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Capítulo 17 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO QUARTO — II. CLAUDE FROLLO

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LIVRO QUARTO

II. CLAUDE FROLLO

Com efeito, Claude Frollo não era uma personagem vulgar.

Pertencia a uma dessas famílias médias que, na linguagem impertinente do século passado, eram chamadas indiferentemente de alta burguesia ou pequena nobreza. Essa família herdara dos irmãos Paclet o feudo de Tirechappe, dependente do bispo de Paris, cujas vinte e uma casas haviam sido, no século XIII, objeto de tantos pleitos perante o official. Como possuidor desse feudo, Claude Frollo era um dos cento e quarenta e um senhores que pretendiam direitos de censo em Paris e seus subúrbios; e durante muito tempo se pôde ver seu nome inscrito nessa qualidade, entre o hôtel de Tancarville, pertencente a maître François Le Rez, e o collège de Tours, no cartulário depositado em Saint-Martin-des-Champs.

Desde a infância Claude Frollo fora destinado pelos pais ao estado eclesiástico. Ensinaram-no a ler em latim. Foi educado para baixar os olhos e falar baixo. Ainda criança, o pai o enclausurou no collège de Torchi, na Université. Foi ali que cresceu, sobre o missal e o Lexicon.

Era, aliás, uma criança triste, grave, séria, que estudava com ardor e aprendia depressa. Não dava grandes gritos nos recreios, misturava-se pouco às bacanais da rue du Fouarre, não sabia o que era dare alapas et capillos laniare e não desempenhara papel algum naquele motim de 1453 que os analistas registram gravemente sob o título de “Sexta perturbação da Université”. Raramente lhe acontecia zombar dos pobres estudantes de Montagu por causa das cappettes de que tiravam o nome, ou dos bolsistas do collège de Dormans por sua tonsura raspada e seu sobretudo tripartido de pano cinzento, azul e violeta, azurini coloris et bruni, como diz a carta do cardinal des Quatre-Couronnes.

Em compensação, era assíduo às grandes e pequenas escolas da rue Saint-Jean-de-Beauvais. O primeiro estudante que o abbé de Saint-Pierre de Val, no momento de começar sua leitura de direito canônico, via sempre colado diante de sua cátedra a um pilar da escola Saint-Vendregesile era Claude Frollo, armado de seu tinteiro de chifre, mastigando a pena, rabiscando sobre o joelho gasto e, no inverno, soprando os dedos. O primeiro ouvinte que messire Miles d’Isliers, doutor em decretos, via chegar toda segunda-feira de manhã, ofegante, à abertura das portas da escola do Chef-Saint-Denis, era Claude Frollo. Assim, aos dezesseis anos, o jovem clérigo poderia ter enfrentado, em mística, um padre da Igreja; em teologia canônica, um padre dos concílios; em teologia escolástica, um doutor da Sorbonne.

Superada a teologia, precipitara-se nos decretos. Do Maître des Sentences, caíra nas Capitulares de Charlemagne. E, sucessivamente, devorara, em seu apetite de ciência, decretal após decretal: as de Théodore, bispo de Hispale; as de Bouchard, bispo de Worms; as de Yves, bispo de Chartres; depois o Decreto de Gratien, que sucedeu às Capitulares de Charlemagne; depois a coleção de Grégoire IX; depois a epístola Super specula de Honorius III. Tornou clara e familiar para si aquela vasta e tumultuosa fase do direito civil e do direito canônico em luta e gestação no caos da Idade Média, fase que o bispo Théodore abre em 618 e que o papa Grégoire IX encerra em 1227.

Digeridos os decretos, lançou-se à medicina e às artes liberais. Estudou a ciência das ervas, a ciência dos unguentos. Tornou-se perito em febres e contusões, feridas e apostemas. Jacques d’Espars o teria recebido como médico físico; Richard Hellain, como médico cirurgião. Percorreu igualmente todos os graus de licenciatura, mestrado e doutoramento das artes. Estudou as línguas, o latim, o grego, o hebraico, tríplice santuário então muito pouco frequentado. Era uma verdadeira febre de adquirir e entesourar ciência. Aos dezoito anos, passara pelas quatro faculdades. Parecia ao jovem que a vida tinha um único fim: saber.

Foi aproximadamente nessa época que o verão excessivo de 1466 fez irromper a grande peste que levou mais de quarenta mil criaturas no viscondado de Paris, entre elas, diz Jean de Troyes, “maître Arnoul, astrólogo do rei, que era homem muito bom, sábio e agradável”. Espalhou-se na Université o rumor de que a rue Tirechappe estava particularmente devastada pela doença. Ali residiam, no meio de seu feudo, os pais de Claude. O jovem estudante correu muito alarmado à casa paterna. Quando entrou, o pai e a mãe estavam mortos desde a véspera. Um irmão muito pequeno, ainda em faixas, vivia e gritava abandonado no berço. Era tudo o que restava a Claude de sua família. O jovem tomou a criança nos braços e saiu pensativo. Até então vivera apenas na ciência; começava a viver na vida.

Essa catástrofe foi uma crise na existência de Claude. Órfão, primogênito, chefe de família aos dezenove anos, sentiu-se rudemente chamado dos devaneios da escola às realidades deste mundo. Então, movido de piedade, tomou de paixão e devotamento por aquela criança, seu irmão; coisa estranha e doce, uma afeição humana para ele, que até então só amara livros.

Essa afeição desenvolveu-se a um ponto singular. Numa alma tão nova, foi como um primeiro amor. Separado desde a infância dos pais, que mal conhecera, enclausurado e como emparedado em seus livros, ávido acima de tudo por estudar e aprender, exclusivamente atento até então à inteligência que se dilatava na ciência, à imaginação que crescia nas letras, o pobre estudante ainda não tivera tempo de sentir o lugar do coração. Esse irmãozinho sem pai nem mãe, essa pequena criança que lhe caía bruscamente do céu nos braços, fez dele um homem novo. Percebeu que havia no mundo outra coisa além das especulações da Sorbonne e dos versos de Homerus; que o homem precisava de afeições; que a vida sem ternura e sem amor era apenas uma engrenagem seca, estridente e dilacerante. Apenas imaginou, pois estava na idade em que as ilusões só são substituídas por outras ilusões, que os afetos de sangue e de família eram os únicos necessários e que um irmãozinho para amar bastaria para preencher toda uma existência.

Lançou-se, pois, ao amor de seu pequeno Jehan com a paixão de um caráter já profundo, ardente, concentrado. Aquela pobre e frágil criatura, bonita, loura, rosada e encaracolada, aquele órfão sem outro apoio além de um órfão, comovia-o até o fundo das entranhas; e, grave pensador que era, pôs-se a refletir sobre Jehan com infinita misericórdia. Ocupou-se e cuidou dele como de coisa muito frágil e muito recomendada. Foi para a criança mais que um irmão: tornou-se-lhe mãe.

O pequeno Jehan perdera a mãe quando ainda mamava. Claude entregou-o a uma ama. Além do feudo de Tirechappe, herdara do pai o feudo do Moulin, dependente da torre quadrada de Gentilly. Era um moinho numa colina, perto do château de Winchestre, Bicêtre. Ali havia uma moleira que amamentava uma bela criança; não ficava longe da Université. Claude levou-lhe pessoalmente seu pequeno Jehan.

Desde então, sentindo um fardo a carregar, passou a levar a vida muito a sério. O pensamento do irmãozinho tornou-se não apenas a recreação, mas também a finalidade de seus estudos. Resolveu consagrar-se inteiro a um futuro pelo qual responderia diante de Deus e nunca ter outra esposa, outro filho, além da felicidade e da fortuna do irmão. Ligou-se, pois, mais que nunca à vocação clerical. Seu mérito, sua ciência, sua qualidade de vassalo imediato do bispo de Paris abriam-lhe de par em par as portas da Igreja. Aos vinte anos, por dispensa especial da Santa Sé, era sacerdote e servia, como o mais jovem dos capelães de Notre-Dame, o altar chamado, por causa da missa tardia ali celebrada, altare pigrorum.

Ali, mais que nunca mergulhado em seus queridos livros, que só abandonava para correr durante uma hora ao feudo do Moulin, aquela mistura de saber e austeridade, tão rara em sua idade, granjeara-lhe rapidamente o respeito e a admiração do claustro. Do claustro, sua reputação de sábio passara ao povo, onde se transformara um pouco, coisa frequente então, em fama de feiticeiro.

Foi quando voltava, no dia de Quasimodo, de dizer a missa dos preguiçosos em seu altar, que ficava ao lado da porta do coro voltada para a nave, à direita, perto da imagem da Virgem, que sua atenção foi despertada pelo grupo de velhas que guinchava em torno do leito dos enjeitados.

Foi então que se aproximou da infeliz criatura tão odiada e ameaçada. Aquela miséria, aquela deformidade, aquele abandono, o pensamento de seu irmãozinho, a quimera que de súbito lhe atravessou o espírito de que, se ele morresse, seu querido pequeno Jehan poderia também ser miseravelmente lançado sobre a prancha dos enjeitados, tudo isso veio-lhe ao coração de uma só vez, uma grande piedade agitou-se dentro dele, e levou a criança.

Quando tirou a criança do saco, achou-a de fato muito disforme. O pobre diabinho tinha uma verruga sobre o olho esquerdo, a cabeça enterrada nos ombros, a coluna vertebral arqueada, o esterno saliente, as pernas tortas; mas parecia vivaz e, embora fosse impossível saber que língua balbuciava, seu grito anunciava certa força e saúde. A compaixão de Claude aumentou com aquela feiura; e fez no coração o voto de criar a criança por amor ao irmão, para que, quaisquer que fossem no futuro as faltas do pequeno Jehan, ele tivesse a seu favor aquela caridade praticada em sua intenção. Era uma espécie de investimento de boas obras que efetuava sobre a cabeça do irmãozinho; uma pequena provisão de boas ações que queria acumular-lhe de antemão, para o caso de o rapazinho um dia ficar sem essa moeda, a única aceita no pedágio do paraíso.

Batizou o filho adotivo e deu-lhe o nome de Quasimodo, fosse para marcar o dia em que o encontrara, fosse para caracterizar por esse nome até que ponto a pobre criatura era incompleta e apenas esboçada. Com efeito, Quasimodo, caolho, corcunda, cambaio, era pouco mais que um quase.

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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