuções. Tinha a mania de impedir que os curiosos se aproximassem.
Não havia ninguém nas janelas. Via-se apenas, ao longe, no alto de uma das torres de Notre-Dame que domina a Grève, dois homens recortados em negro contra o claro céu da manhã, que pareciam olhar.
Henriet Cousin parou com o que arrastava ao pé da escada fatal e, mal respirando, de tanto que a coisa o comovia, passou a corda ao redor do pescoço adorável da jovem. A infeliz criança sentiu o toque horrível do cânhamo. Ergueu as pálpebras e viu o braço descarnado do patíbulo de pedra estendido acima de sua cabeça. Então sacudiu-se e gritou com voz alta e dilacerante:
— Não! Não! Eu não quero!
A mãe, cuja cabeça estava enterrada e perdida sob as roupas da filha, não disse palavra; apenas se viu todo o seu corpo estremecer e ouviu-se que redobrava os beijos na criança. O carrasco aproveitou esse momento para desprender depressa os braços com que ela abraçava a condenada. Fosse por esgotamento, fosse por desespero, ela o deixou fazer. Então ele tomou a jovem sobre o ombro, de onde a encantadora criatura pendia, graciosamente dobrada em dois, sobre sua grande cabeça. Depois pôs o pé na escada para subir.
Nesse momento, a mãe, agachada sobre o calçamento, abriu inteiramente os olhos. Sem soltar um grito, endireitou-se com uma expressão terrível; depois, como uma fera sobre a presa, lançou-se sobre a mão do carrasco e mordeu-a. Foi um relâmpago. O carrasco uivou de dor. Correram. Com dificuldade, retiraram sua mão ensanguentada dentre os dentes da mãe. Ela guardava profundo silêncio. Repeliram-na com bastante brutalidade e notaram que sua cabeça caía pesadamente sobre o calçamento. Ergueram-na. Ela tornou a cair.
Estava morta.
O carrasco, que não soltara a jovem, tornou a subir a escada.
Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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