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O Corcunda de Notre Dame

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O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 39 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO OITAVO — III. FIM DO ESCUDO TRANSFORMADO EM FOLHA SECA

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LIVRO OITAVO

III. FIM DO ESCUDO TRANSFORMADO EM FOLHA SECA

Quando voltou, pálida e mancando, à sala de audiência, um murmúrio geral de satisfação a acolheu. Da parte do público, era aquele sentimento de impaciência satisfeita que se experimenta no teatro ao terminar o último intervalo da comédia, quando a cortina se levanta e o fim vai começar. Da parte dos juízes, era a esperança de jantar em breve. A cabritinha também baliu de alegria. Quis correr para a dona, mas haviam-na amarrado ao banco.

A noite chegara de todo. As velas, cujo número não fora aumentado, lançavam tão pouca luz que não se viam as paredes da sala. As trevas envolviam todos os objetos numa espécie de bruma. Alguns rostos apáticos de juízes apenas se destacavam. Diante deles, na extremidade da longa sala, podiam ver um ponto de brancura vaga recortar-se no fundo escuro. Era a acusada.

Ela se arrastara até o lugar. Quando Charmolue se instalou magistralmente no seu, sentou-se, depois se levantou e disse, sem deixar transparecer demasiada vaidade pelo êxito:

— A acusada confessou tudo.

— Moça boêmia — retomou o presidente —, confessou todos os atos de magia, prostituição e assassinato contra Phœbus de Châteaupers?

Seu coração apertou-se. Ouviram-na soluçar na sombra.

— Tudo o que quiserem — respondeu fracamente —, mas matem-me depressa!

— Senhor procurador do rei no tribunal eclesiástico — disse o presidente —, a câmara está pronta para ouvir suas conclusões.

Mestre Charmolue exibiu um caderno assustador e pôs-se a ler, com grandes gestos e a acentuação exagerada da tribuna, uma oração em latim na qual todas as provas do processo se erguiam sobre perífrases ciceronianas, flanqueadas por citações de Plauto, seu cômico favorito. Lamentamos não poder oferecer a nossos leitores esse trecho notável. O orador o declamava com ação maravilhosa. Ainda não terminara o exórdio e já o suor lhe saía da fronte e os olhos da cabeça. De repente, no meio de um período, interrompeu-se, e seu olhar, ordinariamente bastante doce e até bastante tolo, tornou-se fulminante.

— Senhores! — exclamou, desta vez em francês, pois isso não estava no caderno. — Satanás está tão misturado neste caso que aqui está ele assistindo aos debates e fazendo macaquices com sua majestade. Vejam!

Falando assim, apontava a cabritinha, que, vendo Charmolue gesticular, julgara de fato oportuno fazer o mesmo e se sentara sobre as patas traseiras, reproduzindo o melhor que podia, com as patas dianteiras e a cabeça barbuda, a pantomima patética do procurador do rei no tribunal eclesiástico. Era, se o leitor se recorda, um de seus talentos mais gentis. O incidente, essa última prova, produziu grande efeito. Amarraram as patas da cabra, e o procurador do rei retomou o fio da eloquência.

Foi muito longo, mas a peroração era admirável. Eis a última frase; acrescente-se a voz rouca e o gesto ofegante de mestre Charmolue:

— Ideo, Domni, coram stryga demonstrata, crimine patente, intentione criminis existente, in nomine sanctæ ecclesiæ Nostræ-Dominæ Parisiensis, quæ est in saisina habendi omnimodam altam et bassam justitiam in illa hac intemerata Civitatis insula, tenore præsentium declaramus nos requirere, primo, aliquandam pecuniariam indemnitatem; secundo, amendationem honorabilem ante portalium maximum Nostræ-Dominæ, ecclesiæ cathedralis; tertio, sententiam in virtute cujus ista stryga cum sua capella, seu in trivio vulgariter dicto la Grève, seu in insula exeunte in fluvio Sequanæ, juxta pointam jardini regalis, executatæ sint!

Recolocou o gorro e sentou-se.

— Eheu! — suspirou Gringoire, consternado. — Bassa latinitas!

Outro homem de roupa negra levantou-se junto à acusada. Era o advogado dela. Os juízes, em jejum, começaram a murmurar.

— Advogado, seja breve — disse o presidente.

— Senhor presidente — respondeu o advogado —, já que a ré confessou o crime, só me resta uma palavra a dizer aos senhores. Eis um texto da lei sálica: “Se uma estrige comeu um homem e disso for convencida, pagará multa de oito mil dinheiros, que perfazem duzentos soldos de ouro.” Que a câmara se digne condenar minha cliente à multa.

— Texto revogado — disse o advogado extraordinário do rei.

— Nego — replicou o advogado.

— Aos votos! — disse um conselheiro. — O crime é manifesto e está tarde.

Votaram sem sair da sala. Os juízes opinaram com o gorro; tinham pressa. Viam-se suas cabeças cobertas descobrirem-se uma após outra na sombra diante da pergunta lúgubre que o presidente lhes dirigia em voz baixa. A pobre acusada parecia olhá-los, mas seus olhos turvos já não viam.

Depois, o escrivão começou a escrever; depois passou ao presidente um longo pergaminho.

Então a infeliz ouviu o povo mover-se, as lanças chocarem-se e uma voz glacial dizer:

— Moça boêmia, no dia que aprouver ao rei nosso senhor, à hora do meio-dia, será conduzida numa carroça, de camisa, pés nus, corda ao pescoço, diante do grande portal de Notre-Dame, e ali fará penitência pública com uma tocha de cera de duas libras na mão; de lá será levada à place de Grève, onde será enforcada e estrangulada na forca da cidade; e essa sua cabra igualmente; e pagará ao oficial três leões de ouro em reparação dos crimes por você cometidos e confessados, de feitiçaria, magia, luxúria e homicídio na pessoa do senhor Phœbus de Châteaupers. Deus tenha sua alma!

— Oh! É um sonho! — murmurou ela, e sentiu mãos rudes levarem-na.

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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