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O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 35 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO SÉTIMO — VII. O MONGE-PAPÃO

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LIVRO SÉTIMO

VII. O MONGE-PAPÃO

A ilustre taverna da Pomme d’Ève ficava na Universidade, na esquina da rue de la Rondelle com a rue du Bâtonnier. Era uma sala térrea, bastante vasta e muito baixa, com abóbada cuja queda central se apoiava num grosso pilar de madeira pintado de amarelo; mesas por toda parte, reluzentes canecas de estanho penduradas na parede, sempre muitos bebedores, moças em abundância, uma vidraça para a rua, uma videira à porta e, acima da porta, uma estridente placa de folha de ferro, pintada com uma maçã e uma mulher, enferrujada pela chuva e girando ao vento sobre uma haste. Essa espécie de cata-vento voltada para o calçamento era a tabuleta.

A noite caía. A encruzilhada estava escura. A taverna cheia de velas flamejava de longe como uma forja na sombra. Ouviam-se o ruído dos copos, das comilanças, dos juramentos e das brigas escapando pelos vidros quebrados. Através da névoa que o calor da sala espalhava sobre a vidraça, viam-se fervilhar cem rostos confusos e, de tempos em tempos, destacava-se deles uma gargalhada sonora. Os passantes que iam cuidar dos negócios costeavam sem olhar aquela janela tumultuosa. Apenas, por intervalos, algum menino em farrapos se erguia na ponta dos pés até o peitoril e lançava para dentro da taverna a velha vaia zombeteira com que então se perseguiam os bêbados:

— Aos Houls! Bêbados, bêbados, bêbados!

Um homem, entretanto, passeava imperturbavelmente diante da barulhenta taverna, olhando-a sem cessar e não se afastando mais do que um piqueiro de sua guarita. Trazia o manto até o nariz. Acabara de comprá-lo no ferro-velho vizinho à Pomme d’Ève, sem dúvida para se proteger do frio das noites de março, talvez para esconder o traje. De tempos em tempos, parava diante da vidraça turva de malhas de chumbo, escutava, olhava e batia o pé.

Por fim, a porta da taverna se abriu. Era o que ele parecia esperar. Dois bebedores saíram. O facho de luz que escapou pela porta purpureou por um momento seus rostos joviais. O homem do manto foi postar-se sob um pórtico do outro lado da rua.

— Chifre e trovão! — disse um dos bebedores. — Sete horas vão bater. É a hora de meu encontro.

— Eu lhe digo — retomava o companheiro, com língua espessa — que não moro na rue des Mauvaises-Paroles, indignus qui inter mala verba habitat. Tenho residência na rue Jean-Pain-Mollet, in vico Johannis-Pain-Mollet. É mais chifrudo que um unicórnio se diz o contrário. Todos sabem que quem monta uma vez num urso nunca mais tem medo, mas seu nariz se volta para a gulodice como Saint-Jacques de l’Hôpital.

— Jehan, meu amigo, está bêbado — dizia o outro.

O outro respondeu, cambaleando:

— Agrada-lhe dizer isso, Phœbus, mas está provado que Platão tinha o perfil de um cão de caça.

O leitor sem dúvida já reconheceu nossos dois valentes amigos, o capitão e o estudante. Parece que o homem que os espreitava na sombra também os reconhecera, pois seguia lentamente todos os zigue-zagues que o estudante fazia o capitão descrever. Este, bebedor mais experiente, conservara todo o sangue-frio. Escutando-os com atenção, o homem do manto pôde captar por inteiro a interessante conversa que se segue:

— Corbacque! Tente andar direito, senhor bacharel. Sabe que preciso deixá-lo. Já são sete horas. Tenho encontro com uma mulher.

— Deixe-me! Vejo estrelas e lanças de fogo. É como o castelo de Dampmartin, que se arrebenta de rir.

— Pelas verrugas de minha avó, Jehan, insiste demais em desarrazoar. A propósito, Jehan, não lhe resta mais dinheiro?

— Senhor reitor, não há erro, o pequeno açougue, parva boucheria.

— Jehan, meu amigo Jehan! Sabe que marquei encontro com a pequena no fim da Pont Saint-Michel, que só posso levá-la à casa de la Falourdel, a prostituta da ponte, e que será preciso pagar o quarto. A velha rameira de bigodes brancos não me dará crédito. Jehan! Por favor! Bebemos toda a bolsa do padre? Não lhe resta um parisis?

— A consciência de ter gasto bem as outras horas é justo e saboroso tempero de mesa.

— Ventre e tripas! Basta de disparates! Diga-me, Jehan do diabo, resta-lhe alguma moeda? Dê, pelo corpo de Deus, ou vou revistá-lo, ainda que seja leproso como Jó e sarnento como César!

— Senhor, a rue Galiache é uma rua que tem uma ponta na rue de la Verrerie e a outra na rue de la Tixeranderie.

— Pois sim, meu bom amigo Jehan, meu pobre camarada; a rue Galiache, muito bem, perfeitamente. Mas, pelo amor do céu, volte a si. Preciso apenas de um sol parisis, e já são sete horas.

— Silêncio em roda e atenção ao refrão!

— Pois então, estudante do Anticristo, que seja estrangulado com as tripas de sua mãe! — exclamou Phœbus.

E empurrou rudemente o estudante bêbado, que deslizou contra a parede e caiu suavemente sobre o calçamento de Philippe-Auguste. Por um resto daquela piedade fraterna que nunca abandona o coração de um bebedor, Phœbus rolou Jehan com o pé até um daqueles travesseiros do pobre que a providência mantém prontos junto a todos os marcos de Paris e que os ricos estigmatizam desdenhosamente com o nome de montes de lixo. O capitão acomodou a cabeça de Jehan num plano inclinado de talos de repolho, e no mesmo instante o estudante começou a roncar com magnífica voz de baixo. Contudo, nem todo o rancor se apagara no coração do capitão.

— Pior para você se a carroça do diabo o recolher ao passar! — disse ao pobre clérigo adormecido, e afastou-se.

O homem do manto, que não cessara de segui-lo, parou um instante diante do estudante caído, como se uma indecisão o agitasse; depois, soltando profundo suspiro, afastou-se também atrás do capitão.

Deixaremos, como eles, Jehan dormir sob o olhar benevolente da bela estrela e os seguiremos também, se agradar ao leitor.

Ao entrar na rue Saint-André-des-Arcs, o capitão Phœbus percebeu que alguém o seguia. Viu, ao voltar por acaso os olhos, uma espécie de sombra que rastejava atrás dele ao longo das paredes. Parou, ela parou. Tornou a andar, a sombra tornou a andar. Isso o inquietou muito pouco.

— Ora! — disse consigo. — Não tenho um sou.

Diante da fachada do collège d’Autun, fez alto. Nesse colégio esboçara aquilo a que chamava seus estudos e, por um hábito de estudante provocador que lhe ficara, nunca passava diante da fachada sem infligir à estátua do cardeal Pierre Bertrand, esculpida à direita do portal, a espécie de afronta de que Príapo se queixa tão amargamente na sátira de Horácio Olim truncus eram ficulnus. Pusera tanto zelo nisso que a inscrição Eduensis episcopus estava quase apagada. Parou, portanto, diante da estátua como de costume. A rua estava inteiramente deserta. No momento em que tornava a atar negligentemente os cordões, o nariz ao vento, viu a sombra aproximar-se a passos lentos, tão lentos que teve tempo de observar que aquela sombra tinha manto e chapéu. Ao chegar perto dele, ela parou e ficou mais imóvel que a estátua do cardeal Bertrand. Entretanto, fixava em Phœbus dois olhos cheios daquela luz vaga que sai à noite da pupila de um gato.

O capitão era valente e pouco se importaria com um ladrão, espada em punho. Mas aquela estátua que andava, aquele homem petrificado, gelaram-no. Circulavam então pelo mundo não sei que histórias do monge-papão, rondador noturno das ruas de Paris, e elas lhe voltaram confusamente à memória. Ficou alguns minutos atônito e por fim rompeu o silêncio, esforçando-se por rir.

— Senhor, se é um ladrão, como espero, parece-me uma garça atacando uma casca de noz. Sou filho de família arruinado, meu caro. Dirija-se ao lado. Há na capela deste colégio um pedaço da verdadeira cruz, guardado em prata.

A mão da sombra saiu de sob o manto e abateu-se sobre o braço de Phœbus com a gravidade de uma garra de águia. Ao mesmo tempo, a sombra falou:

— Capitão Phœbus de Châteaupers.

— Como diabo! — disse Phœbus. — Sabe meu nome!

— Não sei apenas seu nome — retomou o homem do manto com voz de sepulcro. — Tem um encontro esta noite.

— Sim — respondeu Phœbus, estupefato.

— Às sete horas.

— Dentro de um quarto de hora.

— Na casa de la Falourdel.

— Precisamente.

— A prostituta da Pont Saint-Michel.

— De são Miguel arcanjo, como diz o padre-nosso.

— Ímpio! — resmungou o espectro. — Com uma mulher?

— Confiteor.

— Que se chama...

— La Smeralda — disse Phœbus alegremente. Toda a despreocupação lhe voltara pouco a pouco.

A esse nome, a garra da sombra sacudiu com fúria o braço de Phœbus.

— Capitão Phœbus de Châteaupers, você mente!

Quem pudesse ver naquele momento o rosto inflamado do capitão, o salto para trás, tão violento que o libertou da tenaz que o prendia, o ar altivo com que lançou a mão ao punho da espada, e, diante daquela cólera, a sombria imobilidade do homem do manto, quem visse isso teria medo. Era algo do combate de don Juan com a estátua.

— Cristo e Satanás! — gritou o capitão. — Essa é palavra que raramente chega ao ouvido de um Châteaupers! Você não ousaria repeti-la.

— Você mente — disse friamente a sombra.

O capitão rangeu os dentes. Monge-papão, fantasma, superstições, tudo esquecera naquele momento. Via apenas um homem e uma afronta.

— Ah! Assim está bem! — balbuciou com voz sufocada de raiva.

Sacou a espada e, depois, gaguejando, pois a cólera faz tremer como o medo:

— Aqui! Agora! Vamos! Espadas! Espadas! Sangue sobre estas pedras!

Entretanto, o outro não se movia. Quando viu o adversário em guarda e pronto a se lançar:

— Capitão Phœbus — disse, e seu tom vibrou de amargura —, está esquecendo o encontro.

Os arrebatamentos de homens como Phœbus são sopas de leite cuja fervura uma gota de água fria abate. A simples palavra fez baixar a espada que cintilava na mão do capitão.

— Capitão — continuou o homem —, amanhã, depois de amanhã, dentro de um mês, dentro de dez anos, vai me encontrar pronto para cortar-lhe a garganta; mas vá primeiro ao encontro.

— De fato — disse Phœbus, como se procurasse capitular consigo mesmo —, são duas coisas encantadoras para encontrar num encontro, uma espada e uma moça; mas não vejo por que perderia uma pela outra, quando posso ter as duas.

Recolocou a espada na bainha.

— Vá ao encontro — retomou o desconhecido.

— Senhor — respondeu Phœbus, com algum embaraço —, muito obrigado por sua cortesia. Afinal, haverá sempre tempo amanhã para recortarmos a golpes e casas de botão o gibão do pai Adão. Agradeço-lhe permitir-me passar ainda um quarto de hora agradável. Esperava deitá-lo na sarjeta e chegar ainda a tempo da bela, tanto mais que é elegante fazer as mulheres esperarem um pouco em tais casos. Mas parece-me sujeito robusto, e é mais seguro adiar a partida para amanhã. Vou, portanto, ao encontro. É às sete, como sabe.

Aqui Phœbus coçou a orelha.

— Ah! Chifre de Deus! Eu esquecia! Não tenho um sou para pagar a taxa do quarto, e a velha matrona vai querer receber adiantado. Desconfia de mim.

— Aqui está com que pagar.

Phœbus sentiu a mão fria do desconhecido deslizar-lhe na sua uma grande moeda. Não pôde deixar de tomar o dinheiro e apertar aquela mão.

— Por Deus! — exclamou. — É um bom sujeito!

— Com uma condição — disse o homem. — Prove-me que eu estava errado e que dizia a verdade. Esconda-me em algum canto de onde eu possa ver se essa mulher é realmente aquela cujo nome pronunciou.

— Oh! — respondeu Phœbus. — Isso me é inteiramente indiferente. Tomaremos o quarto Sainte-Marthe. Poderá ver à vontade do canil ao lado.

— Venha, então — retomou a sombra.

— Ao seu serviço — disse o capitão. — Não sei se é messer Diabolus em pessoa. Mas sejamos bons amigos esta noite. Amanhã pagarei todas as dívidas, de bolsa e de espada.

Puseram-se de novo a caminhar depressa. Depois de alguns minutos, o ruído do rio anunciou-lhes que estavam sobre a Pont Saint-Michel, então carregada de casas.

— Primeiro vou introduzi-lo — disse Phœbus ao companheiro. — Depois irei buscar a bela, que deve esperar perto do Petit-Châtelet.

O companheiro não respondeu. Desde que caminhavam lado a lado, não dissera palavra. Phœbus parou diante de uma porta baixa e bateu rudemente. Uma luz apareceu nas frestas da porta.

— Quem está aí? — gritou uma voz desdentada.

— Corpo de Deus! Cabeça de Deus! Ventre de Deus! — respondeu o capitão.

A porta abriu-se imediatamente e mostrou aos recém-chegados uma velha e uma velha lâmpada que tremiam ambas. A velha estava dobrada em dois, vestida de farrapos, a cabeça trêmula, furada por olhinhos, coberta por um pano, enrugada por toda parte, nas mãos, no rosto, no pescoço; os lábios desapareciam sob as gengivas, e ao redor da boca havia pincéis de pelos brancos que lhe davam o ar simiesco de um gato. O interior do casebre não estava menos arruinado que ela. Eram paredes de gesso, vigas negras no teto, lareira desmantelada, teias de aranha em todos os cantos; no meio, um rebanho cambaleante de mesas e escabelos coxos, uma criança suja nas cinzas e, ao fundo, uma escada, ou melhor, uma escada de madeira que terminava numa abertura no teto. Ao entrar naquele covil, o misterioso companheiro de Phœbus ergueu o manto até os olhos. Entretanto, o capitão, praguejando como sarraceno, apressou-se a fazer o sol reluzir num escudo, como diz nosso admirável Régnier.

— O quarto Sainte-Marthe — disse.

A velha chamou-o de monsenhor e guardou o escudo numa gaveta. Era a moeda que o homem do manto negro dera a Phœbus. Enquanto ela lhe voltava as costas, o menino cabeludo e esfarrapado que brincava nas cinzas aproximou-se habilmente da gaveta, tirou o escudo e pôs no lugar uma folha seca que arrancara de um feixe.

A velha fez sinal aos dois fidalgos, como os chamava, para segui-la e subiu a escada diante deles. Ao chegar ao andar superior, pousou a lâmpada sobre uma arca e Phœbus, como frequentador da casa, abriu uma porta que dava para um cubículo escuro.

— Entre aí, meu caro — disse ao companheiro.

O homem do manto obedeceu sem uma palavra. A porta fechou-se atrás dele. Ouviu Phœbus trancá-la com ferrolho e, um instante depois, descer a escada com a velha. A luz desaparecera.

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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