Universo da obra
Universo da obra
Leitores! Se há verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de oferecer às vossas horas de desenfado.
Se sois como eu, em coisas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de cenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestígios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as coisas deste globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infalível sintoma de que o meu romance é o único verdadeiro.
Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras coisas. Não espreito a vida do meu próximo, nem ando pelos salões atrás de uma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas páginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.
Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitável senhora, que não vai ao teatro, nem aos cavalinhos, e que tem necessidades orgânicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de falar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguém, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organização, que é estar calado. É que não podemos falar ambos ao mesmo tempo.
E, depois, a sua conversação, escassa de arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturais, em tesouros impagaveis para o escritor publico, em estudos sociais adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram às locais do jornalismo, porque a imprensa, há poucos anos que denuncia os casamentos, os óbitos, e os suicídios.
Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou suscetível, o meu reconhecimento à dita pessoa, que promete elevar-me à importância de escritor verídico, num gênero em que todos os meus colegas mentem sempre.
No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-há a fecunda veia de romancista, de onde tenho havido uma barata imortalidade para mim, e para a minha colaboradora.
O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram dela; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escritores-fêmeas desta nossa terra tão escassa — ainda bem — de esse contra-senso.
A FILHA DO ARCEDIAGO
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