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O Corcunda de Notre Dame

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O Corcunda de Notre Dame

Capítulo 34 · O Corcunda de Notre Dame

LIVRO SÉTIMO — VI. EFEITO QUE PODEM PRODUZIR SETE JURAMENTOS AO AR LIVRE

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LIVRO SÉTIMO

VI. EFEITO QUE PODEM PRODUZIR SETE JURAMENTOS AO AR LIVRE

— Te Deum laudamus! — exclamou mestre Jehan, saindo do buraco. — Eis as duas corujas que partiram. Och! Och! Hax! Pax! Max! As pulgas! Os cães raivosos! O diabo! Já tive o bastante da conversa deles! Minha cabeça zumbe como campanário. Queijo mofado por cima de tudo! Vamos! Desçamos, tomemos a bolsa do grande irmão e convertamos todas essas moedas em garrafas!

Lançou um olhar de ternura e admiração para dentro da preciosa bolsa, recompôs o traje, esfregou os borzeguins, sacudiu as pobres mangas acolchoadas, todas cinzentas de cinza, assobiou uma ária, deu uma pirueta, examinou se não restava algo a levar na cela, pilhou aqui e ali no forno algum amuleto de vidro bom para dar como joia a Isabeau la Thierrye, enfim, abriu a porta, que o irmão deixara aberta por uma última indulgência, e que ele deixou aberta por uma última malícia, e desceu a escada circular saltitando como pássaro.

No meio das trevas da espiral, esbarrou em alguma coisa que se afastou resmungando; presumiu que era Quasimodo, e isso lhe pareceu tão engraçado que desceu o resto da escada segurando os flancos de tanto rir. Ao chegar à praça, ainda ria.

Bateu o pé quando se viu em terra.

— Oh! — disse. — Bom e honrado calçamento de Paris! Maldita escada capaz de tirar o fôlego dos anjos da escada de Jacó! Em que eu pensava para me enfiar naquele parafuso de pedra que fura o céu, tudo para comer queijo barbudo e ver os campanários de Paris por uma lucarna!

Deu alguns passos e percebeu as duas corujas, isto é, dom Claude e mestre Jacques Charmolue, em contemplação diante de uma escultura do portal. Aproximou-se na ponta dos pés e ouviu o arquidiácono dizer em voz baixa a Charmolue:

— Foi Guillaume de Paris quem mandou gravar um Jó nesta pedra cor de lápis-lazúli, dourada nas bordas. Jó figura a pedra filosofal, que deve ser também provada e martirizada para se tornar perfeita, como diz Raymond Lulle: Sub conservatione formæ specificæ salva anima.

— Isso me é absolutamente indiferente — disse Jehan. — Sou eu quem tem a bolsa.

Nesse momento, ouviu atrás dele uma voz forte e sonora articular uma formidável série de juramentos:

— Sangue de Deus! Ventre de Deus! Pelo corpo de Deus! Corpo de Deus! Umbigo de Belzebu! Nome de um papa! Chifre e trovão!

— Por minha alma! — exclamou Jehan. — Só pode ser meu amigo, o capitão Phœbus!

Esse nome de Phœbus chegou aos ouvidos do arquidiácono no momento em que explicava ao procurador do rei o dragão que esconde a cauda num banho de onde saem fumaça e uma cabeça de rei. Dom Claude estremeceu, interrompeu-se, para grande espanto de Charmolue, voltou-se e viu o irmão Jehan abordar um grande oficial à porta da residência Gondelaurier.

Era, de fato, o senhor capitão Phœbus de Châteaupers. Estava encostado no canto da casa da noiva e praguejava como pagão.

— Por minha fé, capitão Phœbus — disse Jehan, tomando-lhe a mão —, o senhor pragueja com admirável verve.

— Chifre e trovão! — respondeu o capitão.

— Chifre e trovão o senhor mesmo! — replicou o estudante. — Ora, gentil capitão, de onde lhe vem esse transbordamento de belas palavras?

— Perdão, bom camarada Jehan — exclamou Phœbus, sacudindo-lhe a mão. — Cavalo lançado não para de súbito. Eu praguejava a galope. Venho da casa daquelas afetadas, e, quando saio de lá, tenho sempre a garganta cheia de juramentos; é preciso cuspi-los ou eu sufocaria, ventre e trovão!

— Quer vir beber? — perguntou o estudante.

A proposta acalmou o capitão.

— Quero, mas não tenho dinheiro.

— Eu tenho!

— Ora! Mostre.

Jehan exibiu a bolsa diante dos olhos do capitão com majestade e simplicidade. Entretanto, o arquidiácono, que deixara ali o estupefato Charmolue, aproximara-se deles e parara a alguns passos, observando-os sem que percebessem, de tão absorvidos na contemplação da bolsa.

Phœbus exclamou:

— Uma bolsa no seu bolso, Jehan, é a lua num balde de água. Vê-se, mas não está ali. Há apenas a sombra. Por Deus! Aposto que são pedras!

Jehan respondeu friamente:

— Eis as pedras com que empedro meu bolso.

E, sem acrescentar palavra, esvaziou a bolsa sobre um marco próximo, com o ar de um romano salvando a pátria.

— Por Deus! — resmungou Phœbus. — Targes, grands-blancs, petits-blancs, malhas de dois por um tournois, dinheiros parisis, verdadeiros liards-à-l’aigle! É deslumbrante!

Jehan permanecia digno e impassível. Alguns liards tinham rolado na lama; o capitão, em seu entusiasmo, abaixou-se para apanhá-los. Jehan o deteve:

— Ora, capitão Phœbus de Châteaupers!

Phœbus contou a moeda e, voltando-se solenemente para Jehan:

— Sabe, Jehan, que há vinte e três soldos parisis! Quem assaltou esta noite na rue Coupe-Gueule?

Jehan lançou para trás a cabeça loura e cacheada e disse, semicerrando os olhos desdenhosos:

— A gente tem um irmão arquidiácono e imbecil.

— Chifre de Deus! — exclamou Phœbus. — Homem digno!

— Vamos beber — disse Jehan.

— Aonde iremos? — disse Phœbus. — À Pomme d’Ève?

— Não, capitão. Vamos à Vieille Science. Uma velha que serra uma asa. É um rébus. Gosto disso.

— Ao diabo os rébus, Jehan! O vinho é melhor na Pomme d’Ève. E, junto à porta, há uma videira ao sol que me alegra quando bebo.

— Pois bem! Que seja Eva e sua maçã — disse o estudante.

E, tomando o braço de Phœbus:

— A propósito, meu caro capitão, disse há pouco rue Coupe-Gueule. É falar muito mal. Hoje já não somos tão bárbaros. Dizemos rue Coupe-Gorge.

Os dois amigos puseram-se a caminho da Pomme d’Ève. É inútil dizer que primeiro recolheram o dinheiro e que o arquidiácono os seguia.

O arquidiácono os seguia, sombrio e desvairado. Seria aquele o Phœbus cujo nome maldito, desde a conversa com Gringoire, se misturava a todos os seus pensamentos? Não sabia, mas enfim era um Phœbus, e o nome mágico bastava para que o arquidiácono seguisse a passos de lobo os dois companheiros despreocupados, ouvindo-lhes as palavras e observando-lhes os menores gestos com ansiedade atenta. De resto, nada mais fácil do que ouvir tudo o que diziam, tão alto falavam, pouquíssimo constrangidos em fazer os passantes participarem das confidências. Falavam de duelos, moças, jarros, loucuras.

Ao dobrarem uma rua, o ruído de um pandeiro chegou-lhes de uma encruzilhada próxima. Dom Claude ouviu o oficial dizer ao estudante:

— Trovão! Apressemos o passo.

— Por quê, Phœbus?

— Tenho medo de que a boêmia me veja.

— Que boêmia?

— A pequena que tem uma cabra.

— La Smeralda?

— Justamente, Jehan. Sempre esqueço o diabo do nome dela. Depressa, ela me reconheceria. Não quero que essa moça me aborde na rua.

— O senhor a conhece, Phœbus?

Aqui o arquidiácono viu Phœbus rir, inclinar-se ao ouvido de Jehan e dizer-lhe algumas palavras em voz baixa. Depois, Phœbus caiu na risada e sacudiu a cabeça com ar triunfante.

— Em verdade? — disse Jehan.

— Por minha alma! — disse Phœbus.

— Esta noite?

— Esta noite.

— Tem certeza de que ela virá?

— Está louco, Jehan? Duvida-se dessas coisas?

— Capitão Phœbus, o senhor é um soldado feliz!

O arquidiácono ouviu toda a conversa. Seus dentes bateram. Um arrepio visível percorreu-lhe o corpo inteiro. Parou um instante, apoiou-se num marco como homem embriagado, depois retomou a pista dos dois alegres sujeitos.

Quando os alcançou, eles tinham mudado de conversa. Ouviu-os cantar a plenos pulmões um velho refrão.

O Corcunda de Notre Dame

Sinopse

Tradução brasileira de O Corcunda de Notre Dame, romance de Victor Hugo sobre Quasímodo, Esmeralda, a catedral, a multidão, o desejo, a justiça e o destino na Paris medieval. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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