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O Corcunda de Notre Dame

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O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 51 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO DÉCIMO — III. VIVA A ALEGRIA!

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LIVRO DÉCIMO

III. VIVA A ALEGRIA!

O leitor talvez não tenha esquecido que uma parte da Cour des Miracles era fechada pela antiga muralha da cidade, muitas de cujas torres começavam já naquela época a cair em ruínas. Uma dessas torres fora transformada em lugar de diversão pelos truands. Havia uma taberna na sala baixa e o resto nos andares superiores. Essa torre era o ponto mais vivo e, por conseguinte, mais hediondo da truanderie. Era uma espécie de colmeia monstruosa que zumbia noite e dia. À noite, quando todo o restante da mendicância dormia, quando já não havia uma janela iluminada nas fachadas terrosas da praça, quando já não se ouvia sair um grito daquelas inúmeras moradias, daqueles formigueiros de ladrões, moças e crianças roubadas ou bastardas, reconhecia-se sempre a alegre torre pelo ruído que fazia, pela luz escarlate que, irradiando ao mesmo tempo dos respiradouros, das janelas e das fendas dos muros rachados, escapava, por assim dizer, de todos os seus poros.

A adega era, portanto, a taberna. Descia-se até ela por uma porta baixa e uma escada tão rígida quanto um alexandrino clássico. Sobre a porta havia, à guisa de tabuleta, uma maravilhosa borradela representando moedas novas e frangos mortos, com este trocadilho embaixo: Aux sonneurs pour les trépassés.

Certa noite, no momento em que o toque de recolher soava em todos os campanários de Paris, os sargentos da ronda, se lhes fosse permitido entrar na temível Cour des Miracles, teriam podido notar que na taverna dos truands havia ainda mais tumulto do que de costume, bebia-se mais e praguejava-se melhor. Do lado de fora, havia na praça muitos grupos conversando em voz baixa, como quando se trama um grande desígnio, e aqui e ali um sujeito acocorado afiava no calçamento uma lâmina ruim de ferro.

Entretanto, na própria taverna, o vinho e o jogo distraíam tão poderosamente das ideias que ocupavam naquela noite a truanderie que teria sido difícil adivinhar, pelas conversas dos bebedores, de que se tratava. Apenas pareciam mais alegres do que de costume, e via-se reluzir entre as pernas de cada um alguma arma, uma foice curta, um machado, um grande espadão ou o gancho de uma velha arcabuz.

A sala, de forma redonda, era muito vasta, mas as mesas estavam tão apertadas e os bebedores tão numerosos que tudo quanto a taberna continha, homens, mulheres, bancos, canecas de cerveja, o que bebia, o que dormia, o que jogava, os sãos e os estropiados, parecia empilhado ao acaso, com tanta ordem e harmonia quanto um monte de cascas de ostra. Havia algumas velas de sebo acesas nas mesas; mas a verdadeira iluminação da taverna, o que desempenhava no cabaré o papel do lustre numa sala de ópera, era o fogo. Aquela adega era tão úmida que jamais se deixava apagar a lareira, mesmo em pleno verão; uma lareira imensa, de manto esculpido, toda eriçada de pesados cães de ferro e utensílios de cozinha, com um daqueles grandes fogos misturados de lenha e turfa que, à noite, nas ruas de aldeia, fazem recortar-se tão vermelho sobre as paredes fronteiras o espectro das janelas de uma forja. Um grande cão, gravemente sentado na cinza, girava diante das brasas um espeto carregado de carnes.

Qualquer que fosse a confusão, depois do primeiro olhar podia-se distinguir naquela multidão três grupos principais, comprimidos em torno de três personagens que o leitor já conhece. Uma dessas personagens, bizarramente vestida de muitos ouropéis orientais, era Mathias Hungadi Spicali, duque do Egito e da Boêmia. O patife estava sentado sobre uma mesa, pernas cruzadas, dedo erguido, e distribuía em voz alta sua ciência de magia branca e negra a muitos rostos boquiabertos que o cercavam. Outro ajuntamento se adensava ao redor de nosso velho amigo, o valente rei de Thunes, armado até os dentes. Clopin Trouillefou, com ar muito sério e em voz baixa, regulava a pilhagem de uma enorme pipa cheia de armas, largamente arrombada diante dele, de onde se derramavam em profusão machados, espadas, capacetes, cotas de malha, placas, ferros de lança e azagaias, setas e virotes, como maçãs e uvas de uma cornucópia. Cada um tirava do monte o que lhe convinha, este um morrião, aquele um estoque, outro uma misericórdia de punho em cruz. Até as crianças se armavam, e havia mesmo aleijados sem pernas que, bardados e couraçados, passavam entre as pernas dos bebedores como grandes escaravelhos.

Enfim, um terceiro auditório, o mais ruidoso, jovial e numeroso, atravancava os bancos e mesas no meio dos quais perorava e praguejava uma voz aflautada, saída de sob uma pesada armadura completa, do elmo às esporas. O indivíduo que assim aparafusara sobre o corpo uma panóplia desaparecia tanto sob o traje de guerra que já não se via de sua pessoa senão um nariz insolente, vermelho e arrebitado, um cacho de cabelos loiros, uma boca rosada e olhos atrevidos. Tinha o cinto cheio de adagas e punhais, uma grande espada ao flanco, uma besta enferrujada à esquerda e um vasto jarro de vinho diante de si, sem contar, à direita, uma robusta moça descomposta. Todas as bocas ao redor dele riam, blasfemavam e bebiam.

Acrescentem-se vinte grupos secundários, moças e rapazes de serviço correndo com jarros sobre a cabeça, jogadores acocorados sobre as bolinhas, o jogo da amarelinha, os dados, os ossinhos, o apaixonante jogo do tringlet, brigas num canto, beijos no outro, e ter-se-á alguma ideia daquele conjunto, sobre o qual vacilava a claridade de um grande fogo flamejante que fazia dançar nas paredes do cabaré mil sombras desmedidas e grotescas.

Quanto ao ruído, era como o interior de um sino em pleno toque.

A pingadeira, onde crepitava uma chuva de gordura, preenchia com seu guincho contínuo os intervalos dos mil diálogos que se cruzavam de uma extremidade à outra da sala.

Havia, no meio daquele alarido, no fundo da taverna, sobre o banco interior da lareira, um filósofo que meditava, os pés na cinza e os olhos nas brasas. Era Pierre Gringoire.

— Vamos, depressa! Apressem-se, armem-se! Partimos dentro de uma hora! — dizia Clopin Trouillefou a seus argotiers.

Uma moça cantarolava.

Dois jogadores de cartas discutiam.

— Valete! — gritava o mais congestionado dos dois, mostrando o punho ao outro. — Vou marcá-lo a paus. Poderá substituir Mistigri no baralho de monseigneur, o rei.

— Ufa! — berrava um normando, reconhecível pelo sotaque nasal. — Estamos apertados aqui como os santos de Caillouville!

— Filhos — dizia a seu auditório o duque do Egito, falando em falsete —, as feiticeiras da França vão ao sabá sem vassoura, gordura nem montaria, apenas com algumas palavras mágicas. As feiticeiras da Itália têm sempre um bode à espera na porta. Todas são obrigadas a sair pela chaminé.

A voz do jovem patife armado dos pés à cabeça dominava o burburinho.

— Noel! Noel! — gritava. — Minhas primeiras armas hoje! Truand! Sou truand, ventre de Cristo! Sirvam-me de beber! Meus amigos, chamo-me Jehan Frollo du Moulin e sou gentil-homem. Sou da opinião de que, se Deus fosse homem de armas, se faria saqueador. Irmãos, vamos fazer uma bela expedição. Somos valentes. Assediar a igreja, arrombar as portas, tirar de lá a bela moça, salvá-la dos juízes, salvá-la dos padres, desmantelar o claustro, queimar o bispo no bispado, faremos isso em menos tempo do que um burgomestre leva para comer uma colherada de sopa. Nossa causa é justa, saquearemos Notre-Dame, e tudo estará dito. Enforcaremos Quasimodo. Conhecem Quasimodo, senhoritas? Já o viram perder o fôlego sobre o grande sino num dia de Pentecostes? Corno do Pai! É muito belo! Parece um diabo montado numa goela. Meus amigos, escutem-me, sou truand no fundo do coração, argotier na alma, nasci cagou. Fui muito rico e devorei meus bens. Minha mãe queria fazer de mim oficial; meu pai, subdiácono; minha tia, conselheiro das investigações; minha avó, protonotário do rei; minha tia-avó, tesoureiro da toga curta. Eu me fiz truand. Disse isso a meu pai, que me cuspiu a maldição no rosto, e a minha mãe, que começou, a velha senhora, a chorar e babar como aquele tronco sobre o cão de ferro. Viva a alegria! Sou um verdadeiro Bicêtre! Taberneira, minha querida, mais vinho! Ainda tenho com que pagar. Não quero mais vinho de Suresnes. Ele me entristece a garganta. Eu preferiria, corboeuf, gargarejar com um cesto!

Entretanto, a multidão aplaudia entre gargalhadas e, vendo o tumulto redobrar ao redor, o estudante exclamou:

— Oh! Que belo ruído! Populi debacchantis populosa debacchatio!

Então começou a cantar, os olhos como que afogados em êxtase, no tom de um cônego que entoa as vésperas:

— Quæ cantica! quæ organa! quæ cantilenæ! quæ melodiæ hic sine fine decantantur! sonant melliflua hymnorum organa, suavissima angelorum melodia, cantica canticorum mira!...

Interrompeu-se:

— Taberneira do diabo, dê-me de comer.

Houve um momento de quase silêncio, durante o qual se elevou por sua vez a voz aguda do duque do Egito, ensinando a seus boêmios:

— A doninha chama-se Aduine; a raposa, Pied-Bleu ou Coureur-des-Bois; o lobo, Pied-Gris ou Pied-Doré; o urso, o Velho ou o Avô. O gorro de um gnomo torna invisível e faz ver as coisas invisíveis. Todo sapo que se batiza deve vestir veludo vermelho ou negro, com um guizo no pescoço e outro nos pés. O padrinho segura a cabeça; a madrinha, o traseiro. É o demônio Sidragasum que tem o poder de fazer as moças dançarem nuas.

— Pela missa! — interrompeu Jehan. — Eu queria ser o demônio Sidragasum.

Entretanto, os truands continuavam a armar-se, cochichando na outra extremidade da taverna.

— A pobre Esmeralda! — dizia um boêmio. — É nossa irmã. É preciso tirá-la de lá.

— Ainda está em Notre-Dame? — perguntou um mascate com cara de judeu.

— Sim, por Deus!

— Pois bem, camaradas! — exclamou o mascate. — A Notre-Dame! Tanto melhor que há na capela dos santos Féréol e Ferrution duas estátuas, uma de saint Jean-Baptiste, outra de saint Antoine, ambas de ouro, pesando juntas dezessete marcos de ouro e quinze esterlins; e seus pedestais de prata dourada pesam dezessete marcos e cinco onças. Sei disso. Sou ourives.

Nesse momento serviram a ceia de Jehan. Ele exclamou, estendendo-se sobre o colo da moça vizinha:

— Por saint Voult-de-Lucques, a quem o povo chama saint Goguelu, sou perfeitamente feliz. Tenho diante de mim um imbecil que me olha com a cara glabra de um arquiduque. Eis um à minha esquerda que tem dentes tão longos que lhe escondem o queixo. E depois sou como o marechal de Gié no cerco de Pontoise: tenho a direita apoiada num montículo. Ventre-Mahom! Camarada, você parece um mercador de bolas e vem sentar-se junto de mim! Sou nobre, amigo. O comércio é incompatível com a nobreza. Vá embora. Olá! Vocês aí! Não briguem! Como, Baptiste Croque-Oison, você que tem um nariz tão belo, vai arriscá-lo contra os grandes punhos desse bruto? Imbecil! Non cuiquam datum est habere nasum. Você é verdadeiramente divina, Jacqueline Ronge-Oreille! É uma pena não ter cabelos. Olá! Chamo-me Jehan Frollo, e meu irmão é arquidiácono. Que o diabo o carregue! Tudo quanto lhes digo é verdade. Ao fazer-me truand, renunciei de coração alegre à metade de uma casa situada no paraíso, que meu irmão me prometera. Dimidiam domum in paradiso. Cito o texto. Tenho um feudo na rue Tirechappe, e todas as mulheres estão apaixonadas por mim, tão certo quanto saint Éloy foi excelente ourives, e os cinco ofícios da boa cidade de Paris são os curtidores, os peliqueiros, os correieiros, os fabricantes de bolsas e os sapateiros, e saint Laurent foi queimado com cascas de ovo. Juro-lhes, camaradas...

Dito isso, quebrou o prato no calçamento e começou a cantar a plenos pulmões.

Entretanto, Clopin Trouillefou terminara a distribuição das armas. Aproximou-se de Gringoire, que parecia mergulhado em profunda reflexão, com os pés sobre um cão de ferro.

— Amigo Pierre — disse o rei de Thunes —, em que diabo está pensando?

Gringoire voltou-se para ele com um sorriso melancólico.

— Amo o fogo, meu caro senhor. Não pela razão trivial de que aquece nossos pés ou cozinha nossa sopa, mas porque tem faíscas. Às vezes passo horas olhando as faíscas. Descubro mil coisas nessas estrelas que salpicam o fundo negro da lareira. Essas estrelas também são mundos.

— Que o trovão me parta se entendo você! — disse o truand. — Sabe que horas são?

— Não sei — respondeu Gringoire.

Clopin aproximou-se então do duque do Egito.

— Camarada Mathias, o quarto de hora não é bom. Dizem que o rei Louis XI está em Paris.

— Razão a mais para arrancar nossa irmã de suas garras — respondeu o velho boêmio.

— Fala como homem, Mathias — disse o rei de Thunes. — Aliás, agiremos depressa. Não há resistência a temer na igreja. Os cônegos são lebres, e nós estamos em força. Os homens do parlamento ficarão bem enganados amanhã quando vierem buscá-la! Tripas do papa! Não quero que enforquem a bela moça!

Clopin saiu da taberna.

Durante esse tempo, Jehan gritava com voz rouca:

— Bebo, como, estou bêbado, sou Júpiter! Ei, Pierre l’Assommeur, se continuar me olhando assim, vou tirar a poeira de seu nariz com piparotes.

De seu lado, Gringoire, arrancado das meditações, pusera-se a considerar a cena ardente e gritante que o rodeava, murmurando entre os dentes:

— Luxuriosa res vinum et tumultuosa ebrietas. Ai! Como tenho razão em não beber, e como saint Benoît diz excelentemente: Vinum apostatare facit etiam sapientes.

Nesse momento, Clopin voltou e gritou com voz de trovão:

— Meia-noite!

Àquela palavra, que produziu o efeito do toque de montar num regimento em descanso, todos os truands, homens, mulheres e crianças, precipitaram-se em massa para fora da taverna, com grande ruído de armas e ferragens.

A lua escondera-se.

A Cour des Miracles estava inteiramente escura. Não havia uma luz. Contudo, estava longe de deserta. Distinguiam-se ali muitos homens e mulheres falando em voz baixa. Ouvia-se o zumbido deles e viam-se reluzir toda espécie de armas nas trevas. Clopin subiu numa grande pedra.

— Em suas fileiras, Argot! — gritou. — Em suas fileiras, Egito! Em suas fileiras, Galileia!

Houve movimento na sombra. A imensa multidão pareceu formar uma coluna. Depois de alguns minutos, o rei de Thunes tornou a erguer a voz:

— Agora, silêncio para atravessar Paris! A senha é: Petite flambe en baguenaud! As tochas só serão acesas em Notre-Dame! Em marcha!

Dez minutos depois, os cavaleiros da ronda fugiam aterrorizados diante de uma longa procissão de homens negros e silenciosos que descia para a Pont-au-Change através das ruas tortuosas que cortam em todos os sentidos o maciço bairro das Halles.

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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