Leia agora
O Corcunda de Notre Dame

Universo da obra

O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 43 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO NONO — I. FEBRE

43 de 59 ≈ 20 min de leitura

LIVRO NONO

I. FEBRE

Claude Frollo já não estava em Notre-Dame quando seu filho adotivo cortou tão bruscamente o nó fatal em que o desgraçado arquidiácono havia prendido a egípcia e a si mesmo. Recolhido à sacristia, arrancara a alva, a capa e a estola, atirara tudo às mãos do bedel estupefato, escapara pela porta secreta do claustro, ordenara a um barqueiro do Terrain que o transportasse à margem esquerda do Sena e mergulhara nas ruas íngremes da Universidade, sem saber para onde ia, encontrando a cada passo grupos de homens e mulheres que se apressavam alegremente rumo à Pont Saint-Michel, na esperança de ainda chegar a tempo de ver enforcar a feiticeira; pálido, perdido, mais perturbado, mais cego e mais feroz que uma ave noturna solta e perseguida em pleno dia por um bando de crianças. Já não sabia onde estava, o que pensava, se sonhava. Ia, caminhava, corria, tomando ao acaso qualquer rua, sem escolher, apenas sempre impelido para adiante pela Grève, pela horrível Grève que sentia confusamente atrás de si.

Contornou assim a montanha Sainte-Geneviève e saiu enfim da cidade pela Porte Saint-Victor. Continuou a fugir enquanto, ao voltar-se, ainda pôde ver o recinto de torres da Universidade e as casas esparsas do subúrbio; mas, quando afinal uma dobra do terreno lhe ocultou por inteiro aquela odiosa Paris, quando pôde julgar-se a cem léguas dali, nos campos, num deserto, deteve-se, e pareceu-lhe que respirava.

Então ideias terríveis se comprimiram em seu espírito. Tornou a enxergar claramente dentro da alma e estremeceu. Pensou naquela infeliz que o perdera e a quem ele perdera. Passeou um olhar alucinado pela dupla via tortuosa que a fatalidade fizera seus dois destinos percorrerem, até o ponto de interseção em que os quebrara impiedosamente um contra o outro. Pensou na loucura dos votos eternos, na vaidade da castidade, da ciência, da religião, da virtude, na inutilidade de Deus. Mergulhou com deleite nos maus pensamentos e, à medida que neles se aprofundava, sentia irromper dentro de si um riso de Satanás.

E, escavando assim a própria alma, quando viu o vasto lugar que a natureza ali preparara para as paixões, riu com amargura ainda maior. Revolveu no fundo do coração todo o seu ódio, toda a sua maldade, e reconheceu, com o olhar frio de um médico que examina um enfermo, que aquele ódio, aquela maldade, não eram senão amor corrompido; que o amor, fonte de toda virtude no homem, convertia-se em coisas horríveis num coração de padre; e que um homem constituído como ele, ao fazer-se sacerdote, fazia-se demônio. Então riu de modo medonho e, de repente, tornou a empalidecer ao considerar o lado mais sinistro de sua paixão fatal, daquele amor corrosivo, venenoso, odioso, implacável, que só conduzira ao cadafalso para uma e ao inferno para o outro: ela condenada, ele danado.

Depois o riso lhe voltou, ao pensar que Phoebus estava vivo; que, afinal, o capitão vivia, alegre e satisfeito, usava gibões mais belos do que nunca e tinha uma nova amante a quem levava para ver enforcar a antiga. Seu riso sarcástico redobrou quando refletiu que, entre os seres vivos cuja morte desejara, a egípcia, a única criatura que não odiava, era a única que não lhe escapara.

Então seu pensamento passou do capitão ao povo, e tomou-o um ciúme de espécie inaudita. Pensou que o povo também, o povo inteiro, tivera diante dos olhos a mulher que ele amava, de camisa, quase nua. Torceu os braços ao pensar que aquela mulher, cuja forma apenas entrevista na sombra por ele só teria sido sua felicidade suprema, fora entregue em pleno dia, ao meio-dia, a toda uma multidão, vestida como para uma noite de volúpia. Chorou de raiva por todos aqueles mistérios de amor profanados, maculados, desnudados, para sempre desonrados. Chorou de raiva ao imaginar quantos olhares imundos haviam tirado proveito daquela camisa mal atada; e que aquela bela moça, aquele lírio virgem, aquela taça de pudor e delícias de que ele não teria ousado aproximar os lábios senão tremendo, acabava de ser transformada numa espécie de gamela pública, onde a mais vil populaça de Paris, ladrões, mendigos e lacaios, viera beber em comum um prazer insolente, impuro e depravado.

E, quando procurava fazer uma ideia da felicidade que poderia ter encontrado na terra se ela não fosse boêmia e ele não fosse padre, se Phoebus não existisse e se ela o amasse; quando imaginava que uma vida de serenidade e amor também lhe teria sido possível, que havia naquele mesmo instante, aqui e ali sobre a terra, casais felizes perdidos em longas conversas sob laranjeiras, à margem de regatos, diante de um sol poente, de uma noite estrelada; e que, se Deus assim o quisesse, ele e ela poderiam ter formado um desses casais abençoados, seu coração se desfazia em ternura e desespero.

Oh! ela! Era ela! Era essa ideia fixa que voltava sem cessar, que o torturava, mordia-lhe o cérebro e despedaçava-lhe as entranhas. Não lamentava, não se arrependia; tudo quanto fizera, estava pronto a fazer de novo; preferia vê-la nas mãos do carrasco a vê-la nos braços do capitão, mas sofria; sofria tanto que, por momentos, arrancava punhados de cabelo para ver se não embranqueciam.

Houve um instante, entre outros, em que lhe ocorreu que talvez fosse aquela a exata hora em que a odiosa corrente vista pela manhã apertava seu nó de ferro em torno daquele pescoço tão frágil e gracioso. Esse pensamento fez o suor brotar-lhe de todos os poros.

Houve outro instante em que, rindo diabolicamente de si mesmo, representou ao mesmo tempo a Esmeralda tal como a vira no primeiro dia, viva, despreocupada, alegre, adornada, dançante, alada, harmoniosa, e a Esmeralda do último dia, de camisa e com a corda ao pescoço, subindo lentamente, com os pés descalços, a escada angulosa do patíbulo; figurou-se esse duplo quadro com tal intensidade que soltou um grito terrível.

Enquanto aquele furacão de desespero revolvia, quebrava, arrancava, dobrava, desenraizava tudo em sua alma, ele olhou a natureza ao redor. A seus pés, algumas galinhas remexiam os arbustos a bicadas; escaravelhos esmaltados corriam ao sol; acima de sua cabeça, grupos de nuvens cinzentas e mosqueadas fugiam num céu azul; no horizonte, a flecha da abadia Saint-Victor perfurava a curva da colina com seu obelisco de ardósia; e o moleiro da butte Copeaux, assobiando, contemplava as asas laboriosas de seu moinho girarem. Toda aquela vida ativa, ordenada, tranquila, reproduzida ao redor dele sob mil formas, lhe fez mal. Recomeçou a fugir.

Correu assim pelos campos até a tarde. Essa fuga da natureza, da vida, de si mesmo, do homem, de Deus, de tudo, durou o dia inteiro. Às vezes lançava o rosto contra a terra e arrancava com as unhas o trigo novo. Às vezes parava numa rua deserta de aldeia, e seus pensamentos eram tão insuportáveis que tomava a cabeça entre as duas mãos e tentava arrancá-la dos ombros para quebrá-la contra o calçamento.

Por volta da hora em que o sol declinava, examinou-se de novo e achou-se quase louco. A tempestade que durava dentro dele desde o instante em que perdera a esperança e a vontade de salvar a egípcia não deixara em sua consciência uma única ideia sã, um único pensamento de pé. Sua razão jazia ali, quase inteiramente destruída. Já não tinha no espírito senão duas imagens distintas: a Esmeralda e a forca. Todo o resto era negro. Aquelas duas imagens, aproximadas, formavam um grupo medonho; e, quanto mais fixava nelas o que lhe restava de atenção e pensamento, mais as via crescerem, segundo uma progressão fantástica, uma em graça, encanto, beleza, luz, a outra em horror; de modo que, ao fim, a Esmeralda lhe aparecia como uma estrela, e a forca como um enorme braço descarnado.

Coisa notável: durante toda aquela tortura, não lhe veio seriamente a ideia de morrer. O miserável era assim feito. Apegava-se à vida. Talvez visse realmente o inferno atrás dela.

Entretanto, o dia continuava a cair. O ser vivo que ainda existia nele pensou confusamente em regressar. Julgava-se longe de Paris; mas, orientando-se, percebeu que não fizera mais que contornar o recinto da Universidade. A flecha de Saint-Sulpice e as três altas agulhas de Saint-Germain-des-Prés ultrapassavam o horizonte à sua direita. Dirigiu-se para aquele lado. Quando ouviu o grito de sentinela dos homens de armas do abade em torno da circunvalação ameada de Saint-Germain, desviou-se, tomou um caminho que se lhe ofereceu entre o moinho da abadia e o leprosário do burgo e, ao cabo de alguns instantes, encontrou-se à margem do Pré-aux-Clercs. Esse prado era célebre pelos tumultos que ali se faziam dia e noite; era a hidra dos pobres monges de Saint-Germain, quod monachis Sancti-Germani pratensis hydra fuit, clericis nova semper dissidiorum capita suscitantibus. O arquidiácono temeu encontrar alguém; tinha medo de todo rosto humano; acabava de evitar a Universidade e o burgo Saint-Germain; queria voltar às ruas o mais tarde possível. Contornou o Pré-aux-Clercs, tomou o caminho deserto que o separava do Dieu-Neuf e chegou enfim à beira da água. Ali, dom Claude encontrou um barqueiro que, por alguns deniers parisis, o fez subir o Sena até a ponta da Cité e o depositou naquela língua de terra abandonada onde o leitor já viu Gringoire sonhar, e que se estendia além dos jardins do rei, paralela à ilha do Passeur-aux-Vaches.

O balanço monótono do barco e o murmúrio da água haviam de algum modo entorpecido o desgraçado Claude. Quando o barqueiro se afastou, ele ficou estupidamente de pé na margem, olhando diante de si e já não percebendo os objetos senão através de oscilações crescentes que faziam de tudo uma espécie de fantasmagoria. Não é raro que a fadiga de uma grande dor produza esse efeito no espírito.

O sol se pusera atrás da alta Tour de Nesle. Era o instante do crepúsculo. O céu estava branco, a água do rio estava branca. Entre essas duas brancuras, a margem esquerda do Sena, sobre a qual mantinha os olhos fixos, projetava sua massa escura e, cada vez mais afilada pela perspectiva, mergulhava nas brumas do horizonte como uma flecha negra. Estava coberta de casas, das quais só se distinguia a silhueta obscura, vivamente destacada em trevas sobre o fundo claro do céu e da água. Aqui e ali, janelas começavam a cintilar como furos de brasa. Aquele imenso obelisco negro, assim isolado entre as duas toalhas brancas do céu e do rio, muito largo naquele ponto, produziu em dom Claude um efeito singular, comparável ao que sentiria um homem que, deitado de costas ao pé do campanário de Estrasburgo, olhasse a enorme agulha penetrar acima de sua cabeça nas penumbras do crepúsculo. Apenas aqui era Claude quem estava de pé e o obelisco quem estava deitado; mas, como o rio, refletindo o céu, prolongava o abismo abaixo dele, o imenso promontório parecia lançado no vazio com tanta ousadia quanto qualquer flecha de catedral; e a impressão era a mesma. Essa impressão tinha até algo de mais estranho e profundo, pois era realmente o campanário de Estrasburgo, mas o campanário de Estrasburgo com duas léguas de altura, alguma coisa inaudita, gigantesca, incomensurável, um edifício como nenhum olho humano jamais viu, uma torre de Babel. As chaminés das casas, as ameias das muralhas, os frontões recortados dos telhados, a flecha dos Augustins, a Tour de Nesle, todas essas saliências que mordiam o perfil do colossal obelisco acrescentavam à ilusão, compondo diante do olhar os recortes de uma escultura cerrada e fantástica. Claude, no estado de alucinação em que se encontrava, julgou ver, ver com os próprios olhos vivos, o campanário do inferno; as mil luzes espalhadas por toda a altura da torre medonha lhe pareceram outros tantos pórticos da imensa fornalha interior; as vozes e rumores que dela escapavam, outros tantos gritos, outros tantos estertores. Então teve medo, pôs as mãos sobre as orelhas para não ouvir mais, voltou as costas para não ver e afastou-se a grandes passos da visão terrível.

Mas a visão estava dentro dele.

Quando regressou às ruas, os passantes que se acotovelavam à luz das vitrines das lojas lhe davam a impressão de um eterno ir e vir de espectros ao redor. Havia estrondos estranhos em seus ouvidos. Fantasias extraordinárias lhe perturbavam o espírito. Não via casas, calçamento, carroças, homens nem mulheres, mas um caos de objetos indeterminados que se fundiam pelas bordas uns nos outros. Na esquina da rue de la Barillerie havia uma mercearia cujo toldo, conforme o costume imemorial, era guarnecido em toda a volta por aros de folha-de-flandres, dos quais pendia um círculo de velas de madeira que se entrechocavam ao vento, estalando como castanholas. Julgou ouvir, na sombra, o molho de esqueletos de Montfaucon chocar-se.

— Oh! — murmurou. — O vento da noite os impele uns contra os outros e mistura o ruído de suas correntes ao ruído de seus ossos! Talvez ela esteja ali, entre eles!

Aturdido, não soube para onde ia. Depois de alguns passos, achou-se na Pont Saint-Michel. Havia luz numa janela do térreo. Aproximou-se. Através de uma vidraça rachada, viu uma sala sórdida que despertou em seu espírito uma lembrança confusa. Nessa sala, mal iluminada por uma lâmpada mesquinha, havia um rapaz loiro e viçoso, de rosto alegre, que abraçava, entre grandes gargalhadas, uma moça enfeitada com muita insolência. E, perto da lâmpada, havia uma velha que fiava e cantava com voz trêmula. Como o rapaz não ria o tempo todo, a canção da velha chegava em fragmentos até o padre. Era algo ininteligível e horrível.

O rapaz ria e acariciava a moça. A velha era la Falourdel; a moça, uma prostituta; o rapaz, seu jovem irmão Jehan.

Continuou a olhar. Aquele espetáculo valia tanto quanto qualquer outro.

Viu Jehan ir até uma janela no fundo da sala, abri-la, lançar um olhar ao cais onde ao longe brilhavam mil janelas iluminadas e ouviu-o dizer, ao fechá-la:

— Por minha alma! Eis que anoitece. Os burgueses acendem suas velas e o bom Deus, suas estrelas.

Depois Jehan voltou para a rameira, quebrou uma garrafa que estava sobre a mesa e exclamou:

— Já vazia, corboeuf! E eu sem mais dinheiro! Isabeau, minha querida, só ficarei contente com Júpiter quando ele transformar teus dois seios brancos em duas garrafas negras, das quais mamarei vinho de Beaune dia e noite.

A bela pilhéria fez a moça rir de alegria, e Jehan saiu.

Dom Claude só teve tempo de se atirar ao chão para não ser olhado de frente e reconhecido pelo irmão. Felizmente, a rua estava escura e o estudante, bêbado. Ainda assim percebeu o arquidiácono deitado no calçamento, na lama.

— Oh! oh! — disse. — Eis alguém que levou vida alegre hoje.

Remexeu dom Claude com o pé, e este prendeu a respiração.

— Bêbado morto — continuou Jehan. — Vamos, está cheio. Uma verdadeira sanguessuga descolada de um tonel. É calvo — acrescentou, curvando-se. — É um velho! Fortunate senex!

Então dom Claude o ouviu afastar-se, dizendo:

— Não importa, a razão é uma coisa bela, e meu irmão, o arquidiácono, é muito feliz por ser sábio e ter dinheiro.

O arquidiácono se levantou e correu sem tomar fôlego para Notre-Dame, cujas torres enormes via surgir na sombra acima das casas.

No instante em que chegou, ofegante, à praça do Parvis, recuou e não ousou erguer os olhos para o edifício fatal.

— Oh! — disse em voz baixa. — É mesmo verdade que tal coisa aconteceu aqui hoje, esta mesma manhã?

Entretanto, arriscou olhar para a igreja. A fachada estava escura. O céu atrás dela cintilava de estrelas. O crescente da lua, recém-alçado do horizonte, detinha-se naquele momento no alto da torre da direita e parecia pousado, como uma ave luminosa, na borda da balaustrada recortada em trevos negros.

A porta do claustro estava fechada. Mas o arquidiácono trazia sempre consigo a chave da torre onde ficava seu laboratório. Serviu-se dela para entrar na igreja.

Encontrou na igreja uma escuridão e um silêncio de caverna. Pelas grandes sombras que caíam de todos os lados em largas faixas, reconheceu que as tapeçarias da cerimônia da manhã ainda não haviam sido retiradas. A grande cruz de prata cintilava no fundo das trevas, salpicada de alguns pontos luminosos, como a Via Láctea daquela noite de sepulcro. As longas janelas do coro mostravam, acima da tapeçaria negra, a extremidade superior de suas ogivas, cujos vitrais, atravessados por um raio de lua, já não tinham senão as cores duvidosas da noite, uma espécie de violeta, branco e azul cujo tom só se encontra no rosto dos mortos. O arquidiácono, ao perceber ao redor do coro aquelas pontas pálidas de ogivas, julgou ver mitras de bispos condenados. Fechou os olhos e, quando os reabriu, acreditou que era um círculo de rostos lívidos a fitá-lo.

Pôs-se a fugir através da igreja. Então lhe pareceu que a igreja também se abalava, movia-se, animava-se, vivia; que cada grossa coluna se transformava numa pata enorme que batia o chão com sua larga espátula de pedra; e que a gigantesca catedral já não era senão uma espécie de elefante prodigioso, que soprava e caminhava, tendo os pilares por pés, as duas torres por trombas e o imenso pano negro por caparazão.

Assim, a febre ou a loucura chegara a tal grau de intensidade que o mundo exterior já não era para o infeliz senão uma espécie de apocalipse visível, palpável, aterrador.

Por um instante, sentiu alívio. Ao penetrar sob as naves laterais, percebeu atrás de um maciço de pilares um clarão avermelhado. Correu para ele como para uma estrela. Era a pobre lâmpada que iluminava dia e noite o breviário público de Notre-Dame sob sua grade de ferro. Lançou-se avidamente sobre o livro santo, na esperança de encontrar ali algum consolo ou encorajamento. O livro estava aberto nesta passagem de Jó, sobre a qual seu olhar fixo percorreu:

“E um espírito passou diante de meu rosto, e ouvi um leve sopro, e os pelos de minha carne se eriçaram.”

Diante daquela leitura lúgubre, experimentou o que sente o cego que se vê ferido pelo bastão que apanhou. Os joelhos cederam sob ele e desabou sobre o pavimento, pensando naquela que morrera durante o dia. Sentia tantas fumaças monstruosas passarem e se despejarem em seu cérebro que lhe parecia que sua cabeça se transformara numa das chaminés do inferno.

Ao que parece, permaneceu muito tempo nessa atitude, sem mais pensar, aniquilado e passivo sob a mão do demônio. Enfim, alguma força lhe voltou; pensou em refugiar-se na torre junto de seu fiel Quasimodo. Levantou-se e, como tinha medo, tomou para iluminar-se a lâmpada do breviário. Era um sacrilégio; mas já não estava em condições de se deter por tão pouca coisa.

Subiu lentamente a escada das torres, cheio de um secreto pavor que a misteriosa luz de sua lâmpada devia comunicar até aos raros passantes do Parvis, subindo tão tarde de seteira em seteira até o alto do campanário.

De repente, sentiu frescor no rosto e encontrou-se sob a porta da galeria mais alta. O ar estava frio; o céu carregava nuvens cujas largas lâminas brancas transbordavam umas sobre as outras, esmagando-se pelos ângulos, e figuravam o degelo de um rio no inverno. O crescente da lua, encalhado no meio das nuvens, parecia um navio celeste preso naqueles blocos de gelo do ar.

Baixou os olhos e contemplou por um instante, entre a grade de colunetas que une as duas torres, ao longe, através de uma gaze de névoas e fumaças, a multidão silenciosa dos telhados de Paris, agudos, inumeráveis, comprimidos e pequenos como as ondas de um mar tranquilo numa noite de verão.

A lua lançava um raio fraco que dava ao céu e à terra uma tonalidade de cinza.

Nesse momento, o relógio elevou sua voz fina e rachada. Soou meia-noite.

O padre pensou no meio-dia. Eram as doze horas que voltavam.

— Oh! — disse baixinho. — Ela deve estar fria agora!

De repente, uma rajada apagou sua lâmpada e, quase ao mesmo tempo, ele viu surgir no ângulo oposto da torre uma sombra, uma brancura, uma forma, uma mulher. Estremeceu. Ao lado daquela mulher havia uma pequena cabra, que misturava seu balido ao último balido do relógio.

Teve forças para olhar. Era ela.

Estava pálida, sombria. Seus cabelos caíam sobre os ombros como pela manhã. Mas já não havia corda no pescoço nem mãos amarradas. Estava livre, estava morta.

Vestia-se de branco e tinha um véu branco sobre a cabeça.

Vinha em direção a ele lentamente, olhando o céu. A cabra sobrenatural a seguia. Ele se sentia de pedra e pesado demais para fugir. A cada passo que ela dava para a frente, ele dava um para trás, e isso era tudo. Reentrou assim sob a abóbada escura da escada. Gelava-o a ideia de que talvez ela também entrasse ali; se o fizesse, ele morreria de terror.

Ela chegou de fato diante da porta da escada, deteve-se alguns instantes, olhou fixamente para a sombra, mas sem parecer ver o padre, e passou. Pareceu-lhe maior do que quando vivia; ele viu a lua através do vestido branco; ouviu sua respiração.

Quando ela passou, ele começou a descer a escada com a mesma lentidão que vira no espectro, julgando-se também um espectro, alucinado, os cabelos em pé, a lâmpada apagada ainda na mão; e, enquanto descia os degraus em espiral, ouvia distintamente em seu ouvido uma voz que ria e repetia:

“... Um espírito passou diante de meu rosto, e ouvi um leve sopro, e os pelos de minha carne se eriçaram.”

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

O Corcunda de Notre Dame

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de O Corcunda de Notre Dame

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Corcunda de Notre Dame Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 43 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Corcunda de Notre Dame

Capa de O Corcunda de Notre Dame
Continue a leitura LIVRO NONO — I. FEBRE Capítulo 43 · 43 de 59 · ≈ 20 min
Todos os capítulos 59 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir